sábado, 23 de abril de 2016

Apenas com Hora Marcada


As 11h14 da manhã, o Sr. Pangborn entrou na barbearia. Wiley ergueu os olhos do Racing Form.

— Bom dia — disse ele, consultando seu relógio de pulso e sorrindo. — O senhor é bem pontual.

O Sr. Pangborn não retribuiu o sorriso. Tirou o paletó, cansado, e pendurou-o no cabide. Atravessou o chão recém-varrido e afundou-se na poltrona do meio.

Wiley deixou de lado o Racing Form e se levantou. Espreguiçou-se e bocejou.

— O senhor não me parece muito bem, Sr. Pangborn — disse ele.

— Eu não estou muito bem — retrucou.

— Sinto muito — disse Wiley.

Ele elevou a cadeira e travou-a.

— O de sempre? — perguntou.

O Sr. Pangborn assentiu.

— Tudo bem, vamos lá — disse Wiley, que puxou um avental limpo da prateleira e o sacudiu. — O que conta de novo? — perguntou.

O Sr. Pangborn gesticulou.

— Não muito.

— Anda um tanto desanimado, não é? — perguntou Wiley, amarrando o avental em torno do pescoço do cliente.

— Essa é a palavra — disse o Sr. Pangborn. — O que você anda fazendo?

— Nada que valha a pena — Wiley respondeu. Prendeu o avental com um alfinete: — Dirigi até Las Vegas, na semana passada — fez um som triste. — Perdi muita grana.

— Que pena — disse Pangborn.

— Oh, tudo bem — Wiley sorriu. — O que vem fácil, vai fácil.

Então, pegou a máquina elétrica de cortar e a ligou na tomada.

— Maria! — ele chamou.

Do aposento dos fundos, ela perguntou o que era.

— O Sr. Pangborn está aqui.

— Já vou — disse ela.

Wiley começou a trabalhar na nuca do Sr. Pangborn, que fechou os olhos.

— Isso — Wiley disse a ele. — Calma.

O Sr. Pangborn mexeu-se na cadeira, desconfortável.

— O senhor realmente não parece muito bem — disse Wiley.

O Sr. Pangborn suspirou novamente.

— Eu não sei — disse ele. — Simplesmente não sei.

— Qual é o problema? — Wiley perguntou.

— A perna — disse o Sr. Pangborn. — As costas. Meu braço direito melhora e piora. Meu estômago.

— Meu Jesus! — disse Wiley, preocupado. — O senhor foi ver o seu médico?

— Ele não sabe o que é — respondeu o Sr. Pangborn com desdém. Já não perco o meu tempo consultando-o. Tudo o que faz é enviar-me para os especialistas.

Wiley estalou a língua, em sinal de lamento.

— Isso é péssimo, Sr. Pangborn.

Sr. Pangborn suspirou.

— O Dr. Rand é o único que sempre ajuda — disse ele.

— Oh, sim? — Wiley pareceu encantado. — Ei, fico contente em ouvir isso — disse ele. — Não tinha certeza se deveria indicá-lo ou não, já que não é diplomado nem nada. Porém, meu irmão põe a mão no fogo por ele, diz que faz maravilhas.

— E faz — disse o Sr. Pangborn. — Se não fosse por ele...

— Olá, Sr. Pangborn — disse Maria.

O Sr. Pangborn olhou para o lado e esboçou um sorriso.

— Maria — disse ele.

— Como está hoje? — perguntou ela.

— Sobrevivendo — disse ele.

Maria instalou sua mesa de manicure e uma cadeira ao lado da cadeira de barbeiro. Ao se sentar, seu busto projetou-se contra o suéter justo.

— O senhor parece cansado — disse ela.

O Sr. Pangborn concordou.

— E estou — respondeu. — Não durmo muito bem.

— Que pena — solidarizou-se ela.

Ela começou a trabalhar nas unhas dele.

— Bem, fico contente por esse Rand estar surtindo efeito — disse Wiley. — Qualquer dia desses, eu mesmo vou experimentá-lo.

— Ele é bom — disse o Sr. Pangborn. — O único que me deu alívio.

— Que bom — disse Wiley.

Fez-se silêncio por alguns instantes, enquanto Wiley cortava o cabelo do Sr. Pangborn e Maria fazia suas unhas. Então, o Sr. Pangborn perguntou:

— As coisas estão meio paradas hoje?

— Não — respondeu Wiley. — Agora só trabalho com hora marcada ele sorriu. — E a única maneira.

Quando o Sr. Pangborn foi embora, Maria levou os restos de cabelo e aparas de unha para a sala dos fundos. Destrancando o armário, pegou a boneca rotulada PANGBORN. Wiley terminou de discar um número no telefone e ficou olhando, enquanto ela substituía o cabelo e as unhas da boneca pelo material mais recente.

— Rand? — disse ele quando atenderam do outro lado da linha. — É Wiley. Pangborn acabou de sair. Quando ele vai vê-lo novamente? — ficou escutando. — Está certo — disse ele —, dê-lhe alguma coisa para as costas e nós vamos retirar o alfinete por uma ou duas semanas, ok?

Novamente, ficou escutando.

— E, Rand — disse ele —, o cheque atrasou de novo este mês. Veja lá, hein?

Desligou e foi até Maria. Enquanto ela trabalhava, ele deslizou as mãos por baixo de seu suéter e apertou-lhe os seios. Maria comprimiu-se contra ele com um suspiro, fazendo uma careta de prazer.

— Para que horário está marcado o próximo cliente? — perguntou ela.

Wiley sorriu.

— Ninguém antes de 13h30 — respondeu ele.

Foi só o tempo de trancar a porta, pendurar o cartaz HORÁRIO DE ALMOÇO e voltar para o aposento dos fundos. Maria estava esperando por ele na cama. Wiley tirou a roupa, correndo o olhar pelo corpo marrom que se contorcia sobre o colchão.

— Sua putinha haitiana — murmurou, sorrindo.

As 13h20, o Sr. Walters entrou na loja. Ele tirou o paletó, pendurou-o no cabide e sentouse na cadeira do meio. Wiley deixou de lado o Racing Form e se levantou. Estalou a língua, demonstrando pesar:

— Ei, o senhor não me parece muito bem, Sr. Walters — disse ele.

— Eu não estou muito bem — o Sr. Walters respondeu.


"O Incrível Homem que Encolheu: e Outras Histórias" - Richard Matheson - Osasco, SP - Novo Século Editora, 2010.
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