quarta-feira, 6 de abril de 2016

Extraterrestres Ameaçadores


No dia 3 de maio de 1975, Carlos Antonio de los Santos Montiel sobrevoava a Cidade do México, quando seu avião Piper PA-24 começou a balançar sem motivo aparente. Alguns momentos depois, o jovem piloto percebeu um objeto cinza-escuro em forma de disco, com pouco mais de 3 metros de diâmetro, perto da ponta da asa direita do avião. Objeto voador similar estava seguindo-o pela esquerda.

No entanto, o mais assustador de tudo é que um terceiro objeto vinha direto em sua direção. O OVNI passou tão rente sob o avião que chegou a riscar a parte inferior da fuselagem.

Carlos Antonio sentiu um medo muito grande, e o terror aumentou ainda mais quando descobriu que os controles do aparelho pareciam estar emperrados. Ele não conseguia operá-los, porém, por estranho que possa parecer, o avião continuou voando normalmente a 190 quilômetros por hora.

Quando os objetos voadores saíram de seu campo de visão, o piloto reassumiu o controle do avião. No mesmo instante, ele transmitiu uma mensagem pelo rádio ao aeroporto da Cidade do México, e chegou a chorar quando relatou o sucedido.

O pessoal da torre de controle levou a sério as informações, porque eles captaram os objetos na tela do radar.

- Os objetos fizeram uma curva de 270 graus a 833 quilômetros por hora, em um arco de apenas 5 quilômetros - revelou o controlador de tráfego Emílio Estanol aos repórteres. - Normalmente, um avião voando a essa velocidade precisa de 12 a 16 quilômetros para fazer uma manobra como essa. Em meus dezessete anos como controlador de tráfego, nunca vi coisa igual.

Depois de pousar em segurança, Carlos Antonio foi examinado por um médico, que o considerou apto. Mas em breve o piloto viria a saber que o sofrimento ainda não terminara.

Sua experiência ganhou a primeira página dos jornais mexicanos e, duas semanas mais tarde, Carlos Antonio, jovem de 23 anos de idade, cuja única ambição na vida era ser piloto de avião de passageiros, foi convidado a participar de um programa de entrevistas na televisão, para falar sobre sua experiência. Embora relutantemente, ele aceitou.

No dia em que seria entrevistado, Carlos Antonio seguia de carro pela estrada, a caminho da televisão. De repente, viu um grande automóvel preto - pensou que fosse a limusine de algum diplomata - cortar a frente de seu carro. Quando olhou pelo espelho retrovisor, notou um carro idêntico que vinha logo atrás. Os dois carros, tão novos que pareciam estar sendo dirigidos pela primeira vez, forçaram-no a sair da estrada.

Assim que parou, os outros dois carros também estacionaram. Carlos Antonio estava para sair do veículo, quando quatro homens altos, musculosos, abriram as portas de suas máquinas e se aproximaram. Um deles colocou as mãos na porta do carro do jovem piloto, como que para assegurar-se de que ele não poderia sair. O homem falou rapidamente, com sotaque estranho, quase "mecânico":

- Escute aqui, rapaz - disse o homem em espanhol -, se você dá valor à sua vida e à de sua família também, não fale mais nada sobre o que viu.

Carlos Antonio, extremamente assustado, limitou-se a observar os quatro homens, de aparência "escandinava", com a pele inusitadamente pálida e ternos pretos, que retornaram a seus carros e afastaram-se dali. Ele fez a volta na estrada e retornou para casa.

Dois dias mais tarde, o jovem piloto contou a história a Pedro Ferriz, o apresentador do programa de televisão em que seria entrevistado. Ferriz, aficionado da ufologia, disse que já ouvira outras declarações a respeito de estranhos "homens vestidos de preto" que ameaçavam testemunhas de OVNIs. Ele assegurou a Carlos Antonio que, a despeito das ameaças, não corria perigo. Com o passar do tempo, persuadiu-o a participar de outra entrevista, que transcorreu normalmente.

Um mês mais tarde, o entusiasta da aviação conheceu o dr. J. Allen Hynek, astrônomo da Northwestern University, que trabalhara como consultor para assuntos científicos relativos a OVNIs para a Força Aérea dos EUA. Os dois conversaram e, antes de se despedir, Hynek convidou-o a tomar café com ele na manhã seguinte.

Às 6 horas, Carlos Antonio saiu de casa e seguiu em direção ao escritório da Mexicana Airlines, onde já havia preenchido uma ficha de solicitação de emprego. Em seguida, foi ao hotel onde Hynek estava hospedado.

Quando subia a escada, o jovem piloto ficou surpreso ao ver um dos homens de preto que o haviam forçado a sair da estrada, quatro semanas antes.

- Você já foi advertido uma vez - sussurrou o homem - de que não deve falar sobre a experiência. - Como que para reforçar a seriedade da ameaça, ele empurrou-o. - Olhe - acrescentou -, não quero que se envolva em problemas. E por que você saiu de sua casa às 6 horas esta manhã? Trabalha, por acaso, para a Mexicana Airlines? Saia já daqui, e não volte!

O rapaz saiu imediatamente, sem se encontrar com Hynek. Recordando tais eventos dois anos mais tarde, Carlos Antonio declarou a dois investigadores americanos de OVNIs:

- Aqueles homens eram muito estranhos. Grandes, mais altos do que os mexicanos, e com a pele muito branca, como se estivessem mortos.


Fonte: Livro «O Livro dos Fenômenos Estranhos» de Charles Berlitz

Fantasmas da Mente

Alexandra David-Néel, pseudônimo de Louise Eugénie Alexandrine Marie David (Paris, França, 24/10/1868 — Digne-les-Bains, 08/09/1969), escritora espiritualista, budista, anarquista, reformadora religiosa e exploradora.

Sabemos que a mente pode criar seus próprios fantasmas, mas o que sabemos sobre sua capacidade de projetar essas imagens no mundo exterior, além dos limites do cérebro? E o que acontece quando a projeção mental adquire vida própria?

A estranha experiência de madame Alexandra David-Neel responde, de certa forma, a essas questões. Ela, que viveu até a idade de 101 anos, foi uma das muitas mulheres do Império Britânico que viajaram sozinhas para o misterioso Oriente e deixaram relatos escritos das viagens.

Alexandra não só viajou por grande parte do primitivo Tibete do século 19, como também seguiu meticulosamente a religião e os ensinamentos dos lamas budistas com os quais conviveu. Seu ritual mais surpreendente envolveu a criação do que os tibetanos chamavam de tulpa, ou fantasma gerado pela mente. Os lamas a advertiram de que esses "filhos de nossa mente" podiam, algumas vezes, ficar perigosos e incontroláveis, porém ela persistiu na experiência.

Longe de todos, Alexandra se fechou e começou a se concentrar, após haver estabelecido como alvo de sua tulpa a imagem de um monge gordo e de baixa estatura.

- Um homem do tipo inocente e alegre - de acordo com suas próprias palavras.

Depois de conseguir um resultado surpreendente, ela começou a tratar o novo "companheiro" como qualquer pessoa humana em seu apartamento.

Quando madame Alexandra saía para cavalgar, o monge etéreo a acompanhava. Da sela, ela olhava por cima do ombro e via o tulpa.

- Ele se dedicava a várias ações comuns aos viajantes, que eu não ordenara.

Como resultado das experiências, outras pessoas que entravam em contato com Alexandra começaram a ver o monge, confundindo-o com um ser vivente. Nesse ponto, seu tulpa modificou-se completamente, e para pior. As feições dele tornaram-se malignas. No entanto, quando ela decidiu eliminar o monge da mente, a erradicação demonstrou ser quase tão difícil quanto a criação original.

Em seu livro "Magic and Mystery in Tibet" (Magia e Mistério no Tibete), Alexandra David-Neel relata os seis meses de luta árdua que se seguiram, antes que aquele monge, fruto de sua própria imaginação, pudesse finalmente desaparecer.

- Não há nada de estranho no fato de eu ter criado minha própria alucinação - concluiu Alexandra. - O mais interessante é que, nesses casos de materialização, outras pessoas conseguem ver os fantasmas da mente.


Fonte: Livro «O Livro dos Fenômenos Estranhos» de Charles Berlitz

O Sonho da Sra. Wragg


Grandes calamidades já foram previstas em sonhos. Visões noturnas também já salvaram vidas, inclusive a do capitão Thomas Shubrick, cujo navio zarpou de Charleston, Carolina do Sul, em direção a Londres, em 1740.

Shubrick mal saíra do porto quando enfrentou uma terrível tempestade. O vento soprava com tanta violência que amigos e parentes em Charleston começaram a orar pela sobrevivência dos tripulantes. Não havia esperança de que o navio conseguisse voltar ileso ao porto.

Mas naquela noite a mulher de um dos amigos mais íntimos de Shubrick, uma certa sra. Wragg, teve um sonho em que viu o capitão vivo e agarrado a destroços flutuantes. A visão comoveu-a de tal forma que ela insistiu com o marido para que liderasse uma patrulha de busca e salvamento. Um pequeno barco foi lançado ao mar, porém os ocupantes retornaram de mãos vazias.

O sonho repetiu-se uma segunda vez, e a patrulha de resgate voltou novamente sem sucesso. Quando o sonho aconteceu pela terceira vez, a sra. Wragg implorou para que o marido tentasse de novo. Na viagem final, o capitão Shubrick e outro marujo exausto foram resgatados. Eles estavam agarrados a um destroço do navio naufragado. A persistência foi compensada, assim como o sonho contínuo da sra. Wragg.


Fonte: Livro «O Livro dos Fenômenos Estranhos» de Charles Berlitz

Congresso dos Anticristos


Davi era diferente. Desde criança, havia uma crueldade naquele menino, um ódio no olhar, maldade nas ações.

No jardim de infância, ele decepou o dedo dum colega com estilete; na primeira série, furou o olho duma menina com um lápis; na terceira série, enfiava ratos mortos nas bolsas das professoras. Passagens pela polícia, diretoria e conselho tutelar foram inúmeras.

Joana, sua mãe, não sabia a quem mais recorrer, visitou psicólogos, padres e a cinta lambia a bunda do menino quase que diariamente.

Numa manhã, Davi despertou Joana.

— Mãe, temos de viajar.

— Para onde, Davi?

— Para o sul — a voz sombria revelou.

— Não vamos a lugar algum.

Mas Davi infernizou tanto que convenceu sua mãe. Arrumaram as malas e embarcaram no carro, rumo ao sul.

Treze dias depois, chegaram a um galpão, onde dezenas de automóveis estavam estacionados.

— É aqui — Davi anunciou.

Entraram no galpão, todo decorado em negro e vermelho, uma cruz invertida sobre um palco, figuras de Satanás por todo lado. A mãe se assustou:

— O que é isto, Davi?

— Meu pai me chamou.

Davi descobriu, porém, que seu pai era pai de muitos. Filhos de Satanás? Mais de uma centena, de recém-nascido a idosos, todos congregados naquele culto satânico.

O menino se enfureceu. Só podia haver um anticristo, esta era a profecia, apenas um podia ser o filho do diabo. Como é que Satanás podia ser tão egoísta, tão fértil? Deveria respeitar as predições, existentes desde tempos imemoriais.

Davi roubou o isqueiro dum velho bigodudo, foi até a coxia do galpão e ateou fogo em papéis e tecidos. Por fim, deixou o recinto, trancou as portas e ordenou a sua mãe que fossem embora.

Enquanto o carro se afastava, a fumaça se erguia do galpão.

— O que é aquilo? — Joana cuidava pelo retrovisor.

— Sou filho único agora — Davi ria.

Nova York
19/08/2007


Fonte: Fantasmas, Vampiros, Demônios e histórias de outros Monstros — Henry Alfred Bugalho — Oficina Editora, 2013.

Os Estranhos Habitantes de Soledad


A família sempre reputou minha tia-avó como louca. Mas família é família, e se faz necessário encontrar um bode-expiatório, determinar quem é a ovelha negra. Assim, tem-se farto material para fofocas quando há reuniões familiares, e o comportamento misantropo de Joaquina só favorecia esta situação.

Talvez ela fosse realmente louca, ou apenas excêntrica. A verdade é que ela — por opção? — nunca havia se casado; uma aberração, se comparada às irmãs, que não apenas se casaram, como botaram no mundo dúzias de filhos, redundando em uma centena de netos.

Joaquina lutou pelos direitos da mulher na juventude, organizou grupos de teatro, redigiu manifestos contra o Estado Novo, foi presa, apanhou, opôs-se à Guerra Mundial e à exploração da classe trabalhadora, foi exilada no Chile e, quando retornou, finalmente obteve reconhecimento em sua carreira literária com obras de cunho feminista, se se procurar, é possível encontrar o nome dela na listagem dos Mais Vendidos da VEJA , durante o mês de setembro, em meados dos anos 80.

Com o dinheiro dos livros, Joaquina comprou um terreno no interior e construiu uma mansão. Convidou-me várias vezes para visitá-la, tinha-me em grande consideração (porém, a recíproca não era verdadeira), mas sempre encontrei escusas para me eximir da obrigação.

Mensalmente, ela me escrevia uma carta, perguntando-me como eu estava e repreendendo-me pela demora em lhe corresponder. Como um fardo, eu me forçava a mandar um cartão de felicitações nos Natais e nos aniversários dela; contudo, nos últimos cinco anos, negligenciei até esta obrigação, mas as cartas de Joaquina nunca falharam. Depois de um tempo, nem abri-las mais eu abria. Entretanto, após o falecimento dela, aos noventa e três anos, eu me arrependi da indiferença que dispensei a ela e reli todas as cartas, que reunidas, comporiam facilmente um livro.

A minha surpresa foi quando o testamenteiro de Joaquina bateu à minha porta, informando-me de que minha tia-avó havia me legado a mansão no interior, com todos os móveis nela contidos. Minha esposa ficou particularmente entusiasmada, mas este presente de grego me preocupou. Provavelmente, a habitação deveria estar em estado lastimável, já que Joaquina vivia uma vida de reclusão eremítica, não deveria conter nada de valor, e ainda teríamos de arcar com os custos legais para transferência da propriedade para meu nome, pagar imposto, sem sabermos se recuperaríamos este dinheiro com a venda da herdade.

Perfizemos os trâmites legais e eu já estava pronto para anunciar a venda do casarão, mas minha esposa insistiu para que eu fosse até lá e visse o que ela continha, crente de haver algo de nosso interesse. Aquiesci, afinal de contas, eu estava de férias e ainda faltavam dez dias para retornar ao trabalho, mas Elisa não poderia ir comigo, era época de provas finais no colégio e ela estava atolada com o fechamento dos livros-de- chamada.

A viagem era longa, Joaquina desejava realmente se esconder. Perdi-me várias vezes nas estradas de terra e, quando parava para pedir informação a algum carroceiro, a resposta era que deveria seguir adiante.

Finalmente, encontrei a tabuleta, despencando da cerca, com o nome da fazenda: Soledad.

Melhor nome não havia, pois, o casebre mais próximo ficava distante umas duas horas.

O casarão tinha dois andares e um ático, depois descobriria que havia também um porão. Como já esperava, o lugar estava entulhado de quinquilharias, com espaço restrito até para um magro como eu me movimentar. Mexi em algumas pilhas de coisas, abri armários, gavetas, nada que prestasse.

Tentei ligar para Elisa e dizer que já estava retornando, mas este fim-de-mundo era tão fim-de-mundo que nem celular funcionava. É óbvio que eu não poderia contar que houvesse telefone no casarão, muito menos conexão de banda-larga.

As nuvens carregadas me inquietaram, se desabasse a chover, o meu Gol não conseguiria ir muito longe com aquelas estradas em péssima condição. Cumprindo o meu temor, quando havia dirigido por menos de um quilômetro, começou um temporal e a estrada se tornou intransitável.

Um capiau num trator me ajudou a desatolar o carro e retornei o mais rápido que pude ao casarão desabitado, sob um aguaceiro sem precedentes e raios caindo por todos os lados.

Outra bela surpresa a casa me reservava, com a morte da moradora, a energia havia sido cortada, então, estava eu, nunca casa abandonada, anoitecendo, e sem poder sair dali. Aproveitei o resquício de claridade do dia para procurar por velas e fósforos, e consegui encontrá-los na cozinha. Depois, puxei uma cadeira até o alpendre e fiquei observando a chuva até escurecer.

Não havia muito a ser feito e meu suprimento de velas era escasso, apenas cinco; com este pequeno lume percorri a habitação à procura dum quarto. No segundo andar, descobri o que deveria ter sido o aposento de Joaquina. Eu não acreditava em almas penadas, mas ver a cama desfeita, na penumbra, e a porta do guarda-roupas aberta me perturbou. Imaginei até que a cama desarrumada estivesse assim porque Joaquina havia morrido dormindo, e o armário aberto porque tiveram de escolher uma roupa para sepultá-la.

Recusei-me a dormir ali. Vaguei pelos outros cômodos, mas aquela era a única cama na casa, portanto, eu seria obrigado a voltar para lá e me conformar.

O meu plano era ir e voltar para cidade no mesmo dia, por isto, eu só estava com a roupa do corpo, e este foi o meu pijama. Jantei o resto dum sanduíche que comprei na estrada, escovei os dentes com o dedo mesmo, assoprei a vela e tentei dormir.

Mas a chuva pesada na janela e o vento a gemer lá fora me despertavam a todo o momento. Numa das vezes que acordei, tive a impressão de haver visto uma silhueta, mãos apoiadas no batente da janela, braços esquálidos, cabelos brancos, olhando para fora. Eu torcia para fosse mera impressão.

Posteriormente, por volta de uma da manhã, escutei barulhos vindo dos andares inferiores. Era como se arrastassem móveis, abrissem e fechassem janelas, passos, risos, tosses.

Eu tremia sob o lençol, tal qual quando eu era criança e minha prima me contou que havia visto o pai morto, e, à noite, eu não conseguia parar de pensar nisto, fantasiando a figura do meu tio, crânio esfacelado por causa do acidente de carro, fitando-me como quem procura ajuda.

Oprimido por minha agonia e medo, juro que ouvi um sussurro:

— Que bom que você veio, Pedro. Esperei tanto tempo por isto...

E uma mão gelada se encostou na minha, com ternura, mas que me deixou em pânico. Saltei da cama, mas pouco podia ver na escuridão. Estava com medo de me aproximar do criado-mudo para pegar a caixa de fósforos; medo de que, quando eu estendesse minha mão, aquela outra mão gélida me tocasse novamente.

— Quem está aí? — resmunguei, mas implorava para que não viesse resposta — Quem está aí?

Lembrei-me do celular. Apertei um botão e ele se iluminou, luzinha fraca, mas o suficiente para me certificar de que não havia ninguém na cama.

Apanhei os fósforos e acendi a vela.

Os ruídos vindo debaixo cessaram.

Não sou machão; não sou daquelas pessoas que, quando têm um problema na frente, matam no peito e seguem adiante. Na verdade, aquela situação inusitada estava me sufocando, quase me controlava para não cagar nas calças, é sério!

Mas eu já havia percebido que, naquela noite, eu não teria sossego. Talvez fossem ratos andando pela casa, o que não diminuía o asco, mas me consolava do medo. Desci vagarosamente a escada e cheguei ao primeiro andar. Nada diferente atraiu minha atenção. Desci também para o térreo, também nada. Pensei que poderia dormir no carro, desconfortável, mas não teria ratos por perto.

Esta havia sido a melhor ideia da noite, quando estava quase na porta, ouvi ruídos no porão. Eu precisava confirmar o que era; se fosse embora pensando ter sido assombrado por fantasmas, que aquela mão me tocando fosse de Joaquina, eu nunca mais teria uma noite tranquila na vida. Era necessário eu provar para mim mesmo que eram ratos, ou alguma outra explicação racional.

Abri a portinhola que dava para o porão, de lá, vinham risos, gemidos, sussurros. Certamente, não eram ratos. Minhas pernas fraquejavam, as mãos trêmulas, garganta seca e olhos ardendo, com vontade de chorar. Degrau a degrau, desci, aos poucos iluminando a câmara. Os risos, murmúrios e gemidos se silenciaram, quem quer que estivesse ali embaixo havia me ouvido descendo. Quando a vela iluminou parte do porão, vi minha tia-avó esfaqueando um homem. Não era fisicamente ela, era quase uma névoa. Ao lado dela, pessoas observavam, numa espécie de ritual de tortura, ou execução, ou sadomasoquismo. Perdi as forças e deixei a vela cair e se apagar.

Completamente no escuro, meu coração quase me afogando de tão forte que batia, os risos recomeçaram com maior força, os gritos se tornaram ensurdecedores, a voz de Joaquina berrando:

— Meu querido Pedro finalmente veio! Também quer participar!

É óbvio que eu não queria participar, independente do que fosse que aquelas aberrações estivessem fazendo, tropeçando, ofegante, engatinhando quase, subi a escada do porão e cheguei à cozinha. Então, esbarrando em tudo que havia no caminho, alcancei a porta de entrada, atravessei a varanda e, mergulhando no temporal, corri para o automóvel.

Enquanto dava ignição, percebi que, na janela do quarto no qual eu estava, no segundo andar, uma mulher apareceu, apoiou os braços no batente e, após alguns segundos, acenou para mim.

Dei a ré no carro, atingindo uma cerca e, depois, em desespero, dirigi pela estrada enlameada, afundando o Gol no barro, derrapando nas curvas, fugindo do inexplicável.

Perdi o controle da direção após uma meia hora, voando para fora da estrada, e desaparecendo no matagal. Chorava, calça mijada, em completo descontrole emocional.

Quando amanheceu, a chuva havia dado uma trégua. Caminhei pela estrada uns bons quilômetros, peguei carona num pau-de-arara e, já na beira da rodovia, liguei para minha esposa, quase implorando por ajuda.

Todo mundo riu da minha experiência. Na família, descrentes, zombaram de mim, dizendo que, se alguém um dia virasse assombração, só poderia ser a Joaquina mesmo.

Resolvi vender o terreno, mas demolir a casa primeiro. Não desejava que outra pessoa passasse pelo mesmo desespero que eu. Porém, um funcionário da empresa de demolição me ligou enraivecido, xingando-me por ter pregado um trote neles, pois eles haviam se metido no meio do nada e não havia casa alguma para ser demolida.

De cagão, minha reputação passou a ser de mentiroso e de lunático.

Mas, um dia, eu crio coragem e volto a Soledad, para confirmar a existência daquela casa maldita, habitada por seres malditos.

Nova York
26/07/2007


Fonte: Fantasmas, Vampiros, Demônios e histórias de outros Monstros — Henry Alfred Bugalho — Oficina Editora, 2013.

O Caso Romero


Eu percebi que você andava estranho, meu filho, quando você parou de sair de seu quarto, ficava o dia inteiro diante do computador, não queria comer, não queria mais conversar comigo, mal dormia, havia se recolhido a um desconhecido mundo interior.

Depois, fiquei sabendo que os filhos de amigos meus também passavam por isto, mas já era tarde demais. Numa manhã de domingo, despertei ao ouvir sua mãe engasgando ao meu lado na cama. Vi você com as mãos esticadas, estrangulando-a, olhar vidrado e boca escancarada. Parecia que havia sido dominado por alguma entidade diabólica, nem lembrava o meu filho querido, a quem eu tanto amava e havia criado debaixo do mesmo teto por dezessete anos. Só de pensar que você iria para a universidade em poucos meses meus olhos já se enchem de lágrima.

Tentei libertar sua mãe da sua fúria, mas você era muito mais forte do que eu. E ela já estava morta, assim, você avançou contra mim, com os braços estendidos, lutamos, você me jogou contra a parede e tentou me morder, mas consegui escapar, trancando-o no quarto. Podia ouvir sua respiração do outro lado e você se chocando contra a porta fechada, como um robozinho de brinquedo que encontra um obstáculo.

Naquele mesmo dia, tal qual uma obra orquestrada, milhares de outros jovens mataram seus pais e mães, seus irmãos e as irmãs, seus colegas de quarto, seus companheiros de trabalho, suas esposas ou maridos, suas namoradas e seus amigos.

Eles foram presos ou internados em hospitais psiquiátricos, mas, na semana seguinte, incontáveis outros casos semelhantes se repetiram em outros lares. Para cada rapaz ou moça encarcerado, outros cem apareciam, numa progressão geométrica assustadora.

Ninguém conseguia explicar quais foram as razões porque o mundo foi invadido por esta espécie de zumbis naquele verão. A primeira versão dos canais de comunicação culpava algum tipo de vírus desconhecido, depois que se tratava de alguma arma biológica terrorista, até que pesquisadores passaram a investigar novas hipóteses, como de uma temível droga sintetizada por haitianos, até acusaram um famoso vídeo da internet que supostamente estaria hipnotizando os jovens, fazendo-lhes lavagem cerebral.

O fato é que os ataques começaram simultaneamente nos boroughs afastados de Nova York, nas comunidades hispânicas da Flórida e na periferia de Paris. Depois se espalhou pelo restante dos EUA e Europa e, em julho, já se registrava casos em todos os continentes, com pessoas das mais diversas classes sociais e etnias.

Não ocorreu como se supunha, um retorno de morto-vivos de além da tumba vagando pelas ruas com roupas em frangalhos e membros mutilados. Foi muito mais sutil, bem menos perceptível, quando nos demos conta, o mundo já havia mudado de maneira drástica. Cogito que devia se tratar de alguma patologia psiquiátrica. Se a depressão havia sido a doença do século XX, eu diria que esta zumbificação será considerara a doença dos nossos tempos, isto se a nossa espécie sobreviver.

Alguns psiquiatras batizaram estes incidentes com um nome complicado, mas a mídia os chamava de casos Romero, uma estranha homenagem ao cineasta que consagrou os zumbis em filmes.

A guarda nacional foi acionada e instauraram toque de recolher em muitas cidades americanas, mas a crise parecia não ter solução. A cada dia que passava, mais e mais assassinatos.

Até que em 12 de agosto a situação saiu totalmente de controle. O presidente evacuou a Casa Branca e recomendou que as pessoas se protegessem da melhor maneira possível. Os sobreviventes saquearam lojas de armas e supermercados, muitos lacraram suas casas com tábuas de madeira e arame farpado, muitos evacuaram as metrópoles, mas morreram nas estradas do país atacados por erráticas hordas destes monstros.

Durante todo este tempo, eu e você nos isolamos aqui neste apartamento. Sei que você está doente, por isto não lhe entreguei para a polícia. Quando ouvi sobre os outros casos, concluí que você não tinha culpa, era apenas um rapaz enfermo precisando de ajuda, mas agora que o mundo está no limite do fim, quando somente zumbis vagam pelas ruas, quando a comida está quase acabando, quando eu sei que em breve morrerei aqui sozinho, já não sei mais como reagir.

Amanhã, tentarei deixar o apartamento e rumar para o nosso chalé nas montanhas. Será quase impossível, mas não posso mais ficar aqui. Vou deixar você trancado, pois, se alguém encontrar a cura para esta maldição, juro que retornarei para salvá-lo.

Por favor, perdoe-me, mas não posso mais...

Buenos Aires
1/12/2011


Fonte: Fantasmas, Vampiros, Demônios e histórias de outros Monstros — Henry Alfred Bugalho — Oficina Editora, 2013.

O Livro dos Hereges



Sei do que sou acusado. Nestes últimos dias, vocês viram quantas mentiras disseram sobre mim, que sempre fui um homem violento, que havia ameaçado minha mulher várias vezes antes. Mentiras! Mentiras!

Vejo a minha cunhada ali, sentada, fulminando-me com o olhar. Foi o ódio dela por mim que me arrastou ao tribunal, a querer minha execução. Eu a entendo, também quereria a mesma coisa se minha irmã fosse assassinada; também adoraria ver meu cunhado morto, se cresse ser ele o culpado. Mas sou inocente, juro, ouçam-me e julguem por si próprios.

Todos aqui conhecem minha reputação como bibliófilo. Não me estenderei muito sobre o assunto, mas é notório que há na minha biblioteca a primeira edição de “O Contrato Social” de Rousseau, uma Bíblia do século XII, o manuscrito de "Die Welt als Wille und Vorstellung" de Schopenhauer, entre milhares de outras raridades, inveja para colecionadores ao redor do globo.

Ano passado, empreendi uma viagem de negócios a Istambul; vagando pelas ruas da cidade, adentrei um antiquário. Entre inúmeros artigos interessantes, chamou-me a atenção um códice em grego bizantino, com belíssimas ilustrações e iluminuras, que adquiri pela bagatela de cinquenta libras.

Em meio a tantas aquisições desta viagem, malas e mais malas, mal me recordava do códice. Mas, há um mês, organizando minha biblioteca, descobri este incrível exemplar e comecei a estudá-lo. Talvez vocês não saibam, mas o grego bizantino não é muito diferente do koiné, o grego bíblico, do qual possuo razoável domínio.

O material não era muito interessante por si, um relato da fundação e queda duma seita herética na Capadócia, entre os séculos X e XII, que acreditavam que Jesus fosse, na verdade, um enviado de Satanás. O argumento dos hereges não era dos mais convincentes: por ser Satanás o senhor do mundo material (Jó 1: 7), apenas ele poderia conceder poder a um mortal para curar doenças, multiplicar alimento, caminhar sobre as águas; para sustentar tal crença, eles se baseavam num documento apócrifo, conhecido como “O Evangelho de Iscariotes”, relatando que a traição de Judas Iscariotes havia se fundado na descoberta de que a trajetória do nazareno não passava duma encenação, na tentativa de associá-lo ao Messias das profecias torânicas, e arrebanhar o apoio da ala reformista da comunidade farisaica. Além disto, Judas constatou que havia severas distorções da Lei nas pregações de Jesus, e que muitas delas podiam ser associadas ao culto de Baal.

Apesar de improvável, narra-se que os hereges foram erradicados por uma campanha maciça de assassinatos coordenada pela Igreja Ortodoxa.

Pode parecer frívola esta minha descrição do conteúdo do códice, porém, após dedicar dias examinando o exemplar, deparei-me com uma sentença inusitada, descontextualizada, como se houvesse sido escrita diretamente a mim.

Sem adicionar palavras ou omiti-las, a tradução da sentença era a seguinte: William Turner, na oitava noite de março, virei buscar tua esposa.

O pasmo no olhar de vocês era tal qual o meu assombro. Como meu nome aparecia, em grego bizantino, num códice medieval? E o que significava tais palavras? Quem viria buscar minha esposa? Por quê?

Tive dificuldades para dormir, atormentado pela macabra profecia. A cada dia que passava, minha angústia crescia, oito de março se aproximava e, em pouco tempo, eu confirmaria ou não a veracidade da ameaça.

Lembro-me bem daquela data, eu e Margareth acordamos cedo e cavalgamos pela propriedade; almoçamos na casa dos meus sogros, passamos a tarde na biblioteca, Margareth lendo Jane Austen, eu jogando xadrez com o sogro. Às sete, retornamos para casa, ceamos e nos recolhemos. Eu estava apaziguado, o dia estava quase concluído e ninguém, nem nada, havia vindo buscar Margareth.

Timidamente, ouvi o relógio do átrio anunciando que faltavam quinze minutos para a meia noite. Margareth dormia tranquila, por isto, levantei-me e desci até a biblioteca, procurei pelo códice, mas ele não estava na prateleira onde eu o havia deixado. Isto me enfureceu, ninguém tinha autorização para entrar e mexer nos meus livros; na manhã seguinte, os criados receberiam uma bela reprimenda.

Mas logo avistei o códice caído no canto da biblioteca, aberto. Com ele em mãos, tentei encontrar a passagem e, quem sabe, zombar dela agora. Folheei-o, mas não conseguia encontrá-la. Eu havia marcado a página, mas alguém, deliberadamente, havia feito questão de retirar a indicação.

Foi quando senti uma presença no cômodo. Mesmo a biblioteca estando completamente iluminada, tive a impressão de estar nas trevas, um forte cheiro me cercou, meus pelos se eriçaram. Involuntariamente, minhas mãos tremiam, o códice balançando nelas. Meus olhos encontraram a passagem, mas esta já não era a mesma.

William Turner, estou aqui.

Não sei o que me aconteceu, mas, quando voltei a mim, minhas mãos estavam ensanguentadas, o punhal birmanês cravado no peito de Margareth, faltando poucos instantes para a meia-noite. Se fiz algo, fi-lo dominado por alguma força demoníaca. Não sou culpado!

O tribunal não acreditou em palavra alguma de William Turner e o condenou à forca. Mas o magistrado desejava ver o códice mencionado pelo réu. Um oficial foi até a propriedade do condenado, vasculhou a biblioteca e encontrou o volume.

O juiz Smith havia aprendido koiné com seu pai, padre da Igreja Anglicana e tradutor, nas horas vagas, de versículos bíblicos. Abriu o livro aleatoriamente e, por aquelas ironias do acaso, encontrou a sentença, acompanhada de calafrios, odor de enxofre e trevas:

Edward Smith, estou aqui.

Nova York
25/07/2007


Fonte: Fantasmas, Vampiros, Demônios e histórias de outros Monstros — Henry Alfred Bugalho — Oficina Editora, 2013.

O Sonho Premonitório de Abraham Lincoln


Algumas premonições transformam-se em fatos concretos, outras não, por mais reais e terríveis que possam ser os eventos que elas descrevam. Tomemos, por exemplo, o caso do décimo sexto presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln, que previu o próprio assassinato em sonho.

Lincoln contou seu sonho premonitório a um amigo íntimo, Ward Hill Lamon, que deixou um relato por escrito para a posteridade. "No sonho", conta Lincoln, "parecia haver uma tranquilidade semelhante à morte a meu redor. Então, ouvi soluços abafados, como se várias pessoas estivessem chorando.

Julguei ter levantado de minha cama e descido a escada até o pavimento inferior. Não havia nenhuma pessoa viva por perto, porém os mesmos lamentos de pesar e angústia me acompanhavam, enquanto eu caminhava. Continuei andando até chegar ao Salão Leste, e ali tive uma surpresa repugnante.”

"Diante de mim estava o carro fúnebre, onde havia um cadáver enrolado em mortalha. Ao lado daquele veículo estavam vários soldados perfilados, como guardas de honra. 'Quem morreu na Casa Branca?', perguntei a um dos soldados. 'O presidente', foi a resposta. 'Ele foi morto por um assassino'."

Poucos dias depois dessa narração, o presidente foi morto, assassinado pela pequena pistola de John Wilkes Booth. Mortalmente ferido, Lincoln foi levado do Ford's Theater a uma casa do outro lado da rua. Após a morte, seu corpo ficou exposto à visitação pública no Salão Leste da Casa Branca, exatamente como no sonho premonitório de Lincoln.


Fonte: Livro «O Livro dos Fenômenos Estranhos» de Charles Berlitz
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