segunda-feira, 20 de junho de 2016

Fata Morgana e as Lendas

Fata Morgana vista no Alaska, em 20/02/2008. Foto de David Cartier.

A "Fata Morgana" é uma miragem ocasionada por uma inversão térmica. Objetos que se encontrem no horizonte como, por exemplo, ilhas, falésias, barcos ou icebergs, adquirem uma aparência alargada e elevada, similar aos "castelos de contos de fadas".

O nome "fata", do italiano, é uma referência à feiticeira (Fada Morgana) meia-irmã do Rei Artur que, segundo a lenda, era uma fada que conseguia mudar de aparência, como nesse fenômeno de ilusão ótica. A Fata Morgana mais célebre é a que se produz no estreito de Messina, entre a Calábria e a Sicília.

No século II, Pomponius Mela, em "De situ orbis", informou que os gauleses acreditavam na existência, na ilha de Sein, de nove gênios femininos que tinham o poder de excitar e acalmar as tempestades, curar as doenças, bem como possuíam a capacidade de assumir as mais diversas formas e aspectos.

No início do século XII, Geoffroy de Monmouth, em "Vita Merlini", descreveu a ilha da Felicidade, onde viviam as nove irmãs. A mais jovem, Morgue, conhecia todas as qualidades medicinais das ervas, dominava a arte de alterar as figuras e tinha o poder de se elevar no ar como um pássaro. Foi ela quem recolheu o rei Artur após a sua derrota, curou-o de suas feridas retendo-o até o dia em que retornou à Bretanha para libertá-la.

Em meados do século XII, a lenda de Morgana, como as outras lendas bretanhas, sofreu ao se difundir, grandes alterações. Assim, em lugar de reter o rei Artur por amor, como ocorria com frequência na mitologia céltica, na qual quase sempre as fadas se apaixonavam por um mortal, Morgana se transformou na irmã do rei, ao mesmo tempo em que suas qualidades se confundiam com as das fadas maléficas da mitologia germânica e nórdica, que presidiam o nascimento das crianças, votando-as para o bem ou para o mal.

Como irmã de Artur e inimiga de sua cunhada, a rainha Guinevere, a quem teria ofendido ao divulgar o segredo dos seus amores com um mortal, foi que Morgana passou para as narrativas dos contadores italianos.

Um sinal de popularidade dessa lenda, na Itália, encontra-se na locução fata Morgana (fada Morgana), que passou a designar a miragem que mostra imagens invertidas de objetos invisíveis. Quando os raios luminosos se refratam e refletem em camadas atmosféricas curvas e irregulares, a miragem produz imagens deformadas em todas as direções, fragmentadas e repetidas, às vezes mais próximas, às vezes mais afastadas uma das outras.

Essa forma de miragem é, provavelmente, a origem de numerosas lendas referentes a monstros marinhos de dimensões e formas bizarras, bem como dos navios fantasmas que às vezes parecem surgir nos horizontes dos mares. Alguns supostos aparecimentos milagrosos de santos têm sido atribuídos à ocorrência desse tipo de miragem, capaz de sugerir formas alongadas muito análogas às de um homem ou mulher vestidos com uma longa túnica. Isso ocorreu no Rio Grande do Sul.

O Holandês Voador poderia ser uma Fata Morgana. A miragem que ocorre devido a uma inversão térmica,
onde em tempo calmo, o ar quente repousa logo acima do denso e frio ar próximo à superfície do oceano.

Dois exemplos notáveis dessas miragens atribuídas à fada Morgana são as imagens fantásticas que atraíam o povo ás margens do mar em Nápoles e em Régio, na costa da Sicília. Um outro exemplo célebre, observado há séculos no estreito de Messina, é a miragem na qual as casas do lado oposto parecem transformadas em castelos, palácios, torres etc., numa das mais feéricas imagens já vistas.

Para que esses efeitos ocorram é necessário que, por múltiplas razões, a temperatura do ar e, portanto, sua densidade venham a se alterar rápida e aleatoriamente, produzindo variações não menos rápidas e não menos aleatórias na direção dos raios luminosos. Nessas condições, as imagens parecem flutuar, com intensidade variável e em direções às vezes opostas. Tais flutuações podem ocorrer a alguns metros ou a algumas dezenas de metros de altura.

Em geral, elas se originam em consequência ora de uma inversão da temperatura em altitude, ora por aquecimento ou resfriamento do ar ao nível do solo. Assim, um solo ou uma camada de água quentes criam um aquecimento gradual dirigido para baixo, o que vai encurvar os raios luminosos para baixo.

Num meio assim alterado ou perturbado, os diversos raios oriundos de um mesmo ponto irão seguir trajetórias diferentes antes de atingir o olho do observador. Isso produzirá imagens múltiplas de um mesmo objeto, quer direta, quer invertida, segundo as variações que a temperatura do ar apresentar em relação à altitude.


Wikipédia / Ronaldo Rogério de Freitas Mourão (Superinteressante)

Alexandria no Fundo do Mar

A arqueologia marinha no porto da cidade de Alexandria

Não se sabia direito nem se ele tinha existido de verdade. Mas depois de dezesseis séculos o Farol de Alexandria, uma das sete maravilhas da Antiguidade, foi enfim reencontrado. Está a oito metros de profundidade, no fundo do Mediterrâneo, no porto de Alexandria, Egito.

Cientistas localizaram outros 2 000 objetos, submersos na baía - esfinges, estátuas, obeliscos e colunas, gregas e egípcias. É o maior sítio arqueológico submarino já descoberto.

Diz a lenda que Homero, o autor de A Odisseia, apareceu em um sonho para Alexandre, o Grande (356 a. C - 323 a. C), o jovem general da Macedônia (região do norte da Grécia) que conquistou o Oriente, até a Índia, com apenas 25 anos. O poeta inspirou o rei a fundar uma cidade que eternizasse sua glória.

Em 331 a. C, Alexandre invadiu o Egito, proclamou-se faraó e fundou Alexandria. A cidade nasceu com grandes avenidas, teatros, museus, hipódromo e sistema de água potável, tudo construído pelo arquiteto Dinocrates de Rodes.

Com a morte de Alexandre, oito anos depois, seus generais dividiram o império. O Egito coube ao general Ptolomeu, que proclamou-se faraó e fundou uma dinastia que reinou 300 anos. Sob os ptolomeus Alexandria virou uma encruzilhada cosmopolita do Mediterrâneo. Obeliscos, pirâmides e estátuas de todo o Egito foram transplantados para a cidade. O acervo de literatura grega da Biblioteca de Alexandria tornou-a a mais famosa da Antiguidade.

Em 285 a.C., Ptolomeu II começou a construção do farol, na ilha de Faros, ligada ao continente por uma ponte-dique. Era um edifício monumental, o mais alto do seu tempo, com 100 metros de altura, o que corresponde a um prédio de 30 andares. Sua silhueta foi reproduzida em moedas, louças, mosaicos e em estátuas de terracota, da Líbia até o Afeganistão.

Segundo o geógrafo grego Estrabão, (58 a. C.- 25 d. C) o farol era todo de mármore - o que os blocos de granito encontrados no fundo do mar desmentem. Tinha três partes: a base era uma torre quadrada, em cima havia uma torre octogonal e, no alto dessa, uma redonda - onde ficava o fogo sinalizador. No topo, uma estátua, que podia ser de Zeus, o pai dos deuses, ou de Poseidon, deus do mar.

O farol tinha elevador hidráulico, para levar o combustível até o alto. Sua luz, provavelmente ampliada por algum tipo de refletor, era vista a 100 quilômetros. Na primeira torre, havia uma grande inscrição, em grego, bem pouco modesta: "Sóstrate de Cnide dedicou este monumento ao Deus Salvador". Sostrate foi o arquiteto do edifício.


A última rainha ptolomaica foi Cleópatra, que amou o imperador Júlio César e o general romano Marco Antônio em Alexandria. Mas em 30 a.C. o imperador Otávio invadiu a cidade, Cleópatra suicidou-se e Alexandria virou possessão romana. Na era cristã, a cidade foi um importante centro de debates religiosos. No ano 365, uma sucessão de terremotos derrubou o andar superior do farol, elevou o nível do mar e desmoronou muitos palácios. Uma guerra civil destruiu a Biblioteca no final do século III. Em 641, os árabes reconquistaram o Egito e fundaram uma nova capital, Fusat, hoje Cairo.

Em 1217, partes do farol ainda estavam de pé. O historiador árabe Ibn Jubayr dizia que "no interior o espetáculo é extraordinário; escadas e corredores são tão grandes, as peças são tão largas, que quem percorre as galerias frequentemente se perde". Em 1325, quando visitou Alexandria, o viajante Ibn Battuta lamentou os terremotos: "Uma fachada desmoronou. O farol está em tão mal estado que foi impossível chegar até a sua porta". No século XIV, outro tremor finalmente derrubou o que restava.

Em 1365, o governador de Alexandria entupiu a entrada da baía com blocos de pedra para impedir ataques navais do rei de Chipre. Para defender o porto do mar agitado também foram construídos quebra-mares, possivelmente sobre vestígios da Antiguidade. Mas em 1477, a construção do forte Kait Bey pelos turcos otomanos, bem em cima das ruínas do farol, paradoxalmente preservou a costa em frente, convertendo-a em área militar. Durante cinco séculos, os vestígios do passado submerso ficaram protegidos.

A primeira descoberta importante foi feita só em 1961, pelo egípcio Kemal Abu el-Saadat, pioneiro da arqueologia submarina. Ele achou, no fundo, perto do forte, a cabeça monumental de uma estátua da deusa Ísis, hoje no Museu Marítimo de Alexandria. Entre 1968 e 1975, uma missão da Unesco fez um relatório pormenorizado sobre o sítio submerso.

Em 1992, o cientista submarino Franck Goddio passou um pente fino na baía: com a ajuda de um magnetômetro imerso n'água, vasculhou o fundo do mar medindo a ressonância magnética nuclear do relevo marinho, detectando mudanças de frequência produzidas por objetos extraordinários - como grandes blocos de pedra.

O resultado foi espetacular: foram localizados 2 mil objetos em uma área de 2,25 hectares, a 8 metros de profundidade, ao pé do forte; e, do outro lado da baía, a 6 metros de profundidade, cobertas por 3 metros de lodo, surgiram as ruínas da cidade antiga. Alexandria ressuscitou.

Em 1994, o Serviço de Antiguidades Egípcias convocou o Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS) da França e o Instituto Francês de Arqueologia Oriental para ajudarem nas pesquisas. O arqueólogo Jean-Yves Empereur, diretor de Pesquisa do CNRS, fundou o Centro de Estudos Alexandrinos na cidade. Em 1995, com o apoio da companhia de petróleo Elf-Aquitaine e da produtora cinematográfica Gedeon, foi iniciado o trabalho de escavação e identificação de cada pedra com 30 mergulhadores, egípcios e franceses. As primeiras peças recuperadas foram transportadas para terra firme em outubro passado.

No fundo da baía de Alexandria a confusão é grande. Há blocos esculpidos, paralelepípedos com inscrições, pedaços de colunas, obeliscos, estátuas colossais e doze esfinges. Mas são de épocas diferentes. O que pertence ao farol? O que provêm dos quebra-mares construídos durante séculos?

Pode se distinguir três ordens no caos. A primeira é constituída por um alinhamento de grandes blocos de pedra, de 10 metros de comprimento, que parecem quebrados, como se tivessem despencado de uma grande altura, e dispostos perpendicularmente à costa, quase que enfileirados. São, sem dúvida, os restos do farol desabado. A segunda ordem é formada por "colinas", montes de pedras a 4 metros de profundidade, que parecem ter vindo de um mesmo monumento desmoronado. E, finalmente, há uma terceira ordem, inteiramente confusa, de pedaços dispostos segundo uma lógica aleatória.


Os estilos também variam. Há colunas da época helenística e pedaços de obeliscos egípcios usados e reutilizados com séculos de intervalo. É o que prova uma cruz cristã gravada sobre um capitel (parte superior de uma pilastra) em forma de papiro. Muitas esculturas foram trazidas de Heliópolis, a cidade consagrada ao deus Sol, a 230 quilômetros de Alexandria.

Há peças com hieróglifos da época do faraó Sesóstris III (1880 a.C.), de Ramsés II (1280 a.C.), de Seti I, pai de Ramsés, e de Pisamético II (590 a.C). Segundo Jean-Yves Empereur, "pode-se imaginar que muitas pertenceram a monumentos erguidos antes dos terremotos que sacudiram a região, depois do século IV. Mas também há outros elementos que podem vir de escombros jogados no mar, talvez intencionalmente, para reforçar os quebra-mares". Mesmo com toda essa incerteza, quando o material for classificado, a história de Alexandria será outra.


Fonte: www.publicadosbrasil.blogspot.com
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