segunda-feira, 20 de junho de 2016

Alexandria no Fundo do Mar

A arqueologia marinha no porto da cidade de Alexandria

Não se sabia direito nem se ele tinha existido de verdade. Mas depois de dezesseis séculos o Farol de Alexandria, uma das sete maravilhas da Antiguidade, foi enfim reencontrado. Está a oito metros de profundidade, no fundo do Mediterrâneo, no porto de Alexandria, Egito.

Cientistas localizaram outros 2 000 objetos, submersos na baía - esfinges, estátuas, obeliscos e colunas, gregas e egípcias. É o maior sítio arqueológico submarino já descoberto.

Diz a lenda que Homero, o autor de A Odisseia, apareceu em um sonho para Alexandre, o Grande (356 a. C - 323 a. C), o jovem general da Macedônia (região do norte da Grécia) que conquistou o Oriente, até a Índia, com apenas 25 anos. O poeta inspirou o rei a fundar uma cidade que eternizasse sua glória.

Em 331 a. C, Alexandre invadiu o Egito, proclamou-se faraó e fundou Alexandria. A cidade nasceu com grandes avenidas, teatros, museus, hipódromo e sistema de água potável, tudo construído pelo arquiteto Dinocrates de Rodes.

Com a morte de Alexandre, oito anos depois, seus generais dividiram o império. O Egito coube ao general Ptolomeu, que proclamou-se faraó e fundou uma dinastia que reinou 300 anos. Sob os ptolomeus Alexandria virou uma encruzilhada cosmopolita do Mediterrâneo. Obeliscos, pirâmides e estátuas de todo o Egito foram transplantados para a cidade. O acervo de literatura grega da Biblioteca de Alexandria tornou-a a mais famosa da Antiguidade.

Em 285 a.C., Ptolomeu II começou a construção do farol, na ilha de Faros, ligada ao continente por uma ponte-dique. Era um edifício monumental, o mais alto do seu tempo, com 100 metros de altura, o que corresponde a um prédio de 30 andares. Sua silhueta foi reproduzida em moedas, louças, mosaicos e em estátuas de terracota, da Líbia até o Afeganistão.

Segundo o geógrafo grego Estrabão, (58 a. C.- 25 d. C) o farol era todo de mármore - o que os blocos de granito encontrados no fundo do mar desmentem. Tinha três partes: a base era uma torre quadrada, em cima havia uma torre octogonal e, no alto dessa, uma redonda - onde ficava o fogo sinalizador. No topo, uma estátua, que podia ser de Zeus, o pai dos deuses, ou de Poseidon, deus do mar.

O farol tinha elevador hidráulico, para levar o combustível até o alto. Sua luz, provavelmente ampliada por algum tipo de refletor, era vista a 100 quilômetros. Na primeira torre, havia uma grande inscrição, em grego, bem pouco modesta: "Sóstrate de Cnide dedicou este monumento ao Deus Salvador". Sostrate foi o arquiteto do edifício.


A última rainha ptolomaica foi Cleópatra, que amou o imperador Júlio César e o general romano Marco Antônio em Alexandria. Mas em 30 a.C. o imperador Otávio invadiu a cidade, Cleópatra suicidou-se e Alexandria virou possessão romana. Na era cristã, a cidade foi um importante centro de debates religiosos. No ano 365, uma sucessão de terremotos derrubou o andar superior do farol, elevou o nível do mar e desmoronou muitos palácios. Uma guerra civil destruiu a Biblioteca no final do século III. Em 641, os árabes reconquistaram o Egito e fundaram uma nova capital, Fusat, hoje Cairo.

Em 1217, partes do farol ainda estavam de pé. O historiador árabe Ibn Jubayr dizia que "no interior o espetáculo é extraordinário; escadas e corredores são tão grandes, as peças são tão largas, que quem percorre as galerias frequentemente se perde". Em 1325, quando visitou Alexandria, o viajante Ibn Battuta lamentou os terremotos: "Uma fachada desmoronou. O farol está em tão mal estado que foi impossível chegar até a sua porta". No século XIV, outro tremor finalmente derrubou o que restava.

Em 1365, o governador de Alexandria entupiu a entrada da baía com blocos de pedra para impedir ataques navais do rei de Chipre. Para defender o porto do mar agitado também foram construídos quebra-mares, possivelmente sobre vestígios da Antiguidade. Mas em 1477, a construção do forte Kait Bey pelos turcos otomanos, bem em cima das ruínas do farol, paradoxalmente preservou a costa em frente, convertendo-a em área militar. Durante cinco séculos, os vestígios do passado submerso ficaram protegidos.

A primeira descoberta importante foi feita só em 1961, pelo egípcio Kemal Abu el-Saadat, pioneiro da arqueologia submarina. Ele achou, no fundo, perto do forte, a cabeça monumental de uma estátua da deusa Ísis, hoje no Museu Marítimo de Alexandria. Entre 1968 e 1975, uma missão da Unesco fez um relatório pormenorizado sobre o sítio submerso.

Em 1992, o cientista submarino Franck Goddio passou um pente fino na baía: com a ajuda de um magnetômetro imerso n'água, vasculhou o fundo do mar medindo a ressonância magnética nuclear do relevo marinho, detectando mudanças de frequência produzidas por objetos extraordinários - como grandes blocos de pedra.

O resultado foi espetacular: foram localizados 2 mil objetos em uma área de 2,25 hectares, a 8 metros de profundidade, ao pé do forte; e, do outro lado da baía, a 6 metros de profundidade, cobertas por 3 metros de lodo, surgiram as ruínas da cidade antiga. Alexandria ressuscitou.

Em 1994, o Serviço de Antiguidades Egípcias convocou o Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS) da França e o Instituto Francês de Arqueologia Oriental para ajudarem nas pesquisas. O arqueólogo Jean-Yves Empereur, diretor de Pesquisa do CNRS, fundou o Centro de Estudos Alexandrinos na cidade. Em 1995, com o apoio da companhia de petróleo Elf-Aquitaine e da produtora cinematográfica Gedeon, foi iniciado o trabalho de escavação e identificação de cada pedra com 30 mergulhadores, egípcios e franceses. As primeiras peças recuperadas foram transportadas para terra firme em outubro passado.

No fundo da baía de Alexandria a confusão é grande. Há blocos esculpidos, paralelepípedos com inscrições, pedaços de colunas, obeliscos, estátuas colossais e doze esfinges. Mas são de épocas diferentes. O que pertence ao farol? O que provêm dos quebra-mares construídos durante séculos?

Pode se distinguir três ordens no caos. A primeira é constituída por um alinhamento de grandes blocos de pedra, de 10 metros de comprimento, que parecem quebrados, como se tivessem despencado de uma grande altura, e dispostos perpendicularmente à costa, quase que enfileirados. São, sem dúvida, os restos do farol desabado. A segunda ordem é formada por "colinas", montes de pedras a 4 metros de profundidade, que parecem ter vindo de um mesmo monumento desmoronado. E, finalmente, há uma terceira ordem, inteiramente confusa, de pedaços dispostos segundo uma lógica aleatória.


Os estilos também variam. Há colunas da época helenística e pedaços de obeliscos egípcios usados e reutilizados com séculos de intervalo. É o que prova uma cruz cristã gravada sobre um capitel (parte superior de uma pilastra) em forma de papiro. Muitas esculturas foram trazidas de Heliópolis, a cidade consagrada ao deus Sol, a 230 quilômetros de Alexandria.

Há peças com hieróglifos da época do faraó Sesóstris III (1880 a.C.), de Ramsés II (1280 a.C.), de Seti I, pai de Ramsés, e de Pisamético II (590 a.C). Segundo Jean-Yves Empereur, "pode-se imaginar que muitas pertenceram a monumentos erguidos antes dos terremotos que sacudiram a região, depois do século IV. Mas também há outros elementos que podem vir de escombros jogados no mar, talvez intencionalmente, para reforçar os quebra-mares". Mesmo com toda essa incerteza, quando o material for classificado, a história de Alexandria será outra.


Fonte: www.publicadosbrasil.blogspot.com