domingo, 10 de julho de 2016

Naufrágio Virtual


No verão de 1874 eu estava em Liverpool, para onde fora em missão de negócios da empresa mercantil Bronson & Jarrett, de Nova York. Eu sou William Jarrett. Meu sócio era Zenas Bronson. A firma faliu no ano passado, e ele, incapaz de suportar a transição da riqueza para a pobreza, faleceu. Tendo concluído os negócios que fazia, e sentindo a lassitude e o cansaço provocados pelo despacho das mercadorias, senti que uma viagem mais prolongada seria agradável e benéfica.

Assim sendo, em vez de embarcar de volta num dos muitos e elegantes vapores de passageiros, fiz reserva para Nova York no veleiro Morrow, no qual embarcara boa e valiosa parte das mercadorias que comprara. O Morrow era um navio inglês com, é claro, poucas acomodações para passageiros, que em verdade éramos apenas três: eu, uma jovem e sua criada, uma negra de meia-idade.

Achei estranho que uma moça inglesa tivesse uma criadagem daquele tipo, mas ela própria me explicaria depois que a mulher havia sido deixada em sua família por um homem e uma mulher da Carolina do Sul, que tinham morrido, ambos e no mesmo dia, na casa do pai dela, em Devonshire — circunstância que por si só já era suficientemente estranha para ficar retida em minha mente, tanto mais porque em conversas posteriores fiquei sabendo, pela jovem, que o tal senhor chamava-se William Jarrett, tendo o mesmo nome que eu. Eu sabia que um ramo de minha família se fixara na Carolina do Sul, mas não conhecia nada sobre eles ou sobre sua história.

O Morrow deixou a foz do Mersey no dia 15 de junho e navegou por muitas semanas com brisa suave e céu sem nuvens. O capitão, que era um admirável homem do mar mas nada mais do que isso, nos fazia pouca companhia, apenas nas refeições. E a jovem, Srta. Janette Harford, e eu nos tornamos amigos. Estávamos, na verdade, quase todo o tempo juntos e, sendo muito introspectivo, eu me perguntava que novo sentimento era aquele que ela me inspirava — uma atração secreta, sutil mas poderosa, que me fazia a todo instante procurar saber onde Janette estava. Mas não conseguia entender o que pudesse ser. Só sabia que não era amor.

Com essa certeza, e percebendo que a jovem era tão sincera quanto eu, certa noite arrisquei-me a perguntar-lhe (lembro-me que a data era 3 de julho), rindo, enquanto estávamos sentados no deque, se ela poderia me ajudar a resolver aquela charada. Por um instante, ela ficou em silêncio, com o rosto virado para o outro lado, e cheguei a temer que tivesse sido rude e indelicado. Mas logo, muito séria, fixou os olhos em mim. Num segundo, fui invadido pela mais estranha fantasia que já pode ter passado pela mente humana. Era como se ela estivesse olhando-me não com aqueles olhos, mas através deles — desde uma distância imensurável — e como se muitas outras pessoas, homens, mulheres e crianças, em cujos rostos eu captava expressões vaga e estranhamente familiares, a cercassem, lutando na ânsia de também enxergar através daquelas órbitas.

O navio, o mar, o céu — tudo desaparecera. Eu já não tinha consciência de nada exceto daquelas figuras, daquele cenário extraordinário e fantástico. E então, de repente, tudo foi escuridão, e logo, fui saindo aos poucos do negror para a luz, como se me acostumasse às diferentes gradações de luminosidade, até que tudo o que antes me cercava, o deque, o mastro, a cordoagem do navio, lentamente, voltou a foco.

A Srta. Harford fechara os olhos e se recostara na cadeira, aparentemente adormecida, com o livro que estivera lendo aberto no colo. Impelido por não sei que motivo, dei uma espiada no alto da página. Era um exemplar de um livro raro e curioso, as Meditações, de Denneker. E o dedo indicador da moça estava pousado sobre a seguinte passagem:

"A todos é dado ser tragado para longe e permanecer fora do corpo por um tempo. Pois, assim como acontece com os rios cujas águas se encontram, fazendo com que o mais fraco seja tragado pelo mais forte, também ocorre um tipo de relação na qual os caminhos se interceptam e as almas se fazem companhia, enquanto os corpos vão em direções opostas, sem nada saber."

A Srta. Harford levantou-se, estremecendo. O sol se pusera no horizonte, mas não fazia frio. Não havia uma brisa sequer. Nem nuvens no céu. E contudo tampouco havia estrelas visíveis. Ouvimos uma correria pelo tombadilho. O capitão subiu e dirigiu-se ao primeiro-oficial, que, de pé, observava o barômetro. "Meu Deus!", ouvi-o exclamar.

Uma hora depois, Janette Harford, que eu mal enxergava em meio à escuridão e aos jatos d'água, foi-me arrancada dos braços pelo rodamoinho cruel do navio que afundava. E eu desmaiei embrenhado nas cordas do mastro que flutuava e ao qual me atara.

Acordei sob a luz de uma lâmpada. Estava deitado num beliche em meio ao ambiente familiar de um camarote de navio a vapor. Num sofá, junto à cama, estava sentado um homem, com roupas de dormir, lendo um livro. Reconheci o rosto de meu amigo Gordon Doyle, o qual conhecera em Liverpool no dia de meu embarque, quando ele próprio se preparava para embarcar no City of Prague, tendo insistido para que eu o acompanhasse. Alguns minutos depois, falei seu nome. E ele disse apenas "Sim?" e virou mais uma página do livro sem tirar os olhos dele.

"Doyle", repeti, "eles conseguiram salvá-la?” Ele agora se dignava a me olhar e sorria, divertido.

Evidentemente pensava que eu ainda estava meio adormecido. "Salvar quem? O que você está dizendo?”

"Janette Harford.”

Seu ar divertido transfigurou-se em estranheza. Ele agora me olhava fixamente, sem nada dizer.

"Você vai acabar me contando", continuei, "vai acabar me contando.”

Pouco depois, perguntei:

"Que navio é este?”

Doyle voltou a olhar-me.

"É o vapor City of Prague, que está indo de Liverpool para Nova York. Três semanas no mar e um mastro quebrado. Passageiro da primeira, Sr. Gordon Doyle; idem, só que lunático, Sr. William Jarrett. Os dois distintos viajantes embarcaram juntos, mas deverão separar-se a qualquer momento em razão da intenção do primeiro de atirar o último ao mar.”

Num impulso, sentei-me.

"Você quer dizer que há três semanas sou passageiro deste vapor?”

"É, mais ou menos isso. Hoje é dia 3 de julho.”

"Eu estive doente?”

"Você nunca esteve tão bem. E com excelente apetite.”

"Deus do céu! Doyle, isso é um mistério. Pelo amor de Deus, fale sério. Então eu não fui resgatado dos escombros do naufrágio do veleiro Morrow?”

Doyle empalideceu e, aproximando-se, segurou-me pelo pulso. Um segundo depois, perguntou, falando devagar:

"O que você sabe sobre Janette Harford?”

"Primeiro diga-me o que você sabe sobre ela.”

Doyle olhou-me por um instante como se pensasse no que ia fazer. Em seguida, sentando-se outra vez no sofá, disse:

"E por que não? Estou noivo de Janette Harford, que conheci em Londres há um ano, e com ela vou-me casar. A família dela, uma das mais ricas de Devonshire, é contra o casamento e nós decidimos fugir juntos — já estamos fugindo, para dizer a verdade, porque no dia em que eu e você atravessamos a rampa para subir a bordo deste vapor, ela e sua fiel criada, uma negra, passaram por nós, para tomar o veleiro Morrow. Ela não concordou em viajar no mesmo navio que eu e achamos melhor que tomasse um veleiro de carga, evitando assim que fosse notada ou até mesmo detida. Agora estou alarmado porque se o maldito defeito não for consertado logo e nos atrasarmos muito, o Morrow vai chegar a Nova York antes de nós e a pobrezinha não terá para onde ir.”

Eu continuava deitado, imóvel — tão imóvel que mal respirava. Mas o assunto evidentemente empolgara Doyle, que depois de uma pausa continuou:

"Por falar nisso, ela é filha adotiva dos Harfords. A mãe dela morreu onde moravam, ao cair de um cavalo durante uma caçada, e o pai, louco de dor, matou-se no mesmo dia. Nenhum parente apareceu para reclamar a criança e assim, depois de um período razoável os Harfords a adotaram. Ela cresceu acreditando que era filha deles.”

"Doyle, que livro é esse que você está lendo?”

"Ah, são as Meditações, de Denneker. É um negócio esquisito que Janette deu para mim. Por acaso ela possuía dois exemplares. Quer dar uma olhada?”

Atirou-me o volume, que se abriu ao cair. Numa das páginas abertas, um trecho estava sublinhado:

"A todos é dado ser tragado para longe e permanecer fora do corpo por um tempo. Pois, assim como acontece com os rios cujas águas se encontram, fazendo com que o mais fraco seja tragado pelo mais forte, também ocorre um tipo de relação na qual os caminhos se interceptam e as almas se fazem companhia, enquanto os corpos vão em direções opostas, sem nada saber."

"Janette tinha... tem... um gosto curioso para leitura", consegui balbuciar, dominando minha agitação.

"É. E agora você vai me fazer o favor de explicar como foi que descobriu o nome dela e do navio em que está.”

"Você falou durante o sono", respondi.

Uma semana depois, atracávamos no porto de Nova York.

Mas do Morrow, nunca mais se teve notícia.


Visões da Noite / Ambrose Bierce; organização e tradução Heloísa Seixas; ilustrações Mozart Couto. - Rio de Janeiro: Record, 1999.

Um Incidente na Ponte de Owl Creek


I

Um homem estava de pé sobre uma ponte férrea no Norte do Alabama, olhando para as águas que corriam ligeiras seis metros abaixo. Tinha as mãos às costas, os pulsos atados por uma corda. Outra corda fora enrolada em seu pescoço. Esta última estava amarrada a uma estaca sólida acima de sua cabeça e a ponta caía-lhe até a altura dos joelhos. 

Algumas tábuas soltas, colocadas sobre os dormentes que suportavam os trilhos da via férrea, sustentavam os pés do homem, assim como os de seus executores — dois paramilitares do Exército Confederado, liderados por um sargento que na vida civil talvez tivesse sido um subxerife.

Sobre a mesma plataforma provisória, mas a uma certa distância, estava um oficial armado, com seu uniforme de graduado. Era um capitão. Em cada extremidade da ponte havia um sentinela segurando seu rifle em posição de "apoio", o que significa na vertical à frente do ombro esquerdo e com o cão apoiado ao antebraço atravessando o peito em diagonal — uma posição rígida e pouco natural, obrigando os soldados a permanecer numa postura muito ereta. Aparentemente, os dois não tinham obrigação de saber o que se passava no meio da ponte. Eles se limitavam a bloquear a passagem nas duas extremidades do caminho de pedestres que ladeava o pontilhão.

Para além de um dos sentinelas, não havia ninguém à vista. A linha férrea cruzava a floresta numa reta por quase cem metros, para em seguida desaparecer, numa curva. Com certeza havia um posto avançado mais adiante. A outra margem do rio era um campo aberto — uma colina suave, no alto da qual havia uma barricada feita com troncos de árvores, com seteiras para os rifles e um único canhoneiro do qual surgia a extremidade de um canhão de bronze, apontado para a ponte. Na metade da colina, entre a ponte e a fortaleza, estavam os espectadores — uma única companhia de infantaria perfilada, em posição de "descansar", a base dos rifles tocando o chão, os canos levemente inclinados para trás e apoiados ao ombro direito, as mãos cruzadas à frente das coronhas.

Um tenente encontrava-se de pé à direita da fila, com a ponta de sua espada no chão e a mão esquerda repousando sobre a direita. Com exceção do grupo de quatro pessoas no centro do pontilhão, ninguém se movia. A companhia estava de frente para a ponte, observando-a na mais absoluta imobilidade. Os sentinelas, voltados para as margens do rio, poderiam ser confundidos com estátuas que adornassem o lugar. O capitão estava de braços cruzados, em silêncio, observando o trabalho de seus dois subordinados, mas sem fazer qualquer sinal. A morte é um dignitário que, ao ser anunciado, deve ser recebido com manifestações formais de respeito, mesmo entre aqueles que lhe são mais familiares. No código da etiqueta militar, o silêncio e a imobilidade eram formas de deferência. O homem que estava para ser enforcado aparentava cerca de 35 anos.

Era um civil, a julgar por suas roupas, que pareciam as de um fazendeiro. Tinha boa aparência — o nariz reto, a boca firme e uma testa larga de onde surgia o cabelo comprido e escuro, penteado para trás, passando por trás das orelhas e indo até o colarinho do casaco de trabalho, que lhe caía bem. Usava bigode e uma barba pontuda, mas sem costeletas. Os olhos eram grandes, cinza-escuros, com uma expressão gentil que dificilmente se poderia esperar de um homem cujo pescoço estivesse no laço de uma corda. Com toda certeza não era um assassino vulgar. O código militar, liberal, permite o enforcamento de toda sorte de indivíduos, e os cavalheiros não estão excluídos. Assim que tudo estava pronto, os dois paramilitares, dando um passo para o lado, tiraram a tábua sobre a qual caminhavam.

O sargento virou-se para o capitão, fez continência e colocou-se imediatamente atrás do oficial, que por sua vez afastou-se um passo. Tais movimentos deixaram o condenado e o sargento sozinhos de pé sobre as duas extremidades da mesma tábua, que se estendia por cima de três dos dormentes da linha férrea. A extremidade sobre a qual se encontrava o civil quase alcançava, mas não chegava a fazê-lo, um quarto dormente. Essa tábua estivera sendo mantida ali pelo peso do capitão. Agora, o que a mantinha ali era o peso do sargento. A um sinal do primeiro, este último daria um passo para o lado, a tábua daria um salto e o condenado despencaria pelo espaço entre os dormentes.

O arranjo, por simples e efetivo, parecia confiável. O rosto do homem não estava encoberto, nem seus olhos vendados. Por um instante, ele olhou para o chão instável onde pisava e em seguida deixou que o olhar se perdesse na corrente d'água que passava lá embaixo, a toda velocidade. Uma tora de madeira boiando chamou sua atenção e seus olhos seguiram-na, rio abaixo. Parecia mover-se tão devagar, como se levada por águas indolentes...

Fechou os olhos tentando fixar os últimos pensamentos na mulher e nos filhos. A água, tingida de ouro pelos primeiros raios de sol, a bruma melancólica que recobria as margens rio abaixo, a fortaleza, os soldados, a tora de madeira — tudo distraía sua atenção. E agora ele se dava conta de alguma coisa nova, que surgia para perturbá-lo. Chocando-se com o pensamento de seus entes queridos, vinha um som que ele não conseguia nem identificar nem ignorar, um ruído agudo, nítido, metálico, como o som do martelo do ferreiro contra a bigorna. A ressonância era a mesma. O homem se perguntou o que seria aquilo e de onde vinha tal som, se de longe ou de perto — pois parecia as duas coisas ao mesmo tempo. Batia a intervalos regulares, mas num ritmo lento, como o dobrar dos sinos de Finados. Ele aguardava cada batida com impaciência e — sem que soubesse por quê — com apreensão. Os intervalos de silêncio pareciam cada vez maiores. E esses momentos de suspensão começavam a enlouquecê-lo. Embora cada vez mais espaçados, os sons cresciam em força e agudez. Feriam-lhe os ouvidos como a estocada de um punhal. Estava a ponto de gritar. O que ele ouvia era o tique-taque de seu relógio.

Abriu os olhos e viu novamente a água a seus pés. "Se eu pudesse soltar as mãos", pensou, "poderia afrouxar o laço e pular na água. Afundando, fugiria das balas e, nadando a toda velocidade, conseguiria chegar à margem, embrenhar-me na floresta e fugir para casa. Minha casa, graças a Deus, fica para além das linhas deles. Minha mulher e meus filhos estão na região que ainda não foi tomada pelos invasores.” Enquanto esses pensamentos, aqui descritos em palavras, passavam pela cabeça do condenado, e mal acabavam de ser formulados, o capitão fez um sinal para o sargento. E o sargento deu um passo para o lado.

II

Peyton Farquhar era um próspero fazendeiro, de uma família antiga e altamente respeitada no Alabama. Sendo dono de escravos e, como todo dono de escravos, um político, era naturalmente a favor da Guerra Civil e ardorosamente devotado à causa do Sul. Por motivos de força maior, que não cabe aqui relatar, não pudera servir ao galante exército que lutaria nas desastrosas campanhas culminando com a queda de Corinto, e se irritava com isso, ansiando por externar suas energias, por viver a vida mais expansiva dos soldados, pela oportunidade de se destacar. Essa oportunidade, sentia, acabaria chegando, porque chega para todos durante a guerra. Enquanto isso, ia fazendo o que podia. Não se importava de desempenhar a mais humilde tarefa, desde que fosse para ajudar a causa dos sulistas, nem de se meter na mais perigosa das aventuras, desde que fosse coerente com o papel de um civil cujo coração era de soldado e que, de boa-fé, mesmo não sendo muito qualificado, concordava, ao menos em parte, com o ditado sabidamente infame segundo o qual na guerra e no amor tudo vale.

Certa noite, quando Farquhar e sua mulher estavam sentados no banco rústico junto à entrada do jardim, surgiu no portão um soldado de uniforme cinza que pediu um copo d'água. Foi com satisfação que a Sra. Farquhar foi buscá-lo com suas próprias mãos, muito brancas. O marido se aproximou do cavaleiro empoeirado e, ansioso, pediu notícias do front. "Os ianques estão consertando as estradas", respondeu o homem," e estão prontos para um novo avanço. Já chegaram à ponte de Owl Creek, fizeram reparos e construíram uma barricada na margem norte. O comandante mandou espalhar cartazes dizendo que qualquer civil que bloquear estradas, pontes, túneis ou trens será sumariamente enforcado. Eu vi a ordem.”

"A ponte de Owl Creek é muito longe?", quis saber Farquhar. "Uns cinquenta quilômetros.” "E há soldados deste lado do rio?” "Só um posto avançado menos de um quilômetro à frente, na estrada, além de um sentinela na ponta de cá da ponte.” "E se um homem — um civil, especialista em enforcamentos — conseguisse passar pelo posto avançado e enganar o sentinela", disse Farquhar, rindo, "o que será que ele conseguiria? “ O soldado parou para pensar. "Há um mês eu estava lá", respondeu. "E notei que a correnteza do último inverno tinha deixado muitas toras encalhadas no píer de madeira, na extremidade da ponte. Agora está tudo seco e poderia queimar como uma tocha.”

A mulher já se encaminhava com a água, que o soldado bebeu. Em seguida agradeceu, cerimonioso, fez uma mesura para o marido e se foi. Uma hora depois, quando a noite já havia caído, ele voltou a cruzar a fazenda em direção ao Norte, de onde viera. Era um espião dos Confederados.

III

Assim que despencou da ponte, Peyton Farquhar perdeu os sentidos, como se já estivesse morto. Mas foi despertado desse estado — após o que lhe pareceu um tempo enorme — por uma dor fina na garganta, seguida de uma sensação de sufocamento. Uma agonia aguda, mortal, parecia espraiar-se do pescoço, tocando cada fibra de seu corpo e membros, Tais dores aparentemente corriam por linhas de ramificações bem definidas, martelando a uma velocidade inconcebível. Eram como rios de fogo pulsante que o queimassem inteiro. Quanto à cabeça, parecia-lhe completamente tomada — por uma congestão. Essas sensações não vinham acompanhadas de pensamentos. A parte intelectual de sua natureza se esvanecera. Tinha poder apenas para sentir, e o que sentia era tormento. Percebia um movimento. Envolto por uma nuvem luminosa, da qual ele agora era apenas o núcleo em brasa, oscilava sobre um arco imponderável, como se fosse imenso pêndulo. E então, de repente, de forma terrivelmente súbita, a luz que o cercava disparou para cima, com um gigantesco estrondo d'água. Um troar ameaçador atingiu-lhe os ouvidos e tudo foi escuridão e gelo. O poder do pensamento foi restaurado.

Agora ele sabia que a corda se rompera e que ele caíra na correnteza. Mas não sufocava mais do que antes. A corda em torno de seu pescoço já o estrangulava, mantendo a água fora de seus pulmões. Morrer enforcado no fundo de um rio! A idéia lhe parecia ridícula. Abriu os olhos na escuridão e viu acima uma luminosidade, embora muito longe, inacessível. Continuava afundando, pois a luz tornava-se mais e mais fraca, até virar apenas um lampejo. Mas logo começou a crescer e a tornar-se mais brilhante, até que ele percebeu que retornava à superfície — e relutava em admitir isso, pois já sentia um certo conforto em estar no fundo. "Ser enforcado e afogado", pensou, "não é tão mau assim. Mas não quero levar um tiro. Não quero e não vou. Não é justo.”

Não tinha consciência do esforço que fazia, mas uma dor fina no pulso lhe dizia que estava tentando soltar as mãos. Concentrou-se naquela luta, como um errante admirando a proeza de um malabarista, sem muito interesse no resultado. Que esforço sensacional! Que força magnífica, sobre-humana! O empenho era impressionante. Muito bem! A corda soltou-se. Seus braços separaram-se, flutuando em direção à tona, as mãos como sombras de um lado e outro, que mal podia enxergar na luminosidade crescente. Ele as olhou com interesse renovado à medida que, primeiro uma, depois a outra, elas buscaram o nó que apertava seu pescoço. Afrouxaram-no, abrindo-o, as ondulações da corda lembrando as de uma cobra d'água.

"Ponham-na de volta!", gritou para as mãos em pensamento, pois assim que o nó se desfez ele foi assaltado pela dor mais cruciante que jamais experimentara. O pescoço lhe doía horrivelmente. Seu cérebro estava em fogo. E o coração que antes batia manso de repente deu um salto, parecendo a ponto de sair-lhe pela boca. Todo seu corpo foi varrido e sacudido por uma angústia insuportável. Mas as mãos desobedientes não atenderam a seu comando. Batiam na água com vigor, em movimentos rápidos, para baixo, forçando-o rumo à superfície. Até que sentiu a cabeça emergir. A luz do sol cegou-o. Sentiu o peito expandir-se em convulsões e, em suprema agonia, seus pulmões sorveram uma enorme golfada de ar, que ele expeliu no mesmo instante, com um grito agudo. Agora tinha total controle dos sentidos físicos. Na verdade, eles estavam extraordinariamente aguçados e em alerta.

Diante da brutal agressão ao organismo, algo acentuara e refinara seus sentidos a ponto de eles lhe mostrarem coisas que antes não era capaz de perceber. Observava as ondas do rio junto a seu rosto, ouvindo o bater de cada uma delas. Olhava para a floresta além da margem e via árvore por árvore com suas folhas, assim como os veios em cada uma dessas folhas. Via até mesmo os insetos sobre elas: as cigarras, as moscas com seus corpos brilhantes, as aranhas cinzentas espalhando suas teias de um ramo a outro. Notava o prisma das cores nas gotas de orvalho sobre um milhão de lâminas de relva. E o zumbido dos mosquitos que dançavam sobre a tona, o bater das asas das libélulas, o choque das patas das aranhas-d'água, como remos que impulsionassem seus barcos — e tudo isso lhe soava claro como música. Lá se ia um peixe deslizando no fundo e ele podia ouvir o ruído de seu corpo fendendo as águas.

Chegara à superfície de frente para a correnteza. Por um instante, o mundo visível parecera girar a uma velocidade muito lenta, sendo ele seu ponto central. E ele via a ponte, a fortaleza, os soldados sobre a ponte, o capitão, o sargento, os dois paramilitares, seus executores. Via apenas suas silhuetas contra o céu. Gritavam e gesticulavam, apontando para ele. O capitão tinha empunhado a pistola, mas não atirara. Os outros estavam desarmados. Seus movimentos eram grotescos, terríveis, suas formas gigantescas. De repente, ouviu um estampido agudo e um projétil atingiu a água a poucos centímetros de sua cabeça, borrifando-lhe o rosto. Veio um segundo estampido e ele viu um dos sentinelas com o rifle ao ombro, enquanto uma nuvem de fumaça azulada subia do cano da arma.

Da água, pôde ver os olhos do homem na ponte encarando-o, por trás da mira. Notou que ele tinha olhos cinzentos e lembrou-se de já ter ouvido falar que olhos assim são os mais espertos e que homens de grande pontaria costumam ter olhos dessa cor. E, no entanto, aquele acabara de errar. Um rodamoinho envolvera Farquhar e ele agora estava de lado para a ponte. De frente para a floresta que ficava na margem oposta à fortaleza. E o som claro, alto, de uma voz entoando uma melodia monocórdia, chegava a seus ouvidos vindo de trás, cruzando a água com tanta nitidez que sobrepujava todos os outros sons, até mesmo a batida das ondas em seu rosto.

Embora não fosse soldado, ele já frequentara os acampamentos e conhecia o terrível significado daquele canto arrastado, entoado com força e deliberação. O tenente, na margem, fazia sua parte no trabalho da manhã. Ditas com toda a frieza, sem piedade — com uma entonação que era calma, serena, agourenta, mas que infundia tranquilidade na tropa —, a intervalos bem medidos, ele ouviu aquelas palavras cruéis: "Atenção, companhia!... Preparar!... Apontar!... Fogo!”

E Farquhar mergulhou. Mergulhou o mais fundo que pôde. A água borbulhava em seus ouvidos como as vozes do Niágara e ainda assim ele ouvia o ruído surdo das rajadas. Ao retornar à superfície, pôde ver as cápsulas de metal, significativamente achatadas, que, brilhantes, desciam correnteza abaixo. Algumas chegaram a tocar-lhe o rosto e as mãos, depois se foram, seguindo seu curso. Uma delas alojou-se entre seu pescoço e a gola da camisa. Sentindo, com um arrepio, que ainda estava quente, atirou-a longe.

No instante em que chegou à tona, em busca de ar, notou que ficara muito tempo debaixo d'água. Encontrava-se muito longe rio abaixo — onde era mais seguro. Os soldados estavam quase acabando de recarregar as armas. Viu as varetas todas brilhando ao sol à medida que eram retiradas dos barris, viradas no ar e introduzidas nos soquetes. Os dois sentinelas dispararam de novo, por conta própria, mas sem sucesso. O homem caçado observava tudo isso por cima do ombro. Nadava agora com todo o vigor, correnteza abaixo. Seu cérebro estava tão aguçado quanto seus braços e pernas.

Raciocinava na velocidade da luz. "O oficial", pensou, "não vai cometer um erro outra vez por excesso de zelo. Dá na mesma esquivar-se de uma rajada de tiros ou de um tiro só. Com certeza ele já deu ordens para que cada um atire à vontade. Deus me ajude, pois não vou conseguir escapar de todos eles!” Foi sacudido por um choque na água a menos de dois metros de onde estava, seguido de um estrondo violento, que foi decrescendo como se ricocheteasse e cruzasse o ar de volta em direção à fortaleza, até morrer com uma explosão que fez todo o rio estremecer. Uma coluna d'água ergueu-se, encobrindo-o, e depois despencou sobre ele, cegando-o, sufocando-o. O canhão entrara no jogo.

Ao sacudir a água que lhe encharcava a cabeça ouviu o zumbido da bala rompendo o ar acima dele, e em seguida seu impacto contra os galhos da floresta mais além, que se despedaçaram. "Não vão fazer isso de novo", pensou. "Da próxima vez vão usar uma carga de balim. Preciso ficar de olho nesse canhão. A fumaça vai me alertar porque o estampido chega tarde demais. É posterior ao projétil. É uma arma e tanto.”

De repente, sentiu-se envolver por um rodamoinho, todo ele rodando e rodando como um pião. A água, as margens, a floresta, a ponte agora distante, a fortaleza e os soldados — tudo se confundia, num borrão. Os objetos eram perceptíveis apenas por sua cor. Traços circulares e horizontais de cor — era tudo o que via. Fora apanhado num turbilhão, girando e rodopiando a uma velocidade cada vez maior, que o deixava tonto, enjoado. Em instantes, foi atirado contra o cascalho ao pé da margem esquerda do rio — no lado sul — e atrás de uma ponta que o abrigava dos inimigos.

A súbita parada e a aspereza do cascalho na palma da mão de repente o fizeram despertar, e ele chorou de alegria. Enterrou os dedos na areia, atirando-a sobre o próprio corpo enquanto agradecia em voz alta. Aquela areia era para ele como se feita de diamantes, rubis, esmeraldas. Tudo o que era belo parecia-se com ela. As árvores sobre a margem eram um gigantesco jardim. E ele notou que as plantas ali estavam compostas como se num arranjo, ao mesmo tempo que inalava seu perfume. Uma luz estranha, rosada, brilhava no espaço entre os troncos e o vento, em seus galhos, produzia a melodia de uma harpa.

Já não queria fugir — estaria satisfeito em ficar naquele lugar encantador até ser recapturado. Um zumbido e um martelar por entre os galhos, acima de sua cabeça, despertaram-no de seu sonho. O artilheiro frustrado fazia novo disparo a esmo.

Farquhar pôs-se de pé e saiu correndo em direção à margem escarpada, penetrando na floresta. Durante todo o dia caminhou, guiando-se pelo sol. A floresta parecia interminável. Em nenhum ponto encontrou uma só clareira, uma só trilha de lenhadores. Não sabia que vivia numa região de mata tão fechada. E havia nessa revelação qualquer coisa de sobrenatural. Quando a noite caiu, estava exausto, faminto, com os pés feridos. Mas quando pensava na mulher e nos filhos, sentia-se encorajado a prosseguir.

Finalmente deu numa estrada que o levou na direção que ele sabia ser a certa. Era larga e reta como a rua de uma cidade e contudo parecia não ter sido jamais trilhada. Não havia fazendas em suas margens, nem sinal de qualquer atividade. Nem mesmo o latido de um cão sugerindo que o lugar era habitado por humanos. Apenas o corpo negro das árvores formando uma muralha, de ambos os lados, desaparecendo em algum ponto no horizonte, como o desenho de uma lição de perspectiva. No alto, quando ele olhava através das copas das árvores, via o brilho de gigantescas estrelas cor de ouro, que lhe pareciam estranhas e agrupadas em constelações desconhecidas. Tinha certeza de que formavam um padrão cujo significado era secreto e maligno. E a floresta, de um lado e outro, emitia ruídos singulares, entre os quais — uma, duas, várias vezes — pôde distinguir sussurros numa língua que jamais ouvira.

Seu pescoço doía e ao passar a mão nele viu que estava horrivelmente inchado. Sabia que tinha um círculo escuro no lugar onde a corda o ferira. Seus olhos estavam congestionados. Já não conseguia fechá-los. A língua inchara de tanta sede. Procurou aliviar a febre botando a língua para fora por entre os dentes e buscando o contato com o ar frio. A relva macia cobrira de tal forma a estrada deserta que ele já não sentia o chão sob seus pés. Com certeza, apesar de todo o sofrimento, adormeceu enquanto caminhava, pois agora via outro cenário — ou talvez tivesse acordado de um delírio.

Está de pé diante do portão de sua própria casa. Tudo continua como ele deixou, brilhando com beleza à luz do sol da manhã. Deve ter caminhado durante toda a noite. Assim que empurra o portão e atravessa a calçada larga e branca, percebe um ondear de saias femininas. É sua esposa, parecendo tão fresca, tão calma e tão doce que desce os degraus da varanda para encontrá-lo. Ao pé do degraus ela pára, esperando, com um sorriso de imensa alegria, com graça e dignidade incomparáveis. Ah, como é bela E ele corre, com os braços estendidos.

Quando está a ponto de abraçá-la sente uma violenta pancada na nuca. Uma luz branca, capaz de cegar, explode à sua volta com um som que se assemelha ao tiro de um canhão — e depois é tudo escuridão e silêncio.

Peyton Farquhar estava morto. Seu corpo, com o pescoço quebrado, balançava lentamente de um lado para outro por entre os dormentes da ponte de Owl Creek.


Visões da Noite / Ambrose Bierce; organização e tradução Heloísa Seixas; ilustrações Mozart Couto. - Rio de Janeiro: Record, 1999.

Numa Noite de Verão


O fato de estar enterrado não parecia provar a Henry Armstrong que ele tivesse morrido: sempre fora um homem difícil de convencer. Que ele estivesse realmente enterrado o testemunho de seus sentidos o levava a admitir. Sua postura – deitado de costas, as mãos cruzadas sobre o estômago e atadas com alguma coisa que ele partiu facilmente, sem melhorar muito a situação –, o confinamento estrito de toda a sua pessoa, a escuridão negra e o silêncio profundo, tudo isso compunha um corpo de evidência impossível de contradizer; e ele o aceitava sem objeção.

Mas morto – não. Ele estava apenas muito, muito doente. E tinha, além disso, a apatia dos inválidos, sem se preocupar demais com o destino incomum que lhe fora reservado. Não era filósofo – apenas uma pessoa ordinária e rasa, dotada, naquele momento, de uma indiferença patológica: o órgão do qual temia conseqüências estava entorpecido. Assim, sem nenhuma apreensão particular quanto ao seu futuro imediato, dormiu, e tudo estava em paz com Henry Armstrong.

Mas alguma coisa se passava logo acima. Era uma noite escura de verão, rasgada por clarões ocasionais de relâmpagos que dardejavam contra uma nuvem baixa, a oeste, anunciando tempestade. Essas iluminações breves, balbuciantes, faziam aparecer, com nitidez espectral, os monumentos e as lápides do cemitério, tal como se os colocasse para dançar. Não era uma noite em que uma testemunha qualquer pudesse, de modo crível, perambular por ali, de modo que os três homens que lá apareceram, a cavar o túmulo de Henry Armstrong, se sentiam razoavelmente seguros.

*

Dois deles eram estudantes da faculdade de medicina, que ficava algumas milhas adiante. O terceiro era um negro gigantesco, chamado Jess. Por muitos anos, Jess tinha sido empregado no cemitério como uma espécie de faz-tudo, e era o seu bordão favorito dizer que conhecia “todas as almas do lugar”. Pela natureza do que estava a fazer agora, inferia-se que o lugar não era tão populoso quanto o registro o teria demonstrado.

Do lado de fora do muro, numa parte distanciada da estrada pública, estavam um cavalo e uma carroça a esperar.

O trabalho de escavação não era difícil: a terra com que o túmulo fora coberto poucas horas antes oferecia pouca resistência, sendo logo retirada. Remover o esquife de dentro do nicho foi menos fácil, mas não impossível, pois se tratava de uma habilidade de Jess, o qual desparafusou a tampa com cuidado e a colocou de lado, expondo o corpo com suas calças pretas e a camisa branca. Nesse exato instante o ar se inflamou, o estrondo ensurdecedor do trovão abalou o mundo, e Henry Armstrong se sentou tranquilamente. Com gritos inarticulados, os homens fugiram de pavor, cada um numa direção. Por nada no mundo dois deles teriam sido persuadidos a retornar. Mas Jess era de outra têmpera.

*

No lusco do amanhecer, os dois estudantes – pálidos e exaustos do terror e da ansiedade causados pela aventura precedente, que ainda latejavam tumultuários em seu sangue – se encontraram na faculdade de medicina.

– Você viu? – gritou um deles.

– Meu Deus, sim! Que vamos fazer?

Foram até os fundos do edifício, onde viram um cavalo atrelado a uma carroça e amarrado a um mourão junto à porta da sala de dissecação. Entraram mecanicamente no cômodo. Sentado num banco, oculto pela obscuridade, estava Jess. Levantou-se, sorrindo, todo olhos e dentes.

– Estou esperando pelo meu pagamento – disse.

Estendido nu sobre uma mesa comprida jazia o corpo de Henry Armstrong, a cabeça lambuzada pelo sangue e pela lama de uma pazada.


Um conto de Ambrose Bierce (Tradução: Renato Suttana)
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