segunda-feira, 21 de março de 2016

O Dinossauro Mokele-Mbembe


Mokele-Mbembe seria uma criatura ainda desconhecida pela ciência que supostamente vive ou vivia nas profundezas do rio Congo, na África. Seu nome traduz em linguagem lingaga como "alguém que interrompe o fluxo de rios". Às vezes, é descrito como uma criatura viva, e outras vezes como um espírito. 

Algumas lendas descrevem-no como tendo um corpo elefante com um pescoço longo e uma cauda e uma cabeça pequena, uma descrição que tem sido sugerido para ser semelhante em aparência à de um gênero de dinossauros herbívoros extintos conhecidos como saurópodes, enquanto outros o descrevem como parecido com elefantes, rinocerontes e outros animais conhecidos.

Os cientistas, em sua maioria, afirmam que os dinossauros foram extintos há milhões de anos. Mas o povo da República dos Camarões, país da costa ocidental da África, continua a relatar aparições de uma imensa criatura de quatro patas, que apresenta incrível semelhança com um brontossauro, dinossauro que, segundo estudiosos, chegava aos 20 metros de comprimento e pesava 35 toneladas. Na verdade, os habitantes locais, ao se defrontarem com a ilustração de um brontossauro, referem-se a ele como mokele-mbembe.

Os primeiros relatos autênticos de mokele-mbembe foram coligidos pelo capitão Freiherr von Stein zu Lausnitz, em 1913. De acordo com seu relatório, o animal, do tamanho de um elefante, tinha cor amarronzada, pele lisa e o pescoço comprido e flexível. Esse animal estranho, segundo consta, viveria em cavernas subterrâneas protegidas pelo rio, e toda canoa que ousasse se aproximar desaparecia nas águas.

No entanto, em pelo menos uma ocasião, um grupo de pigmeus supostamente matou uma das criaturas e devorou sua carcaça. Aqueles que comeram a carne teriam ficado doentes e morrido.

Recentemente, cientistas ocidentais como Roy Mackal, um biólogo na Universidade de Chicago, montaram quatro expedições aos lagos e rios relativamente isolados da República dos Camarões, à procura do indefinível animal. Embora nenhum espécime tenha sido capturado, animais não identificados, mais ou menos semelhantes aos relatados pelos nativos, foram vistos, fotografados, e até filmados em vídeo.

Infelizmente, a situação política do país e a topografia da região, montanhosa e coberta de florestas, impedem explorações que poderiam ser realizadas por pára-quedistas. Muitos observadores ocidentais concordam que, se um dinossauro quisesse se esconder, dificilmente poderia ter escolhido lugar melhor. Mas, talvez, um dia, até mesmo esses impedimentos possam ser superados, e o mundo saberá se aquela região guarda um remanescente vivo de seu passado fantasticamente remoto.


Fontes: Livro «O Livro dos Fenômenos Estranhos» de Charles Berlitz - 1989; Wikia; Wikipédia.

Wilhelm Reich: Caçador de OVNIs

Wilhelm Reich e seu dispositivo caça-nuvens.

A carreira do psicanalista austríaco, discípulo de Freud, Wilhelm Reich foi marcada por tantas controvérsias que um de seus trabalhos mais curiosos, a batalha contra OVNIs invasores, passou praticamente despercebido.

Nascido na Áustria em 1897, Reich tornou-se um seguidor das teorias de Freud quando ainda estava na universidade. Na verdade, ele poderia ter sucedido ao mestre da psicanálise se não tivesse se afastado de sua ortodoxia ao dar à repressão sexual caráter principalmente sócio-político, e ao afirmar a necessidade de sublimação dos impulsos sexuais como característica da sociedade capitalista. Ao insistir na tese de que a energia de libido que brota livremente, também conhecida como orgasmo desinibido, era um sinal inquestionável de saúde física e mental, Reich foi expulso da Associação Psicanalítica Internacional. Da mesma forma, ao relacionar a repressão sexual na URSS à ditadura burocrática, que via os seres humanos apenas como forças produtivas, foi expulso do Partido Comunista.

Reich mudou-se para a Escandinávia, onde declarou ter descoberto a "bion", uma microscópica célula azul, unidade básica da formação de toda matéria viva, e o "orgônio", a energia sexual organizadora da própria vida. Expulso da Escandinávia, Reich finalmente foi viver nos EUA, numa propriedade rural do Maine, à qual ele deu o nome de Orgônio, em homenagem a sua descoberta. Foi nos EUA que ele declarou guerra aos OVNIs com seu "caça-nuvens", um dispositivo projetado para retirar orgônio negativo das nuvens.

Wilhelm Reich e o acumulador de orgônio. (Foto: Wikimedia Commons)
Reich estava convencido de que os OVNIs eram formas de vida interplanetária que espionavam seu trabalho, e também que os objetos voadores não identificados eram acumuladores do que ele chamava de "orgônio mortal", que provocavam a desertificação do planeta.

Ele vivia imaginando o que aconteceria se conseguisse apontar os tubos de seu caça-nuvens para algum OVNI. A resposta veio na noite de 10 de outubro de 1954, quando uma série de OVNIs vermelhos e amarelos (discos benéficos, de acordo com Reich, seriam azuis) convergiu sobre Orgônio. Reich declarou que, ao apontar seu caça-nuvens para as luzes, elas diminuíram de intensidade e pareceram fugir.

Fazendo uma anotação em seu diário a respeito da experiência, testemunhada por vários colaboradores, Reich declarou:

"Esta noite, pela primeira vez na história da humanidade, a guerra desencadeada do espaço exterior contra nosso planeta... foi rechaçada... com resultados positivos".

Wilhelm Reich não viveria para ver a guerra vencida. Ele morreu em novembro de 1957, confinado na cela de uma penitenciária federal por recusar-se a parar de comercializar suas "caixas de orgônio", que, segundo ele, podiam detectar e transmitir a energia sexual (o orgônio) e curar até o câncer.


Fonte: Livro «O Livro dos Fenômenos Estranhos» de Charles Berlitz

O Grande Aeróstato de 1897

San Francisco Call Headline de 1896
A conquista dos céus foi iniciada, supostamente, em 17 de dezembro de 1903, quando dois inventores norte-americanos, os irmãos Orville e Wilbur Wright, realizaram o primeiro vôo autopropelido, com uma aeronave mais pesada que o ar, cobrindo alguns poucos metros (37-260m) sobre as dunas de areia em Kitty Hawk, Carolina do Norte. Sete anos antes daquele breve, porém monumental vôo, em novembro de 1896, alguma coisa aparentemente construída pelo homem foi vista nos céus de San Francisco.

Em abril do ano seguinte, quando aumentaram os comentários sobre o caso, o Grande Aeróstato de 1897 já fora visto nas costas leste e oeste e em todo o Meio-Oeste dos EUA, desde Chicago até o Texas.

Quase nenhuma comunidade foi poupada. No entanto, o onipresente aeróstato de 1897 jamais chegou a ser satisfatoriamente explicado. Os historiadores da aviação "oficial" recusam-se a aceitá-lo. Porém, as manchetes das primeiras páginas dos jornais da época falara da misteriosa aeronave como se fosse um OVNI dos tempos atuais. Historiadores e sociólogos foram instados a explicar esses relatórios oficiais.

De modo geral, as aparições podem ser classificadas em duas categorias: algumas pessoas descreveram apenas luzes noturnas e feixes de iluminação brilhante; outras falaram de magnífica máquina voadora tripulada por um estranho grupo de indivíduos. A nave quase sempre foi vista pairando sobre os campos, normalmente passando por alguns pequenos reparos, antes de prosseguir em seu caminho.

Houve tanta especulação sobre as origens da aeronave que inventores famosos como o norte-americano Thomas Alva Edison, inventor do fonógrafo e da lâmpada incandescente, convocavam, regularmente, jornalistas para conceder entrevistas coletivas, negando que a invenção fosse deles.

Misterioso aeróstato - San Francisco Call Headline (19/11/1896)

Outros inventores, menos honrados, chegavam a reivindicar a invenção do aeróstato, embora jamais pudessem produzir um único modelo que funcionasse. Todavia, no outono de 1897, as aparições da aeronave foram sensivelmente reduzidas e, na virada do século, praticamente ninguém mais a viu.

Não obstante, estudiosos de fenômenos estranhos continuam a investigar sobre o significado do Grande Aeróstato até os dias de hoje. Charles Fort, o maior catalogador norte-americano de fenômenos estranhos, sugeriu que a máquina voadora foi simplesmente uma idéia de tempos que ainda estariam por vir.

Outros acreditam que o Grande Aeróstato de 1897, de alguma forma, acelerou os posteriores avanços na tecnologia da aviação.

Os irmãos Wright talvez não tenham sido inovadores inocentes, chegam a sugerir alguns, afirmando que eles teriam sido ferramentas involuntárias de uma necessidade evolucionária inconsciente. Certos estudiosos chegam mesmo a sugerir que esse impulso de progresso é espelhado no predomínio dos relatórios atuais sobre OVNIs.


Fonte: Livro «O Livro dos Fenômenos Estranhos» de Charles Berlitz

O Navio Frigorifique


Os navios, algumas vezes, fazem coisas estranhas, mesmo quando não há ninguém na cabine de comando.

Em 1884, na viagem de volta para Rouen, depois de ter zarpado da Espanha, o navio francês Frigorifique colidiu, no meio de um denso nevoeiro, com outro navio, o Rumney, de bandeira inglesa. Quando a lateral do casco do Frigorifique se rompeu, o comandante francês deu a ordem de abandonar o navio. Felizmente, tripulantes e passageiros foram resgatados pelo Rumney, cujo comandante ordenou uma manobra para afastar seu navio do naufragado Frigorifique.

Os náufragos franceses e seus salvadores estavam comemorando seu sucesso, quando o vigia gritou outra vez. Saindo momentaneamente do nevoeiro, surgiu o fantasma do Frigorifique, que, com a mesma rapidez, desapareceu de vista. Os tripulantes dos dois navios suspiraram aliviados.

Mas o Frigorifique apareceu mais uma vez. Dessa vez, ele foi de encontro ao Rumney, forçando os tripulantes das duas embarcações a baixar os botes salva-vidas. Ao se afastarem do navio avariado, eles ainda puderam ver o fatídico Frigorifique através da espessa neblina. Sua hélice ainda girava, e por uma de suas chaminés saía grossa fumaça preta.


Fonte: Livro «O Livro dos Fenômenos Estranhos» de Charles Berlitz

A Farra dos Mortos



Naquela noite “seu” Antônio não conseguia dormir. Ligou a televisão, não gostou do que estava passando, desligou. Pegou o rádio de pilhas, seu inseparável companheiro, nada de interessante. Resolveu ir à janela do quarto para apreciar o movimento da rua. Nada. A rua estava deserta. Era a primeira vez que ficava insone e aquilo o deixava nervoso. Nunca havia perdido o sono antes.

Um pouco mais adiante do edifício onde ele morava, ficava o cemitério, todo murado, sem iluminação e muito arborizado o que o deixava mais escuro ainda. Os olhos do velhinho desviaram-se para lá. Olhava e pensava: “um dia estarei ali, no silêncio eterno...” e um arrepio percorreu seu corpo.

Ficou muito tempo olhando o cemitério. Viu as horas e pensou: “quase duas horas e nada de sono...”.

Caminhou pelo quarto, foi até a cozinha, voltou novamente à janela. Apagou a luz do quarto. Ficou ali, parado, pensamento distante quando de repente viu algo no cemitério que chamou sua atenção. Era uma luz, fraca é bem verdade, mas era uma luz, bem ali no meio das sepulturas. A princípio ficou com medo. Fechou a cortina e ficou olhando pela fresta. Mais uma luz apareceu. Já eram duas.Ficaram juntas e tremulantes como se um leve vento tentasse apagá-las. Mais outra e “seu” Antônio pensou: “Meu Deus, os mortos estão saindo da tumba...” Mesmo assim continuou na janela. Tremia.

As luzes foram aumentando, ele já não conseguia contá-las, só sabia que junto com elas vultos vestidos de negro faziam um ritual esquisito. Levantavam os braços, circulavam para lá e para cá, outros estavam sentados nos túmulos e de vez em quando saltavam para o chão. Ficavam em círculo como se estivessem rezando e rapidamente levantavam-se com os braços para cima como numa espécie de saudação. Vez por outra apareciam pequenos pontos luminosos seguidos de uma neblina branca. O homem pensou: “será a dança dos espíritos malditos...!”

Lembrou de algumas histórias de terror que havia lido na juventude. O tempo corria. “Seu” Antônio olhou para o relógio, quatro e trinta da manhã e os mortos continuavam lá naquela espécie de orgia fantasmagórica.

Num átimo de segundo, as luzes sumiram e tudo voltou às escuras. O homem, ainda tremendo, ficou parado sem forças para se afastar da janela. Quando o fez foi para rezar e pedir a Deus perdão pelos seus pecados. Talvez aquela aparição fosse um aviso para ele, pensava: - “preciso orar mais...”.

Quando o dia amanheceu, como sempre fazia, foi buscar pão e leite, e na padaria relatou aos amigos o que havia presenciado durante a madrugada. Todos riram, menos uma velhinha que estava na fila para pagar o pão. Ela também havia visto aquilo da janela do seu quarto e não era a primeira vez. – “faz muito tempo que isso acontece, começa por volta das duas horas e vai até, mais ou menos, às quatro e meia da manhã” – disse ela. Nunca dissera nada para não tachada de louca, pois não dormia muito e ficava perambulando pela casa durante a madrugada.

No dia seguinte, mesmo morrendo de medo, lá estava “seu” Antônio de prontidão na janela do quarto. Deitara-se bem cedinho, vinte horas e trinta minutos. Pusera o relógio para despertar às duas só para ver se os fantasmas saiam novamente para um novo ritual. Não deu outra. Tudo aconteceu como no dia anterior.

De manhã encontrou-se com a velhinha na porta da padaria e comentaram o acontecido. E assim, por muitos dias, o homem tornou-se um madrugador só para ver a “farra dos mortos”.

A notícia espalhou-se pelo bairro. O responsável pelo cemitério foi comunicado.

“Seu” Antônio, já acostumado com aquele fato, lá estava à janela, na hora exata para ver a cena.

Os mortos foram chegando com suas luzes bruxuleantes, fizeram os mesmos movimentos; os que estavam em cima dos túmulos saltaram para chão, fizeram a rodinha, levantaram os braços, apareceram os pontinhos luminosos e a neblina, gesticularam. “Seu” Antônio já não sentia medo, habituara-se àquilo.

De repente, apareceram luzes diferentes, eram fortes. O homem arregalou os olhos e pensou: “tem fantasma novo na “farra”. Os novos “mortos” movimentavam-se com muita agilidade, como se estivessem apressados. Um dos antigos, com sua fraca luzinha, embrenhou-se pelo meio das tumbas sendo perseguido por um da luz forte, que o trouxe de volta ao grupo que formava uma fila indiana.

As tênues luzinhas já não estavam mais acesas. “Seu” Antônio, com o movimento das luzes fortes, percebeu que as roupas dos novos “mortos” eram de cor diferente das dos antigos. Ficou pensando: -“Meu Deus, será que os mortos voltam?”.

Agora todos seguiam em procissão na direção da porta do cemitério e tudo voltou à escuridão. O homem ainda ficou alguns segundos à janela, depois voltou para a cama e ficou remoendo seus pensamentos a respeito do que vira.

Quando adentrou à padaria, pela manhã, para pegar seu pão, o dono, com um risinho maroto, exclamou:

- Sr. Antônio! Que bom que chegou. Sabe aqueles fantasmas que senhor vê, todas as madrugadas, lá no cemitério?

- O que tem? – perguntou o homem.

- Ora, não são mortos, nem fantasmas, nem nada do outro mundo. É o safado do Ditinho e a sua turma que pulam o muro do cemitério para armar a banca de jogos de azar e assim fugirem da polícia. Usam roupas escuras, as velas, que os parentes do mortos deixam nas campas e que não ardem totalmente, têm sacola de plástico de supermercado para recolher o lixo, tais como pontas de cigarros, papel, latas de cerveja e tudo mais. “Nada de pistas”, dizia Ditinho.

- Era um mini-cassino ao ar livre que rendia muito dinheiro ao malandro. Só que esta madrugada ele se deu mal. O administrador do cemitério ficou de campana e quando eles estavam no melhor do jogo, os “homens” chegaram. O contraventor bem que tentou fugir, mas foi agarrado pelo policial. Precisava ver a cara do salafrário e da sua turma quando foram egos em flagrante. - Graças ao senhor, seu Antônio, a justiça foi feita...

E o português da padaria riu, até não poder mais, lembrando da primeira vez que seu Antônio lhe contou que vira os mortos realizando uma verdadeira “farra”, de madrugada, no cemitério da cidade.


Autora: Maria Hilda de J. Alão.

Uma Noite no Paraíso


Certa vez, dois amigos inseparáveis fizeram o seguinte juramento: aquele que casasse primeiro chamaria o outro para padrinho, mesmo que esse outro estivesse no fim do mundo.

Pois bem: um dos amigos morre e o outro, que estava noivo, não sabendo o que fazer, vai pedir conselhos a seu confessor. O pároco assegura que a palavra deve ser mantida. Então o noivo vai até o túmulo do amigo convidá-lo para o casamento.

O morto aceita o convite de muito bom grado. No dia da cerimônia, não diz uma palavra sobre o que vira no outro mundo. No final do banquete ele fala:

- Amigo, como lhe fiz este favor, você agora deve me acompanhar um pouquinho até minha morada.

O recém-casado, não resistindo à curiosidade, pergunta como era a vida do outro lado.

O morto, fazendo um pouco de suspense, responde dessa forma:

- Se quiser saber, venha também ao paraíso.

O outro concorda. O túmulo se abre e o vivo segue o morto.

A primeira coisa que vê é um lindo palácio de cristal, onde os anjos tocavam para os beatos dançarem e São Pedro, muito feliz, dedilhava seu contrabaixo. Mais adiante, o amigo lhe apresenta nova maravilha: um jardim onde as árvores, em vez de folhas, tinham pássaros de todas as cores, que cantavam.

- Vamos em frente - diz o morto ao amigo, que fica cada vez mais deslumbrado. - Agora vou levá-lo para ver uma estrela.

O recém-casado percebe que não se cansaria nunca de admirar as estrelas, os rios, que em vez de água eram de vinho, e a terra, que era de queijo.

De repente o noivo cai em si, lembra-se da noiva que ficara a esperá-lo e pede:

- Compadre, preciso voltar para casa, minha esposa deve estar preocupada.

- Como preferir.

Assim dizendo, o morto o acompanha até o túmulo, sumindo logo a seguir.

Ao sair do túmulo, o vivo fica assombrado com o que vê ao seu redor: no lugar daquelas casinhas de pedra meio improvisadas há palácios, bondes, automóveis; as pessoas todas vestidas de modo diferente. Para se certificar, pergunta o nome da cidade a um velhinho que por ali passava.

- Sim, é esse o nome desta cidade.

No entanto, ao chegar à igreja, é atendido por um bispo muito importante que, consultando os arquivos existentes ali, descobre que trezentos anos atrás um noivo havia acompanhado o padrinho ao túmulo e não tinha voltado nunca mais.


Fonte: A dama pé de cabra e outras histórias. São Paulo: Paulinas, 1994.

Maria Angula


Maria Angula era uma menina alegre e viva, filha de um fazendeiro de Cayambe (Equador). Era louca por uma fofoca e vivia fazendo intrigas com os amigos para jogá-los uns contra os outros. Por isso tinha fama de leva-e-traz, linguaruda, e era chamada de moleca fofoqueira.

Assim viveu Maria Angula até os dezesseis anos, dedicada a armar confusão entre os vizinhos, sem ter tempo para aprender a cuidar da casa e a preparar pratos saborosos.

Quando Maria Angula se casou começaram seus problemas. No primeiro dia, o marido pediu-lhe que fizesse uma sopa de pão com miúdos, mas ela não tinha a menor ideia de como prepará-la.

Queimando as mãos com uma mecha embebida em gordura, ascendeu o carvão e levou ao fogo um caldeirão com água, sal e colorau, mas não conseguiu sair disso: não fazia ideia de como continuar.

Maria lembrou-se então de que na casa vizinha morava dona Mercedes, cozinheira de mão-cheia, e, sem pensar duas vezes, correu até lá.

- Minha cara vizinha, por acaso a senhora sabe fazer sopa de pão com miúdos?

- Claro, dona Maria. É assim: primeiro coloca-se o pão de molho em uma xícara de leite, depois despeja-se este pão no caldo e, antes que ferva, acrescentam-se os miúdos.

- Só isso?

- Só, vizinha.
   
- Ah - disse Maria Angula - mas isso eu já sabia!

- E voou para sua cozinha a fim de não esquecer a receita.

No dia seguinte, como o marido lhe pediu que fizesse um ensopado de batatas com toicinho, a história se repetiu:

- Dona Mercedes, a senhora sabe como se faz o ensopado de batatas com toicinho?

E como da outra vez, tão logo a sua boa amiga lhe deu todas as explicações, Maria Angula exclamou:

- Ah! É só? Mas isso eu já sabia! - E correu imediatamente para a casa a fim de prepará-lo.

Como isso acontecia todas as manhãs, dona Mercedes acabou se enfezando. Maria Angula vinha sempre com a mesma história: "Ah é assim que se faz o arroz com carneiro? Mas isso eu já sabia! Ah, é assim que se prepara a dobradinha? Mas isso eu já sabia!" Por isso a mulher decidiu dar-lhe uma lição e, no dia seguinte ...

- Dona Mercedinha!

- O que deseja, Dona Maria?

- Nada, querida. Só que o meu marido quer comer no jantar caldo de tripas e bucho e eu ...

- Ah, mas isso é fácil demais! - Disse dona Mercedes. E antes que Maria Angula a interrompesse, continuou:

- Veja: vá ao cemitério levando um facão bem afiado. Depois espere chegar o último defunto do dia, e sem que ninguém a veja, retire as tripas e o estômago dele. Ao chegar em casa, lave-os muito bem e cozinhe-os com água, sal e cebolas. Depois que ferver uns dez minutos, acrescente alguns grãos de amendoim e está pronto. É o prato mais saboroso que existe.

- Ah! - Disse Maria Angula - É só? Mas isso eu já sabia!

E, num piscar de olhos, estava ela no cemitério, esperando pela chegada do defunto mais fresquinho. Quando já não havia mais ninguém por perto, dirigiu-se em silêncio à tumba escolhida. Tirou a terra que cobria o caixão, levantou a tampa e ... Ali estava o pavoroso semblante do defunto! Teve ímpetos de fugir, mas o próprio medo a deteve ali. Tremendo dos pés à cabeça, pegou o facão e cravou-o uma, duas, três vezes na barriga do finado e, com desespero, arrancou-lhe as tripas e o estômago. Então voltou correndo para casa. Logo que conseguiu recuperar a calma, preparou a janta macabra que, sem saber, o marido comeu lambendo os beiços.

Nessa mesma noite, enquanto Maria Angula e o marido dormiam, escutaram-se uns gemidos nas redondezas.

Ela acordou sobressaltada. O vento zumbia misteriosamente nas janelas, sacudindo-as, e de fora vinham uns ruídos muito estranhos, de meter medo a qualquer um.

De súbito, Maria Angula começou a ouvir um rangido nas escadas. Eram os passos de alguém que subia em direção ao seu quarto, com um andar dificultoso e retumbante, e que se deteve diante da porta. Fez-se um minuto eterno de silêncio e logo depois Maria Angula viu o resplendor fosforescente de um fantasma. Um grito surdo e prolongado paralisou-a.

- Maria Angula, devolva minhas tripas e o meu estômago, que você roubou da santa sepultura!

Maria Angula sentou-se na cama, horrorizada, e, com os olhos esbugalhados de tanto medo, viu a porta se abrir, empurrada lentamente por essa figura luminosa e descarnada.

A mulher perdeu a fala. Ali, diante dela, estava o defunto, que avançava mostrando-lhe o seu semblante rígido e o seu ventre esvaziado.

- Maria Angula, devolva as minhas tripas e o meu estômago, que você roubou da minha santa sepultura!

Aterrorizada, escondeu-se debaixo das cobertas para não o ver, mas imediatamente sentiu umas mãos frias e ossudas puxarem-na pelas pernas e arrastarem-na gritando:

- Maria Angula, devolva as minhas tripas e o meu estômago, que você roubou da minha santa sepultura!

Quando Manuel acordou, não encontrou mais a esposa e, muito embora tenha procurado por ela em toda parte, jamais soube do seu paradeiro.


Fonte: Terra / Informante: María Gómez / Versão: Jorge Renán de la Torre.

A Mulata de Córdoba


Diz uma antiga lenda colonial que, há quase três séculos, vivia na cidade de Córdoba, perto de Veracruz, Vice-Reino da Nova Espanha, uma mulher muito formosa, que jamais envelhecia a despeito do passar dos anos. Todos a chamavam de ‘Mulata’, por causa da cor de sua pele, dourada pelo sol.

Além do mais, corria a fama de que esta mulher era advogada das causas impossíveis: as moças que não tinham prazer no sexo, os homens que perderam o vigor, os trabalhadores sem emprego, as pessoas com enfermidades graves, todos a procuravam para resolver seus problemas e, a todos eles, a Mulata atendia.

Acontece que os homens ficavam presos por sua formosura e disputavam entre si para ver qual conquistaria o seu coração. Ela, porém, não correspondia a nenhum deles, pelo contrário, os desdenhava. Todos comentavam os poderes da Mulata e diziam que era uma bruxa, uma poderosa feiticeira. Algumas pessoas garantiam que já haviam surpreendido a Mulata voando sobre os telhados, sem falar nos seus belos olhos negros, que, segundo diziam, despediam miradas diabólicas ao mesmo tempo em que a bela sorria com seus lábios vermelhos e dentes muito brancos.

Falavam a boca pequena que a Mulata tinha pacto com Satã e o recebia em sua casa. Quando ele a visitava, sempre depois da meia-noite, quem passasse defronte à casa da bruxa veria claramente uma luz sinistra brilhando por entre as rendas do cortinado e pelas frestas da porta: uma luz infernal, como se dentro da casa estivesse ocorrendo um grande incêndio. A fama daquela mulher ultrapassava fronteiras, era imensa! Até canções populares cantavam os seus prodígios.

Ninguém sabe ao certo por quanto tempo essas histórias circularam, aumentando a fama da Mulata. O que todos dão por certo é que, um certo dia, foi levada da cidade de Córdoba e conduzida, presa, pelo Tribunal da Inquisição, para os sombrios cárceres do Santo Ofício no México, acusada de bruxaria e satanismo.

Conta-se que, na manhã do dia em que deveria ser executada o carcereiro entrou no calabouço onde estava acorrentada, e ficou surpreso ao ver que em uma das paredes da cela a Mulata desenhara um navio. Ela sorriu e lhe perguntou: “Bom dia, carcereiro, podes me dizer o que falta neste navio? ” O pobre-diabo respondeu com uma imprecação: “Tu és uma desgraçada! Se te arrependesses, não irias agora morrer! ”

Ela, porém, insistiu: “Anda, diz-me o que falta a este navio”. Intrigado com a pergunta, o carcereiro respondeu: “Claro está que falta um mastro. ” Ao que a Mulata prontamente retrucou: “Se um mastro lhe falta, um mastro ele terá! ” O carcereiro se retirou da cela com o coração cheio de confusão, não conseguia entender as palavras enigmáticas da Mulata.

Por volta do meio-dia, o carcereiro voltou à cela e contemplou admirado o desenho. “E agora, carcereiro, o que falta ao navio? ” Perguntou a bela mulher. Mais uma vez ele exortou-a: “Desafortunada mulher, se queres salvar tua alma das chamas do inferno, ajoelha e suplica o perdão perante a Santa Inquisição, encarregada de te julgar. O que pretendes com tais perguntas? Está claro que ao navio faltam as velas. Imediatamente a mulher replicou: “Se as velas lhe faltam, as velas ele terá! ”

Mais uma vez o carcereiro se retirou, abismado com aquela misteriosa mulher que, nas últimas horas de vida que lhe restavam, desperdiçava o tempo desenhando, sem temor da morte. Quando caiu a tarde, hora em que se cumpriria o destino da Mulata, estando tudo preparado para sua execução, o carcereiro entrou pela terceira vez em sua cela. Ela aguardava-o, sorridente, de tal forma que sua beleza exuberante mais se destacava no cenário feio e sujo do calabouço.

Perguntou-lhe: E agora, o que falta ao meu navio? O homem, aflito, gritou: “Infeliz mulher, põe tua alma nas mãos de Deus Nosso Senhor e arrepende-te dos teus pecados. A este navio, a única coisa que falta é navegar, está perfeito! ”

A Mulata, mais bela que nunca, respondeu, exultante: “Pois se Vossa Mercê o deseja com toda força de sua vontade, o meu navio navegará! ”

Dito isto, sob o olhar aterrado do carcereiro, a Mulata, tão veloz quanto o vento que começou a soprar, saltou para o navio e este começou a se mover, primeiro lenta, e, depois, muito rapidamente, a toda vela, e em questão de minutos desapareceu, levando a formosa prisioneira.

O homem caiu de joelhos, imobilizado pela surpresa, seus olhos saltavam das órbitas, sua boca não poderia estar mais aberta e seus cabelos estavam em pé! Ninguém jamais voltou a colocar os olhos na Mulata. Todos imaginam que esteja com o demônio.


Fontes: Leyendas Coloniales; Lendo e Aprendendo.