segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Bruxas ou mulheres sábias?

Os celtas adoravam a Deusa-Mãe e o Deus Cornífero, que segundo eles, garantiam a prosperidade da descendência, da agricultura, do gado e o sucesso na guerra. Os sacerdotes deste povo, os druidas, ensinavam a arte da agricultura, da cura com ervas, da caça, realizavam festas às divindades e iniciavam pessoas nos preceitos da arte mágica. Eram também versados em muitas artes de adivinhação, comunicavam-se com os espíritos da natureza e previam o futuro. Daí surge a idéia de bruxaria, práticas intermediárias entre o plano dos deuses e dos homens.

Porém, a origem das bruxas se perde nos primórdios da humanidade, já que as práticas mágicas envolvem rituais simbólicos desde os tempos dos homens da caverna. A primeira demonstração da arte de devoção foi encontrada em cavernas do período neolítico, onde havia ilustrações dos rituais de adoração às deusas da fertilidade dos povos primitivos.

Dessa forma, as experiências visionárias, rituais de caça e cerimônias de cura sempre estiveram presentes nos símbolos e metáforas de cada cultura. Na Gália e ilhas da Grã-Bretanha as sacerdotisas druidas estavam divididas em três classes. As que viviam em conventos num regime de celibato eram as da classe mais alta. As outras duas classes, que eram das sacerdotisas, podiam se casar e viver nos templos ou com os maridos e família. Com a era do cristianismo, foram denominadas “Bruxas” e perseguidas por muito tempo.

Durante a Idade Média toda e qualquer mulher que conseguia poder, passavam gradativamente a ser considerada bruxa. Bruxa em sânscrito significa “mulher sábia”. As bruxas eram denominadas sábias, até a Igreja lhes atribuir o significado secundário de mulheres dominadas por instintos inferiores.

Sem mito algum, as bruxas eram apenas mulheres que conheciam e entendiam do emprego de ervas medicinais para cura de enfermidades, e colocavam em prática seus conhecimentos nos vilarejos onde habitavam.

Com a chegada do Cristianismo, começando a imperar a era patriarcal, as mulheres foram colocadas em segundo plano e tidas como objetos de pecado utilizados pelo diabo. Muitas mulheres não aceitaram essa identificação e rebelaram-se. Essas, dotadas de poder espiritual, começaram a obter novamente o prestígio que haviam perdido o que passou a incomodar o poder religioso. Assim acusar uma mulher de bruxaria ficou fácil, bastava uma mulher casada perder a hora de acordar, que o marido a acusava de estar sonhando com o demônio.

Durante o século X e XII as bruxas ressurgiram, nesse período realizaram vários processos contra elas, promovidos pelo poder civil. No entanto, tal questão veio assumir um aspecto dramático a partir do século XIV, momento em que a Igreja Católica implantou os tribunais da Inquisição com o intuito de reprimir, tanto a disseminação das seitas heréticas como a prática de magia e outros comportamentos considerados pecaminosos. Nesse período, o fenômeno se caracterizou como manifestação coletiva, de profunda repercussão no direito penal, na vida religiosa, na literatura e nas artes. Dessa forma, para que a repressão fosse eficaz, os tribunais de Inquisição se proliferaram, e os processos aumentaram rapidamente.

Segundo os teóricos do assunto, a epidemia de bruxas ocorreu nos séculos XVI e XVII, no norte da França, no sul e oeste da Alemanha e em especial na Inglaterra e na Escócia, a perseguição às bruxas foi metódica e violenta. Os colonizadores ingleses levaram esse procedimento para a América do Norte, onde, em 1692, ocorreu o famoso processo contra as bruxas de Salém, em Massachusetts. Normalmente, acusavam-se as bruxas velhas, e com menor freqüência as jovens.

A maioria das acusações se referia a malefícios contra a vida, a propriedade e a saúde. Também constavam denúncias de pactos com o diabo. Segundo as denúncias, as bruxas montadas em vassouras voavam pelos ares e se reuniam em lugares inabitados para celebrar a satanás e entregar-se a orgias.

O iluminismo do fim do século XVII e do século XVIII, que era caracterizado pelo espírito científico e pelo racionalismo, contribuiu para o fim desse processo e para que não mais se admitisse perseguição judiciária em casos de superstições populares.

Fontes: Educar para Crescer; Brasil Escola; Wikipédia.

Halloween

"Acreditavam os antigos, que os mortos ficavam na terra até o dia 31 de outubro do mesmo ano que tinham morrido, quando, então, abriam-se os portais para que pudessem subir a outros níveis. Entre o dia 31 deste mesmo mês e o dia 2 de novembro, aqueles que haviam morrido estavam, portanto, em ascensão. Para que não voltassem e perturbassem os vivos, faziam abóboras com imitações de feias caretas e colocavam velas com fogo em seu interior, para que os mortos pensassem que era ali o inferno e se afastassem em direção ao alto."

O Halloween, conhecido no Brasil como "Dia das Bruxas", desde muito tempo, acontece um dia antes da "festa de todos os santos” e, por isso, tem seu nome inspirado na expressão "All hallow's eve", que significa a “véspera de todos os santos”.

Pelo fato do 1° de novembro estar cercado de um valor sagrado e extremamente positivo, os celtas, antigo povo que habitava a Gália e as ilhas da Grã-Bretanha entre os anos 600 a.C. e 800 d.C., acreditavam que o mundo seria ameaçado na véspera do evento pela ação de terríveis demônios e fantasmas. Dessa forma, o halloween nasce como uma preocupação simbólica onde a festa cercada por figuras estranhas e bizarras teria o objetivo de afastar a influência dos maus espíritos que ameaçariam suas colheitas.

No processo de ocupação das terras européias, os povos pagãos trouxeram esta influência cultural em pleno processo de disseminação do cristianismo. Inicialmente, os cristãos celebravam a todos os santos no dia 13 de maio, contudo, por volta do século IX, o Papa Gregório III († 741) mudou a data para 1º de novembro. Dessa forma, os bárbaros convertidos se lembrariam da festa cristã que sucederia a antiga e já costumeira celebração do halloween.

Por ter essa relação intrínseca ao mundo dos espíritos, o halloween foi logo associado à figura das bruxas e feiticeiras. Na Idade Média, elas se tornaram ainda mais recorrentes na medida em que a Inquisição perseguiu e acusou várias pessoas de exercerem a bruxaria. Da mesma forma, os mortos também se tornaram comuns nesta celebração, por não mais pertencerem a essa mesma realidade etérea.

Entre todos os desalmados, destaca-se a antiga lenda de Stingy Jack. Segundo o mito irlandês, ele teria convidado o Diabo para beber com ele no dia do Halloween. Após se fartarem em bebida, o astuto Jack convenceu o Diabo a se transformar em uma moeda para que a conta do bar fosse paga. Contudo, ao invés de saldar a dívida, Jack pregou a moeda em um crucifixo.

Para se livrar da prisão, o Diabo aceitou um acordo em que prometia nunca importunar Jack. Dessa forma, ele foi libertado e nunca mais importunou o homem. Entretanto, Jack morreu e não foi aceito nas portas do céu por ter realizado um trato com o demônio. Ao descer para os infernos, também foi rejeitado pelo Diabo por conta do trato que possuíam. Vendo que Jack estava solitário e perdido, o demônio lhe entregou um nabo com carvão que lhe serviu de lanterna.

Ao chegarem à América do Norte, os irlandeses trouxeram a festa do Halloween para as Américas e transformaram a lanterna de Jack em uma abóbora iluminada com feições humanas. Os disfarces e máscaras, tão usadas pelos participantes da festa, seriam uma forma de evitar que fossem reconhecidos pelos espíritos que vagam neste dia. Atualmente, as fantasias são utilizadas por crianças que batem às portas exigindo guloseimas no lugar de alguma travessura contra o proprietário da casa.

De fato, a celebração do Halloween remete a uma série de antigos valores da cultura bárbaro-cristã que se forma na Europa Medieval. Nessa época, várias outras festas celebravam o processo de movimentação do mundo ao destacar os opostos que configuravam o seu mundo. No jogo de oposições simbólicas, mais do que o valor de um simples embate, o homem acaba por visualizar a alternância e a transformação enquanto elementos centrais da vida.

Fontes: Brasil Escola; Wikipédia; Nova Era.

Guy de Maupassant

Henry René Albert Guy de Maupassant foi escritor, poeta e um dos maiores contistas de todos os tempos. Sua obra é conhecida por retratar situações psicológicas e fazer crítica social com técnica naturalista.

Maupassant teve uma infância e uma juventude aparentemente felizes no campo, em companhia da mãe, uma mulher culta e depressiva, que foi abandonada pelo marido.

Na década de 1870, ele se dirigiu a Paris, onde se firmou como contista e teve contato com os grandes escritores realistas e naturalistas da época: Zola, Flaubert e o russo Turguêniev.

Entre 1875 e 1885, produziu a maior parte de seus romances e contos. Escreveu pelo menos 300 histórias curtas, muitas das quais algumas se tornaram mundialmente conhecidas, como Bola de Sebo, O Colar, Uma Aventura Parisiense, Mademoiselle Fifi, Miss Harriett e O Horla.

Maupassant talvez tenha sido, nos últimos anos do século XIX, o escritor mais lido no mundo.

Rico e famoso, ele teve muitos casos amorosos, mas a sífilis o atormentou por mais de uma década, ocasionando-lhe pesadelos, angústia e de alucinações.

Em 1892, Guy de Maupassant tentou o suicídio. Morreu no ano seguinte, em um manicômio, aos 43 anos de idade. Foi enterrado no cemitério de Montparnasse, em Paris.

fonte: http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u759.jhtm

As tumulares

Os cinco amigos terminaram de jantar. Eram homens da alta sociedade, maduros, ricos – três casados e dois solteiros. Reuniam-se todos os meses, em recordação da mocidade, e depois de jantar conversavam até as duas horas da madrugada. Tendo permanecido amigos íntimos e, apreciando estar juntos, achavam, talvez, que fossem aqueles os melhores serões da sua vida.

Tagarelavam acerca de tudo que ocupa e diverte os parisienses. Faziam entre eles- como de resto na maioria dos salões – uma espécie de repetição falada da leitura dos jornais da manhã.

Um dos mais alegres era Joseph de Bardon, solteirão que vivia a vida parisiense da maneira mais completa e mais fantasista. Não era um libertino e muito menos um depravado; era, sim um curioso, um tipo jovial, ainda moço, tinha apenas 40 anos. Mundano no melhor e mais amplo sentido do termo, dotado de muito espírito, sem grande profundidade, de saber variado, sem verdadeira erudição, de compreensão ágil, sem penetração séria, ele extraía das suas observações, das suas aventuras, de tudo o que via, encontrava e olhava, anedotas de romance cômico e ao mesmo tempo filosófico, e reparos humorísticos lhe davam na cidade uma grande reputação de inteligência. Era o orador do jantar. Todas as vezes apresentava uma história; coisa aliás, com a qual os outros contavam. Começou a relatá-la sem que ninguém lhe solicitasse.

Fumando, com os cotovelos sobre a mesa e um cálice de bom conhaque pela metade diante do prato, entorpecido em uma atmosfera de tabaco aromatizado pelo café quente, parecia estar na própria casa, do mesmo modo que certos seres, em certos lugares e em certos momentos, parecem estar em seu ambiente natural – como de uma devota na capela ou um peixe vermelho no seu aquário. Entre duas baforadas de fumaça disse: – Aconteceu-me, há tempos, uma estranha aventura.

Todas as bocas quase a um só tempo pediram: – Conte. – Com muito prazer – concordo. Vocês sabem que passeio muito em Paris, do mesmo modo que os amantes de bibelôs perscrutam as vitrines. Espreito os espetáculos, as pessoas, tudo o que passa e tudo que se passa. “Pois bem. Em meados de setembro, fazia um tempo esplêndido; certa tarde, então saí de casa, sem saber aonde iria. Temos sempre o desejo de visitar uma mulher bonita qualquer. Escolhemos na própria galeria, comparamo-las no pensamento, medimos o interesse que nos inspiram, a sedução que exercem sobre nós e decidimo-nos enfim de acordo com a atração do dia. Porém, quando o sol está bastante lindo e o ar tépido, desaparece muitas vezes a idéia de visitas. O sol estava lindo e o ar tépido; acendi um charuto e fui muito talamente ao bulevar exterior. A seguir, como estivesse andando sem rumo, ocorreu-me a idéia de visitar o cemitério Montmartre. Os cemitérios agradam-me muito; têm um efeito repousante e melancólico sobre mim; é uma necessidade que sinto. Ademais, temos ali dentro bons amigos, desses a quem não se vai mais visitar, mas eu ainda vou, de vez em quando. Justamente nesse cemitério tenho uma história sentimental, uma amante que muito me cativara, uma encantadora mulher, cuja lembrança, ao mesmo tempo que me entristece mensamente, me dá saudades…saudades de tudo…e, então, vou sonhar sobre seu túmulo…Mas para ela está tudo acabado.

Além disso, gosto também dos cemitérios, por serem cidades monstruosas, prodigiosamente habitadas. Pensem no número de mortos que há naquele pequeno espaço, em todas as gerações parisienses que estão ali alojadas, para sempre, trogloditas presos nas suas pequenas catacumbas, nas suas pequenas covas, cobertas com uma pedra ou assinaladas por uma cruz, enquanto que os vivos ocupam tanto lugar, e fazem tanto barulho, esses imbecis!

E mais: há nos cemitérios monumentos quase tão interessantes como nos museus. O túmulo de Cavignac fez-me pensar, confesso-o, sem compará-lo, naquela obra prima de Jean Gonjon: o corpo de Louis Brézé, deitado, na capela subterrânea da catedral de Ruoen; toda a arte chamada moderna e realista ali se encontra, senhores. Esse morto, Louis de Brézé, é mais real, mais terrível, mais feito de carne inanimada, contraída ainda pela agonia, que todas as estátuas de expressão forçada que estão sobre os túmulos. Mas no cemitério de Montmartre pode-se ainda admirar o monumento de Baudin, que tem grandeza; o de Gautier, o de Murger, onde vi, há uns dias, uma pobre coroa de perpétuas amarelas, isolada, trazida por quem? Pela última costureirinha, hoje muito velha e talvez porteira nas proximidades? É uma linda estatuazinha de Millet, que contudo o abandono e a sujeira vão destruindo. Canta a mocidade, o Murger! Então, eis-me entrando no cemitério de Montmartre e subitamente imbuído de tristeza, de uma tristeza que afinal não doía muito, uma dessas tristezas que nos fazem pensar, quando nos sentimos bem de saúde: “Não é nada agradável esse lugar, mas para mim ainda não chegou a hora”. A impressão do tronco.

A impressão do outono, dessa umidade morna que cheira a folhas secas e a sol enfraquecido, cansado, anêmico, agravava, poetizando, a sensação de solidão e de fim inexorável que paira naquele local em que a atmosfera tresanda a gente morta.

Caminhei lentamente por aquelas ruas e túmulos, onde os vizinhos não vizinhavam, não se deitam mais juntos e não lêem jornais. E passei a ler os epitáfios. Ah! meus amigos, isso é a coisa mais divertida do mundo. Nunca Labiche, nunca Meilhac me fizeram rir como o cômico da prosa tumbal. Ah! que livros superiores aos de Paul de Kock para desopilar o fígado são essas placas de mármore e essas cruzes, onde os parentes do morto espalham suas saudades, seus votos pela felicidade dos desaparecidos no outro mundo e suas esperanças de se unirem a eles. Farsantes!

Mas esse cemitério me encanta principalmente a parte abandonada, solitária, cheia de grandes teixos e ciprestes, velho bairro dos antigos mortos que logo voltará a ser um bairro novo, no qual serão derrubadas as árvores verdes, nutridas de cadáveres humanos, para se alinharem os recentes falecidos, sob pequenas lajes de mármores.

Após ter por ali vagado o tempo suficiente para reanimar o espírito, compreendi que ia começar a ficar entediado e que era preciso levar ao último leito da minha amiga a homenagem fiel de minha recordação. Estava com o coração orpimido quando cheguei junto a seu túmulo. Pobre querida! Ela era tão amável, tão amorosa, tão alva, e tão jovem… E no entanto, agora, se abrissem aquilo…

Debruçado sobre a grade de ferro, falei-lhe baixinho da minha dor, o que ela sem dúvida nãoouviu, e já ia saindo, quando vi uma mulher de preto, e luto pesado, ajoelhar-se no túmulo ao lado. O véu de crepe, erguido, deixava entrever uma linda cabeça loura, cujos cabelos em bandós pareciam iluminados por uma luiz de aurora, por sob a noite do seu chapéu. Fiquei.

Com certeza ela devia sofrer uma dor profunda. Ocultara os olhos nas mãos e, rígida, numa meditação de estátua, imersa nas suas saudades, desfilando, na sombra dos olhos ocultos e fechados, o rosário torturante das recordações, ela própria parecia uma morta a pensar em um morto…Depois, de repente, percebi que ela ia chorar; percebi-o por um pequeno movimento das costas, semelhante ao estremecimento provocado pelo vento num salgueiro.

No início chorou suavemente, depois mais forte, com movimentos rápidos do pescoço e dos ombros. Então, subitamnete, descobriu os olhos; estavam cheios de lágrimas e eram encantadores – olhos de louca, os quais passeou ao redor de si, como se despertasse de um pesadelo. Percebeu que eu a olhava; pareceu envergonhada e escondeu todo o rosto nas mãos. Seus soluços tornaram-se então convulsivos e a cabeça curvou-se lentamente para o mármore. Pousou nele a fronte, e o véu, espalhando-se ao redor, cobriu os ângilos brancos da sepultura amada, como um novo luto. Ouvi-a gemer, depois caiu com o rosto sobre a laje,e ficou imóvel, desacordada.

Corri para ela, bati-lhe nas mãos, soprei as pálpebras e ao mesmo tempo li no epitáfio muito simples: “Aqui repousa Luís Teodoro Carrel, capitão de infantaria da marinha, morto pelo inimigo em Tonquim. Orai por ele”.

Essa morte datava de alguns meses. Emocionei-me a ponto de quase chorar, e redobrei de cuidados. Meus esforços lograram êxito; ela voltou a si. Eu estava com um ar muito emocionado – não sou feio e não tenho ainda quarenta anos. Compreendi pelo seu primeiro olhar que seria cortê s e grata. Ela o foi, com outras lágrimas e contou a sua história, que saiu por fragmentos de seu peito anelante, a morte do oficial morto em Tonquim, ao fim de um ano de casamento, depois de tê-la desposado por amor, pois ela era órfã de pai e mãe, e possuía apenas o dote regulamentar.

Consolei-a, reconfortei-a, soergui-a, levantei-a. Depois:

- Não fique aqui – disse-lhe.

- Venha.

Ela murmurou:

- Não me sinto com forças para caminhar.

- Vou ampará-la

- Obrigada, senhor. Vinha também chorar um morto?

- Sim, senhora.

- Uma morta?

- Sim, senhora.

- Sua esposa?

- Uma amiga.

- Pode-se amar uma amiga tanto quanto uma esposa; a paixão não obedece lei.

- Sim senhora.

E eis-nos caminhando juntos, ela amparada em mim, eu quase a carregando pelos caminhos do cemitério. Ao sairmos, ela murmurou desfalecendo:

- Creio que vou desmaiar.

- Quer entrar em algum lugar, tomar alguma coisa?

- Sim, senhor.

Vi um restaurante, um desses onde os amigos dos mortos vão festejar o penoso trabalho concluído. Entramos. Fiz-lhe tomar uma xícara de chá bem quente, que pareceu reanimá-la. Surgiu em seus lábios um vago sorriso. Então falou-me de si. Era tão triste, tão triste o ver-se só, toda a vida, sozinha em casa, noite e dia; não ter mais ninguém a quem oferecer afeição, confiança, intimidade.

Aquilo parecia sincero, e nos seus lábios tornava-se gentil. Eu me sensibilizava. Ela era muito jovem, tinha talvez uns vinte anos. Fiz-lhe uns elogios, que ela aceitou muito bem. Depois, como já era tarde, propus levá-la à casa em um carro. Ela aceitou. No carro ficamos de tal maneira próximos um do outro, ombro com ombro, que nosso calor se misturava através da roupa, o que é, com toda certeza, a coisa mais perturbadora deste mundo.

Quando o carro parou diante da casa dela, murmurou:

- Não me sinto capaz de subir a escada sozinha, porque moro no quarto andar. O senhor tem sido tão bom! Poderia ter ainda a bondade de conduzir-me até meu apartamento?

Apressei-me em aceitar. Ela subiu lentamente, ofegando muito. Depois, em frente à porta, acrescentou:

- Entre um momento para que possa agradecer-lhe.

Naturalmente entrei.

Era uma habitação modesta, até mesmo um pouco pobre, porém agradável e bem arrumada.

Sentamo-nos lado a lado num pequeno canapé, e ela de novo falou sobre sua solidão.

Tocou a sineta, chamando a criada, a fim de me oferecer algo para beber. A criada não veio. Fiquei encantado, calculando que a criada não devia vir senão de manhã; devia ser uma arrumadeira da casa.

Ela havia tirado o chapéu. Era realmente gentil com seus olhos claros, fixos em mim – tão fixos tão claros, que tive uma terrível tentação e a ela cedi. Tomei-a em meus braços e sobre suas palpebras, que se fecharam subitamente, depositei beijos…beijos…beijos…e mais beijos.

Ela resistia, repelindo-me e repetindo:

Acabe…acabe…acabe com isso de uma vez.

Que queria ela com isso? Em tal “acabe” poderia haver pelo menos dois sentidos. Para fazê-la calar, passei dos olhos para a boca, e dei a palavra “acabe” a significação que eu preferia. Não resistiu muito e, quando nos olhamos de novo depois desse ultraje à memória do capitão morto no Tonquim, ela mostrava um ar lânguido, enternecido, resignado, que apagou minha preocupação.

Fui então galante, solícito, grato. E, após nova palestra de cerca de uma hora, perguntei-lhe:

- Onde costuma jantar?

- Num pequeno restaurante, aqui perto.

- Sozinha?

- Sim, naturalmente.

- Quer jantar comigo?

- Onde?

- Em um bom restaurante do bulevar.

Ela relutou um pouco; eu insisti. Concordou, por fim, permitindo-se dizer: “Aborreço-me tanto…tanto!” Depois acrescentou: “Preciso pôr um vestido um pouco menos escuro”. E entrou no seu quarto de dormir.

Ao voltar, estava de meio luto, encantadora, fina e esbelta em uma toalete cinzenta muito simples. Naturalmente tinha traje de cemitério e traje de cidade.

O jantar foi muito cordial. Ela bebeu champagne, iluminou-se, animou-se e voltamos juntos a casa dela.

Essa ligação atada sobre túmulos, durou por volta de três semanas. Porém cansamo-nos de tudo – principalmente das mulheres. Deixei-a, com a desculpa de uma viagem indispensável. Tive uma despedida muito generosa, que ela muito me agradeceu. Fez-me prometer, fez-me mesmo jurar que a procuraria após meu regresso; parecia realmente estar apaixonada por mim.

Saí em busca de outras ternuras e passou-se mais ou menos um mês sem que a idéia de rever aquela amorosa funerária fosse forte o bastante para que eu cedesse ao seu impulso. Todavia, não a esquecera…Sua recordação perseguia-me como um mistério, como um problema de psicologia, como uma dessas questões inexplicáveis, cuja solução nos intriga.

Sei lá por que razão, certo dia imaginei que tornaria a encontrá-la no cemitério Montmartre, e para lá me dirigi.
Passou muito tempo, sem que encontrasse ninguém, a não ser os visitantes habituais do lugar, os que não cortaram toda relação com seus mortos. O túmulo do capitão, morto no Tonquim, não tinha carpideiras no seu mármore, nem flores, nem coroas.

Mas, como me perdesse num outro recanto dessa grande cidade dos mortos, vi de repente, na extremidade de uma estreita avenida de cruzes, vindo para meu lado, um casal, de luto pesado, o homem e a mulher. Que assombro! Quando eles se aproximaram, reconheci-a.

Era ela.

Viu-me, enrusbeceu, e como a roçasse ao passar por ela, fez-me um pequenino sinal, uma olhadela que significava: “Não me reconheça”, mas que também parecia dizer: “Venha ver-me, meu querido”.

O homem era de boa aparência, distinto, elegante, oficial da Legião de Honra, de uns cinqüenta anos aproximadamente. E ele a amparava, do mesmo modo que eu a amparara ao sair do cemitério.

Fui embora, atônito perguntanto a mim mesmo o que significava aquilo que acabara de ver, a que raça de seres pertencia aquela caçadora sepulcral. Seria uma cortesã, uma prostituta inspirada, que ia colher sobre os túmulos os homens melancólicos perseguidos pela imagem de uma mulher, esposa ou amante, e perturbados ainda pela lembrança das carícias desaparecidas? Seria ela a única? Serão várias? Será aquilo uma profissão? Será que se “faz o cemitério” do mesmo modo que se “faz a avenida”? As Tumulares! Ou teria sido ela a única a ter aquela idéia admirável, de uma profunda filosofia, de explorar as saudades de amor que são reanimadas nesses lugares fúnebres?

Bem que eu quisera saber de quem ela era viúva naquele dia…”




por Guy de Maupassant

A coisa no Umbral

Morgan não é um literato; na verdade, ele mal consegue falar inglês com algum grau de coerência. É isso o que me faz estranhar as palavras que ele escreveu, embora outros tenham gargalhado.

Ele estava sozinho na noite em que aconteceu. Subitamente uma vontade incontrolável de escrever lhe assomou, e tomando a pena na mão ele escreveu o seguinte:

Meu nome é Howard Phillips. Vivo na Rua College, 66, em Providence, Rhode Island. A 24 de novembro de 1927 – pois não sei sequer em que ano estamos agora – adormeci e sonhei, e desde então tem sido incapaz de despertar.

Meu sonho teve início num pântano úmido e atulhado de juncos que jazia sob um céu cinzento de outono, com um desfiladeiro encapelado de rochas cobertas de liquens elevando-se ao norte. Impelido por alguma motivação obscura, ascendi à uma fenda ou fissura nesse gigantesco precipício, notando enquanto o fazia que as bocas negras de muitos buracos terríveis estendendo-se de ambas as partes até as profundezas do platô de pedra.

Em vários pontos a passagem era coberta pelo chocalhar das partes superiores da fissura estreita; esses lugares sendo excessivamente escuros, e proibindo a percepção de tais buracos que possam ter existido ali. Em tal espaço escuro senti consciência de um singular acesso de pânico, como se alguma sutil e incorpórea emanação do abismo estivesse engolindo meu espírito; mas a escuridão era grande demais para que eu pudesse perceber a fonte de meu alarme.

Concluindo, emergi sobre um platô de rocha musgosa e solo pobre, iluminado por um pálido luar que havia substituído o orbe moribundo do dia. Lançando meus olhos ao redor, não vi objeto vivo; mas estava sensível a uma comoção muito peculiar que vinha muito abaixo de mim, entre os sussurrantes vestígios do pântano pestilento que eu havia acabado de abandonar. Depois de caminhar por uma certa distância, encontrei os trilhos enferrujados de uma ferrovia de rua, e as placas comidas de cupins ainda seguravam o trole em boas condições. Acompanhando esta linha, logo dei com um carro amarelo de vestíbulos de número 1852 – de um tipo de dois vagões comum entre 1900 e 1910. Não estava tinindo, mas evidentemente preparado para partir; o trole estando no fio e o freio aéreo de quando em vez pulsando abaixo do chão.

Entrei a bordo e olhei em vão pelo interruptor de luz – notando, enquanto o fazia, a ausência de cabineiro, que assim implicavam a ausência do motorneiro. Então sentei-me num dos bancos cruzados do veículo. Ouvi um farfalhar na grama esparsa à esquerda, e vi as formar escuras de dois homens caminhando ao luar. Tinham os quepes de uma companhia ferroviária, e não pude duvidar de que fossem o condutor e o motorneiro. Então um deles fungou com presteza singular, e elevou o rosto para uivar para a lua. O outro caiu de quatro para correr na direção do carro. Levantei-me de um salto e corri como louco para fora daquele carro e atravessei intermináveis léguas de platô até que a exaustão me forçou a parar: fazendo isto não porque o condutor tivesse caído de quatro, mas porque o rosto do motorneiro era um simples cone branco com um tentáculo vermelho como sangue na ponta…

Eu estava ciente de que apenas sonhava, mas a própria consciência não me foi agradável.

Desde aquela noite pavorosa, tenho rezado apenas para despertar: isso não acontece!

Ao invés disso eu me encontro com um habitante deste terrível mundo dos sonhos! Aquela primeira noite deu lugar à aurora, e caminhei sem rumo pelos pântanos solitários. Quando a noite veio, eu ainda caminhava, esperando acordar. Mas subitamente abri caminho entre os juncos e vi à minha frente o antigo bonde: e, a um lado, uma coisa com rosto em forma de conte levantava sua cabeça e uivava estranhamente para o luar que se derramava!

Tem sido a mesma coisa todo dia. A noite sempre me leva àquele lugar de horror. Tenho tentado não me mover com a chegada da noite, mas devo andar em meu sonambulismo, pois sempre acordo com a coisa de terror uivando à minha frente na pálida luz do luar, e viro-me e fujo como um louco.

Deus! Quando despertarei?

Foi isso o que Morgan escreveu. Eu iria à Rua College 66, em Providence, mas tenho medo do que posso encontrar lá.

O terrível Velho

Era intenção de Ângelo Ricci, Joe Czanek e Manuel Silva fazerem uma visita ao Velho Ruim. Esse ancião morava sozinho em uma casa antiguíssima na Rua d’Água, perto do mar, e tinha a reputação de ser ao mesmo tempo muito rico e muito frágil.

Tratava-se de uma combinação de qualidades muito atraentes para homens da profissão dos senhores Ricci, Czanek e Silva, que ganhavam a vida praticando aquela atividade que o tempo dignificou: o roubo.

Os habitantes de Kingsport diziam e pensavam muitas coisas sobre o Velho Ruim que, em geral, o mantinham a salvo das atenções de cavalheiros como o Sr. Ricci e seus companheiros, apesar do fato quase certo de que ele ocultava uma fortuna de grandeza indefinida em algum local de sua morada bolorenta e venerável. Com efeito, era pessoa estranhíssima, de quem se acreditava ter sido no passado capitão de clípere das Índias Orientais; era tão velho que ninguém se lembrava do tempo em que era jovem, e tão taciturno que poucos conheciam seu verdadeiro nome.

Entre as árvores retorcidas do pátio fronteiro de sua vetusta e desleixada vivenda, ele conservava uma estranha coleção de grandes pedras, agrupadas de maneira esquisita e pintadas de modo a se assemelharem aos ídolos de um obscuro templo oriental. Essa coleção afugentava, amedrontados, a maioria dos meninos que gostavam de implicar com o Velho Ruim por causa de seus cabelos e de sua barba branca, ou de quebrar as janelas de pequenas vidraças de sua casa com perversos petardos.

No entanto, haviam outras coisas que assustavam as pessoas mais velhas e mais curiosas que às vezes se esgueiravam até a casa para olhar pelas vidraças empoeiradas. Diziam essas pessoas que sobre uma mesa no andar térreo viam-se várias garrafas singulares, cada uma delas tendo em seu interior um pedacinho de chumbo suspenso por um fio, à guia de pêndulo. E diziam que o Velho Ruim conversava com essas garrafas, dirigindo-se a elas por nomes como Jack, Cicatriz, Tomazão, Zé Espanhol, Peters e Imediato Ellis, e que sempre que falava a uma das garrafas, o pequenino pêndulo de chumbo em seu interior produzia certas vibrações claras, como se respondesse.

Aqueles que tinham visto o Velho Ruim, alto e macérrimo, mantendo essas esquisitas palestras não procuravam olhá-lo de novo. Mas Angelo Ricci, Joe Czanek e Manuel Silva não tinham sangue de Kingsport; pertenciam àquela geração alienígena, nova e heterogênea, que se situava fora do cativante círculo da vida e das tradições da Nova Inglaterra, e viam no Velho Ruim tão somente um barbudo trôpego e quase caduco, incapaz de caminhar sem a ajuda de sua bengala nodosa e cujas mãos magras e débeis tremiam deploravelmente. A seu modo, na verdade até compadeciam-se daquele sujeito solitário e impopular, de quem todos fugiam e para quem os cães ladravam de maneira singular. Entretanto, trabalho é trabalho, e para um ladrão que dedicou sua alma à profissão há uma atração e um desafio em um homem idoso e débil que não tinha conta no banco e que pagava suas poucas compras na loja da cidade com ouro e prata da Espanha, cunhada há dois séculos.

Os senhores Ricci, Czanek e Silva escolheram para sua visita a noite de 11 de abril. O senhor Ricci e o senhor Silva deveriam entrevistar-se com o infeliz cavalheiro, enquanto o senhor Czanek esperaria, a eles e à sua carga, presumivelmente metálica, com um carro na Rua do Cais, ao lado do portão do alto muro nos fundos da casa do ancião. Foi o desejo de evitar explicações desnecessárias no caso de inesperadas intrusões da força policial que levou a esse plano de partida serena e sem alarde. Tal como combinado, os três aventureiros puseram-se a caminho separadamente, a fim de evitar quaisquer suspeitas malévolas posteriores.

Os senhores Ricci e Silva se encontraram no portão de entrada da casa, na Rua d’Água, e embora não gostassem nada da maneira como a lua brilhava, iluminando as pedras pintadas através dos galhos florescentes das árvores retorcidas, tinham coisas mais importantes em que pensar além de tolas superstições. Temiam que fossem obrigados a tarefas desagradáveis para obrigar o Velho Ruim a se mostrar loquaz a respeito de seu tesouro de ouro e prata, pois os velhos lobos-do-mar são notavelmente cabeça-dura e avarentos.

Mas, afinal, ele era velhíssimo e debilitadissimo e havia dois visitantes. Os senhores Ricci e Silva eram experientes na arte de persuadir pessoas obstinadas, e os gritos de um homem fraco e excepcionalmente venerável poderiam ser abafados com facilidade. Assim refletindo, chegaram até uma janela iluminada e ouviram o Velho Ruim conversar infantilmente com suas garrafas com pêndulos. Depois, colocaram máscaras e bateram cortesmente na porta de carvalho, manchada pelo tempo.

A espera pareceu interminável ao Sr. Czanek, que se remexia, impaciente, no carro coberto junto ao portão dos fundos da casa do Velho Ruim, na Rua do Cais. Tinha o coração mais sensível do que o dos comuns mortais, e não apreciou em nada os gritos medonhos que ouviu na casa antiga, pouco depois da hora aprazada para a visita. Não havia ele recomendado aos colegas que mostrassem a maior gentileza possível para com o patético ex-capitão? Nervoso, ele vigiava aquela estreita porta de carvalho no muro revestido de hera. Freqüentemente consultava o relógio e se admirava com a demora. Haveria o ancião morrido antes de revelar onde ocultara seu tesouro, tornando forçosa uma busca rigorosa?

Ao Sr. Czanek não agradava esperar tanto tempo no escuro e em tal local. Percebeu então passadas suaves ou arrastar de pés no caminho do outro lado do portão, ouviu que abriam de leve a tranca enferrujada e viu a porta, estreita e pesada, abrir-se para o lado de dentro. E à luz pálida da única luz da rua, esforçou-se para ver o que os colegas tinham trazido de dentro daquela casa sinistra, que parecia agora maior do que nunca. Entretanto, ao olhar, não viu aquilo que havia esperado; pois não eram seus camaradas que estavam ali, mas apenas o Velho Ruim, apoiado serenamente em sua bengala nodosa e tendo nos lábios um sorriso tétrico. O Sr. Czanek jamais havia notado a cor dos olhos daquele homem; eram amarelos.

Coisas pequenas causam considerável agitação em cidadezinhas, e foi por isso que a gente de Kingsport falou durante toda aquela primavera e todo aquele verão a respeito dos três corpos que haviam sido trazidos pela maré, impossíveis de identificar, horrivelmente dilacerados, como por obra de muitos cutelos, e horrivelmente mutilados, como que pisados por muitas botas cruéis. E algumas pessoas até se detiveram a falar e fatos triviais como o carro abandonado que havia sido encontrado na Rua do Cais, ou de alguns gritos notavelmente inumanos, provavelmente de algum animal extraviado ou de um pássaro migrante, ouvido de noite por cidadãos despertos.

Mas por todo esse disse-me-disse ocioso de cidade pequena, o Velho Ruim não demonstrou qualquer interesse. Era, por sua própria natureza, pessoa reservada, e quando se é idoso e débil, as reservas naturais sem dúvida redobram. Ademais, um lobo-do-mar tão entrado em anos só podia ter sido testemunhas de vintenas de fatos muito mais excitantes, nos dias longínquos de sua juventude já esquecida.