terça-feira, 31 de maio de 2016

Cadáveres Incorruptos

Bernadette Soubirous morreu em 1879, aos 35 anos.

Ao som da última trombeta, os mortos ressuscitarão incorruptíveis.— 1 Coríntios 15:52

Definição: A incorruptibilidade é a ausência de decomposição em cadáveres humanos ou partes de corpos por semanas, meses e até mesmo anos (algumas vezes, séculos), mais notavelmente em corpos enterrados sem embalsamamento e em covas onde se esperaria uma rápida deterioração.

O que os crentes dizem: Cadáveres incorruptos são um sinal de Deus com respeito à santidade do falecido e também um chamado para que os devotos busquem essa santidade.

O que os céticos dizem: A incorruptibilidade é uma combinação de vários fatores mundanos, biológicos e geológicos, nenhum dos quais de natureza divina. A temperatura, a quantidade de oxigênio e a ausência ou presença de fungos e bactérias representam seu papel no tempo que um corpo leva para se decompor. Além disso, é possível que a Igreja Católica tenha embalsamado em segredo muitos dos "incorruptos" a fim de promover uma grande aceitação de sua divindade.

Qualidade das provas existentes: Moderada.

Probabilidade de o fenômeno ser autêntico: Moderada.

A carne apodrece.

Assim que a essência da vida é removida de um corpo, a precipitação rumo à decomposição é inevitável. Tão logo o fluxo de sangue quente, cheio de oxigênio, para de fluir, e os órgãos do corpo são privados de sua condição sine qua non, não tarda para que o corpo seja absorvido pela biosfera, dessa vez pelo lado inanimado do paradigma vida e morte.

Com certeza, essa decomposição pode ser evitada pelo embalsamamento, refrigeração e sepultamento em túmulos livres de oxigênio. Alguns corpos exumados, enterrados há milhares de anos, mostram uma preservação notável.

Mas a carne apodrece. E, no final, tudo o que vive um dia irá morrer, e tudo o que está morto se tornará pó. Pode levar éons ou até mais, como podemos ver ao encontrarmos corpos intactos de mastodontes pré-históricos, preservados apenas por terem sido rapidamente congelados logo após a morte.

Há muito, a Igreja Católica permite a veneração de corpos, e até mesmo de partes, como mãos ou corações de santos já falecidos.

Um dos incorruptos mais venerados é santa Bernadete Soubirous, a santa para quem, segundo os registros, a Virgem Maria apareceu em Lourdes, na França, em 1858. Bernadete morreu em 1879, aos 35 anos. Ela foi enterrada do modo como morreu, sem ser embalsamada ou preservada de forma alguma.

O corpo de Bernadete foi exumado em 1909, 30 anos após sua morte. Segundo testemunhas, quase não havia sinal de decomposição, além do fato de o corpo estar um pouco "emaciado". Seus lábios haviam encolhido ligeiramente, de modo que os dentes ficavam parcialmente visíveis, e o nariz também encolhera um pouco. Segundo os registros, suas mãos estavam perfeitamente conservadas e a pele era de um branco fosco. O rosário que ela segurava havia enferrujado. Suas roupas estavam úmidas, mas o corpo não exalava nenhum cheiro de putrefação. As freiras removeram sua indumentária, lavaram o corpo e vestiram-na com um hábito limpo. Ela então foi novamente enterrada, junto com um documento detalhando as especificidades da exumação.

Dez anos depois, com o processo da canonização de Bernadete correndo a todo vapor (ela foi, por fim, canonizada em 1925), seu corpo foi mais uma vez exumado. Ele encontrava-se no mesmo estado que dez anos antes, exceto por uma leve descoloração do rosto, fato atribuído à lavagem durante a primeira exumação. Bernadete foi novamente enterrada na presença do bispo.

Em 1925, o ano de sua canonização, o corpo de Bernadete foi exumado pela última vez.

Dessa vez, ele não seria novamente enterrado, mas exibido para que todos os devotos pudessem vê-la e venerá-la.

Uma fina máscara de cera foi colocada sobre seu rosto e mãos, visto que os olhos e as bochechas haviam encolhido um pouco. Há também rumores de que injetaram fluido embalsamador em seu corpo para prevenir uma futura decomposição, embora não haja provas quanto a isso. Tampouco as declarações sob juramento de médicos, freiras e testemunhas, coletadas após as exumações, mencionam qualquer espécie de proteção, afora a lavagem do corpo.

No entanto, além da lavagem e da preparação do corpo para exibição, os médicos, a pedido do bispo de Nevers, realizaram também uma autópsia em Bernadete. Eles removeram a parte de trás das quinta e sexta vértebras, pedaços do diafragma e do fígado (o qual, segundo os registros, mostrava-se macio, com uma consistência "quase normal"), as duas rótulas e fragmentos dos músculos externos das coxas. Todos esses pedaços foram considerados relíquias sagradas e entregues à Igreja Católica.

Bernadete foi então colocada sob uma redoma de vidro fechada a vácuo e exposta na capela do Convento de Saint Gildard, em Nevers, na França. Seu corpo permanece ali até hoje, mais de 75 anos depois, ainda em perfeito estado, "incorrupto".

Seria a incorruptibilidade de Bernadete um sinal de Deus?

Os crentes dizem "sem dúvida". Os céticos: "Dificilmente. Sua preservação decorre de condições fortuitas à época do primeiro sepultamento e, para os que acreditam em conspiração, da possibilidade de que 'a simples lavagem' do corpo seja 'qualquer coisa, menos isso'."

Todavia, as explicações científicas não satisfazem totalmente os curiosos. Há relatos de corpos enterrados sob condições extremamente "favoráveis à decomposição" — túmulos escavados em solo úmido, enlameado etc. — e de corpos de santos que permanecem intactos, sem o menor sinal de deterioração.

Os santos católicos não são os únicos que permanecem incorruptos após a morte. Há registros de homens e mulheres considerados santos em outras religiões que foram encontrados em perfeito estado após várias décadas enterrados.

Um sinal de Deus? Ou apenas um acaso feliz da biologia que ainda não entendemos?

A resposta a essa questão depende — quase totalmente — de para quem você pergunta.


Fonte: Os 100 Maiores Mistérios do Mundo - Stephen J. Spugnesi - Difel 2004

O Fígado


Minha primeira lembrança é ter aberto a porta. Parado, com os dois pés sobre o tapete com um irônico “Bem-vindo”, estava um fígado. Mesmo para um órgão do corpo humano, ele não tinha boa aparência, parecendo judiado pela vida. Era um pouco maior que eu e trazia uma das mãos escondida atrás de seu corpo gelatinoso.

— Em que posso ajudá-lo? — perguntei.

— Não me reconhece? — replicou o fígado.

Olhei para ele cuidadosamente e respondi:

— Não, acho que não. Parece ser um fígado completamente acabado, mas acho que nunca vi você em toda a minha vida.

Meu convidado parado à porta pareceu soltar um suspiro desolado. Em seguida, olhou diretamente para os meus olhos. Jamais havia sido encarado por um fígado antes. Um leve tremor percorreu meu corpo.

— Tudo bem, eu já esperava isso — comentou o órgão. — Eu vim aqui para me vingar de todos os maus-tratos que já recebi. Vim aqui para matá-lo.

Fiquei sem saber o que fazer ou responder. Por instantes, tanto eu quanto o fígado permanecemos na mesma posição. Lentamente, ele começou a mover sua mão escondida. Assim que enxerguei o reflexo da luz na faca que ele trazia, dei-me conta de que a ameaça era verdadeira. Ele estava ali para me matar.

Rapidamente, fechei a porta. Mas o fígado jogou-se na minha direção, dando com o ombro na porta. Sua força era descomunal. Fui ao chão, enquanto ele entrava na sala.
Encontrava-me estirado no solo, com um fígado de quase dois metros, segurando uma faca e com raiva mortal de mim, parado na minha frente.

— Por que você quer fazer isso comigo? — perguntei, desesperado.

— Por quê? Por quê? Você ainda tem a coragem de perguntar isso? — exclamava o fígado, completamente alterado.

Notei que tinha feito a pergunta errada. Ele prosseguiu, gritando:

— Que tal anos e anos sem a menor preocupação comigo? Noites intermináveis regadas a cerveja, uísque e tudo o que tivesse álcool? Por que toda essa falta de consideração comigo?

— Mas eu...

— Cala a boca! Cala essa maldita boca! — ele gritava, segurando a faca a poucos centímetros de meu pescoço. Eu estava com medo. Ele respirou fundo e perguntou com calma: — Por que você nunca fumou?

Fiquei pasmo com a questão dele. Tentei disfarçar meu medo e respondi com a voz ainda trêmula:

— Não sei, nunca tive vontade.

— Então! Seu filho de uma puta insensível. Por que o pulmão você sempre tratou bem? Por que cuidava do coração? Rim, pâncreas, tudo funcionando direitinho. Tudo com tratamento VIP. Mas não eu. Não o fígado. Pra mim, a menor bola. Pisando, chutando, maltratando todos os dias. Mas não hoje. Hoje é a minha vez.

Tive que concordar com o fígado parado diante de mim. Não podia culpá-lo por tomar essa atitude. Havia sido negligente com ele e, talvez, merecesse essa retaliação.

— Desculpe, você tem toda razão — tentei ser humilde e reconhecer meu erro.

Ele não disse nada, mas não tinha mais o olhar de ódio. Achei que o momento era favorável e continuei:

— Sei que não dei a você o melhor tratamento do mundo, mas...

— Ah, mas você é hipócrita mesmo. Não deu “o melhor tratamento do mundo”? Olhe pra mim! Estou cheio de cicatrizes, de marcas. Você matou minhas células. Pareço ter o dobro da idade dos outros órgãos. Você acha que isso me faz sentir como? Em conversas com meus companheiros do corpo, sou deixado de lado, tratado como pária. Como um excluído. Até o apêndice, que não serve pra nada, tem mais respeito que eu junto aos outros órgãos. Ah, como eu lhe odeio! Mas isso termina hoje.

O fígado veio para cima de mim. Tentou dar-me uma facada, mas desviei com agilidade. Pus-me em pé e saí correndo pela porta.

Olhei para trás, esperando que ele não aparecesse. Torcia para que ficasse com vergonha de sair correndo na rua. Afinal, não é todo dia que se enxerga um fígado com uma lâmina na mão tentando tirar a vida de seu hospedeiro.

Atravessei a avenida, escapando de ser atropelado por dois carros. Não olhava para trás. Corria com todas as minhas forças. Foi quando descobri que vergonha não é uma característica hepática. Cego pelo ódio, ele me perseguia tenazmente. Esbravejava:

— Volte, seu desgraçado! Vai aprender a me respeitar!

Não sabia a que distância estava dele. Corria pela calçada, desviando das pessoas. Tinha a consciência de que não poderia ficar ali por muito tempo. Teria que achar outro caminho. Virei para a direita, abri a porta do primeiro estabelecimento e entrei.

Era um bar no estilo de um pub irlandês. Nas mesas, no balcão e até em pé, pessoas bebendo cerveja e chope. Percebi que tinha errado em minha escolha, mas agora era tarde. Precisava me esconder.

Corri para uma mesa no canto mais escuro do local. Nesse momento, ouvi a porta se abrir com um estrondo. O fígado entrara.

Sua primeira reação foi de pânico. Olhava em volta de si e enxergava as pessoas bebendo com prazer, deliciando o malte da cerveja. Todos, sem exceção, destruindo seus fígados.

O fígado que me perseguia indignou-se:

— Seus assassinos! Sádicos! Psicopatas! Vou matar cada um de vocês! Arrancarei as unhas dos pés e das mãos de seus filhos – esbravejava, apontando a faca para os frequentadores do local.

Logo em seguida, a expressão da sua face mudou completamente. O fígado entristeceu-se e caiu de joelhos no chão. Para a surpresa de todos, começou a chorar.

Foi uma cena tocante. Jamais havia visto um órgão do corpo humano derramar lágrimas, exceto as próprias glândulas lacrimais. Compungido, ergui-me do meu pretenso esconderijo e me dirigi ao fígado chorão.

— Calma, não fique assim – disse a ele, em tom alentador.

Ele olhou para o meu rosto e falou:

— Não entendo o que eu fiz pra merecer isso. Não entendo.

Sentindo-me culpado por deixá-lo daquele jeito, cheguei mais perto para oferecer consolo. Ajoelhei-me no chão e envolvi o fígado em um abraço.

Nesse exato instante, senti uma dor aguda na barriga. Afastei-me e vi o fígado segurando a faca cheia de sangue.

Ele conseguira me esfaquear. Fui ingênuo demais, caindo em sua armadilha. Pelo pouco que conhecia do corpo humano, dei-me conta de que ele havia me apunhalado na altura do fígado.

Mais do que uma vingança, aquilo era também um suicídio. Um ato de misericórdia.

Enquanto eu, aos poucos, desfalecia, com sangue pelo corpo, vi meu algoz esboçar um sorriso. Ele sangrava a partir de um gigantesco corte que atravessava todo o seu corpo.

Abraçou-me. Tombamos juntos para meu lado direito, com os últimos suspiros em um ritmo cada vez mais lento. Com os olhos quase fechando, consegui vislumbrar os frequentadores do pub.

Alheios ao que acontecia, continuavam deliciando-se com suas bebidas.

por Silvio Pilau


Ficção de Polpa - Volume 1 - Organizado por Samir Machado de Machado - 2012.

Cabeça-de-Arroz


Quando foi perguntada sobre a alimentação, disse que comia bem, mantinha hábitos saudáveis, não fosse o excesso de arroz vez ou outra. O doutor quis saber mais sobre o assunto, pois admirava o tamanho e formato estranhos da barriga da mulher. Os braços gorduchos e as pernas de elefante denunciavam obesidade.

– O problema começou de repente, quando batia a fome.

Doutor Luís não acreditou na história, embora a naturalidade com que Neuci a contasse provocava um medo da coisa ser mesmo real. A mulher continuou falando de seu vício, como quem não se preocupava, não, fora o marido que a empurrara para o médico, caso contrário estaria em casa assistindo à novela das sete e comendo arroz, claro, embora o homem desconhecesse o desvio da esposa. Ela se sentiria muito melhor fora do consultório, longe do médico e de suas perguntas. Ainda assim, aguentou, paciente:

– Eu preciso comer fora das refeições. Arroz com feijão, arroz ao forno, bolinho de arroz e carreteiro não me satisfazem mais.

Qual seria a origem de tudo aquilo? Talvez a falta de instrução, afinal, parecia uma mulher humilde, ou a falta de educação, mas já era adulta, também. Ele não encontrava respostas e a mais óbvia era que nada daquilo fazia sentido, era uma louca, mais uma louca, afirmava o doutor em pensamento.

Na cabeça de Neuci, no entanto, a loucura não era cogitada. A sua melhor amiga tinha o vício do cigarro, muito pior que o dela; a outra colecionava em segredo formigas dentro de um pote para comer depois. Fazia bem aos olhos, acreditava Beatriz. Por fim, tinha a alcoólatra, que perambulava bêbada quando a cachaça invadia o sangue.

– Cigarro acaba com o pulmão da gente, não é, doutor?

Ele confirmou.

– Pois, então, arroz não acaba com ninguém. Só me deixou mais gordinha, admito. Mas, também, depois de dez anos de casada, você quer o que, hein?

Ele respirou fundo, ajeitou-se na cadeira dura. Sonhava tanto com uma poltrona de médico respeitado, aquela não causava imponência. Falou ríspido:

– Comer arroz, tudo bem, minha senhora. Agora, ter como hábito comer arroz cru já me parece um problema. Talvez não nutricional, pois de fato o arroz contém vitaminas, mas um problema psíquico, que deve ser tratado.

Ele estava ansioso por mandá-la embora, e criar um diagnóstico de problema emocional era fácil, fácil. Divertido, até. Mas ele não era médico pilantra, justificou a si mesmo, a mulher bem que deveria ter traumas mentais, e psicólogos tinham paciência para escutar histórias mirabolantes. Onde já se viu, comer arroz cru em quantidades imensuráveis. Além do mais, já passavam das seis, e aturar paciente na última hora do dia era sacrifício que não compensava. Menos ainda quando se tratava de paciente ignorante.

Neuci nem percebeu a distração do doutor, estava concentrada em detalhar como tudo havia começado. Não conseguia mensurar datas, como ele insistia em saber, mas havia anos tinha uma queda especial pelo grão.

– De um tempo para cá, a coisa piorou, ou melhor, melhorou. Comecei a comer arroz a cada duas horas, mais ou menos. Quando não tinha dinheiro para comprar, pegava sacos da dispensa da madame, qual o problema se ela tinha tanto e nem usava?

– Você consegue lembrar desde quando tem esse hábito? – interrompeu o médico.

Pensando nisso, ela notou que pouco guardava lembranças do arroz na infância. Na época, comia as verduras das plantações secas da roça, quando dava fruta também colhia, mas era com arroz que sonhava. Ah, quando tinha arroz dava pulos de alegria, até cair na realidade e precisar dividir com os doze irmãos uma panela só.

– Bem, como cozinheira, eu separava o arroz em copos para abastecer a família grande. Copos e copos de arroz, eu contava. Todo dia tinha arroz, e uma vez eu resolvi terminar com o desperdício. Foi quando comecei a raspar a panela e, depois, os pratos também.

Até aí, tudo normal, saciava a fome da infância na orgia de comer bem – e em boa quantidade. Foi quando, então, sua mente começou a sentir falta de arroz durante o espaço de tempo em que ficava sem comer, do almoço até a janta. Para terminar com o período ocioso, um dia resolveu levar o resto de um saco de arroz na bolsa. Se sentisse vontade, era só saciar comendo um pouquinho. Nem notava que o comia cru, era arroz, afinal.

– Assim foi, doutor. Levo na bolsa sempre um saco de arroz ou um pote mesmo.Já levei até tigela e panela, quando o desejo é grande e não consigo controlar – e abriu a bolsa de pano, mostrando um saco que tomava conta do espaço todo. No fundo da bolsa, ele espiou, grãos espalhados a preenchiam.

Recordou-se então das inúmeras vezes em que fazia isso – todos os dias, já havia meses. Na casa da família, escondia-se logo que chegava ao quarto dos empregados e deliciava-se com o grãozinho duro, fresco, pequeno e fino. Ao morder os pedaçinhos em conjunto, o clec clec das dentadas a excitava. Clec, clec, clec e o som tornava-se uma canção. Era o período do dia em que se aliviava das tensões, jogando-se no conforto do arroz puro.

De volta ao trabalho, sem mesmo notar, já tinha um punhado de arroz escorrendo entre os dedos rechonchudos, caindo da mão enquanto boa parte abastecia a boca esfomeada. Em momentos de extrema necessidade, via-se lambendo o piso gelado, a língua procurando os grãos como se brincasse de bater carta. Um dia, a patroa a viu assim, com o traseiro gigante empinado e o rosto grudado no chão. Foi quando descobriu.

– Notou alterações no organismo?

– Nada, não, doutor.

Na sua casa, todavia, o esposo nunca desconfiara. Ela disfarçava o comportamento estranho justificando que as idas ao banheiro eram por causa de diarreia. Na verdade, corria para o cubículo e abria, afoita, o saco de plástico, metendo a cara dentro. Cuidava para fechar os olhos, era viciada, mas não queria arroz penetrado também na sua pupila. Já bastavam as bochechas entupidas – não de ar. No ônibus, escondia também no bolso da calça e, vez ou outra, metia os dedos procurando o alimento cru.

– E as fezes? Está evacuando bem?

– Ah, faço com menos frequência, me sinto presa, sabe? Antes, tinha diarreia,agora nem isso.

– Dores estomacais, desconforto intestinal?

– Qual a diferença? – perguntou a mulher, fazendo batidinhas na pança gorda.

Naquele momento, pôde-se ouvir um ruído estranho. Doutor Luís tentou associá-lo com algum barulho conhecido e se lembrou das miçangas que caíam aos montes no chão, enquanto as filhas criavam pulseiras e colares e depois deixavam tudo bagunçado na sala.

Para mostrar a localização de cada órgão e perguntar sobre a possível dor, ele aproximou-se da barriga volumosa e a tocou, sentindo-se o homem mais corajoso do mundo. Era um médico de verdade, provava o seu maior sacrifício em prol da profissão.

Com as mãos tensas, ensaiou marteladas rítmicas na barriga de Neuci. Um barulho mais alto foi ouvido na sala fechada e o doutor teve certeza de que vinha, sim, de dentro da mulher. Agora, pareciam-lhe bolas de gude batendo umas nas outras. Ignorou o sentimento de nojo. Fazia parte do ofício de médico encarar os casos mais bizarros. E resolvê-los. Foi quando tomou a decisão:

– Vamos precisar olhar esse troço aí – e apontou assustado para o local de onde saíam os ruídos.

Quando se deu conta de como chamara o corpo da paciente, reformulou a frase, não por arrependimento, mas por normas médicas e jurídicas, não queria ser acionado por danos morais:

– Desculpe, precisaremos fazer uma intervenção cirúrgica. Seu aparelho digestivo não me parece estar funcionando direito, não é normal esse barulho.

Neuci nada falou e pôs-se a bater de novo em cima da barriga que parecia mole, mas na sua textura estava inchada.

– É bom, não é, doutor? Aposto que você nunca ouviu nada igual.

E o barulho ploc ploc ploc repetia-se,para a euforia dela e a apreensão do médico. Que é isso?, perguntava-se ele, inconformado por nunca ter visto – ou melhor, ouvido – sons parecidos saindo de dentro de um ser humano.

Na semana seguinte, aconteceu tudo rápido. Ela chegou ao hospital precário acompanhada do marido. Na preparação para a cirurgia, precisaram de dois aventais daqueles com a bunda de fora para dar a volta no corpo da paciente. A gordura extrapolava o limite não apenas estético, mas físico. A bunda flácida derretia para fora do buraquinho maldito. Duas macas também foram pedidas, o esposo que observava distante só se perguntava, nervoso, se o SUS permitiria assistência em dobro. Já fora milagre conseguir agendar horário num sistema lento como aquele.

O clima na mesa de cirurgia também era de nervosismo. O doutor e mais dois residentes cercavam Neuci para não deixá-la fugir, estava impossível, a mulher não queria anestesia, tinha medo de morrer.

Quando, finalmente, enfiou a mão em suas vísceras, a primeira reação do homem foi a de fechar os olhos, a visão mais nojenta de sua vida o deixara tonto. De olhos cerrados, pela primeira vez na carreira não pôde visualizar a cena, deixou apenas o tato de médico entender o quadro. Então sentiu cócegas, mesmo que a luva se consistisse num filtro, sentiu cócegas, como se afogasse o braço naqueles tonéis profundos de arroz, feijão e milho que são vendidos nas feiras e nos comércios locais.

Abriu os olhos e não controlou, virou para o lado, e o vômito saiu às pressas. Em meio às tripas, inúmeros grãos flutuavam e nadavam sufocados, soltinhos, em milhares, incalculáveis, e batiam-se uns aos outros, competindo por um espaço do mar tomado pelos grãos. Quase não havia líquidos, a água transparente do intestino misturava-se com o verde da bile, e tudo junto se traduzia na visão de um corpo defasado, em plena degeneração.

Doutor Luís chamou os dois assistentes, que olharam apavorados.

– Fixem os olhos nos intestinos. Quem pode me responder onde está o delgado e onde fica o grosso?

Os dois jovens aprendizes ficaram calados. Não podiam distinguir nada do que viam. Nem o doutor conseguia.

Após os grãos duros serem postos para fora com colheres e conchas que os residentes buscaram correndo na cozinha do hospital, uma nova surpresa aconteceu. Embaixo do arroz seco, uma onda de arroz papado, úmido assim devido à água que o cozinhara durante algum incerto tempo, jorrou do corpo da mulher, como a correnteza de um rio furioso, lavou a cama e molhou o avental do médico. Vinha mais e em maior fluxo, grãos por toda a parte, tapando o corpo da paciente, que estava afogada em arroz até o pescoço. No rosto da mulher, um movimento inacreditável paralisou a equipe: sua boca abria e fechava, sem parar, e a onda de arroz entrou pelos lábios, o músculo facial se estendeu e ficou mais flexível. Litros de pasta de arroz entalaram na garganta, cujas amídalas gesticulavam um vaivém de flexões ansiosas. Neuci parecia querer engolir tudo aquilo e, embora ela estivesse dopada, a sua carne pedia arroz, doutor Luís podia ter certeza.

Os médicos não sabiam o que fazer, o nervosismo aumentava, e nem mesmo os maiores baldes da cozinha davam conta de retirar todo o arroz. A sala parecia pequena demais perto do tamanho da massa gosmenta que se formava, um monstro feito de pequeninos grãos, daqueles que as pessoas conhecem e comem todos os dias.

Então, num verdadeiro transbordamento do rio, o arroz entalado na garganta evacuou pelo nariz branco, que agora estava uma bolota vermelha, e saiu pelas orelhas grandes e até pelos olhos. Sim, pelos olhos, os grãos não a pouparam de nada. Parecia que o arroz estava vivo dentro da mulher, consumindo-a.

Ela era arroz e o arroz era ela. 

por Annie Piagetti Müller


Ficção de Polpa - Volume 1 - Organizado por Samir Machado de Machado - 2012.

A Meia-Noite do Fim do Mundo


O mundo acabou. Não que o planeta tivesse se desintegrado. Todas as formas de vida visíveis estavam exterminadas. Ana era a última sobrevivente. Fechada em seu apartamento, ela viu tudo morrer à sua volta. Viu anunciarem na televisão que o terrível vírus estava solto na atmosfera, matando pessoas, animais e plantas em segundos. Viu o apresentador do telejornal, ao vivo e em cores, sangrar pelos poros e morrer em frente às câmeras.

Permaneceu sentada no sofá até a telinha passar a transmitir um chiado fora do ar. Ligou o rádio: estática estalando em todas as estações. Olhou pela janela: pessoas sangrando e morrendo em desespero. Ligou para os amigos: não encontrou ninguém. “Todos mortos”, pensou. Então, os telefones emudeceram e a energia elétrica foi cortada. O silêncio absoluto de um mundo sem vida penetrou em seu corpo e foi aí que ela percebeu que estava só no planeta. Ana era amiga da solidão. Desde a morte do filho, praticamente não saía do apartamento. Sua redoma de vidro.

Até quando sobreviveria com seus estoques de bolachas e água mineral? Essa era a grande questão do presente. Lacrada naquele apartamento decadente, não tinha sido atingida pelo vírus. Mas até quando?

Caiu a noite e com ela a escuridão total. A lua andava sumida. Nuvens negras pairavam. Sentada à janela, Ana refletia sobre o estúpido fim do planeta. Nada de guerras atômicas ou interplanetárias. Apenas um animalzinho invisível que destruiu os outros todos. Criado pelo mais estúpido dos animais, em um de seus estúpidos laboratórios.

O velho relógio de parede bateu doze vezes. Era a meia-noite do fim do mundo. Pensou sobre o tempo e a ausência de sentido dele naquele instante. Quando a última badalada soou, um calafrio percorreu Ana até a medula: uma batida fraca e vacilante vinha da porta da frente. Ela imaginou tratar-se de delírio. Então, tornou a ouvir a batida. Dessa vez mais forte. Acendeu a vela da Virgem Maria e colou o ouvido à porta. O som leve da mão, se chocando contra a madeira, repetiu-se, quase em câmera lenta.

— Quem é? — perguntou ela, com um fio de voz.

— Sou eu, mamãe.

Aquela voz de criança gelou o sangue de Ana. Era seu filho. Impossível! Seu Cristian morrera havia dois anos. Estava louca, sem dúvida. Gritou para ele ir embora, deixá-la em paz.

— Abre mãe, por favor. Está frio aqui fora.

O resto de razão remanescente dizia para ela se afastar dali. Sentimentos que não entendia moveram suas mãos e abriram a porta. Lá estava ele, iluminado pela luz bruxuleante: Cristian, seu menino, lindo como na noite em que morrera. Possessa por emoções, ela puxou o garoto contra o corpo e o abraçou com força. Num átimo, aquele abraço maravilhado transformou-se num momento de horror.

Ana sentiu a pele de Cristian desmanchar-se feito uma espuma pegajosa; o cheiro de fezes e enxofre e o frio cadavérico. Afastou-se dele, num gesto de repulsa. O rosto do garoto era o focinho de um monstro. Ele soltou uma gargalhada sinistra, escancarando os dentes podres.

— Você não é meu filho! — Ana tremia. — Quem é você?

A criatura odiosa aproximou-se da mulher e, em meio a vômitos, começou a falar:

— Quem sou eu? — A voz soava como a dos demônios nos filmes. — Criatura tão patética. Tem a petulância de perguntar quem sou eu. Porém, sua agonia me diverte, assim como de toda essa espécie de insetos pretensiosos chamados de humanos.

Pavor e nojo se confundiam em Ana. À medida que a monstruosidade falava, crescia de tamanho e, ao mesmo tempo, pedaços decompostos se desmanchavam em seu corpo e se espatifavam pelo chão.

— Quem sou eu? O tudo e o nada. O infinito. Habito este planeta infeliz muito antes dos dinossauros. Os antigos, que viram o mundo amadurecer, já me cultuavam em suas escrituras sagradas. Eu era conhecido como Nyarlathotep, o Rastejante Caos. Isso muito antes de eu criar, de um pedaço de meus excrementos, essa subespécie da qual você faz parte. Isso mesmo. Você ouviu bem. Eu os criei. Eu sou o que está descrito nas suas miseráveis escrituras como O Criador. Criei para gozar com seu sofrimento. Matar o tédio com sua dor. Porém, suas capacidades limitadas já não me emocionam mais. Resolvi acabar com a vida neste planeta. Eu os criei. Assim tenho o direito de fazer com vocês o que bem entender. O vírus? Já o exterminei. Meu objetivo é o fim da vida. Por que eu apareci aqui na forma de seu filho?

A mulher sufocou de medo. A criatura lia seus pensamentos.

— Impressionada? — o monstro prosseguia — sim, eu sei o que você está pensando. Quando você rezava em frente a essa ridícula santa, era para mim que você implorava. Chorando de modo desprezível para que seu filho fosse para um lugar melhor. O Paraíso! — E riu, com escárnio. — Seu filho não existe mais. Virou um nada, assim como todos os que habitaram este inferno. Apareci na forma de seu filho, pois queria vê-la sofrer. Achou que podia me enganar? Trancada neste apartamento julgava poder evitar o inevitável? É muita pretensão para verme tão vil. Eu poderia esmagá-la feito um inseto. Não. Desgraçada que é, deve sofrer. Vai morrer. Achava que não? Vai morrer sabendo que a culpa pela morte de seu filho foi sua. Sua e de mais ninguém.

Ana começou a sangrar pelos olhos. Perdeu as forças. E, finalmente, a vida se extinguiu do planeta.

por Fernando Mantelli


Ficção de Polpa - Volume 1 - Organizado por Samir Machado de Machado - 2012.

Funghi


Em segundos, os cogumelos começaram a brotar. Apareciam entre os azulejos, nasciam do rejunte. Foi rápido. As pequenas cabeças de cor clara, peculiarmente manchadas de marrom, cobriram todos os centímetros do piso da cozinha. Minhas mãos se abriram para que meu corpo recebesse todo aquele perfume estranho. Um cheiro quente e úmido, feito um grande corpo quente e úmido. Entrou em mim. Lento, constante.

Os vidros de esmalte e acetona caíram no chão. Metade das minhas unhas roídas estava vermelha. O restante exibia uma pele rubra. Sangue. Um machucado esculpido há dias pelos meus dentes. Isso é quase tudo o que lembro. Isso e a fome que me conduzia com as pernas bambas. Uma vontade de abrir a boca e consumir tudo aquilo. Esmaguei um pouco desse jardim silvestre até o caminho do armário. Creme de cogumelos delicioso, minha boca salivando, minha língua passeando pelos lábios. Ouvi gemidos. E me senti poderosa imprimindo a marca dos meus dedos e calcanhar em todos eles. Invencível como um trovão, um raio, o mar, um vírus letal. Lobista da morte, alta executiva da funerária universal, rainha do lar.

Com a pá numa das mãos, fui golpeando o solo. Com a outra, protegia os olhos dos cacos que voavam como flechas pontiagudas. Os cogumelos colhidos, cuspindo palavrões e impropérios de suas pequenas bocas e seus pequenos dentes, foram acomodados no meu colo. Enrolei a barra do vestido e joguei tudo dentro da panela. Os olhos me vigiavam enquanto eu riscava os fósforos. Um após o outro, a lixa encharcada com o meu suor. Alumínio quente, me acomodei próxima da porta e apreciei o cheiro vivo do funghi. Verdadeiro banquete do meu olfato, insanidade gastronômica, criaturas perdendo a alma e virando refeição.

Pensei em um banho quente antes de preparar prato e talheres. Água e doce acetona na banheira para curar as minhas feridas. Para relaxar. Circulei pelo apartamento. Os cogumelos já estavam por toda a parte. No tapete e sofá da sala. Na cama e no travesseiro amarelado. No banheiro, arrastavam seus torsos porosos para inspecionar a ferrugem da esquadria metálica do boxe. Com seus três pequenos dedos, desmontaram o chuveiro e constataram que a resistência estava queimada. A água estava fria feito o vento da rua, e escura como lama. Era espessa e escorria nas paredes. Tudo cheirava a esgoto, lixo, uma podridão azeda. Talvez por isso estivesse me sentindo tão pesada, tão suja. Tão cansada daquelas roupas jogadas no chão, chutadas no caminho, espremidas atrás do vaso sanitário.

Levantei o rosto e me vi no reflexo do espelho. Uma pessoa em forma de sujeira. Tive vergonha do meu corpo, das minhas costelas aparentes, do meu rosto apagado de olhos quase vítreos. O meu ventre murcho, inútil após tantos anos de tentativas e abandono inevitável. Pobre mulher branca, magra, esquecida de si mesma, eu falei. Abracei meu próprio corpo, escondendo o que pudesse. Senti as crostas de peles endurecidas dos meus cotovelos, a pele gordurosa e flácida.

Feito uma tartaruga medrosa, me encolhi no chão, tentando esconder tudo isso dos meus olhos, do mundo. Estava envergonhada de ter desistido, de ter pausado a existência para ruminar pensamentos destrutivos durante meses. Eu era mesmo a rainha de um lixão de paredes mofadas, e meu cetro de strass descascado e velho não imprimia respeito em ninguém.

Fui me afastando do cheiro do funghi quente. Com o rosto encostado no carpete, me esqueci da fome, deixei a atmosfera me absorver e o alívio me cobrir por completo. Senti as pequenas mãos encostando no meu corpo, limpando minha pele com algodão perfumado. Era isso. Uma salvação difícil de compreender, mas que contaminava como cheiro de rosas. Suspirei enquanto lavavam meu rosto, minhas costas, meus pés.

Sorri ao ver a dedicação dos cogumelos em reciclar também todo o apartamento. Recolhendo papéis, tirando o pó, sumindo com as camadas de poeira e cabelos que se acumulavam nos cantos. Os meus duendes da sorte me renovavam e me deixavam como no nascimento. Sem minhas roupas rasgadas, pura, com uma chance de começar tudo de novo.

Voltei para a cozinha e, próximo da pia, uma xícara fumegante me foi apontada. Um chá quente, saboroso. Bebi em grandes goles, sem me importar com o calor queimando a boca. Eu estava imune, protegida. E, lentamente, meus olhos se fecharam, e todos os meus pensamentos foram apagados. Como se alguém desligasse o botão com o meu nome... O nada... Absoluto, tranquilo, paraíso.

É quase tudo o que lembro. Há alguns minutos acordei. Cordas grossas prendem meus pés e mãos. Impossibilidade de mexer qualquer parte do corpo. Sem forças para emitir todos esses gritos que estão dentro da minha cabeça.

Recobro a consciência e sinto uma dor aguda num dos dedos. Um cogumelo morde com força. O sangue escorre... Agora, estão aqui na minha frente. Na linha dos meus olhos que tremem sem parar. Tantos cogumelos, enfileirados, numa marcha imóvel que aponta para mim. Suas bocas salivam. Eles me olham. E cuidam daquela imensa panela sobre o fogão.

por Luciana Thomé


Ficção de Polpa - Volume 1 - Organizado por Samir Machado de Machado - 2012.

Ventre


Matei minha mãe. Sim, eu a matei com um bisturi cirúrgico. Um corte no ventre com precisão, extraindo-lhe o útero, esse órgão muscular, localizado atrás da bexiga e na frente do reto, cuja função principal é abrigar o óvulo para nutrir e protegê-lo em suas etapas de embrião e feto. Foi meu primeiro crime, a primeira vez que senti o sangue quente em minhas mãos, prazer que cultivaria por muitos anos.

Desde criança, ela me destratava, me chamava de guri imprestável, porco, nojento. Dizia que meu pai dava mais atenção ao filho que à esposa. Coitado dele, estava sempre em congressos viajando, era médico. Acabei com a vida do homem. Não queria prejudicá-lo, mas foi a única forma de me livrar dela. Arquitetei o plano em detalhes, sabia até a hora em que o “doutor” ia entrar em casa naquele dia. Ele se matou na prisão, jurando amar a “mulher”. Foi condenado por homicídio triplamente qualificado. Os vizinhos escutaram seus gritos enlouquecidos e chamaram a polícia, que encontrou o pai com o bisturi na mão, histérico, banhado num mar vermelho.

Eu estava sentado num canto da sala; assim me encontraram. Fui manchete dos jornais. O filho de doze anos, órfão de mãe, ausente de pai. Fui criado por um tutor após o assassinato. Não localizaram o útero. Eu o escondi, banhado em formol, com as técnicas que aprendi estudando os livros de medicina da biblioteca de casa. Sempre fui autodidata. O útero está na minha coleção pessoal. O ventre daquela vaca foi arrancado para que ela não pudesse mais ter filhos. E, consequentemente, nenhum sinal de vida.

Na fria sala da delegacia, olho espantado as fotos em cima da mesa. As vítimas, mulheres de trinta anos, loiras, olhos azuis; estabelecendo um padrão, foram encontradas sem útero, costuradas cirurgicamente, sem nenhum sangue. Que psicopata teria intenção de deixar suas vítimas em perfeito estado, sem a parte essencial da procriação? O que ele estaria fazendo com isso? Experiências? Releio as anotações, observo a postura das vítimas, vinte e cinco delas, uma a cada bimestre, todas com uma rosa vermelha encontrada sobre o sexo, sem sinal de estupro. Há quase cinco anos o persigo. Como delegado deste distrito, não desisto de buscá-lo. Queria conhecê-lo ao menos para entender seu objetivo. Quando analiso esse caso, lembro-me de minha mãe, coitada, que morreu tão jovem, com a idade das mulheres congeladas nessas fotos.

Quero livrar o mundo do caos antes do juízo final. Essas vagabundas que andam na noite, dançando, exibindo seus corpos – não merecem viver. Minha mãe fazia assim: bastava meu pai viajar a trabalho e ela caía na noite, voltava fedendo a cigarro, com cheiro de sexo no corpo. E me batia, aquela puta, me esbofeteava a cara quando eu perguntava aonde ela tinha ido:

— Não te interessa, guri. Tu não vais contar nada para o teu pai. Senão, eu te mato!

Uma noite, ela me disse isso pela última vez. Eu a cortei em forma de cruz, como se fizesse um haraquiri, enfiei a mão e puxei aquele pedaço redondo de carne quente.

Hoje, ando pela noite e conheço várias mulheres iguais a ela. As solteiras, sem filhos, acho que têm o direito de se divertir. As vagabundas que me comentam que o filho está dormindo em casa, eu envolvo, seduzo, levo para o meu apartamento. Lá, a sala cirúrgica está preparada. Assim que uma entra, eu tapo a boca e o nariz dela com formol. Não me contento em extrair o útero; deixo ela morrer. O filho que espera a puta em casa será cuidado por algum parente, alguém que se importe mais com ele do que uma vaca da noite. Faço questão de deixar o corpo em algum gramado da cidade para que todos vejam. Coloco uma rosa, entre o ventre e o sexo, como uma metáfora; o maior símbolo dos amantes, só para lembrar os momentos de paixão que trazem ao mundo filhos indesejados.

Minha vida está neste distrito. Ando tão cansado que, muitas vezes, mal lembro onde estive. Vivo apático, tento mostrar punho quando meus subordinados estão à volta. Desloquei uma equipe para prender esse assassino. Não tenho tempo para sexo, para prazeres. Já não sei mais o que é isso. Estou quase assexuado. Também não lembro se algum dia senti prazer com uma mulher. Não sou homossexual. Mas o cansaço, o estresse do trabalho, me deixa sem vontade de nada. Tomo café compulsivamente para ficar acordado. Fumo duas carteiras de cigarro por noite. Sou elogiado pelos colegas, considerado por meus superiores, adorado na mídia. Estou em alta na sociedade, influencio quem eu quiser. Faço meu trabalho, tenho a ética de não abusar do poder que me foi dado.

“O Colecionador de Ventres” resolveu me provocar. Após a entrevista que concedi na televisão, ele agora me manda um buquê de rosas por semana. Estaria apaixonado por mim? Ou ele apenas deixa pistas querendo ser encontrado? Eu tomo cuidado quando estou em público. Tento resguardar minha vida. E, principalmente, quero preservar a das futuras vítimas. Se eu não mobilizasse essa busca frenética, ele não teria mais limites, as mortes seriam incontáveis.

Aquele delegado imbecil resolveu colocar a boca na mídia. Acha que vai conseguir me localizar fazendo escândalo. Não sabe o bem que estou fazendo à sociedade, livrando o mundo dessas mulheres sujas. Onde está escrito o que é bom ou mau, certo ou errado? Foi essa sociedade medíocre que decretou isso. Não conseguem limpar nem a própria imundície, quanto mais purificar alguma coisa. Eu só faço o meu trabalho. Uma a menos para deixar as crianças abandonadas no mundo. Quando caminho à noite em direção aos bares, vejo as crianças atiradas nas ruas, passando frio e fome. De dia, estão nas sinaleiras, pedindo esmolas para abastecer a necessidade de álcool das mães bêbadas em casa. Eu faço justiça com meu próprio bisturi, o mesmo que roubei de meu pai há muitos anos. Ele continua intacto, a lâmina fria, cortante. Aquele delegadozinho, que não tem nem a coragem de mostrar a cara na tevê, acha que pode fazer o que quer. Vou perturbar a vida dele.

Mandarei uma flor ao dia, não... quem sabe um buquê por semana?

Ele está passando dos limites. Não contente em me mandar rosas, deixa mensagens escritas a sangue destinadas a mim – primeiro, perto das vítimas e, agora, mais abusado que nunca, sujou a minha sala na delegacia escrevendo na parede: “Moretti, sua bicha! Pecado é privar-se do prazer!”. Ele resolveu fazer isso depois que dei uma entrevista na tevê falando que o que ele fazia com as vítimas era um pecado, um sacrilégio.

Cinco anos de faculdade e eu optei pelo Direito Penal, talvez por culpa de não ter impedido a morte da minha mãe. Resolvi interceder em outros crimes. Quinze anos nesta delegacia e nunca vi um caso parecido. Esse homem acha que está contribuindo para a sociedade, que nada faz de errado. Quer que eu o encontre – não para ser preso, mas para nos enfrentarmos. Deixou um último bilhete com um endereço, pede que eu vá sozinho. Decido ir sem minha equipe, revoltado por ter sido chamado de veado. Coloco a arma na cintura e saio em sua busca.

Há algumas horas, deixei um bilhete para que ele viesse ao meu encontro. É a única forma de descobrir quem eu sou, ou assumir quem realmente ele é.

Essa veiculação toda, notícias no jornal; estão me chateando, me chamam de “Colecionador de Ventres”. Eu não os coleciono, apenas os guardo em meu apartamento, enfileirados em prateleiras, para se conservarem intactos, sem função. Devo ter uns cinquenta deles. Vou sair e deixar aquele delegadozinho de merda passear pelo meu apartamento e fuçar tudo o que deseja. Quero ver se, depois de visitar este lugar, ele não vai me dar razão, parar de questionar meus atos.

Paro o carro em frente ao prédio. Olho para os lados e verifico minha arma. Hoje é o dia do fim. Vou matá-lo assim que o vir. Não quero nem levá-lo preso. Esses psicopatas de bosta só incomodam. Não vão presos, alegam insanidade e só dão despesa. Entro no prédio, subo as escadas. Estou em frente ao seu apartamento, a porta está apenas encostada. O cheiro de formol é forte e nauseante. As estantes na sala distribuem os troféus lado a lado. Encontro uma sala com material cirúrgico: bisturi, tesoura, linha e uma maca com lençol branco.

No quarto, uma fita de vídeo em cima da cama, etiquetada, com meu nome. Assisto a uns quinze crimes documentados. Ele filmou quase todos. Nauseado, vomito. Não acredito no que vejo.

Vim decidido a matá-lo. Vou até o espelho e me olho incrédulo. Em poucos segundos, eu o matarei. Encosto a arma na cabeça. Atiro.

por Roberta Larini


Ficção de Polpa - Volume 1 - Organizado por Samir Machado de Machado - 2012.

Tempestade em Coney Island


O sr. Hammam Fields é um militar reformado e vive com sua esposa, a Sra. Fields, num antigo apartamento em Coney Island, Brooklyn.

— Hammam querido, olhe como as nuvens estão carregadas.

Hammam assentiu com a cabeça, disse que a chuva viria em boa hora. Os dois olhavam pela varanda aberta como sempre faziam nos fins de tarde. De Coney Island, via-se pouco, mas o suficiente. Uma escura porção do Atlântico que, nos dias de vento como aquele, formava pequenas rugas de espuma branca, e as ondas irrequietas se assemelhavam a barbatanas de tubarão. Na baixa silhueta dos prédios, viam-se janelas sempre velhas, tijolos escuros e letreiros apagados pelos ventos ou pelo descaso.

Um cotovelo da Cyclone Roller-Coaster e mais da metade da Wonder Wheel surgiam de um ponto da Jones Walk encoberto pelos prédios centrais. O parque estava desativado havia cinco meses.

Hammam foi até a cristaleira e aumentou o volume do rádio. As trovoadas e rajadas de vento estão mais intensas no início de Manhattan Beach e em quase toda extensão da praia de Brighton. Preparem o espírito, caros ouvintes, aí vem uma bela tempestade. Hammam caminhou até a cozinha e buscou na geladeira uma garrafa de Duff.

— Clara, eu realmente não entendo essa sua mania de ler receitas.

— Ora, querido, esta revista traz ótimas dicas.

— Em compensação, você sempre faz a mesma droga de pastéis.

— Oh, querido, não seja brusco, sabe que faço o melhor que posso.

Hammam sentou de volta, agora o rádio suficientemente alto para encher a sala. O locutor continuava com os maus presságios. O vento batia nas persianas e fazia um ruído fino e prolongado. A escuridão abarcara-se no céu e, em contraste, relâmpagos eventuais punham o horizonte em branco chapado. De tanto que se debatiam, as bandeirolas do topo da Cyclone Roller-Coaster ameaçavam voar Massachussets adentro.

Uma chuva pontiaguda passou a entrar pela varanda. Clara se levantou para encostar uma das portas de vidro.

— Querido, preciso que me ajude. Não quero que esta chuva o deixe encharcado.

A eletricidade caíra em parte do Brooklyn e, a partir de Coney Island, era possível avistar o grande vulto negro que se espichava ao oeste pelas regiões sem luz. Todo e qualquer vestígio iluminado parecia encoberto, e ninguém estranharia se naquele lado a névoa escura sorvesse os edifícios, as pontes, as pessoas que ainda estavam na rua. Ao leste, o Atlântico em sobressaltos. As cristas de espuma branca cederam lugar a espessos blocos de água cinza, que se entrecortavam como pesadas lâminas de chumbo líquido. As lâmpadas, as poucas e pálidas lâmpadas de Coney Island piscavam em caos, num prenúncio de que logo o bairro também ficaria sem energia.

O rádio chiava, parecia percorrer o tuner por conta própria, buscando uma nova estação sem chegar, sem encontrar voz, canção, sequer um som familiar – e não havia ninguém perto do aparelho. Clara punha na ponta dos dedos e na palma da mão a aflição, quase rasgava as páginas da revista, sentia suas artérias engasgadas de vertigens. Sua boca fina e enrugada pôs-se seca, e os miúdos olhos contorciam-se buscando algo que lhes oferecesse confiança. Estrondos de todos os lados, de perto e longe: explodiam trovoadas, grandes e pesadas massas de ferro pareciam despencar, vidros estilhaçavam.

O rádio parou de chiar, emitia um sinal agudo, contínuo, como o grito de uma ave silvestre antes de ser abatida. As fotografias na parede convulsionavam-se involuntariamente, e quando as esparsas rajadas dos relâmpagos iluminavam a parede, viam-se as condecorações militares penduradas, tortas, trêmulas, prestes a despencar, e o retrato dos Marines do Brooklyn de 57, o quadro da família em piquenique no Queens, a foto do casal quando jovem, em Birston Lake, Oklahoma. Hammam estava sóbrio, sentado, observando a insurreição do clima.

— Hammam querido, fale algo. Estou ficando nervosa.

Hammam buscou do chão a garrafa de Duff, deu um último gole e avisou que iria atrás de mais cerveja. A luz acabara fazia uns poucos minutos, e ele levaria consigo uma lanterna e um abrigo de chuva.

Clara decidiu girar sua poltrona para o interior da sala, dando as costas ao temporal. Coberta e agarrada à colcha de lã, ela comprimia as mãos, cerrava os olhos e sussurrava pelos cantos dos lábios uma prece de ajuda. Os vidros oscilavam epileticamente: para dentro, para fora, forçados pelo turbilhão de raios, ventos escuros e a chuva que caía em pesados filetes. Clara fechava os olhos e via um vácuo negro, abria-os e via tudo à volta, mas por frações de segundos, quando os relâmpagos davam a luz escassa, luz de chumbo, e os retratos na parede, e os retratos em que Hammam estava sozinho, como aquele no barco de pesca, sua expressão alegremente perversa. Oh, por que Hammam decidira buscar cervejas justo agora? Decerto ele ficará doente nessa tempestade, isso se não sofrer alguma injúria.

Clara começou a chorar baixo, por que Hammam era assim, afinal? Decidiu tornar o corpo para trás, talvez visse Hammam voltando para casa, explodiu outra bomba de luz no horizonte, e justo na hora em que virava o pescoço, sem querer, pois Clara não queria nada mais do que Hammam a seu lado – sem querer ela avistou no topo da Cyclone Roller-Coaster, agarrado a uma bandeirola verde, como em pesadelos, vestindo uma estranha farda de capitão da marinha francesa, com um toco de madeira no lugar do braço direito, o chapéu em retalhos, uma bainha de espada atravessada no peito, lá em cima, no cume da montanha-russa, nítido, não era assombração, um homem do qual só se viam os olhos, o rosto todo escuro, a mão esquerda deformada e um par de botinas brancas. O homem olhava para ela.

Clara virou-se, oh, não poderia ser, bem agora que Hammam não estava a seu lado, ela vendo uma coisa daquelas, devia ser a idade, e pôs-se a chorar sussurrando um pouco de desespero.

No interior do apartamento, a parede em nacos de luz, listrando em fosco e escuro o sofá, a cristaleira, o rádio, os diversos retratos que, tremendo, pouco a pouco foram despencando, despedaçando-se, um a um, até sobrar um último, que não balançava e ficou só e único na parede: o retrato de Hammam na pescaria, sorrindo, sorrindo, mas os lábios contornados com uma ironia perversa, o olhar malicioso, nunca tinha percebido Hammam assim. Clara abraçou-se, pôs a lã no rosto, mas era melhor tentar ver, assim estaria prevenida. O turbilhão sonoro. O rádio apitando como ave silvestre. As vidraças dobrando-se, histéricas. Trovoadas. As lâminas de chumbo debatendo-se no mar. As bandeiras voando. O capitão francês de rosto apagado olhando-a. Nacos de luz fosca e nacos escuros trocando de lugar.

Clara não sentia mais as pontas dos dedos — apertara-as tanto —, não sentia em si própria nada além da vertigem abismal, da dor que lhe cortava a alma, do desespero. Viu crescerem raízes pelo tapete italiano, viu nascerem trepadeiras nas juntas das paredes, viu formarem-se folhas estranhas, escuras, de bordô-sangue, e viu vinho escorrer pelos rodapés da sala.

Clara chorou sufocada, atirou o livro de receitas contra o caule que crescia junto ao pé da poltrona. Entre os pedaços de luz, projetada como sombra na parede, a silhueta do capitão francês sem rosto, de pé na varanda, atrás do vidro – Clara fechou os olhos e permaneceu a enxergar a imagem, sentiu o pé cortado pelas pontas das folhas, a raiz sufocando a pele, o capitão chegando mais perto e erguendo a mão de pau, as bandeirolas, os blocos de ferro caindo em direção ao teto do apartamento. Um barulho de chaveiro. Enrolada na lã, de olhos fechados, Clara percebeu que alguém abria a porta de casa. Hammam, enfim. Hammam querido. A porta abriu.

— Hammam querido, que bom que você chegou — disse, entre soluços de choro.

Foi quando percebeu: era Hammam, seu perfil desenhado pelo escuro, a mesma roupa, o abrigo para chuva, uma sacola à mão direita – devia ser a cerveja. Mas havia algo de estranho. Clara percebeu o rosto de Hammam: os olhos em vermelho, os dentes afiados como lâminas, o nariz enegrecido e pelos por toda face. Pelos por sobre as narinas, envolvendo-lhe o queixo, circundando as olheiras, rodeando a boca e saltando-lhe das bochechas como se fosse um lobo cinzento.

— Olá, querida — respondeu.

por Rafael Kasper


Ficção de Polpa - Volume 1 - Organizado por Samir Machado de Machado - 2012.
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