terça-feira, 31 de maio de 2016

Funghi


Em segundos, os cogumelos começaram a brotar. Apareciam entre os azulejos, nasciam do rejunte. Foi rápido. As pequenas cabeças de cor clara, peculiarmente manchadas de marrom, cobriram todos os centímetros do piso da cozinha. Minhas mãos se abriram para que meu corpo recebesse todo aquele perfume estranho. Um cheiro quente e úmido, feito um grande corpo quente e úmido. Entrou em mim. Lento, constante.

Os vidros de esmalte e acetona caíram no chão. Metade das minhas unhas roídas estava vermelha. O restante exibia uma pele rubra. Sangue. Um machucado esculpido há dias pelos meus dentes. Isso é quase tudo o que lembro. Isso e a fome que me conduzia com as pernas bambas. Uma vontade de abrir a boca e consumir tudo aquilo. Esmaguei um pouco desse jardim silvestre até o caminho do armário. Creme de cogumelos delicioso, minha boca salivando, minha língua passeando pelos lábios. Ouvi gemidos. E me senti poderosa imprimindo a marca dos meus dedos e calcanhar em todos eles. Invencível como um trovão, um raio, o mar, um vírus letal. Lobista da morte, alta executiva da funerária universal, rainha do lar.

Com a pá numa das mãos, fui golpeando o solo. Com a outra, protegia os olhos dos cacos que voavam como flechas pontiagudas. Os cogumelos colhidos, cuspindo palavrões e impropérios de suas pequenas bocas e seus pequenos dentes, foram acomodados no meu colo. Enrolei a barra do vestido e joguei tudo dentro da panela. Os olhos me vigiavam enquanto eu riscava os fósforos. Um após o outro, a lixa encharcada com o meu suor. Alumínio quente, me acomodei próxima da porta e apreciei o cheiro vivo do funghi. Verdadeiro banquete do meu olfato, insanidade gastronômica, criaturas perdendo a alma e virando refeição.

Pensei em um banho quente antes de preparar prato e talheres. Água e doce acetona na banheira para curar as minhas feridas. Para relaxar. Circulei pelo apartamento. Os cogumelos já estavam por toda a parte. No tapete e sofá da sala. Na cama e no travesseiro amarelado. No banheiro, arrastavam seus torsos porosos para inspecionar a ferrugem da esquadria metálica do boxe. Com seus três pequenos dedos, desmontaram o chuveiro e constataram que a resistência estava queimada. A água estava fria feito o vento da rua, e escura como lama. Era espessa e escorria nas paredes. Tudo cheirava a esgoto, lixo, uma podridão azeda. Talvez por isso estivesse me sentindo tão pesada, tão suja. Tão cansada daquelas roupas jogadas no chão, chutadas no caminho, espremidas atrás do vaso sanitário.

Levantei o rosto e me vi no reflexo do espelho. Uma pessoa em forma de sujeira. Tive vergonha do meu corpo, das minhas costelas aparentes, do meu rosto apagado de olhos quase vítreos. O meu ventre murcho, inútil após tantos anos de tentativas e abandono inevitável. Pobre mulher branca, magra, esquecida de si mesma, eu falei. Abracei meu próprio corpo, escondendo o que pudesse. Senti as crostas de peles endurecidas dos meus cotovelos, a pele gordurosa e flácida.

Feito uma tartaruga medrosa, me encolhi no chão, tentando esconder tudo isso dos meus olhos, do mundo. Estava envergonhada de ter desistido, de ter pausado a existência para ruminar pensamentos destrutivos durante meses. Eu era mesmo a rainha de um lixão de paredes mofadas, e meu cetro de strass descascado e velho não imprimia respeito em ninguém.

Fui me afastando do cheiro do funghi quente. Com o rosto encostado no carpete, me esqueci da fome, deixei a atmosfera me absorver e o alívio me cobrir por completo. Senti as pequenas mãos encostando no meu corpo, limpando minha pele com algodão perfumado. Era isso. Uma salvação difícil de compreender, mas que contaminava como cheiro de rosas. Suspirei enquanto lavavam meu rosto, minhas costas, meus pés.

Sorri ao ver a dedicação dos cogumelos em reciclar também todo o apartamento. Recolhendo papéis, tirando o pó, sumindo com as camadas de poeira e cabelos que se acumulavam nos cantos. Os meus duendes da sorte me renovavam e me deixavam como no nascimento. Sem minhas roupas rasgadas, pura, com uma chance de começar tudo de novo.

Voltei para a cozinha e, próximo da pia, uma xícara fumegante me foi apontada. Um chá quente, saboroso. Bebi em grandes goles, sem me importar com o calor queimando a boca. Eu estava imune, protegida. E, lentamente, meus olhos se fecharam, e todos os meus pensamentos foram apagados. Como se alguém desligasse o botão com o meu nome... O nada... Absoluto, tranquilo, paraíso.

É quase tudo o que lembro. Há alguns minutos acordei. Cordas grossas prendem meus pés e mãos. Impossibilidade de mexer qualquer parte do corpo. Sem forças para emitir todos esses gritos que estão dentro da minha cabeça.

Recobro a consciência e sinto uma dor aguda num dos dedos. Um cogumelo morde com força. O sangue escorre... Agora, estão aqui na minha frente. Na linha dos meus olhos que tremem sem parar. Tantos cogumelos, enfileirados, numa marcha imóvel que aponta para mim. Suas bocas salivam. Eles me olham. E cuidam daquela imensa panela sobre o fogão.

por Luciana Thomé


Ficção de Polpa - Volume 1 - Organizado por Samir Machado de Machado - 2012.
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