sábado, 23 de abril de 2016

Apenas com Hora Marcada


As 11h14 da manhã, o Sr. Pangborn entrou na barbearia. Wiley ergueu os olhos do Racing Form.

— Bom dia — disse ele, consultando seu relógio de pulso e sorrindo. — O senhor é bem pontual.

O Sr. Pangborn não retribuiu o sorriso. Tirou o paletó, cansado, e pendurou-o no cabide. Atravessou o chão recém-varrido e afundou-se na poltrona do meio.

Wiley deixou de lado o Racing Form e se levantou. Espreguiçou-se e bocejou.

— O senhor não me parece muito bem, Sr. Pangborn — disse ele.

— Eu não estou muito bem — retrucou.

— Sinto muito — disse Wiley.

Ele elevou a cadeira e travou-a.

— O de sempre? — perguntou.

O Sr. Pangborn assentiu.

— Tudo bem, vamos lá — disse Wiley, que puxou um avental limpo da prateleira e o sacudiu. — O que conta de novo? — perguntou.

O Sr. Pangborn gesticulou.

— Não muito.

— Anda um tanto desanimado, não é? — perguntou Wiley, amarrando o avental em torno do pescoço do cliente.

— Essa é a palavra — disse o Sr. Pangborn. — O que você anda fazendo?

— Nada que valha a pena — Wiley respondeu. Prendeu o avental com um alfinete: — Dirigi até Las Vegas, na semana passada — fez um som triste. — Perdi muita grana.

— Que pena — disse Pangborn.

— Oh, tudo bem — Wiley sorriu. — O que vem fácil, vai fácil.

Então, pegou a máquina elétrica de cortar e a ligou na tomada.

— Maria! — ele chamou.

Do aposento dos fundos, ela perguntou o que era.

— O Sr. Pangborn está aqui.

— Já vou — disse ela.

Wiley começou a trabalhar na nuca do Sr. Pangborn, que fechou os olhos.

— Isso — Wiley disse a ele. — Calma.

O Sr. Pangborn mexeu-se na cadeira, desconfortável.

— O senhor realmente não parece muito bem — disse Wiley.

O Sr. Pangborn suspirou novamente.

— Eu não sei — disse ele. — Simplesmente não sei.

— Qual é o problema? — Wiley perguntou.

— A perna — disse o Sr. Pangborn. — As costas. Meu braço direito melhora e piora. Meu estômago.

— Meu Jesus! — disse Wiley, preocupado. — O senhor foi ver o seu médico?

— Ele não sabe o que é — respondeu o Sr. Pangborn com desdém. Já não perco o meu tempo consultando-o. Tudo o que faz é enviar-me para os especialistas.

Wiley estalou a língua, em sinal de lamento.

— Isso é péssimo, Sr. Pangborn.

Sr. Pangborn suspirou.

— O Dr. Rand é o único que sempre ajuda — disse ele.

— Oh, sim? — Wiley pareceu encantado. — Ei, fico contente em ouvir isso — disse ele. — Não tinha certeza se deveria indicá-lo ou não, já que não é diplomado nem nada. Porém, meu irmão põe a mão no fogo por ele, diz que faz maravilhas.

— E faz — disse o Sr. Pangborn. — Se não fosse por ele...

— Olá, Sr. Pangborn — disse Maria.

O Sr. Pangborn olhou para o lado e esboçou um sorriso.

— Maria — disse ele.

— Como está hoje? — perguntou ela.

— Sobrevivendo — disse ele.

Maria instalou sua mesa de manicure e uma cadeira ao lado da cadeira de barbeiro. Ao se sentar, seu busto projetou-se contra o suéter justo.

— O senhor parece cansado — disse ela.

O Sr. Pangborn concordou.

— E estou — respondeu. — Não durmo muito bem.

— Que pena — solidarizou-se ela.

Ela começou a trabalhar nas unhas dele.

— Bem, fico contente por esse Rand estar surtindo efeito — disse Wiley. — Qualquer dia desses, eu mesmo vou experimentá-lo.

— Ele é bom — disse o Sr. Pangborn. — O único que me deu alívio.

— Que bom — disse Wiley.

Fez-se silêncio por alguns instantes, enquanto Wiley cortava o cabelo do Sr. Pangborn e Maria fazia suas unhas. Então, o Sr. Pangborn perguntou:

— As coisas estão meio paradas hoje?

— Não — respondeu Wiley. — Agora só trabalho com hora marcada ele sorriu. — E a única maneira.

Quando o Sr. Pangborn foi embora, Maria levou os restos de cabelo e aparas de unha para a sala dos fundos. Destrancando o armário, pegou a boneca rotulada PANGBORN. Wiley terminou de discar um número no telefone e ficou olhando, enquanto ela substituía o cabelo e as unhas da boneca pelo material mais recente.

— Rand? — disse ele quando atenderam do outro lado da linha. — É Wiley. Pangborn acabou de sair. Quando ele vai vê-lo novamente? — ficou escutando. — Está certo — disse ele —, dê-lhe alguma coisa para as costas e nós vamos retirar o alfinete por uma ou duas semanas, ok?

Novamente, ficou escutando.

— E, Rand — disse ele —, o cheque atrasou de novo este mês. Veja lá, hein?

Desligou e foi até Maria. Enquanto ela trabalhava, ele deslizou as mãos por baixo de seu suéter e apertou-lhe os seios. Maria comprimiu-se contra ele com um suspiro, fazendo uma careta de prazer.

— Para que horário está marcado o próximo cliente? — perguntou ela.

Wiley sorriu.

— Ninguém antes de 13h30 — respondeu ele.

Foi só o tempo de trancar a porta, pendurar o cartaz HORÁRIO DE ALMOÇO e voltar para o aposento dos fundos. Maria estava esperando por ele na cama. Wiley tirou a roupa, correndo o olhar pelo corpo marrom que se contorcia sobre o colchão.

— Sua putinha haitiana — murmurou, sorrindo.

As 13h20, o Sr. Walters entrou na loja. Ele tirou o paletó, pendurou-o no cabide e sentouse na cadeira do meio. Wiley deixou de lado o Racing Form e se levantou. Estalou a língua, demonstrando pesar:

— Ei, o senhor não me parece muito bem, Sr. Walters — disse ele.

— Eu não estou muito bem — o Sr. Walters respondeu.


"O Incrível Homem que Encolheu: e Outras Histórias" - Richard Matheson - Osasco, SP - Novo Século Editora, 2010.

A Caixa


O pacote foi deixado ao lado da porta da frente: um cubo de papelão fechado com fita adesiva, nome e endereço escritos à mão: SR. E SRA. ARTHUR LEWIS, 217 E. 37th Street, Nova York, Nova York 10016.

Norma recolheu o pacote, abriu a porta e entrou no apartamento. A noite estava caindo.

Depois que colocou as costeletas de cordeiro para assar, preparou para si mesma um drinque e sentou-se para abrir o pacote.

Dentro dele havia uma pequena caixa de madeira equipada com um botão de comando. Esse botão era protegido por uma redoma de vidro.

Norma tentou levantá-la, mas estava firmemente presa. Ao virar a caixa ao contrário, viu um pedaço de papel dobrado, preso ao fundo dela. Ela o puxou: "O Sr. Steward vai se apresentar a vocês às oito da noite".

Norma colocou a caixa ao lado dela no sofá. Tomou um gole da bebida e releu o bilhete datilografado, sorrindo.

Alguns momentos depois, voltou para a cozinha para preparar a salada.

A campainha tocou às oito horas.

— Eu atendo — gritou Norma da cozinha.

Arthur estava lendo na sala de estar.

Havia um homem baixo no corredor. Ele tirou o chapéu quando Norma abriu a porta. — Sra. Lewis? — ele perguntou educadamente.

— Sim?

— Sou o Sr. Steward.

— Oh, sim — Norma reprimiu um sorriso, pois tinha certeza agora de que se tratava de uma estratégia de vendas.

— Posso entrar? — perguntou o Sr. Steward.

— Estou bastante ocupada — disse Norma. — Mas vou pegar o seu objeto misterioso. Começou a se virar.

— Você não quer saber o que é?

Norma voltou. O tom do Sr. Steward havia sido ofensivo.

— Não, não quero — disse ela.

— Poderia ser muito valioso — disse ele.

— Monetariamente? — disse ela, em tom de desafio.

Steward assentiu:

— Monetariamente — disse ele.

Norma franziu a testa. Não gostava da atitude do visitante.

— O que você está tentando vender? — perguntou ela.

— Não estou vendendo nada — respondeu ele.

Arthur veio da sala.

— Algo errado?

O Sr. Steward se apresentou.

— Ah, aquele treco — apontou para a sala e sorriu.

— O que é aquilo, afinal?

— A explicação não vai tomar muito do seu tempo — respondeu o Sr. Steward. — Posso entrar?

— Se estiver vendendo alguma coisa... — disse Arthur.

Steward balançou a cabeça.

— Não estou.

Arthur olhou para Norma.

— Você que sabe — ela disse.

Ele hesitou.

— Bem, por que não? — respondeu ele.

Entraram na sala e Steward sentou-se na poltrona de Norma. Ele mexeu nos bolsos e retirou um pequeno envelope lacrado.

— Aqui dentro está a chave para abrir a redoma que protege o botão — disse ele, colocando o envelope na mesinha ao lado da poltrona. — Esse botão está conectado ao nosso escritório.

— Para que serve? — perguntou Arthur.

— Se você apertar o botão — disse Steward —, em algum lugar do mundo, alguém que você não conhece morrerá. Em troca, vai receber um pagamento de cinquenta mil dólares.

Norma olhou atônita para o homenzinho. Ele estava sorrindo.

— Do que está falando? — Arthur lhe perguntou.

O Sr. Steward pareceu surpreso:

— Mas eu acabei de lhes explicar — disse ele.

— Isto é uma pegadinha? — perguntou Arthur.

— De jeito nenhum. A oferta é completamente genuína.

— Mas não faz sentido! — Arthur insistiu. — Você quer que acreditemos que...

— Quem você representa? — quis saber Norma.

O Sr. Steward pareceu embaraçado.

— Receio que não esteja autorizado a lhe revelar — disse ele. — Entretanto, asseguro-lhe de que a organização é de âmbito internacional.

— Acho melhor o senhor ir embora — disse Artur, levantando-se. O Sr. Steward também se pôs de pé.

— Claro.

— E leve a caixa.

— Tem certeza de que não gostaria de pensar no assunto por um ou dois dias?

Arthur apanhou a caixa e o envelope e meteu-os com vigor nas mãos do visitante. Em seguida, atravessou o cômodo e abriu a porta.

— Vou deixar o meu cartão — afirmou o Sr. Steward.

Ele o depositou na mesa ao lado da porta. Quando foi embora, Arthur rasgou-o ao meio e atirou os pedaços sobre a mesa.

— Meu Deus! — exclamou.

Norma ainda estava sentada no sofá.

— O que você acha que foi isso? — perguntou ela.

— Não sei nem quero saber — respondeu ele.

Ela tentou sorrir, mas não conseguiu.

— Você não está nem um pouco curioso?

— Não — ele balançou a cabeça.

Depois que Arthur retomou seu livro, Norma voltou para a cozinha e acabou de lavar os pratos.

— Por que você não quer falar sobre isso? — Norma perguntou mais tarde.

Arthur, que escovava os dentes, levantou a vista e olhou a imagem de sua esposa refletida no espelho do banheiro.

— Isso não o deixa intrigado?

— Isso me ofende — respondeu Artur.

— Eu sei, mas... — Norma enrolou outro bobe no cabelo — isso também não o deixa intrigado?

Ao entrarem no quarto, ela perguntou:

— Você acha que é uma pegadinha?

— Se for, é de muito mau gosto.

Norma sentou-se na cama e tirou os chinelos.

— Talvez seja algum tipo de investigação psicológica.

Arthur deu de ombros.

— Pode ser.

— Talvez algum milionário excêntrico esteja por trás disso.

— Talvez.

— Não gostaria de saber?

Arthur sacudiu a cabeça.

— Por quê?

— Porque é imoral — disse ele.

Norma deslizou para debaixo das cobertas.

— Bem, eu acho que é intrigante — disse ela.

Arthur desligou a luz e se inclinou para beijá-la.

— Boa noite — disse Arthur.

— Boa noite — ela lhe deu um tapinha nas costas.

Norma fechou os olhos. Cinquenta mil dólares, pensou.

NA MANHÃ SEGUINTE, quando saía de casa, Norma viu as metades do cartão sobre a mesa. Por impulso, guardou-as na bolsa. Trancou a porta e juntou-se a Arthur no elevador.

Enquanto estava na sua pausa para o café, pegou novamente as metades do cartão na bolsa e segurou-as unindo-as. Só havia o nome do Sr. Steward e um número de telefone impressos no cartão.

Após o almoço, pegou novamente as metades do cartão na bolsa e as emendou com fita adesiva. Por que estou fazendo isso?, perguntou-se.

Pouco antes das cinco da tarde, discou o número.

— Boa tarde — disse a voz do Sr. Steward.

Norma quase desligou, mas conteve-se. Limpou a garganta.

— Aqui é a Sra. Lewis — disse ela.

— Sim, Sra. Lewis.

O Sr. Steward parecia deliciado.

— Estou curiosa.

— E natural — disse o Sr. Steward.

— Não que eu acredite em uma só palavra do que o senhor nos disse.

— Oh, mas é a mais pura verdade — respondeu o Sr. Steward.

— Bem, seja lá como for... — respondeu Norma. — Quando você disse que alguém no mundo iria morrer, o que quis dizer?

— Exatamente isso — confirmou ele. — Poderia ser qualquer pessoa. Tudo que garantimos é que você não a conhece. E, é claro, você não teria de vê-la morrer.

— Por cinquenta mil dólares — disse Norma.

— Isso mesmo.

Ela fez um som de escárnio.

— Isso é loucura.

— No entanto, essa é a proposta — disse Steward. — Gostaria que eu lhe devolvesse a caixa?

Norma retesou-se.

— Claro que não — ela desligou com raiva.

O PACOTE FOI DEIXADO ao lado da porta da frente; Norma o viu quando saiu do elevador. Ai, que irritante!, pensou. Olhou para a caixa enquanto abria a porta.

Simplesmente, não vou apanhá-la, disse consigo mesma. Entrou e começou a preparar o jantar.

Mais tarde, levou sua bebida para a sala de estar. Abrindo a porta, pegou o pacote e o levou até a cozinha, deixando-o sobre a mesa.

Ficou sentada na sala, tomando seu drinque e olhando pela janela.

Depois de algum tempo, voltou para a cozinha para virar as costeletas na grelha. Ela colocou o pacote em um armário baixo, com a intenção de jogá-lo fora no dia seguinte, pela manhã.

— Talvez algum milionário excêntrico esteja brincando com as pessoas – disse ela. Arthur olhou-a por cima de seu jantar.

— Eu não entendo você.

— O que quis dizer?

— Esqueça isso — disse ele.

Norma comia em silêncio. De repente, largou o garfo.

— Suponha que seja uma oferta genuína — disse.

Arthur encarou-a.

— Suponha que seja uma oferta genuína.

— Tudo bem, vamos supor que seja! — ele parecia incrédulo. — O que você gostaria de fazer? Receber a caixa de volta e apertar o botão? Assassinar alguém?

Norma olhou-o ultrajada:

— Assassinar...

— Como você definiria isso?

— Se você nem ao menos conhece a pessoa? — perguntou Norma.

Arthur olhou espantado.

— Você está dizendo o que eu acho que está?

— E se for um velho camponês chinês a milhares de quilômetros de distância daqui? Algum nativo doente no Congo?

— Que tal um menininho na Pensilvânia? — Arthur rebateu. — Uma linda garotinha no outro quarteirão?

— Agora você está exagerando.

— A questão, Norma — continuou ele —, é que não importa quem você mata: ainda será assassinato.

— A questão é — Norma o interrompeu —, se for alguém que você nunca viu na vida e nunca vai ver, alguém cuja morte você nem tomaria conhecimento, ainda assim não apertaria o botão?

Arthur olhou para ela, chocado.

— Quer dizer que você faria? — Cinquenta mil dólares, Arthur.

— O que a quantia tem a ver...

— Cinquenta mil dólares, Arthur — Norma o interrompeu. — Uma chance de fazer aquela viagem para a Europa de que sempre falamos.

— Norma, não.

— Uma chance de comprar a casa de campo que sonhamos.

— Norma, não — seu rosto estava lívido. — Pelo amor de Deus, não!

Ela estremeceu.

— Tudo bem, calma — disse ela. — Por que você está tão chateado? É só uma conversa.

Após o jantar, Arthur foi para a sala de estar. Antes de sair da mesa, ele disse:

— Prefiro não discutir mais isso, se você não se importa.

Norma deu de ombros. — Por mim, tudo bem.

ELA SE LEVANTOU MAIS CEDO que o habitual para fazer panquecas, ovos e bacon para o café da manhã de Arthur.

— O que estamos comemorando? — perguntou ele com um sorriso.

— Nada em especial — Norma pareceu ofendida. — Eu quis fazer isso, é tudo.

— Bom — disse ele —, estou feliz que você tenha feito.

Ela tornou a encher sua xícara.

— Quis mostrar que eu não sou... — ela deu de ombros.

— Não é o quê?

— Egoísta.

— Eu disse que você era?

— Bem... — ela fez um gesto vago. — Na noite passada...

Arthur nada disse.

— Toda aquela conversa sobre o botão — disse Norma. — Acho que você me interpretou mal.

— Como assim? — disse ele, na defensiva.

— Acho que você sentiu — ela gesticulou novamente — que eu só estava pensando em mim mesma.

— Oh.

— Eu não estava.

— Norma.

— Bem, não estava. Quando eu falei sobre a Europa, a casa de campo...

— Norma, por que estamos nos envolvendo tanto nisso?

— Eu não estou nem um pouco envolvida — sua respiração estava entrecortada. — Estou simplesmente tentando mostrar que...

— O quê?

— Que eu gostaria que fôssemos à Europa. Gostaria que tivéssemos um apartamento mais confortável, móveis melhores, boas roupas. Que pudéssemos, finalmente, ter um bebê.

— Teremos, Norma — disse ele.

— Quando?

Ele olhou para ela com desânimo.

— Norma...

— Quando?

Ele pareceu recuar um pouco:

— Você está mesmo dizendo...?

— Estou dizendo que eles provavelmente estão fazendo isso para algum projeto de pesquisa! — ela o interrompeu. — Querem saber o que pessoas comuns fariam em tal circunstância! Estão apenas dizendo que alguém iria morrer para estudar as reações, para ver se não haveria culpa, ansiedade, sei lá! Você não acha realmente que eles vão matar alguém, não é?

Arthur não respondeu. Ela notou as mãos dele trêmulas. Depois de algum tempo, ele se levantou e saiu. Quando ele saiu para trabalhar, Norma permaneceu à mesa, olhando para o seu café. Vou me atrasar, pensou. Deu de ombros. Que diferença faz?

De qualquer modo, o lugar dela deveria ser em casa e não trabalhando em um escritório.

Enquanto empilhava os pratos, virou-se abruptamente, enxugou as mãos e apanhou o pacote no armário de baixo. Abriu-o e colocou a caixa sobre a mesa. Contemplou-a por um longo tempo, antes de retirar a chave do envelope e abrir a redoma de vidro. Olhou para o botão. Que ridículo, pensou. Tudo isso por causa de um botão sem sentido.

Inclinou-se e o pressionou. Por nós, pensou com raiva.

Ela estremeceu. Será que estava mesmo acontecendo? Um arrepio de horror a percorreu.

Num instante, já havia passado. Fez um ruído de desprezo. Ridículo, pensou. Tanto barulho por nada.

HAVIA ACABADO DE PREPARAR os bifes para o jantar e servia-se de outra dose de bebida quando o telefone tocou. Ela o atendeu.

— Alô?

— Sra. Lewis?

— Sim?

— Aqui é do Hospital Lenox Hill.

Ela mal conseguiu acreditar quando a voz lhe relatou o acidente no metrô, o empurra empurra da multidão. Arthur fora empurrado da plataforma na frente do trem. Tinha consciência de estar balançando a cabeça, mas não conseguia parar.

Quando desligou, lembrou-se de que o seguro de vida de Arthur pagava 25 mil dólares em caso de morte natural e... 50 mil em caso de morte acidental.

— Não.

Não conseguia respirar. Esforçou-se para se levantar e caminhou até a cozinha em estado de choque. Algo gelado pressionou seu crânio quando ela retirou a caixa do lixo.

Não havia pregos ou parafusos visíveis. Não dava para ver como fora montada.

De repente, começou a esmagá-la na beirada da pia, batendo cada vez mais forte até a madeira se despedaçar. Ela arrancou as laterais, cortando os dedos, sem perceber. Não havia transistores na caixa, nem fios, nem transmissores.

A caixa estava vazia.

Ela virou-se assustada quando o telefone tocou. Atravessando a sala aos tropeções, tirou o fone do gancho.

— Sra. Lewis? — perguntou o Sr. Steward.

Não era a voz dela gritando daquela maneira, não podia ser.

— Você disse que eu não conhecia a pessoa que iria morrer!

— Minha cara senhora — disse o Sr. Steward —, realmente crê que conhecia o seu marido?


"O Incrível Homem que Encolheu: e Outras Histórias" - Richard Matheson - Osasco, SP - Novo Século Editora, 2010.

Pesadelo a 20.000 Pés


Cinto de segurança, por favor — disse a aeromoça alegremente ao passar por ele. Quase ao mesmo tempo, o sinal acima da divisória que levava ao compartimento dianteiro se acendeu — APERTAR CINTO DE SEGURANÇA — e, logo abaixo, PROIBIDO FUMAR.

Depois de uma profunda tragada, Wilson exalou a fumaça em etapas e, em seguida, apagou o cigarro no cinzeiro do braço da poltrona com pancadinhas frenéticas.

Lá fora, um dos motores tossiu monstruosamente, soltando uma nuvem de fumaça que se dispersou no ar da noite. A fuselagem começou a tremer e Wilson, olhando pela janela, viu o jato de chamas jorrando brancamente da nacela do motor. O segundo motor tossiu, rugiu, e sua hélice em rotação imediatamente se tornou um borrão indiscernível. Com uma submissão tensa, Wilson apertou o cinto em seu colo.

Agora, todos os motores estavam funcionando e a cabeça de Wilson vibrava em uníssono com a fuselagem. Sentou-se rigidamente, olhando para a poltrona da frente, enquanto o DC-7 taxiava, aquecendo a noite com a trovejante explosão de seus escapes.

Na cabeceira da pista, ele parou. Wilson espiou através da janela as luzes brilhantes do gigantesco terminal. No fim da manhã, pensou ele, de banho tomado e com roupas limpas, estaria sentado no escritório de mais um contato para discutir mais um acordo, cujo resultado líquido nada acrescentaria à história da humanidade. Isso tudo era tão inútil...

Wilson perdeu o fôlego quando os motores iniciaram o aquecimento na corrida de preparação para a decolagem. O som, já alto, tornou-se ensurdecedor.

Ondas de som que se chocavam contra os ouvidos de Wilson como golpes de marreta.

Ele abriu a boca para diminuir a pressão. Seus olhos estampavam agonia e as mãos contraíram-se como garras.

Assustou-se e encolheu as pernas ao sentir um toque em seu braço.

Virando rapidamente a cabeça, viu a aeromoça que o recebera na porta. Sorria para ele.

— O senhor está bem? — ele mal escutou as palavras.

Wilson apertou os lábios e agitou a mão para ela como se a estivesse afastando. Ela lhe sorriu afetadamente e fechou a cara ao virar-se e ir embora.

O avião pôs-se em movimento. A princípio, letargicamenre, como um gigante se esforçando para vencer o próprio peso. Depois, com mais velocidade, começando a superar o atrito que o embaraçava. Wilson, virando-se para a janela, viu a pista escura precipitar-se cada vez mais rápido. Houve um ruído mecânico na borda de fuga da asa, quando os flapes foram baixados.

Então, imperceptivelmente, as imensas rodas perderam contato com o solo, a terra começou a se afastar. Árvores passavam velozmente lá embaixo, construções, o brilho prateado dos faróis dos carros. O DC-7 pendeu lentamente para a direita, elevando-se em direção ao brilho gelado das estrelas.

Por fim, estabilizou-se e os motores pareceram calar até que os ouvidos de Wilson se adaptassem e percebessem o murmúrio de sua velocidade de cruzeiro. Um alívio momentâneo diminuiu a tensão em seus músculos, comunicando-lhe uma sensação de bem-estar. O pior já passara. Wilson permaneceu imóvel, olhos fixos no sinal PROIBIDO FUMAR, até que se apagou e, então, rapidamente, ele acendeu um cigarro.

Alcançou o revisteiro do encosto da poltrona da frente e tirou dali o seu jornal.

Como de costume, o mundo estava em um estado semelhante ao seu. Atrito nos círculos diplomáticos, terremotos e tiros, assassinatos, estupros, tornados e colisões, conflitos comerciais, banditismo. Deus está no céu, tudo certo com o mundo, pensou Arthur Jeffrey Wilson.

Quinze minutos mais tarde, deixou o jornal de lado. O estômago o incomodava terrivelmente. Checou os avisos ao lado dos dois lavatórios. Em ambos, lia-se: OCUPADO. Apagou seu terceiro cigarro desde a decolagem e, desligando a luz do teto, olhou pela janela.

Ao longo da cabine, as pessoas já estavam apagando suas luzes e reclinando suas poltronas para dormir. Wilson consultou o relógio. Onze e vinte da noite. Suspirou, cansado.

Como previra, as pílulas que havia tomado antes do embarque não tinham surtido efeito. Levantou-se bruscamente ao notar que uma mulher estava saindo do banheiro.

Apanhou sua valise de mão e meteu-se pelo corredor.

Seu organismo, como sempre, não cooperava. Wilson deixou escapar um gemido cansado e endireitou a roupa. Após lavar as mãos e o rosto, retirou o nécessaire da valise e espremeu um filamento de creme dental na escova.

Enquanto escovava os dentes, apoiando-se com a outra mão na fria divisória, olhou para fora. Divisava, a alguns metros, o azul-claro do propulsor interno. Wilson imaginou o que aconteceria se aquilo se desprendesse e, como uma lâmina de três gumes, viesse em sua direção e o fatiasse.

Sentiu um súbito aperto no estômago. Wilson engoliu instintivamente e a saliva que lhe desceu pela garganta estava misturada ao creme dental. Engasgando, virou-se e cuspiu na pia; então, rapidamente, lavou a boca e bebeu um gole. Meu Deus, se ao menos pudesse ter ido de trem, em seu próprio compartimento, talvez um passeio descontraído até o vagão-restaurante, onde se acomodaria em uma poltrona confortável, com uma bebida e uma revista. Mas não se tem tempo ou sorte neste mundo.

Estava prestes a guardar o nécessaire quando bateu os olhos em um envelope impermeável dentro da valise. Hesitou um instante e, então, apoiando a pequena valise sobre a pia, retirou dela o envelope e o abriu sobre o colo.

Permaneceu ali sentado, contemplando a lustrosa simetria da pistola.

Trazia-a consigo há quase um ano. No começo, a ideia lhe havia ocorrido por causa do dinheiro que transportava, como proteção contra assaltos, segurança contra as gangues de adolescentes das cidades que precisava visitar.

Contudo, lá no fundo, sempre soube que tais motivos não passavam de desculpa para a verdadeira razão. Razão na qual pensava cada vez mais. Como seria simples se... aqui, agora...

Wilson fechou os olhos e engoliu rapidamente. Ainda podia sentir o gosto do creme dental na boca, uma leve ardência nas gengivas causada pela menta. Apoiou-se no lavatório frio, a arma lubrificada descansando em suas mãos. Até que, de repente, começou a tremer de maneira descontrolada.

Deus, deixe-me ir!, sua mente gritou abruptamente.

Deixe-me ir, deixe-me ir. Mal se reconhecia naquele choramingar que escutava. De súbito, Wilson endireitou o corpo. Lábios apertados, reembalou a pistola e meteu-a na valise, colocou o nécessaire sobre ela e fechou a maleta. Pondo-se de pé, abriu a porta e saiu, dirigindo-se apressadamente para seu assento, sentando-se e deslizando a valise ao seu devido lugar. Apertou o botão do braço da poltrona e empurrou-se para trás. Era um homem de negócios e tinha um negócio a ser fechado no dia seguinte.

Simples assim.

O corpo precisava de repouso e ele lhe daria o repouso necessário.

Vinte minutos depois, Wilson voltou a pressionar o botão, fazendo o encosto de sua poltrona retornar lentamente para a posição vertical; seu rosto era a máscara da aceitação da derrota. Porque lutar?, pensou. Era óbvio que permaneceria acordado.

Seria assim e ponto-final.

Tinha acabado metade das palavras cruzadas antes de largar o jornal em seu colo.

Seus olhos estavam cansados demais. Endireitou-se no assento, estalou os ombros, esticou os músculos das costas. E agora? , pensou.

Não queria ler, não conseguia dormir. E tinha ainda pela frente — consultou o relógio — sete ou oito horas antes de chegar a Los Angeles. Como iria passá-las? Olhou ao longo da cabine e viu que, com exceção de um único passageiro no compartimento dianteiro, todos estavam dormindo.

Foi tomado por uma súbita e avassaladora fúria e desejou gritar, atirar alguma coisa longe, bater em alguém. Cerrou os dentes com tanta força que lhe doeu o maxilar; Wilson afastou as cortinas com as mãos trêmulas e espiou pela janela, com um olhar assassino.

Lá fora, viu as luzes da asa piscando, os sinistros lampejos de escape do motor. Lá estava ele, percebeu, vinte mil pés acima da terra, preso em uma concha mortal e barulhenta, atravessando a noite gélida em direção...

Wilson estremeceu quando um relâmpago clareou o céu, inundando a asa com sua falsa luz do dia. Engoliu em seco. Haveria uma tempestade?

A ideia de chuva e ventos fortes atingindo o avião como uma casca de noz no mar do céu não era nada agradável. Wilson não era um bom passageiro.

Movimento em excesso o deixava enjoado. Devia ter tomado outro antihistamínico por precaução. E, naturalmente, sua poltrona estava localizada junto à porta de emergência. Pensou na eventualidade de ela se abrir acidentalmente e sobre ele ser sugado do avião, caindo, gritando.

Wilson piscou e balançou a cabeça. Sentiu um ligeiro formigamento na nuca quando se aproximou da janela ainda mais e olhou para fora. Ficou ali sentado, imóvel, com os olhos semicerrados para enxergar melhor. Poderia jurar que...

De repente, sentiu uma violenta contração nos músculos do estômago e arregalou os olhos.

Havia alguma coisa rastejando na asa.

Wilson sentiu uma náusea repentina. Meu Deus, será que algum cão ou gato havia rastejado para o avião antes da decolagem e, de alguma forma, conseguira se segurar? Era uma ideia angustiante. O pobre animal estaria louco de pavor. No entanto, como seria possível que descobrisse locais onde se agarrar na superfície lisa e açoitada pelo vento? Certamente era impossível.

Talvez, no fim das contas, fosse apenas um pássaro ou...

Outro raio iluminou o céu e Wilson viu que era um homem.

Não conseguia se mover. Estupefato, ficou olhando a forma preta rastejar pela asa.

Impossível. Em algum lugar, envolta em camadas de choque, uma voz se pronunciou, mas Wilson não ouviu. Não tinha consciência de coisa alguma, exceto do colossal pulo que deu seu coração e do homem lá fora.

De repente, como se houvesse levado um banho de água fria, houve uma reação; sua mente saltou para o abrigo de uma explicação. Um mecânico que, por algum descuido incrível, fora levado junto com o avião.

Conseguira se agarrar a ele, mesmo que o vento lhe houvesse arrancado as roupas, mesmo que a atmosfera fosse rarefeita e próxima de zero.

Wilson não se deu tempo para refutação. Pondo-se de pé num pulo, gritou:

— Aeromoça! Aeromoça! — sua voz ecoou pela cabine. Ele apertou com decisão o botão para chamá-la.

— Aeromoça!

Ela veio correndo pelo corredor com ar de preocupação. Quando se deparou com a expressão em seu rosto, parou onde estava.

— Há um homem lá fora! Um homem! — Wilson gritou.

— O quê? -a pele em torno dos olhos e as bochechas da aeromoça se contraíram.

— Olhe, olhe — com a mão trêmula, Wilson caiu de volta na poltrona e apontou para a janela. — Ele está rastejando na...

As palavras terminaram em sua garganta com um engasgo. Não havia coisa alguma sobre a asa.

Wilson ficou sentado ali, tremendo. Por um momento, antes de se virar, olhou para o reflexo da aeromoça na janela. Havia uma expressão vazia em seu rosto.

Afinal, ele se virou e olhou para ela. Viu seus lábios vermelhos separados, como se estivesse prestes a falar, mas não disse nada, apenas fechou os lábios novamente e engoliu.

Uma tentativa de sorriso distendeu brevemente suas feições.

— Sinto muito — disse Wilson. — Deve ter sido um...

Ele parou, como se a sentença houvesse sido concluída. Do outro lado do corredor, uma adolescente olhava para ele com sonolenta curiosidade. A aeromoça pigarreou:

— Posso lhe trazer alguma coisa? — perguntou ela.

— Um copo de água — disse Wilson.

A aeromoça virou-se e voltou para o corredor.

Wilson suspirou profundamente e deu as costas para o olhar escrutinador da garota.

Sentia-se da mesma forma. Isso era o que mais o chocava. Onde estava o típico comportamento de louco, as visões, os gritos, os golpes dos punhos apertados contra as têmporas, o arrancar de cabelos?

De repente, fechou os olhos. Havia um homem lá, ele pensou. Havia lealmente um homem lá. E era por essa razão que se sentia assim. E, no entanto, não poderia ter havido um homem lá. Sabia muito bem disso.

Wilson estava sentado com os olhos fechados, imaginando o que Jacqueline estaria fazendo agora, se estivesse no assento ao lado. Será que estaria em silêncio, chocada demais para falar? Ou será que ela, da maneira mais natural do mundo, estaria borboleteando ao redor dele, sorrindo, conversando, fingindo que não tinha visto coisa alguma? O que os seus filhos teriam pensado?

Wilson sentiu um soluço seco ameaçar irromper em seu peito. Oh, Deus...

— Aqui está sua água, senhor.

Contraindo-se fortemente, Wilson abriu os olhos.

— O senhor gostaria de um cobertor? — perguntou a aeromoça.

— Não — ele balançou a cabeça. — Obrigado — acrescentou ele, querendo saber por que estava sendo tão educado.

— Se precisar de alguma coisa, basta chamar — disse ela.

Wilson concordou.

Atrás dele, enquanto permanecia sentado com o copo de água intocado na mão, ouviu as vozes abafadas da aeromoça e de um dos passageiros. Wilson contraiu-se de ressentimento. Subitamente, abaixou-se com cuidado para não derramar a água e pegou a maleta. Abrindo-a, tirou dali o frasco com as pílulas para dormir e tomou duas.

Amassando o copo vazio, enfiou-o no revisteiro do encosto da poltrona da frente e, então, sem olhar, correu as cortinas. Pronto, acabou. Uma alucinação não constitui loucura.

Wilson virou-se para o lado direito e tentou estabilizar-se contra o movimento descontínuo do avião. Tinha de esquecer, isso era o mais importante. Não devia ficar pensando naquilo. Inesperadamente, percebeu que um sorriso irônico se formava em seus lábios. Bom, pelo menos, ninguém poderia acusá-lo de ter alucinações triviais. Em se tratando de alucinações, criara uma de primeira. Um homem nu rastejando na asa de um DC-7 a vinte mil pés, isso era uma quimera digna do mais nobre lunático.

O bom humor desapareceu rapidamente. Wilson sentiu um calafrio.

Havia sido tão claro, tão vívido. Como poderiam os olhos enxergar uma coisa que não existe? Como era possível que sua mente pudesse simular o ato físico de enxergar tão perfeitamente? Ele não estava embriagado, nem atordoado... e não havia sido uma visão indistinta, etérea. Havia sido claramente tridimensional, como todas as outras coisas que via e sabia que eram reais. Essa era a parte mais assustadora de tudo.

Tinha certeza de que não fora um sonho. Havia olhado para a asa e...

Num impulso, Wilson abriu a cortina.

Não soube, imediatamente, se iria sobreviver. Era como se todo o conteúdo de seu peito e barriga inchassem horrivelmente, comprimindo-lhe a garganta e a cabeça, asfixiando-o, pressionando-lhe os olhos. Preso nessa massa estufada, seu coração pulsava descontroladamente, ameaçando romper-lhe o peito enquanto Wilson permanecia sentado, paralisado.

Distante apenas alguns centímetros, separado dele pela espessura do vidro da janela, o homem olhava para ele.

Era um rosto terrivelmente maligno, não humano. Sua pele era suja, áspera e porosa; o nariz era chato e descorado; os lábios, disformes e rachados, eram mantidos abertos por dentes tortos e descomunais; os olhos pequenos e encovados não piscavam. Tudo isso emoldurado por cabelos emaranhados que lhe brotavam, também, em tufos peludos, das orelhas e do nariz.

Wilson permaneceu colado à poltrona, sem reação. O tempo parou e perdeu o significado. Todo movimento e capacidade analítica cessaram. Tudo congelado pelo choque. Apenas o coração continuava, sozinho, seu batimento frenético na escuridão. Wilson não conseguia fazer nada mais do que piscar. Com olhos arregalados, sem fôlego, retribuía o olhar vago da criatura.

Abruptamente, em seguida, fechou os olhos e sua mente, livre da visão, isolou-se. Não está lá, pensou. Dentes cerrados, respiração trêmula.

Não está lá, simplesmente não está lá!

Agarrando-se aos braços da poltrona com mãos crispadas, Wilson se preparou. Não existe homem algum lá fora, disse a si mesmo. Era impossível haver um homem lá fora, agachado na asa, olhando para ele.

Abriu os olhos...

E voltou a se encolher contra o encosto do assento, quase sufocado.

Não apenas o homem ainda estava lá, como também sorria. Wilson apertou os dedos contra as palmas das mãos, cravando-lhes as unhas até doer. Manteve-se assim até não restar dúvida em sua mente de que estava plenamente consciente.

Então, lentamente, com o braço tremulo e dormente, Wilson alcançou o botão para chamar a aeromoça. Não iria cometer o mesmo erro de novo: gritar, levantar-se, alarmar a criatura e deixá-la escapar. Manteve o braço esticado, com um tremor em seus músculos, agora causado pelo pavor, porque o homem estava a observá-lo, os pequenos olhos acompanhando o movimento de seu braço.

Ele pressionou o botão com cuidado uma... duas vezes. Agora, venha, pensou. Venha com os seus olhos objetivos, e veja o que eu vejo... mas venha depressa.

Na parte traseira da cabine, ouviu-se uma cortina ser afastada e, de repente, seu corpo se enrijeceu. O homem virara a monstruosa cabeça e olhava naquela direção.

Paralisado, Wilson olhou para ele.

Depressa, pensou. Pelo amor de Deus, depressa!

Tudo terminou em segundos. Os olhos do homem voltaram a pousar em Wilson; nos lábios, um sorriso de monstruosa astúcia. Depois, com um salto, ele se foi.

— Pois não, senhor?

Por um momento, Wilson sofreu a angústia da loucura. Seu olhar ficava pulando do local onde o homem estivera, para o rosto inquisitivo da aeromoça, e vice-versa.

Voltou-se para a aeromoça, com respiração ofegante, os olhos deixando transparecer seu desânimo.

— O que aconteceu? — perguntou a aeromoça.

Sua expressão o entregara. Wilson procurou ocultar sua comoção. Ela jamais acreditaria nele. Percebeu num instante.

— Eu... eu peço-lhe desculpas — vacilou. Engoliu tão em seco que sua garganta fez um barulho. Não é nada. Eu... desculpe-me.

A aeromoça, obviamente, não sabia o que dizer. Procurava se equilibrar, uma mão segurando a parte traseira do assento ao lado de Wilson, a outra pendendo frouxamente ao longo da costura da saia. Seus lábios se separaram um pouco como se ela fosse falar, mas não conseguia encontrar as palavras.

— Bem — disse ela, finalmente, limpando a garganta —, se o senhor... precisar de alguma coisa...

— Sim, sim. Obrigado. Estamos entrando em uma tormenta?

A aeromoça apressou-se em sorrir.

— Apenas uma ligeira tempestade — disse ela. — Nada para se preocupar.

Wilson concordou com pequenos movimentos nervosos. Então, quando a aeromoça se virou, suspirou profundamente, fazendo as narinas tremerem. Tinha certeza de que ela já pensava que ele era louco, mas não sabia o que fazer quanto a isso, porque, em seu curso de formação, não houvera instruções sobre a presença de passageiros que pensam ter visto homenzinhos agachados sobre a asa.

Pensam?

Wilson virou bruscamente a cabeça e olhou para fora. Contemplou a parte escura da asa, o jorro de chamas do escape, as luzes piscando. Havia visto o homem. Como poderia estar completamente consciente de tudo à sua volta, lúcido e são, em todos os sentidos, e ainda assim imaginar uma coisa dessas? Seria lógico, se estivesse perdendo a razão, que a mente, em vez de distorcer toda a realidade, inserisse no intacto arranjo de detalhes uma visão estranha?

Não, não era lógico.

De repente, Wilson pensou sobre a guerra, sobre as notícias do jornal que relatavam a suposta existência de criaturas no céu, que perturbaram os pilotos aliados em suas funções.

Chamaram-nos de gremlins, lembrou.

E se tais seres existissem, de fato? Será que realmente existem aqui, nunca caindo, cavalgando o vento, alheios à gravidade, embora aparentando possuir volume e peso?

Estava pensando nisso quando o homem apareceu novamente.

Num segundo, a asa estava vazia. No outro, executando um salto em arco, lá estava a criatura. Parecia não haver impacto na aterrissagem. Um tanto frágil, baixo, braços peludos estendidos como se para manter o equilíbrio.

Wilson encheu-se de tensão. Sim, havia inteligência naquele olhar.

O homem — poderia chamá-lo assim? — de algum modo entendia que havia enganado Wilson, fazendo-o chamar a aeromoça em vão. Wilson estremeceu alarmado. Como poderia provar a existência do homem para os outros?

Olhou em volta, desesperadamente. A garota do outro lado do corredor. Se ele a chamasse baixinho, se a despertasse, será que ela seria capaz de...

Não, o homem iria pular fora antes que ela pudesse vê-lo. Provavelmente, para a parte superior da fuselagem, onde ninguém podia vê-lo, nem mesmo os pilotos em sua cabine. Wilson recriminou-se duramente por não ter comprado a câmera fotográfica que Walter havia pedido. Meu Deus, pensou ele, teria podido tirar uma foto do homem.

Inclinou-se, aproximando-se da janela. O que o homem estaria fazendo?

Subitamente, a escuridão foi dissipada quando o clarão de um relâmpago clareou a asa e Wilson o viu. Como uma criança curiosa, o homem estava agachado na borda da asa, estendendo a mão direita em direção a uma das hélices.

Enquanto Wilson observava, entre fascinado e chocado, a mão do homem foi se aproximando cada vez mais da hélice até que, de repente, ele a recolheu e os lábios do homem se abriram em um grito silencioso. Ele perdeu um dedo!, pensou Wilson, perturbado. Mas, imediatamente, o homem se inclinou outra vez para a frente, os dedos tortos estendidos, parecendo uma criança monstruosa tentando capturar o movimento de uma pá de ventilador.

Se não fosse tão inconvenientemente fora de lugar, seria até divertido observar o homem que, naquele momento, era uma visão cômica: um troll de conto de fadas que ganhara vida, o vento chicoteando-lhe os cabelos da cabeça e o corpo, totalmente concentrado no movimento da hélice. Como poderia ser loucura? Wilson, de repente, pensou. Que autorrevelação aquela farsa de horror poderia lhe trazer?

Repetidas vezes, enquanto Wilson observava, o homem se inclinou para a frente.

Sempre recolhia os dedos, chegando, às vezes, a levá-los à boca, como se para resfriá-los. E continuamente conferia, olhando por cima do ombro, os movimentos de Wilson. Ele sabe, pensou Wilson. Sabe que esse é um jogo entre nós dois. Se eu for capaz de conseguir que alguém o veja, então ele perde. Se sou a única testemunha, então, ele ganha. A sensação levemente divertida fora embora. Wilson cerrou os dentes. Por que diabos os pilotos não o veem?

Agora, o homem, não mais interessado na hélice, acomodara-se em cima da carenagem do motor, como se estivesse montado num cavalo obeso.

Wilson não tirava os olhos dele. De repente, um calafrio lhe percorreu a espinha. O homenzinho estava mexendo nas placas que revestiam o motor, tentando enfiar as unhas por baixo delas.

Num impulso, Wilson estendeu a mão e apertou o botão para chamar a aeromoça.

Ouvia-a vindo do fundo e, por um segundo, pensou que havia enganado o homem, que parecia absorto em seus esforços. No último momento, entretanto, pouco antes de a aeromoça chegar, o homem olhou para Wilson. Então, como uma marionete, puxada para cima por fios, ele desapareceu.

— Sim? — ela o olhou apreensiva.

— Você poderia se sentar, por favor? — ele perguntou.

Ela hesitou.

— Bem, eu...

— Por favor.

Ela se sentou cautelosamente no assento ao seu lado.

— O que foi, Sr. Wilson? — perguntou ela.

Ele tomou coragem.

— Aquele homem ainda está fora — disse.

A aeromoça olhou para ele.

— A razão pela qual estou lhe dizendo isso — Wilson apressou-se -é que ele está começando a mexer em um dos motores.

Ela voltou os olhos instintivamente na direção da janela.

— Não, não, não olhe — disse ele. — Ele não está lá agora — ele pigarreou pegajosamente.

— Ele pula fora sempre que você vem aqui.

Foi tomado por uma náusea súbita ao perceber o que ela devia estar pensando. Ao se dar conta do que ele próprio acharia se alguém lhe dissesse algo assim, uma onda de tontura pareceu atravessá-lo e ele pensou: Estou ficando louco!

— A questão é — disse ele, lutando contra tal pensamento —, se não estiver imaginando isso, o avião está em perigo.

— Sim — disse a aeromoça.

— Eu sei — disse ele. — Você acha que sou louco.

— Claro que não — disse ela.

— Só peço uma coisa — disse ele, lutando contra a raiva que lhe crescia por dentro —, diga aos pilotos o que eu lhe disse. Peça-lhes para ficarem de olho nas asas. Se não virem nada, tudo bem. Mas se virem...

A aeromoça permaneceu sentada em silêncio, olhando para ele. Wilson cerrou os punhos trêmulos sobre seu colo.

— Então? — ele perguntou.

Ela se pôs de pé.

— Eu vou dizer a eles — respondeu.

Virando-se, ela se deslocou ao longo do corredor com um movimento que foi, para Wilson, mal calculado: muito rápido para ser normal, ainda que obviamente controlado, como para lhe assegurar que ela não estava fugindo. Ele sentiu o estômago se revirar quando olhou para a asa novamente.

De repente, o homem apareceu de novo, aterrissando na asa como um bailarino grotesco. Wilson pôs-se a observá-lo, enquanto ele voltava a trabalhar, envolvendo a grossa carenagem do motor com as pernas nuas, tentando soltar as placas.

Bem, por que estava tão preocupado? Wilson pensou. Aquela miserável criatura não poderia arrancar os rebites com as unhas. Na verdade, não importava se os pilotos o vissem ou não, pelo menos, no que diz respeito à segurança do avião. Quanto às suas próprias razões...

Foi nesse momento que o homem conseguiu levantar um lado de uma placa.

Wilson abriu a boca de surpresa.

— Aqui, rápido! — gritou ele, notando que, lá na frente, a comissária de bordo e o piloto saíam da cabine.

Os olhos do piloto desviaram-se para Wilson e, de repente, ele ultrapassou a aeromoça e correu pelo corredor com certa dificuldade devido à turbulência.

— Depressa!

Wilson gritou. Ele olhou para fora da janela a tempo de ver o homem saltando para cima.

Aquilo não importa agora. Não haveria provas.

— O que está acontecendo? — perguntou o piloto, parando ofegante ao lado de seu assento.

— Ele rasgou uma das placas de motor! — disse Wilson, com voz trêmula.

— Quem fez o quê?

— O homem lá fora! — disse Wilson. — Estou lhe dizendo que ele...

— Sr. Wilson, fale baixo! — ordenou o piloto. Wilson abriu a boca, sem ação.

— Eu não sei o que está acontecendo aqui — disse o piloto —, mas...

— Você vai verificar? — gritou Wilson.

— Sr. Wilson, estou avisando-o.

— Pelo amor de Deus!

Wilson engoliu em seco rapidamente, tentando reprimir a raiva cega que sentia. De repente, deixou-se cair na poltrona e apontou para a janela com a mão paralisada.

— Pelo amor de Deus, será que você pode olhar? — perguntou ele.

Com a respiração alterada, o piloto se inclinou. Num instante, seu olhar desviou-se friamente para Wilson.

— Então? — perguntou.

Wilson sacudiu a cabeça. As placas estavam em sua posição normal.

— Espere um instante — disse ele, antes de perder a coragem. — Eu o vi erguer aquela placa.

— Sr. Wilson, se o senhor não..

— Eu disse que o vi erguê-la — disse Wilson.

O piloto ficou ali parado, olhando para ele quase da mesma forma reticente, quase horrorizada, que a aeromoça o havia olhado antes.

Wilson tremeu violentamente.

— Escute, eu vi!. — gritou.

A falha repentina na voz o alarmou.

Em um segundo, o piloto estava ao lado dele.

— Sr. Wilson, por favor — disse ele. — Tudo bem, o senhor o viu. Mas lembre-se de que há outras pessoas a bordo. Não devemos alarmá-las.

A princípio, Wilson estava muito abalado para compreender.

— Você quer dizer que já o viu, então? — perguntou.

— Claro — disse o piloto —, mas nós não queremos assustar os passageiros. O senhor entende, não é?

— Claro, claro, eu não quero...

Wilson sentiu uma cãibra na virilha e na parte inferior do abdome.

De repente, apertou os lábios e olhou para o piloto, com olhos maliciosos.

— Eu compreendo — disse ele.

— A única coisa que temos de lembrar... — começou o piloto.

— Podemos parar agora — disse Wilson.

— Como, senhor?

Wilson estremeceu.

— Saiam daqui — disse ele.

— Sr. Wilson, o quê?

— Quer parar, por favor?

Com a face lívida, Wilson desviou a vista do piloto e olhou para a asa, com um olhar vidrado.

Subitamente, olhou para trás.

— Tenha certeza de que eu não direi mais nada! — disse de chofre.

— Sr. Wilson, tente compreender a nossa...

Wilson se virou e ficou vigiando o motor com uma expressão terrível.

Pelo canto dos olhos, viu dois passageiros em pé no corredor olhando para ele.

Idiotas! , explodiu por dentro. Sentiu as mãos começarem a tremer e, por alguns segundos, pensou que fosse vomitar. E o movimento, disse para si mesmo.

O avião balançava agora como um barco castigado por uma tempestade em alto-mar.

Ajustou o foco dos olhos e examinou o reflexo do piloto na janela, que ainda estava falando com ele. Ao lado dele, a aeromoça, muda e carrancuda. Idiotas cegos! Os dois! , pensou Wilson. Ele não deu mostras de notar quando os dois se retiraram. Pelo reflexo na janela, viu quando foram para a parte traseira da cabine. Agora vão discutir sobre mim, pensou. Estabelecer planos para o caso de eu me tornar violento.

Agora, desejava que o homem reaparecesse, retirasse a placa da carenagem e estragasse o motor. Deu-lhe uma sensação de prazer vingativo saber que só ele se interpunha entre a catástrofe e as mais de trinta pessoas a bordo. Se quisesse, poderia permitir que a catástrofe acontecesse. Wilson sorriu sem humor. Isso sim seria um senhor suicídio, pensou.

O homenzinho desceu de novo e Wilson constatou que o que pensara estava correto: o homem havia pressionado a placa de volta ao lugar antes de pular fora. Por esse motivo, agora, ele a estava erguendo novamente e o fazia com facilidade, descascando-a para trás como pele extirpada por algum grotesco cirurgião. A asa sacudia violentamente, mas o homem parecia não ter dificuldade para se manter equilibrado.

Mais uma vez, Wilson sentiu-se em pânico. O que fazer? Ninguém acreditava nele. Se tentasse convencê-los, provavelmente iriam segurá-lo a força. Se pedisse à aeromoça para se sentar ao lado dele, seria, na melhor das hipóteses, apenas um alívio momentâneo. No instante em que fosse embora ou se permanecesse e dormisse, o homem voltaria. Mesmo que ficasse acordada ao lado dele, acaso isso evitaria que o homem sabotasse os motores na outra asa?

Wilson estremeceu, sentindo um calafrio percorrer seus ossos.

Meu Deus, não há nada a fazer.

Ele se contraiu ao notar pelo reflexo na janela, através da qual ele observava o homenzinho, que o piloto passava por ele. A loucura do momento tornou possível que o homenzinho e o piloto ficassem a poucos metros um do outro, ambos vistos por ele, embora sem tomarem conhecimento um do outro. Não é verdade. O homenzinho olhara por cima de seu ombro quando o piloto passou. Como se soubesse que não havia necessidade de saltar mais, que a capacidade de Wilson interferir chegara ao fim.

Wilson de repente, estremeceu de cólera. Eu vou matar você!, pensou, seu animalzinho imundo, eu vou matar você!

Lá fora, o motor vacilou.

Durou apenas um segundo, mas, nesse segundo, pareceu a Wilson que seu coração também parara.

Colou-se contra a janela, olhando fixamente. O homem havia curvado a placa da carenagem bem para trás e agora estava de joelhos, enfiando a mão curiosa no motor.

— Não — Wilson ouviu o gemido de sua própria voz, implorando. -Não.

Novamente, o motor falhou. Wilson olhou em torno horrorizado.

Eram todos surdos? Ergueu a mão para apertar o botão e chamar a aeromoça, mas em seguida desistiu. Não, iriam prendê-lo ou restringi-lo de alguma maneira.

E ele era o único que sabia o que estava acontecendo, a única pessoa que poderia ajudar.

Deus... Wilson mordeu o lábio inferior até que a dor o fez choramingar. Ele virou-se de novo e estremeceu. A aeromoça estava correndo pelo corredor balançante. Ela tinha ouvido!

Ele olhou-a fixamente e viu-a relanceá-lo ao passar por sua poltrona.

Ela parou três lugares adiante no corredor. Alguém mais havia ouvido!

Wilson observou a aeromoça inclinar-se para falar com o passageiro, que ele não conseguia ver de onde estava. Lá fora, o motor tossiu novamente. Wilson sacudiu cabeça e olhou para fora horrorizado, espremendo os olhos para enxergar melhor.

— Desgraçado! — gemeu.

Virou-se novamente e viu a aeromoça voltando pelo corredor. Não parecia assustada.

Wilson encarou-a com olhos incrédulos. Não era possível. Girou na poltrona para seguir seus passos incertos e viu-a entrar na cozinha.

— Não.

Wilson tremia tanto agora que já não conseguia parar. Ninguém escutara. Ninguém sabia.

De repente, Wilson curvou-se e puxou sua valise de mão debaixo da poltrona. Abriu o zíper, retirou dali sua pasta e jogou-a sobre o carpete.

Então, curvando-se novamente, pegou o envelope com superfície encerada e se endireitou. Com o canto dos olhos, viu que a aeromoça voltava e empurrou a valise para baixo do assento com os pés, escondendo o envelope entre si e o braço da poltrona. Sentou-se ereto, com a respiração agitada fazendo seu peito estremecer, esperando ela passar.

Então, puxou o envelope, depositou-o no colo e o abriu. Seus movimentos eram tão febris que quase deixou cair a pistola.

Pegou-a pelo cano e, em seguida, agarrou-a com força pelo punho e soltou a trava de segurança. Olhou para fora e esfriou.

O homem estava olhando para ele.

Wilson apertou os lábios trémulos. Era impossível que o homem soubesse o que pretendia. Engoliu em seco e tentou recuperar o fôlego. Desviou o olhar para onde a aeromoça entregava algumas pílulas para o passageiro lá adiante e, então, voltou a olhar para a asa. O homem estava voltando para o motor, uma vez mais, enfiando a mão em seu interior.

Wilson apertou a pistola. Começou a erguê-la.

De repente, baixou-a. A janela era muito grossa. A bala poderia ser desviada e matar um dos passageiros. Ele estremeceu e ficou olhando o homenzinho. O motor falhou novamente e Wilson viu uma erupção de faíscas iluminarem as feições animalescas do homem. Encheu-se de coragem.

Só havia uma solução.

Olhou para a maçaneta da porta de emergência. Havia uma tampa transparente sobre ela. Wilson puxou-a e ela caiu. Olhou para fora. O homem ainda estava lá, agachado e sondando o motor com a mão. Wilson, trêmulo, respirou fundo. Colocou a mão esquerda na maçaneta da porta e testou-a. Não se movia para baixo. O movimento correto era para cima.

De repente, Wilson largou-a e colocou a arma sobre o colo. Não há tempo para discussão, disse a si mesmo. Com as mãos trêmulas, afivelou o cinto em suas coxas.

Quando a porta fosse aberta, haveria uma tremenda despressurização e o ar seria sugado para fora. Para a segurança do avião, ele não deveria ser arrastado. Agora.

Wilson pegou a pistola novamente, com o coração disparado. Teria de ser rápido, preciso. Se errasse, o homem poderia saltar para a outra asa ou, pior ainda, para a cauda, onde, inatingível, poderia romper os fios, destruir os flapes, desequilibrar totalmente o avião. Não, essa era a única maneira. Tinha de atirar baixo e tentar atingir o homem no peito ou na barriga.

Wilson encheu seus pulmões de ar.

Agora, pensou. Agora.

A aeromoça veio correndo pelo corredor, quando Wilson começou a erguer a maçaneta. Por um instante, congelada em seus passos, não conseguiu falar. Uma expressão de horror e estupefação distorcia suas feições e ela levantou uma mão, como que implorando. Então, de repente, sua voz estridente fez-se ouvir acima do ruído dos motores.

— Sr. Wilson, não!

— Volte! — gritou Wilson e girou a maçaneta para cima.

A porta simplesmente desapareceu. Num segundo, estava ao seu lado, sob o toque de sua mão. No outro, com um barulho sibilante, tinha desaparecido.

No mesmo instante, Wilson se sentiu envolvido por uma poderosa sucção que tentava separá-lo de seu assento. Sua cabeça e ombros ficaram para fora da cabine e, de repente, ele respirava o ar tênue e frio. Por um momento, com os tímpanos quase estourando por causa do rugido dos motores, os olhos cegos pelos ventos árticos, ele esqueceu o homem. Pareceu-lhe ouvir um grito ao longe, em meio ao turbilhão que o cercava.

Então, Wilson viu o homem.

Estava atravessando a asa, a forma retorcida inclinada para a frente, as mãos que mais pareciam garras estendidas com avidez. Wilson ergueu o braço e disparou. A explosão foi como um estalo em meio ao violento bramido do ar. O homem cambaleou, atacou e Wilson sentiu a cabeça doer.

Atirou de novo, à queima-roupa, viu o homem vacilar para trás e, então, de repente, desaparecer sem mais solidez do que um boneco de papel varrido por um vendaval.

Wilson sentiu uma dormência apoderar-se de seu cérebro.

Sentiu que lhe arrancavam a pistola dos dedos.

Então, tudo se perdeu na escuridão invernal.

Ele se mexeu e resmungou. Um calor corria por suas veias, seus membros pareciam de chumbo. No escuro, podia ouvir um som cadenciado, um delicado redemoinho de vozes.

Estava deitado de costas em algo que se movimentava e trepidava. Um vento frio soprava sobre o seu rosto. Ele sentiu a inclinação da superfície abaixo dele.

Suspirou. O avião havia pousado e ele estava sendo levado em uma maca. Sua cabeça estava machucada e, provavelmente, recebera uma injeção para se acalmar.

— Que maneira mais idiota de tentar se suicidar, nunca ouvi falar em algo assim — disse alguém em algum lugar.

Wilson achou engraçado. Quem falou aquilo estava errado, claro.

Como logo seria constatado, quando o motor fosse analisado e examinassem o ferimento em sua cabeça com mais atenção. Então, concluiriam que ele salvara a todos.

Wilson dormiu sem sonhos.


"O Incrível Homem que Encolheu: e Outras Histórias" - Richard Matheson - Osasco, SP - Novo Século Editora, 2010.

O Fantasma de Washington Irving


Será que o autor de uma das mais famosas histórias de fantasmas da literatura americana voltaria do mundo dos mortos para pregar uma peça em alguém? Washington Irving, autor de The Legend of Sleepy Hollow, era um homem engenhoso, gostava de se divertir, às vezes, à custa dos outros.

Pouco depois da morte de Irving, um dos velhos amigos do autor, o dr. J. G. Cogswell, trabalhava em sua biblioteca quando viu um homem retirar um livro da estante e desaparecer. Cogswell teve certeza de que o homem era Washington Irving - até ver uma outra figura fantasmagórica, a imagem de um segundo amigo já falecido, devolver um livro à estante.

E isso não foi tudo. O sobrinho de Irving, Pierre, segundo consta, teria visto o fantasma de seu tio na casa do falecido em Tarrytown, Nova York. Ali, Pierre e duas filhas disseram ter visto nitidamente o famoso autor caminhando pela sala de estar e entrar na biblioteca, onde ele costumava executar seu trabalho.

Quando vivo, Irving costumava declarar que não acreditava em fantasmas. O cavaleiro sem cabeça de sua obra, afinal de contas, era, na verdade, um simples mortal vestido de forma a assustar um rival. É provável que seu sobrinho tivesse a mesma opinião - até que o próprio Irving provou que os dois estavam errados.


Fonte: Livro «O Livro dos Fenômenos Estranhos» de Charles Berlitz
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