quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Uma Noite no Mato Seco

As sombras da noite já enegreciam a terra. O céu, também tinha a ameaçar-lhe a beleza, um amontoado de nuvens medonhas pactuando com a noite na sua tarefa sombria. Aquela viagem era de necessidade inadiável. Dela dependia grande soma dos meus interesses. 

Resolvi, mesmo afrontando o mau tempo que se anunciava, empreender aquela caminhada.

Chamei meu ajudante e ordenei-lhe encilhasse os animais. Lucindo, mulato avantajado, atleta espontâneo, desses que os trabalhos brutos costumam nos apresentar, conhecedor, como ninguém, daquelas paragens, por onde nem Deus passou e de que fogem os homens, olhou-me assustado, não acreditando no que ouvira.

Sua atitude — de quem hesita em cumprir uma ordem, ele que nunca esperou que ordem alguma se lhe repetisse, não deixou de sobressaltar-me. Repeti-lhe a ordem: — que encilhasse os animais, e se preparasse para a viagem. Lucindo meneou a cabeça, e se foi, num andar lento, como de quem caminha para um grande perigo.

Pus em ordem meus papéis, e saí para o terreiro. Já àquela hora o Lucindo avisava-me de que tudo aprestara para a viagem. O mulato, meditabundo, olhos baixos, quieto, era o tipo diverso daquele caboclo de olhar franco, sempre satisfeito, falador, à espera de que se lhe apresentasse ocasião para pôr em prova sua grande lealdade, atributo que o valorizava aos meus olhos.

Aquela atitude do meu velho companheiro de viagens pelos sertões de Minas, pôs-me pulga à orelha.

— Que é que põe você assim tão macambuzio, Lucindo?

O caboclo esperava pela pergunta.

— Patrão, vancê intão, tá mesmo arresolvido a botá chão, a estas hora, cum tempo ansim, daqui por Corgo dos Mulato? Vancê isquece que temo qui atravessá o Mato Seco?

E ao pronunciar este nome o Lucindo teve o corpo sacudido por arrepios.

Mato Seco? Ah! Já ouvira, em pequeno, as histórias ali acontecidas, histórias tremendas que o tornaram lugar temido dos homens.

— Fora ali, que diziam haver sido assassinado, sem que se soubesse por que nem por quem, o Claudino, dono do sítio de cima, Aquela cruz de madeira, com uns restos de enfeites de papel e um toco de vela apagada, faz recordar um drama pungentíssimo, e do qual toda gente falava com tremuras na voz:

Realizava-se numa noite fria de Junho, o casamento do Valencio, a voz mais afinada daquelas redondezas, com Ritinha, cabocla boa alma de santa, à porta de quem a Fome era tocada a galope e a Sede mitigada. Naquela noite, a fazenda era um enxame de abelhas barulhentas. Era um barulho festivo, como nunca houvera naqueles sítios.

Às tantas da noite, já o povaréu se impacientava com a ausência do noivo. A Rita dissera que ele viria ao anoitecer, e, até àquela hora, já tarde, nada do Valencio dar a cara. Resolveram, os caboclos mais dispostos, buscar o noivo. Não demorou muito, ouvem-se os tropéis dos cavalos que chegam. São recebidos ao som da indefectível sanfona e aos gritos dos alegres festeiros. O noivo também chega. Vem nos braços dos caboclos. Vem morto, com cinco facadas no peito. Encontraram-no assim, naquele mesmo lugar onde está plantada aquela cruz com resto de enfeites e um toco de vela. A Ritinha, noiva de Valencio, ficara louca, e vagava bestamente de sítio em sítio, numa miséria que dava dó.

Por esses e outros fatos idênticos, diziam até que almas penadas, noite a dentro, assombravam os caminheiros que ousavam atravessar o Mato Seco, em horas da noite.

Nunca acreditei nessas histórias, muito menos em alma do outro mundo, razão porque as histórias tenebrosas do Mato Seco não conseguiram fixar-se fortemente em minha memória. Agora, era o Lucindo, o caboclo mais valente que já vira na minha vida, que trêmulo, mas trazia lembrança, sem contudo, despertar-me grande atenção. Se, em criança, pouco medo me faziam, agora nenhuma importância eu lhes daria.

— Vancê vai fazê bestera, patrão. Brincá co as arma do otro mundo num dá certo... Mecê se lembra do João Guilherme? Pois ele, uma noite...

— Toca a andar, Lucindo, que já estou farto dessas mentiradas. Com a sua idade acreditar em fantasmas? Isso é feio...

Obediente ao extremo, lá se foi o Lucindo, não sem resmungar baixinho.

A noite tornava-se pior, de instante a instante. Se, de fato, fantasmas perambulam cá por baixo, não há noite mais propícia que esta. Lucindo caminhava na frente. Para experimentar o seu grau de superstição, toda vez que precisávamos transpor uma porteira eu lhe gritava, em voz grossa: “abre a porteira, satanás!” O mulato estremecia dos pés à cabeça de tanto pavor, e, quase a chorar, me pedia, por favor, que deixasse daquela brincadeira...

Assim caminhamos até que entramos no Mato. Ao contemplar, em noite tão feia, aquele montão de mato a gemer, fustigado pelo vento, o coração me bateu mais apressado dentro do peito. Uma coisa, dentro de mim, que já não era mais vontade de pilheriar, me fez cismarento. Mas, para não dar a perceber ao Lucindo esse sinal de fraqueza, ao chegarmos à porteira que diz adeus ao Mato Seco, tornei a gritar, desta vez em voz insegura:

— “Abre a porteira, satanás!”

Sem que ninguém tocasse, a porteira, devagarinho, rangeu, numa vozinha fina como se alguma alma sofredora estivesse gemendo. Nossos cavalos, como se tivessem sido castigados cem chicotes de aço, empinaram-se, relinchando. O de Lucindo desapareceu estrada a fora, num galope doido.

O meu pacífico animal, como se o montasse o próprio demônio, disparou pelo mato a dentro. Senti uma pancada horrível na nuca. Perdi as forças. Desmaiei.

***

Era já de manhãzinha, quando Lucindo, de roupas rasgadas e sujas de pó, ainda com os sinais do susto impressos na fisionomia, veio levantar-me do brejo, onde passei a noite, no mais impossível dos sonos.

Ao chegarmos ao Córrego dos Mulatos, a pé e no mais deplorável estado, olheiras profundas, rasgados e sujos, muita gente julgou ver dois fantasmas saídos, naquela madrugada, das entranhas infernais do “Mato Seco”.


Conto de José Fernandes Filho 
Fonte: Revista "O Malho", de 24/10/1935.