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quarta-feira, 4 de julho de 2018

Ilha do Medo


O primeiro homem com quem falamos sobre a ilha do Medo, no porto de Salvador, olhou-nos de alto a baixo e emudeceu. Era um camarada de gestos mecânicos e poucas palavras, mas sabia muita coisa das vizinhanças do mar.


– O senhor sabe onde fica a ilha do Medo?

– Sei.

– Fica longe?

– Sim.

– Quantas milhas, mais ou menos, da costa?

– Umas doze ou quinze – disse ele. E empacou novamente.

O outro era um rapaz de olhos vivos e ariscos, blusão de zuarte desbotado aberto no peito e músculos saltados. Falou-nos de distâncias marinhas, peixes, alimentação e embarcações. Mas quando perguntamos se conhecia a ilha do Medo, desfez o sorriso que tinha amontoado num canto da boca e respondeu com secura: “Conheço”.

– Como é que poderíamos ir até lá?

– O senhor pretende ir à ilha do Medo?

– Sim.

– Fazer o que?

– Nada.

Notamos novamente o mesmo olhar do outro homem, nos olhos do rapaz de zuarte. As palavras começaram a diminuir, foram encurtando até virar monossílabos, que saíam angustiados de sua boca.

– Que diabo, rapaz, o que há com a ilha do Medo? Queremos ir até lá por curiosidade, ver o mato, os bichos, as ruínas dos holandeses. Outros querem ver as igrejas, os fortes ou o candomblé. Nós queremos ver a ilha do Medo.

– Mas nunca vai ninguém lá, – disse ele – a ilha está deserta. Só existem bichos selvagens no mato, depois…

– Depois o que?

– Contam coisas de arrepiar os cabelos.

– Que coisas, por exemplo?

O rapaz nos olhou mais uma vez, desconfiado, e disse, retirando-se:

– Se o senhor quiser ir, pode ir, mas eu não levo ninguém lá. Aquela ilha é mal assombrada, está cheia de fantasmas.

Bruxas de goelas de fogo

Miguel estava sentado no casco de um saveiro, emborcado na praia. Ao chegar, cumprimentamos, mas ele apenas levantou um pouco dos olhos a aba do chapéu e nos encarou demoradamente. Só respondeu ao cumprimento depois de familiarizar-se com a nossa presença. Soltou um “boa tarde” atrasado, olhou novamente para um ponto qualquer e começou a falar com desembaraço:

– Gilberto me disse que os senhores querem ir à ilha do Medo.

– Estamos aqui para isso. – Falamos com o moço no porto. – Ele nos informou que o senhor tem um saveiro grande.

– É o Leviatã. Está ali no meio daqueles barcos.

– Será possível sairmos amanhã?

– Sim, mas se não quiserem voltar tarde da noite, terão de se mexer muito cedo, ainda de madrugadinha.

– Bem, nós pretendemos passar o dia na ilha.

O homem fez a volta do saveiro e mexeu no leme, depois pegou uma lata de tinta que havia sobre a areia e encaminhou-se para nós de olhar muito vago e sem interesse.

– Bem moço, não que aquela ilha seja um inferno, mas contam coisas dela. Dizem que é mal assombrada. Os pescadores que se atrasam no mar ouvem gritos que partem de lá, e às vezes chamados pelo seu nome. Esses gritos são roucos e estranhos, como um choro. Vêm da ilha com o vento reboando pelo mar, depois somem e tornam a voltar mais fortes. Quando o mar está calmo, ouvem-se lamentos e uivos. E no meio disso tudo, o chamado, o chamado insistente, entrando pelos ouvidos deles, quando o saveiro está quase parado por falta de vento.

– Não vive ninguém na ilha?

– Ninguém. Faz muito tempo que ela está deserta. Desde o tempo dos holandeses, que tinham lá uma fábrica de pólvora.

E Miguel continua a sua narração estropiadamente, na sua linguagem meio do mar, meio da terra:

– Já viram coisas danadas na ilha do Medo. Uma vez, um pescador voltou dizendo que tinha visto uma mulher de cara negra e feia como a morte, que caminhou da ilha até o seu saveiro, sobre as águas. Tinha a boca imensa e as goelas incendiadas de labaredas vermelhas. Quando cegou ao lado do saveiro, ele sentiu um cheiro de enxofre e pano queimado.

– Mas a mulher fez alguma coisa ao pescador?

E Miguel respondeu:

– Não, mas depois que ele contou a história perdeu a fala para sempre.

– A alma danada dos holandeses que morreram na guerra habita a ilha do Medo, desde aqueles tempos. Se o senhor quiser ir, vá, mas eu não me responsabilizo pelo que houver. Os danados dos holandeses nunca abandonaram aquele lugar. Vivem até hoje na ilha, assustando os homens que se atrasam no mar. Também vão para lá os pescadores que morrem afogados na baía de Todos os Santos. É por isso que quando o mar está calmo, se houvem lamentos e uivos, vindos daquele lado.


Fonte: Jangada Brasil in "Sem indicação de autoria. “Na ilha do Medo há coisas de arrepiar os cabelos”. Folha de Minas. 29 de julho de 1951".

domingo, 25 de março de 2018

Trapos Para Uma Preta Velha

Quadrinhos do Terror apresenta: "Trapos Para Uma Preta Velha" (Conto de Dina Ananha Pastor). Revista Calafrio nº 02, janeiro/1982. Desenhos: Rodolfo Zalla. Estúdio D - Arte Criações Ltda, São Paulo.





A Burrinha da Lampadosa

Quadrinhos do Terror apresenta: "A Burrinha da Lampadosa". Revista Calafrio nº 02, janeiro/1982. História: Rubens Matos; Desenhos: Edno e Edmundo Rodrigues. Estúdio D - Arte Criações Ltda, São Paulo.

"Calafrio" foi uma revista de histórias em quadrinhos de terror que circulou de 1981 até o início dos anos 1990. Pertencia à editora D-Arte (fundada em 1981, em São Paulo) de Rodolfo Zalla. Era uma produção só com artistas nacionais.






sábado, 9 de dezembro de 2017

O Lampião do Tropeiro

Quadrinhos do Terror apresenta: "O Lampião do Tropeiro". Revista Calafrio nº 08, julho/1982. História: Maria A. Godoy ; Desenhos: R. Matias. Estúdio D - Arte Criações Ltda, São Paulo.

"Calafrio" foi uma revista de histórias em quadrinhos de terror que circulou de 1981 até o início dos anos 1990. Pertencia à editora D-Arte (fundada em 1981, em São Paulo) de Rodolfo Zalla. Era uma produção só com artistas nacionais.






Ceia Fúnebre!

Quadrinhos do Terror apresenta: "Ceia Fúnebre!". Revista Mestres do Terror nº 09, 1982. Argumento: Maria A. Godoy; Desenhos: sem créditos. Estúdio D - Arte Criações Ltda, São Paulo: "Foi na Revolução de 1932, seu moço. Eu e os companheiros saímos de piquete para reforçar as tropas do tenente Malaquias, lá pras bandas da Serra da Mantiqueira ..."

"Mestres do Terror" foi uma revista em quadrinhos do gênero terror brasileira. Circulou comercialmente entre 1981 a 1993. Era publicada pela Editora D-Arte do editor Rodolfo Zalla. Foi cancelada em 1993 junto com Calafrio pela D-Arte. Sendo considerada até hoje uma das publicações mais duradouras do gênero terror no Brasil.




A Figueira Assombrada

Quadrinhos do Terror apresenta: "A Figueira Assombrada". Revista Calafrio nº 10, setembro/1982. Texto: Gedeone; Desenhos: Seabra. Estúdio D - Arte Criações Ltda, São Paulo .

"Calafrio" foi uma revista de histórias em quadrinhos de terror que circulou de 1981 até o início dos anos 1990. Pertencia à editora D-Arte (fundada em 1981, em São Paulo) de Rodolfo Zalla. Era uma produção só com artistas nacionais.



Rebanho de Fogo!

Quadrinhos do Terror apresenta: "Rebanho de Fogo!". Revista Mestres do Terror nº 11, 1982. Texto: Maria Godoy; Desenhos: Salatiel. Estúdio D - Arte Criações Ltda, São Paulo. A ótima história em quadrinhos, ambientada no Rio Grande, lembra a balada "Riders In The Sky", composta por Stan Jones em 05 de junho de 1948, abaixo traduzida:

"Vaqueiro do Arizona desordeiro e beberrão / Seguia em seu cavalo pela noite do sertão / No céu porém a noite ficou rubra num clarão / E viu passar um fogaréu, um rebanho no céu.

Ypieaeee ypiaooohhh
Correndo pelo céu

As rubras ferraduras punham brasas pelo ar / Os touros como fogo galopavam sem cessar / Atrás vinham vaqueiros como loucos a gritar / Vermelhos a queimar também, galopando para o além.

Ypieaeee ypiaooohhh
Seguindo para o além

Um dos vaqueiros ao passar gritou dizendo assim: / Cuidado companheiros tu viras para onde eu vim / Se não mudas de vida tu terás o mesmo fim / Querer pegar num fogaréu, um rebanho no céu.

Ypieaeee ypiaooohhh
Correndo pelo céu ...
"

"Mestres do Terror" foi uma revista em quadrinhos do gênero terror brasileira. Circulou comercialmente entre 1981 a 1993. Era publicada pela Editora D-Arte do editor Rodolfo Zalla. Foi cancelada em 1993 junto com Calafrio pela D-Arte. Sendo considerada até hoje uma das publicações mais duradouras do gênero terror no Brasil.




Os Dentes do Defunto

Quadrinhos do Terror apresenta: "Os Dentes do Defunto". Revista Mestres do Terror nº 12, 1983. Texto: Maria Godoy. Desenhos: Salatiel. Estúdio D - Arte Criações Ltda, São Paulo.

"Mestres do Terror" foi uma revista em quadrinhos do gênero terror brasileira. Circulou comercialmente entre 1981 a 1993. Era publicada pela Editora D-Arte do editor Rodolfo Zalla. Foi cancelada em 1993 junto com Calafrio pela D-Arte. Sendo considerada até hoje uma das publicações mais duradouras do gênero terror no Brasil.



quarta-feira, 23 de março de 2016

João da Meia-Noite


Um caboclo chamado João, cachaceiro como ele só, vivia caído de bêbado. Certo dia, o caboclo bebeu além da conta e "bateu as botas". O diabo, então, veio levar sua alma. João que não era nada bobo implora, ao diabo, por mais um copo de bebida que lhe é concedido.

Acontece que o caboclo estava sem dinheiro para o último trago e pede ao diabo que se transforme em uma moeda. O capeta concorda. João mal vê a moeda sobre o balcão do bar, guarda-a no porta-moeda da carteira que tem um fecho em forma de cruz.

Desesperado, a "coisa ruim" implora para sair e o caboclo propõe um trato: libertá-lo em troca de ficar na Terra por mais um ano inteiro. O trato foi aceito de imediato. Depois desse encontro o caboclo deixa a bebida e passa a ter uma vida mais comedida.

Passado exatamente um ano, João está indo para casa quando o diabo aparece. O caboclo, esperto como sempre, diz ao diabo:

— Tenho um último pedido a fazer. Antes de morrer, gostaria de rezar o Pai-Nosso. Mas, me prometa que só vai me levar depois que eu terminar a oração.

O demo concordou, e o caboclo começou a rezar:

— Pai-Nosso que... – parou e sorriu.

— Vamos lá! – inquiriu o diabo – Termine logo com isso que tenho mais o que fazer.

— Coisa nenhuma! Exclamou João – Você jurou que me levaria somente quando eu terminasse de rezar. Pois então, pretendo levar anos para terminar minha reza...

Ao perceber que fora enganado, o demo resolveu ir embora.

Um ano mais tarde, João morre. Tenta entrar no céu, mas sua entrada é negada. Sem alternativa, vai para o inferno. O diabo, ainda desconfiado e se sentindo humilhado, também não permite sua entrada. Entretanto, com pena da alma perdida, joga-lhe um lampião (ou uma vela) para que o caboclo possa iluminar seu caminho pelo limbo.

Quem estiver andando pelas ruas das cidades nas noites de sexta-feira após a meia-noite, com certeza, dará "de cara" com alguém carregando uma luzinha fraca. É João, procurando um lugar para ficar.


Fonte: Conto bem popular na Internet. Lenda urbana?

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Uma Noite no Mato Seco

As sombras da noite já enegreciam a terra. O céu, também tinha a ameaçar-lhe a beleza, um amontoado de nuvens medonhas pactuando com a noite na sua tarefa sombria. Aquela viagem era de necessidade inadiável. Dela dependia grande soma dos meus interesses. 

Resolvi, mesmo afrontando o mau tempo que se anunciava, empreender aquela caminhada.

Chamei meu ajudante e ordenei-lhe encilhasse os animais. Lucindo, mulato avantajado, atleta espontâneo, desses que os trabalhos brutos costumam nos apresentar, conhecedor, como ninguém, daquelas paragens, por onde nem Deus passou e de que fogem os homens, olhou-me assustado, não acreditando no que ouvira.

Sua atitude — de quem hesita em cumprir uma ordem, ele que nunca esperou que ordem alguma se lhe repetisse, não deixou de sobressaltar-me. Repeti-lhe a ordem: — que encilhasse os animais, e se preparasse para a viagem. Lucindo meneou a cabeça, e se foi, num andar lento, como de quem caminha para um grande perigo.

Pus em ordem meus papéis, e saí para o terreiro. Já àquela hora o Lucindo avisava-me de que tudo aprestara para a viagem. O mulato, meditabundo, olhos baixos, quieto, era o tipo diverso daquele caboclo de olhar franco, sempre satisfeito, falador, à espera de que se lhe apresentasse ocasião para pôr em prova sua grande lealdade, atributo que o valorizava aos meus olhos.

Aquela atitude do meu velho companheiro de viagens pelos sertões de Minas, pôs-me pulga à orelha.

— Que é que põe você assim tão macambuzio, Lucindo?

O caboclo esperava pela pergunta.

— Patrão, vancê intão, tá mesmo arresolvido a botá chão, a estas hora, cum tempo ansim, daqui por Corgo dos Mulato? Vancê isquece que temo qui atravessá o Mato Seco?

E ao pronunciar este nome o Lucindo teve o corpo sacudido por arrepios.

Mato Seco? Ah! Já ouvira, em pequeno, as histórias ali acontecidas, histórias tremendas que o tornaram lugar temido dos homens.

— Fora ali, que diziam haver sido assassinado, sem que se soubesse por que nem por quem, o Claudino, dono do sítio de cima, Aquela cruz de madeira, com uns restos de enfeites de papel e um toco de vela apagada, faz recordar um drama pungentíssimo, e do qual toda gente falava com tremuras na voz:

Realizava-se numa noite fria de Junho, o casamento do Valencio, a voz mais afinada daquelas redondezas, com Ritinha, cabocla boa alma de santa, à porta de quem a Fome era tocada a galope e a Sede mitigada. Naquela noite, a fazenda era um enxame de abelhas barulhentas. Era um barulho festivo, como nunca houvera naqueles sítios.

Às tantas da noite, já o povaréu se impacientava com a ausência do noivo. A Rita dissera que ele viria ao anoitecer, e, até àquela hora, já tarde, nada do Valencio dar a cara. Resolveram, os caboclos mais dispostos, buscar o noivo. Não demorou muito, ouvem-se os tropéis dos cavalos que chegam. São recebidos ao som da indefectível sanfona e aos gritos dos alegres festeiros. O noivo também chega. Vem nos braços dos caboclos. Vem morto, com cinco facadas no peito. Encontraram-no assim, naquele mesmo lugar onde está plantada aquela cruz com resto de enfeites e um toco de vela. A Ritinha, noiva de Valencio, ficara louca, e vagava bestamente de sítio em sítio, numa miséria que dava dó.

Por esses e outros fatos idênticos, diziam até que almas penadas, noite a dentro, assombravam os caminheiros que ousavam atravessar o Mato Seco, em horas da noite.

Nunca acreditei nessas histórias, muito menos em alma do outro mundo, razão porque as histórias tenebrosas do Mato Seco não conseguiram fixar-se fortemente em minha memória. Agora, era o Lucindo, o caboclo mais valente que já vira na minha vida, que trêmulo, mas trazia lembrança, sem contudo, despertar-me grande atenção. Se, em criança, pouco medo me faziam, agora nenhuma importância eu lhes daria.

— Vancê vai fazê bestera, patrão. Brincá co as arma do otro mundo num dá certo... Mecê se lembra do João Guilherme? Pois ele, uma noite...

— Toca a andar, Lucindo, que já estou farto dessas mentiradas. Com a sua idade acreditar em fantasmas? Isso é feio...

Obediente ao extremo, lá se foi o Lucindo, não sem resmungar baixinho.

A noite tornava-se pior, de instante a instante. Se, de fato, fantasmas perambulam cá por baixo, não há noite mais propícia que esta. Lucindo caminhava na frente. Para experimentar o seu grau de superstição, toda vez que precisávamos transpor uma porteira eu lhe gritava, em voz grossa: “abre a porteira, satanás!” O mulato estremecia dos pés à cabeça de tanto pavor, e, quase a chorar, me pedia, por favor, que deixasse daquela brincadeira...

Assim caminhamos até que entramos no Mato. Ao contemplar, em noite tão feia, aquele montão de mato a gemer, fustigado pelo vento, o coração me bateu mais apressado dentro do peito. Uma coisa, dentro de mim, que já não era mais vontade de pilheriar, me fez cismarento. Mas, para não dar a perceber ao Lucindo esse sinal de fraqueza, ao chegarmos à porteira que diz adeus ao Mato Seco, tornei a gritar, desta vez em voz insegura:

— “Abre a porteira, satanás!”

Sem que ninguém tocasse, a porteira, devagarinho, rangeu, numa vozinha fina como se alguma alma sofredora estivesse gemendo. Nossos cavalos, como se tivessem sido castigados cem chicotes de aço, empinaram-se, relinchando. O de Lucindo desapareceu estrada a fora, num galope doido.

O meu pacífico animal, como se o montasse o próprio demônio, disparou pelo mato a dentro. Senti uma pancada horrível na nuca. Perdi as forças. Desmaiei.

***

Era já de manhãzinha, quando Lucindo, de roupas rasgadas e sujas de pó, ainda com os sinais do susto impressos na fisionomia, veio levantar-me do brejo, onde passei a noite, no mais impossível dos sonos.

Ao chegarmos ao Córrego dos Mulatos, a pé e no mais deplorável estado, olheiras profundas, rasgados e sujos, muita gente julgou ver dois fantasmas saídos, naquela madrugada, das entranhas infernais do “Mato Seco”.


Conto de José Fernandes Filho 
Fonte: Revista "O Malho", de 24/10/1935.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O Velho da Estrada

Era sábado, dia de mercado, e os caboclos vinham da Pedreira para a venda semanal. Bento montara com os balaios de verduras que as últimas chuvas haviam tornado viçosas. Não tinha pressa. O sol nascera há pouco; o mercado só abria às sete. O jumento feio e magro, trotava pela picada a fora numa cadência monótona que embalava os pensamentos do Bento. Se o fiscal não aparecesse, tudo estaria bem. O lucro seria grande, porque tinha fregueses certos, que não regateavam. Poderia comprar alguma coisa para os meninos e para a mulher, dia após dia, no ribeirão, consumindo-se na lavagem de roupa. Poderia fazer tanta coisa! ...

A neblina ia desaparecendo lentamente, embora não se avistasse ainda a encosta do morro. O jumento prosseguia preguiçoso: tóc, tóc ...

Passaram pelo açude ladeado de amoreiras silvestres.

— Bom dia, dono.

Bento fez parar o animal. Um velho maltrapilho e sórdido descansava sob as árvores.

— Bom dia. Qué garupa?

O mendigo agradeceu.

— Já não posso cavalgá, seu moço. Apenas um favorzinho...

E deu-lhe dinheiro para que comprasse no mercado alguns metros de fazenda (bem resistente), agulha e linha. Bento estranhou a encomenda, e surpreendeu-se ainda mais diante da nota de cem mil réis, novinha, que o ancião lhe confiou. Mas prometeu fazer a compra. Com três lambadas no jumento, partiu, e agora em passo ligeiro, pois o sol já se erguera de todo.

O fiscal não aparecera. Os fregueses como sempre, deram preferência às suas verduras, e o lucro compensou a longa e estafante caminhada. Estava feliz.

Depois do almoço e da sesta tirada na estalagem do Juvêncio juntou os balaios de taquara, prendeu-os à sela do anima1 e preparou-se para a volta. Só então lembrou-se do velho que encontrara sob as amoreiras. Fazenda bem resistente, linha, agulha. Talvez, fosse um pobre diabo sem juízo. Apalpou a nota. Tão novinha! Tão provocante! Cem mil réis dariam para muita coisa! ... Por um momento, a indecisão dominou-o. Mas o velho confiara-lhe o dinheiro; era preciso cumprir o prometido. Ficaria com a consciência tranquila. Comprou a fazenda, o carretel de linha e a agulha.

Rumou para casa, com seu jeitão de caboclo pachorrento, sem pressa montado no jumento magro.

A noite descera, uma clara noite de lua, A estrada alongava-se a sua frente e as sombras das árvores, projetadas no chão, sugeriam os mais absurdos fantasmas. As maravilhas, brancas e escarlates, desprendiam perfume suave. Ah! O luar na mata! O casario da cidade perdia-se ao longe, na base do morro, insignificante no pisca-pisca de suas luzes. Bento voltava contente. Trazia dinheiro. Cachaça, fumo, água de cheiro para as meninas. Esqueceriam, por um pouco, as misérias e as desgraças. A pobreza. A fome. As doenças. A sordidez do barraco. Maria, talvez sorrisse e entrasse a fazer planos. Era sempre assim. Nas noites de luar, sentados no terreiro, ouvindo as violas, imaginavam uma vida diferente. Comprariam fazenda, plantariam eucaliptos, teriam criação... Deixariam a Pedreira, o ribeirão, a vida miserável de beiradeiro.


O luar descia molemente sobre as árvores. Na mata, estalavam galhos secos. Cobras ou espíritos malignos. Persignou-se. Para afugentar o medo, iniciou uma cantiga:

“Meu pai é bom caçadô,
Vai pr’o mato, vai caçá ... “

Velha cantiga que passava de boca em boca. Afasta o coisa ruim, diziam. São inúmeros os mistérios da mata. Bento, como todo caboclo, sabia-os verídicos e temia as almas penadas, o bode preto, o saci...

— De volta, seu moço?

Estava à beira do açude, perto das amoreiras. O velho emergira das sombras, envolto no manto de farrapos, as mãos descamadas erguidas, um sorriso indefinível nos lábios.

— Eu trouxe as coisas, pai. Tá aqui no balaio.

Aflito, nervoso, o mendigo agarrou as encomendas. Desdobrou a peça de pano.

— É bem forte! — disse, falando consigo.

Depois, em tom irônico, perguntou:

— Tu crê em alma penada, moço?

Bento estremeceu. Não soube o que responder. O jumento corcoveava, relinchando. Quis rezar um Padre Nosso. As palavras misturavam-se no cérebro. Os olhos do ancião tornaram-se vermelhos como brasa. E ele ria, um riso malvado e cruel, agitando os andrajos encardidos e o corpo esquelético.

— Nhô Quim! — exclamou o caboclo, apavorado.

Num momento, recordou a história que se espalhara na Pedreira. A alma de nhô Quim, assassinado há muitos anos junto ao açude, só descansaria quando matasse alguém que, por sua livre vontade fosse comprar a própria mortalha. Somente agora, ele atinava com o motivo da encomenda: linha, agulha, fazenda bem resistente. Tentou fugir. Uma estranha força emanava-se dos olhos do espectro, um diabólico fascínio que encantava e endoidecia. Ele foi chegando. Estendeu os braços. Crisparam-se lhe as mãos. E as unhas aduncas entraram na carne do caboclo.

No dia seguinte, encontraram à beira do açude, sob as amoreiras, um corpo enrolado em tiras de pano, fortemente costuradas. Nhô Quim conseguira finalmente o repouso eterno. Pobre Bento!


Conto de José de Oliveira Nunes 

Fonte: Revista "O Malho" — Janeiro de 1951

domingo, 5 de maio de 2013

Diabruras do diabo


O diabo — que está presente em toda parte — não poderia estar ausente do folclore capixaba. Dei-me ao trabalho, certa vez, de indagar de minhas alunas do Colégio do Carmo, o que sabiam a respeito do diabo. As informações vieram, interessantes e copiosas. Vejam só:

1. Quando se vê uma pessoa muito preguiçosa, é costume se dizer: Coitado, aquele ali o diabo cruzou os braços.

2. Quando, ao se levantar, se dá uma topada sem querer, se diz: O diabo já deu sinal.

3. Quando a porta bate forte, após a nossa saída ou entrada em casa, foi o diabo que a fechou.

4. Quando se vê (na praia, por exemplo) a marca de um pé muito grande, diz-se: O diabo deixou o rastro dele aqui.

5. Quando está ventando muito forte é que o diabo está zangado.

6. Quando se está escrevendo bobagens ou coisa ruim — o diabo é que está soprando.

7. Quando desaparece uma coisa qualquer, foi o diabo que levou para a comadre dele. O jeito é esperar, porque quando não quiser mais, ele a devolve.

8. Quando um homem dança com uma mulher, o diabo fica no meio dos dois.

9. A mulher com o diabo no corpo não é capaz de sossegar.

10. Casar com mulher “sapeca” é ser o seu segundo marido, pois o diabo já foi o primeiro.

11. O diabo tem sete saias e um pé só.

12. Quando a gente se despede de uma pessoa de quem não gosta, fala assim (alto no começo e baixinho no final): “Vai com Deus e Nossa Senhora… o diabo atrás tocando viola.

13. O diabo está dançando nos rodamoinhos de vento. E se neste entrarmos, ele nos carrega.

14. Nas sextas-feiras, ao nos levantarmos, se virmos uma pessoa preta, o diabo vai nos atentar o dia inteiro.

15. Pôr um chifre de boi estrepado na ponta de um pau, no terreiro, espanta o capeta.

16. Queimar chifre de boi e casca de coco no canto da casa, à noite, espanta o capeta.

17. O gominho pequeno da laranja-cravo ou mexerica, se se puser sobre uma pedreira, às duas horas da tarde, no sol quente, o capeta aparece na pedra, dançando.

18. Esse mesmo gominho das laranjas (ou limas) não se deve chupar porque é do diabo.

19. Quando tem só duas pessoas em um cantinho conversando, o terceiro, com eles é o diabo.

20. Sonhar com espelho é traição do diabo.

21. Sonhar com formiga é tentação de pessoas que têm parte com o diabo.

22. É costume dizer-se: com mulher de bigode, nem o diabo pode. Ou mais alongadamente: Quem pode, pode, / Quem não pode se sacode / Mulher de bigode / Nem o diabo pode

23. Quando a gente se machuca, diz três vezes: Diabo, diabo, diabo! para a dor passar.

24. Quanto o bacurau canta de noite: “amanhã eu vou, amanhã eu vou”, dizem que é o diabo que está chamando.

25. Por fim, esta velha adivinha: D – I – D – I / Minha cabeça / A quem há de entender / Que vem a ser? (Resposta: O diabo)

B – O – B – O

Esta meninas do Carmo sabem de coisas…

___________________________________________________________________________
Neves, Guilherme Santos. “Diabruras do diabo”. A Gazeta. Vitória, 20 de setembro de 1960

Prosas demoníacas

No capítulo das “estórias”, o filão mais rico é o dos contos de exemplo. Eles nasceram da alma do homem. Têm raízes dolorosas que ninguém nem nada no mundo conseguirá extirpar. Vêm do velho sonho humano de justiça e equidade, de que também nasceram o céu e o inferno.

Dizemos que o filão mais rico é dos contos de exemplo, sem contar, naturalmente as fábulas, que têm exemplo consciente, propositado, e cuja presunção fundamental é ensinar.

Assim, se examinarmos rapidamente o folclore universal, veremos exemplos de castigos da ambição — no conto do lenhador que derrubou o machado no rio, e na história dos dois corcundas. Castigo da leviandade e da inconsequência, na série de recontos, — “o afilhado do diabo”. Castigo da inveja, no ciclo da madrasta má, como a que existe no conto da gata borralheira. Castigo da desobediência, — na história do capuzinho vermelho. E ainda são castigados a cólera, a preguiça, e o excesso de boa fé, este tão pecado como os maiores que clamam aos céus vingança. A avareza e a maldade são punidas, na maior parte dos contos do ciclo do Malasartes.

Os contos de exemplo do ciclo demoníaco, refletem entre outras coisas, o defeito bem nacional, brasileiríssimo, da gabolice. E o conto se volta para o sestro nosso de falar muito sem pensar no que dizemos e também contra o hábito de irmos fazendo coisas, sem medirmos as conseqüências. Para ilustrar:

Contos de exemplo

Era uma moça muito rebelde e um dia resolveu fugir de casa. “O diabo está me tentando para fugir e eu vou fazer isso mesmo”. Pulou a janela, à noite, com uma trouxinha embaixo do braço. Mal ia virando a primeira esquina, apareceu-lhe o diabo, muito feio, muito rabudo, com os olhos vermelhos e uma capa preta.

— Onde vai moça?

A moça até perdeu a fala, com o susto. E o diabo, sério, sacudindo o dedo, na direção dela:

— Olhe aqui moça! Vá para a casa e fique lá, senão eu levo você mas é para o inferno. E largue de andar dizendo que foi o diabo que a tentou para fugir, que o diabo não tenta quem está quieto.

Disse e sumiu. A moça correu para dentro, desmanchou a trouxinha, e nunca mais quis saber de fugir.

(1939-1943. Vale do Paraíba).

No oeste de São Paulo, contou um soldado a meu irmão, havia um fazendeiro a quem disseram que as cobras tinham pernas. Mas para vê-las, era preciso passar limão na barriga desse réptil. E avisaram também que não prestava fazer isso porque chamava desgraça. Vai o fazendeiro não se incomodou e para tirar a coisa a limpo, passou limão na barriga da primeira cobra que encontrou de jeito.

Resultado: veio a seca, morreu o gado, perdeu-se a colheita, os filhos morreram pesteados, ficou endividado e acabou perdendo a fazenda “por via” de uma hipoteca.

Dizem que é o diabo quem faz aparecer as pernas malditas.

(quartel do 38º GC, em São Paulo, 1945)

Certo fazendeiro rico, que vivia sozinho, queria um companheiro para almoçar, nem que fosse o diabo. Quando bateu meio-dia e a mesa estava posta, um homem bateu à porta. Era o diabo. Pois bem. Almoçaram, conversaram, o diabo foi muito delicado e, à saída, retribuiu o convite, dizendo ao homem que o esperava qualquer dia no inferno, para almoçarem juntos. Marcaram a data e no dia aprazado o homem se pôs a caminho. Foi muito bem recebido no inferno. Depois do almoço, foi visitar as dependências da casa. Em um quarto todo em chamas, reconheceu vários de seus parentes. Investigando direito o caso, acabou por descobrir que a sua família inteira estava lá. Ficou impressionado e, quando voltou à terra, fez tantas boas obras, que se salvou.

(Fazenda do Romarim, arredores de Cachoeira. Informante idosa, analfabeta, doméstica. 1945)

Há uma variante, conhecida em Cachoeira, assim:

Havia um fazendeiro para os lados de Silveira (estado de São Paulo) que todos os dias dava pratos de comida aos andantes e se orgulhava de fazer caridade. Certo dia não apareceu nenhum pedinte e ele sentado no alpendre da fazenda, falou:
— Tenho que dar um prato de comida, nem que seja ao diabo.

Nessa hora chegou na fazenda lá fora na porteira, um homem bem vestido que disse:

— Escutei o seu convite e vim. Ponha comida aí que eu quero comer.

O fazendeiro ficou muito assustado e mandou a mulher arranjar o almoço. O estranho foi comendo tudo o que aparecia, e sempre pedia mais. Acabou o que havia pronto, e a mulher serviu tudo que tinha em reserva. Fritou todos os ovos, toda a lingüiça, todo o chouriço, trouxe quanto pão havia, e tirou todos os queijos da queijeira, mesmo assim o homem não ficou satisfeito. Então ela e o marido começaram a rezar e o homem sumiu. Mas, antes de sumir, falou:

— Isso é para você aprender. Nunca mais me chame, para me dar comida.

(Sinhana, uma roceira de idade indefinível, antiga moradora da fazenda do Mineiro, arredores de Cachoeira, contou. 1945)

Um homem era muito bom domador. Certo dia falou que era capaz de domar até no inferno. No mesmo dia apareceu um homem e convidou-o para domar potros bravos em sua fazenda. ele foi e montou em muitos burros. Por último veio o mais de todos e corcoveava tanto que ia até as nuvens. Ouvia-se um grande clamor de vozes: “Mate o patrão, Mate o capataz!” Por fim o burro parou e sumiu, deixando o domador a pé. Daí a pouco, apareceu o diabo em pessoa, com uma perna quebrada e falou ao domador:

— Você que me quebrou a perna, puxe daqui, que não quero ver nem o seu rastro mais.

Das mesma informante, mais esta:

Um violeiro disse que queria ir a uma festa, nem que fosse no inferno. Mal acabou de dizer, apareceu-lhe um homem com uma viola e convidou-o para ir a uma festa numa fazenda. Andaram muito e por fim chegaram a uma casa grande, com um enorme quintal todo plantado de árvores. Em baixo de cada árvore estava uma alma, fervendo dentro de um caldeirão. E num desses caldeirões estava gente da família do tocador. Na hora do baile, o violeiro viu uma sua antiga namorada que havia morrido há tempos. A moça avisou:

— Vá embora antes do cantar do galo.

O rapaz escapuliu em tempo mas ficou marcado. Desde esse dia, ficou surdo, mudo e louco.

Havia uma moça que queria se casar com um homem que tivesse dentes de ouro. Um dia, quando saía da igreja, deparou um moço todo risonho, na porta, e todos os dentes dele eram de ouro. “Esse me serve para marido”, pensou ela radiante, olhando para ele. Tornaram-se namorados. No dia do casório, logo após a cerimônia, ele quis levá-la para a casa dele. “Onde é?” “Longe daqui”. Ela calçou as chinelas bordadas e foram. Iam montados num cavalo só, e léguas e léguas foram percorridas, mas nunca chegavam. “Onde é a sua casa?” “Não é casa é um castelo.” “Ainda falta muito?” “Ainda”. E quando atravessaram um campo, no fim de um caminho, ela reparou que o marido tinha rabo e chifres. Ficou assustada e puxou o terço para rezar. O moço deu uma gargalhada, e disse: “Você não queria dente de ouro?” E foi se embora a galope deixando a moça na estrada.

(Sul de Minas Gerais, 1929. Informante: mulher velha, analfabeta)

Eram dois irmãos tropeiros. Um dia chegaram a um rancho no sertão de Minas Gerais. Num canto do rancho o mais velho achou uma pacuera e disse:

— Vou assar e comer este bofe.

— Deus no livre disso! — falou o outro se benzendo — Comer essas porcarias achadas no chão, sem saber quem jogou…

— Está fresca. Quem jogou não importa. É sinal que estava sobrando. Não vai me dar dor de barriga.

Assou calmamente a pacuera no espeto e comeu-a, rindo do irmão que juntou só carne-seca com farinha.

Foram dormir e já era bem tarde, quando acordaram sobressaltado, ao som de uma voz que urrava:

Pacuera-cuera!
Pacuera-cuera!
Pacuera-cuera!

Era o coisa-ruim que tinha dormido no rancho e esquecido a pacuera. O coisa foi bem direito no lugar onde o moço a encontrara. O irmão mais novo correu e subiu a uma árvore. O mais velho fez pé firme. O diabo, não achando o que procurava, perguntou ao moço:

— Onde está minha pacuera?

— Assei e comi.

O diabo ficou indignado.

— Você assou a minha pacuera? Pois agora eu vou assar e comer a sua, porque sem pacuera é que eu não posso ficar.

E foi uma infernal correria, pelo meio das árvores, com uma arrepiada testemunha tremendo e rezando, encarapitada numa delas, até que o diabo alcançou o moço e pôs-se a jogá-lo para cima, e a apará-lo, tornando a jogá-lo tão alto que passava as nuvens e sumia no ar, exatamente como se fosse uma peteca, insensível e leve. Deu meia-noite e a folia acabou. O rapaz que estava na árvore esperou o dia raiar, desceu, correu para o lugar onde permanecera o corpo inanimado do outro e viu que já nada poderia fazer por ele. Me contaram que o morto não tinha mais pacuera.

Este reconto é de uma fazenda do ramal bragantino. Informante, mulher, velha, analfabeta, italiana, colona. A história é brasileira.

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Guimarães, Ruth. “Prosas demoníacas”. Correio Paulistano. São Paulo, 13 de agosto de 1950.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

O endiabrado Mandim

No mundo marítimo existe um personagem endiabrado nas suas atitudes de reação. Quando ele quer uma coisa tem de se fazer o que ele quer, sob pena das hostilidades não demorarem muito. Mandim tem um domínio insuperável. As águas obedecem às suas ordens e os peixes se conduzem conforme os seus desejos de chefe. O pescador precisa andar muito direito porque do contrário sofrerá as consequências. 

Também o duende pede pouco. Não exige muita coisa, não. Ele mantém um luxo que não há meio de relaxar. Em todos os outros costuma ceder, mas num deles faz finca-pé, segura-se e não há meio de afrouxar. De modo que não permite a pescaria no dia dos mortos. E o jangadeiro que se der ao gosto de contrariar essa vontade, pode ficar certo de que sofrerá as consequências de um fracasso completo, nada conseguindo, voltando do mar com as mãos vazias, abanando. No samburá nem uma agulha quanto mais cavala.

Mandim considera-se proprietário único do oceano. Pelo menos do trecho que fica entre o Bessa e a Praia Formosa. A guarda que faz do dia de finados vem de um fato de significação bem humana. Teria naufragado um navio depois dos arrecifes que procedia das bandas da África carregado de negros para a lavoura paraibana. Vinha cheio, entupido mesmo, de coculo. Era tanta gente, que se deu uma catástrofe completa — e o único que poderia ter-se salvado foi exatamente o preto maioral, de nome Mandim. Mas renunciou ao propósito de defender a vida quando viu que os seus companheiros haviam sucumbido nos embates com as ondas traiçoeiras. E deixou-se morrer.

Por uma coincidência, teria acontecido a tragédia exatamente no dia de finados. A autoridade do comandante se passou para outro plano: ficou dirigindo o fiel respeito a certas praxes num campo assinalado pelo sacrifício de tantas existências. Quem pescar naquele dia, se arrepende. Quando muito poderá contar a história.

Sabe-se de um mulato falastrão que teimou em ganhar o oceano contra as ordens do mito que são conhecidas através da tradição. Saiu com o tempo bom, soprando nordeste suave. Largou-se para o alto na esperança de pescar muita garajuba e muita cióba. Depressa a noite chegou, pegando o marinheiro quase de repente — foi coisa mesmo de supetão. Com pouco ele principiou a ver umas luzes ao longe. E as luzes aumentando de volume. Só podia ser um navio iluminado feericamente. E o negócio se aproximando, se aproximando, se aproximando. Era de uma extensão formidável,:mais que um transatlântico, parecia antes um mundo que corria veloz na direção do pescador. E que, sem dúvida, iria esmagar a sua jangada, como um inseto miserável de tão insignificante.

Não eram luzes de eletricidade. Tinham parentesco próximo com fogo-fátuo. O ruído que fazia aquilo que vinha vindo rapidamente era um ruído infernal. Gritos se confundindo com exclamações pavorosas; gemidos lancinantes que se tornavam medonhos dentro da noite. E os peixes saltando desadoradamente como se estivessem muito contentes. Se era o vento, soprava forte e grosso, mais parecendo querer levar tudo de cambalhota. Não havia outro recurso senão fazer o impossível para regressar à praia.

O pescador, então, não quis mais conversa, danou-se para trás, aproveitando a correnteza para mudar de situação. Descobriu a estrela-guia e no seu rumo segurou o leme. A carreira era vertiginosa e de vez em quando olhava a visão se aproximando nos seus lumes de todas as cores. Chegou um momento que sentiu a situação quase perdida. Na confusão ouvia vozes mansas cantando o seu mal-assombrado.

Mandim, mandão, mandá,
Todos morreram no mar,
Longe da terra, bá,
Marabá, má, marabá,
Morrer quis Mandim, mandá

O acompanhamento era num tom fúnebre de cortar coração. Mas que história triste? Para que fora se meter nesse embrulho? Duvidar para quê? Nunca mais haveria de contrariar nada.

Acreditaria em tudo que viesse com a marca do invisível. De em diante seria assim. E o estribilho sem cessar na voz do vento da tempestade.

A terra ficou atrás,
Mandim,
Nunca mais, nunca mais

A lição teria servido ao mulato que havia já viajado por outras terras. Ficou sabendo de uma vez por todas que o fantasma tem força. Tem querer. E quando determina, não admite providência em contrário. Pescar no dia de finados que outro fosse e não ele, que ficara ensinado para sempre. Sentia-se feliz em haver saído são e salvo do embrulho.

Mandim era realmente uma potência que não podia, como não pode, ser contrariado nos seus luxos de mando. Veio de longe, trouxe sua gente, naufragou, morreram todos. Quis sacrificar-se voluntariamente na companhia de sua gente. Em compensação requeria respeito e que se guardasse o dia do ano, ou da semana, a sexta-feira. Não admitia pesca. Os peixes que folgassem. E quem quisesse mexer consigo que se metesse com muita coragem para suportar o repuxo e perder.
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Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos populares brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.39-41

Fiscal de quintais


Ouve-se no silêncio da madrugada um passo certeiro, meio surdo e que é por outro acompanhado, mas agora nítido, forte e como se quisesse furar o chão. De momento pára, nota-se um intervalo muito pequeno e, da maneira como parou instantâneo, prossegue o caminho de quem anda cem visita de fiscalização. Depois toma distância para se perder dos ouvidos. Sabe-se que não voltará mais naquela noite. Tem muito que fazer por outros sítios e não pode perder tempo com demoras longas. Noutras ocasiões o passo surdo é pressentido em forma e rapidez e numa como afobação de quem muito trabalha incansavelmente.

Esse fantasma é Upiara. Homem incansável e avançado em idade, que veio ninguém sabe de onde: uns dizem que do interior paraibano, batido pelas necessidades da seca; outros que é cria do litoral, foi escravo e fez a guerra do Paraguai. A verdade é que existe para um fim determinado. Anda curvo — e de cabeça inteiramente branca. É cego. Não usa calçado e apresenta os calcanhares rachados de tanta caminhada por cima de paus e pedras. O seu passo mostra-se manso, enquanto o outro que o acompanha, a querer entrar na terra, provém de um cacete que carrega na mão direita. Cacete de cego, que presta serviço inestimável e que, por is:o mesmo, nunca pode ser abandonado. Upiara também conduz bornal imenso no tamanho e onde põe tudo que consegue arrecadar na sua incessante peregrinação.

Ele visita certo quintal. Visitou ontem à noite e no dia seguinte se pode fazer uma revista que faltará, alguma coisa. Propriamente o fantasma não furta. O que se acha abandonado lhe pertence de pleno direito. Um trapo, restos de comida, um objeto qualquer, tudo serve para ser metido no seu bornal de couro de boi — e que dizem haver conseguido quando servia como soldado nas amplas campinas gaúchas. Mas não passa tudo isso de meras suposições. Ninguém ainda viu Upiara com os olhos que a terra terá de comer. São conclusões que o povo tira por sua livre e espontânea vontade. Entretanto, diga-se, são considerações aceitáveis, ponderadas e justas. A longa existência do espectro oferce motivos para um estudo acertado. E daí toda gente admitir a possibilidade ou mesmo a convicção de que ele conta com todos os detalhes já apontados.

Não mexe com ninguém; muito pacato, muito sério e gosta de agir pela madrugada, favorecido pela escuridão. Chegou tempo de lua, anda sumido. Antigamente vinha das bandas de Cruz das Almas. Agora, porém, com as investidas do progresso material, mudou de rumo e tudo indica que procede das matas de Jaguaribe.

Há fundas razões para essa suposição. É que existe naquelas matas um bando enorme de guaribas que levam o dia silenciosas e sem dar de si o menor sinal de vida. São ágeis bichos pretos com barbas e bigodes que fazem uma zoada danada. São diferentes macacos que adivinham chuva. O guaribão da mata inicia o concerto quando a cidade começa a ouvir o ruído das ondas do Cabo Branco. E já observaram a coincidência, pois logo após se ouve a passada suave e, ao mesmo tempo, surda, acompanhada por outra estridente. Upiara anda no mundo, soltou-se. Começou o itinerário pelos quintais à procura de coisas abandonadas para meter no seu saco fabuloso. E volta às primeiras claridades cinzentas da manhã. Vive na companhia das guaribas — e tem no meio delas uma importância de chefe.

As crianças evidentemente não apreciam a hipótese de perdidas horas de insônia. Amedrontam-se com a presença do avejão na sua passagem pelo quintal. Os passos ficam-lhes fixados na memória por forma tamanha que obrigam os adultos a acompanhá-los em tácita confirmação. Estão ouvindo toda a marcha de Upiara. Depois ficam mais sossegadas porque têm a certeza de que ele não volta jamais naquela noite. Ficará para a outra seguinte. Assim conseguem retomar o fio do sono perturbado. E. logo que acordam para se levantar, vão ver o que ele fez, se carregou alguma coisa.

Os meninos costumam fazer as suas experiências próprias. Deixam objetos abandonados em baixo das árvores e vão procurá-los na manhã seguinte. Às vezes desaparecem por interferência de terceiros. A culpa, todavia, é atirada ao preto cego, que traz um cacete na mão direita. E se permanecem no mesmo lugar, houve esquecimento, coitado, ele nem viu, passou tão avexado.

Bicho danado
da cabeça
de escapole …

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Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos populares brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.101-102

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A Procissão dos Ossos

Em Portugal, em 1498, determinou o rei dom Manuel que à Irmandade da Misericórdia fosse permitido todos os anos, no dia de Todos os Santos, retirar dos patíbulos os restos ainda pendentes dos justiçados para lhes dar sepultura. 

Foi esta a origem da procissão dos ossos. Investida a Misericórdia do Rio de Janeiro nos privilégios e atribuições da sua congênere de Lisboa, que lhe servira de modelo, assumiu também aqui o mesmo encargo.

À tarde do dia primeiro de novembro começavam a dobrar funebremente os sinos de todas as igrejas, tocando a defuntos. No início da noite, concluídas as vésperas, saíam os irmãos da Misericórdia, em solene cortejo, com os farricocos carregando duas “tumbas” para recolher as ossadas ao pé da forca.

Era o mais funéreo espetáculo que se possa imaginar. Quem quiser conhecer a organização desse préstito encontrará a descrição pormenorizada no velho “compromisso” da Irmandade, no capítulo que diz: “Do modo com que se hão de ir buscar as ossadas dos que padeceram por justiça…”


Cumprida a sua macabra missão, regressava a procissão à igreja da Misericórdia onde eram depositadas as tumbas. Havia então sermão e ofício dos mortos. Revezando-se, os irmãos velavam os restos mortais recolhidos que, na manhã seguinte, eram inumados no cemitério atrás do hospital.

Com o abrandamento dos costumes e o aperfeiçoamento da civilização, deixou de ser proferida a sentença de morte natural para sempre e a procissão dos ossos pouco a pouco foi perdendo a razão de ser, até que se extingüiu.

Fonte: Coaracy, Vivaldo. Memórias da cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1965. Coleção Rio Quatro Séculos, 3

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Simões Lopes Neto

A obra do escritor Simões Lopes Neto retrata as tradições campestres gaúchas. Seu talento maior reside no uso que faz da linguagem popular local, o que faz de sua prosa uma das mais sugestivas da literatura brasileira.

João Simões Lopes Neto nasceu em Pelotas RS, em 9 de março de 1865. Passou a infância no campo e fez os primeiros estudos no Rio de Janeiro RJ, onde mais tarde cursou a faculdade de medicina, que abandonou no terceiro ano. Voltou à cidade natal em 1882 e exerceu profissões diversas, em constante instabilidade financeira.

Em 1895, passou a trabalhar na imprensa local. Escreveu peças de teatro e poemas, mas destacou-se principalmente com Contos gauchescos (1912) e Lendas do sul (1913), coletâneas de histórias regionalistas.

Em 1914, tornou-se diretor do Correio Mercantil, em que publicou as histórias de um caçador mentiroso, reunidas postumamente na coletânea Casos do Romualdo (1952).

Simões Lopes Neto morreu em Pelotas, em 14 de junho de 1916. Após um período de esquecimento, sua obra foi reabilitada graças, sobretudo, aos estudos críticos que lhe dedicaram Lúcia Miguel-Pereira, Augusto Meyer e Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Em 1955, surgiu o volume Terra gaúcha.

Fonte: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.