quarta-feira, 6 de abril de 2016

O Caso Romero


Eu percebi que você andava estranho, meu filho, quando você parou de sair de seu quarto, ficava o dia inteiro diante do computador, não queria comer, não queria mais conversar comigo, mal dormia, havia se recolhido a um desconhecido mundo interior.

Depois, fiquei sabendo que os filhos de amigos meus também passavam por isto, mas já era tarde demais. Numa manhã de domingo, despertei ao ouvir sua mãe engasgando ao meu lado na cama. Vi você com as mãos esticadas, estrangulando-a, olhar vidrado e boca escancarada. Parecia que havia sido dominado por alguma entidade diabólica, nem lembrava o meu filho querido, a quem eu tanto amava e havia criado debaixo do mesmo teto por dezessete anos. Só de pensar que você iria para a universidade em poucos meses meus olhos já se enchem de lágrima.

Tentei libertar sua mãe da sua fúria, mas você era muito mais forte do que eu. E ela já estava morta, assim, você avançou contra mim, com os braços estendidos, lutamos, você me jogou contra a parede e tentou me morder, mas consegui escapar, trancando-o no quarto. Podia ouvir sua respiração do outro lado e você se chocando contra a porta fechada, como um robozinho de brinquedo que encontra um obstáculo.

Naquele mesmo dia, tal qual uma obra orquestrada, milhares de outros jovens mataram seus pais e mães, seus irmãos e as irmãs, seus colegas de quarto, seus companheiros de trabalho, suas esposas ou maridos, suas namoradas e seus amigos.

Eles foram presos ou internados em hospitais psiquiátricos, mas, na semana seguinte, incontáveis outros casos semelhantes se repetiram em outros lares. Para cada rapaz ou moça encarcerado, outros cem apareciam, numa progressão geométrica assustadora.

Ninguém conseguia explicar quais foram as razões porque o mundo foi invadido por esta espécie de zumbis naquele verão. A primeira versão dos canais de comunicação culpava algum tipo de vírus desconhecido, depois que se tratava de alguma arma biológica terrorista, até que pesquisadores passaram a investigar novas hipóteses, como de uma temível droga sintetizada por haitianos, até acusaram um famoso vídeo da internet que supostamente estaria hipnotizando os jovens, fazendo-lhes lavagem cerebral.

O fato é que os ataques começaram simultaneamente nos boroughs afastados de Nova York, nas comunidades hispânicas da Flórida e na periferia de Paris. Depois se espalhou pelo restante dos EUA e Europa e, em julho, já se registrava casos em todos os continentes, com pessoas das mais diversas classes sociais e etnias.

Não ocorreu como se supunha, um retorno de morto-vivos de além da tumba vagando pelas ruas com roupas em frangalhos e membros mutilados. Foi muito mais sutil, bem menos perceptível, quando nos demos conta, o mundo já havia mudado de maneira drástica. Cogito que devia se tratar de alguma patologia psiquiátrica. Se a depressão havia sido a doença do século XX, eu diria que esta zumbificação será considerara a doença dos nossos tempos, isto se a nossa espécie sobreviver.

Alguns psiquiatras batizaram estes incidentes com um nome complicado, mas a mídia os chamava de casos Romero, uma estranha homenagem ao cineasta que consagrou os zumbis em filmes.

A guarda nacional foi acionada e instauraram toque de recolher em muitas cidades americanas, mas a crise parecia não ter solução. A cada dia que passava, mais e mais assassinatos.

Até que em 12 de agosto a situação saiu totalmente de controle. O presidente evacuou a Casa Branca e recomendou que as pessoas se protegessem da melhor maneira possível. Os sobreviventes saquearam lojas de armas e supermercados, muitos lacraram suas casas com tábuas de madeira e arame farpado, muitos evacuaram as metrópoles, mas morreram nas estradas do país atacados por erráticas hordas destes monstros.

Durante todo este tempo, eu e você nos isolamos aqui neste apartamento. Sei que você está doente, por isto não lhe entreguei para a polícia. Quando ouvi sobre os outros casos, concluí que você não tinha culpa, era apenas um rapaz enfermo precisando de ajuda, mas agora que o mundo está no limite do fim, quando somente zumbis vagam pelas ruas, quando a comida está quase acabando, quando eu sei que em breve morrerei aqui sozinho, já não sei mais como reagir.

Amanhã, tentarei deixar o apartamento e rumar para o nosso chalé nas montanhas. Será quase impossível, mas não posso mais ficar aqui. Vou deixar você trancado, pois, se alguém encontrar a cura para esta maldição, juro que retornarei para salvá-lo.

Por favor, perdoe-me, mas não posso mais...

Buenos Aires
1/12/2011


Fonte: Fantasmas, Vampiros, Demônios e histórias de outros Monstros — Henry Alfred Bugalho — Oficina Editora, 2013.
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