quarta-feira, 6 de abril de 2016

Os Estranhos Habitantes de Soledad


A família sempre reputou minha tia-avó como louca. Mas família é família, e se faz necessário encontrar um bode-expiatório, determinar quem é a ovelha negra. Assim, tem-se farto material para fofocas quando há reuniões familiares, e o comportamento misantropo de Joaquina só favorecia esta situação.

Talvez ela fosse realmente louca, ou apenas excêntrica. A verdade é que ela — por opção? — nunca havia se casado; uma aberração, se comparada às irmãs, que não apenas se casaram, como botaram no mundo dúzias de filhos, redundando em uma centena de netos.

Joaquina lutou pelos direitos da mulher na juventude, organizou grupos de teatro, redigiu manifestos contra o Estado Novo, foi presa, apanhou, opôs-se à Guerra Mundial e à exploração da classe trabalhadora, foi exilada no Chile e, quando retornou, finalmente obteve reconhecimento em sua carreira literária com obras de cunho feminista, se se procurar, é possível encontrar o nome dela na listagem dos Mais Vendidos da VEJA , durante o mês de setembro, em meados dos anos 80.

Com o dinheiro dos livros, Joaquina comprou um terreno no interior e construiu uma mansão. Convidou-me várias vezes para visitá-la, tinha-me em grande consideração (porém, a recíproca não era verdadeira), mas sempre encontrei escusas para me eximir da obrigação.

Mensalmente, ela me escrevia uma carta, perguntando-me como eu estava e repreendendo-me pela demora em lhe corresponder. Como um fardo, eu me forçava a mandar um cartão de felicitações nos Natais e nos aniversários dela; contudo, nos últimos cinco anos, negligenciei até esta obrigação, mas as cartas de Joaquina nunca falharam. Depois de um tempo, nem abri-las mais eu abria. Entretanto, após o falecimento dela, aos noventa e três anos, eu me arrependi da indiferença que dispensei a ela e reli todas as cartas, que reunidas, comporiam facilmente um livro.

A minha surpresa foi quando o testamenteiro de Joaquina bateu à minha porta, informando-me de que minha tia-avó havia me legado a mansão no interior, com todos os móveis nela contidos. Minha esposa ficou particularmente entusiasmada, mas este presente de grego me preocupou. Provavelmente, a habitação deveria estar em estado lastimável, já que Joaquina vivia uma vida de reclusão eremítica, não deveria conter nada de valor, e ainda teríamos de arcar com os custos legais para transferência da propriedade para meu nome, pagar imposto, sem sabermos se recuperaríamos este dinheiro com a venda da herdade.

Perfizemos os trâmites legais e eu já estava pronto para anunciar a venda do casarão, mas minha esposa insistiu para que eu fosse até lá e visse o que ela continha, crente de haver algo de nosso interesse. Aquiesci, afinal de contas, eu estava de férias e ainda faltavam dez dias para retornar ao trabalho, mas Elisa não poderia ir comigo, era época de provas finais no colégio e ela estava atolada com o fechamento dos livros-de- chamada.

A viagem era longa, Joaquina desejava realmente se esconder. Perdi-me várias vezes nas estradas de terra e, quando parava para pedir informação a algum carroceiro, a resposta era que deveria seguir adiante.

Finalmente, encontrei a tabuleta, despencando da cerca, com o nome da fazenda: Soledad.

Melhor nome não havia, pois, o casebre mais próximo ficava distante umas duas horas.

O casarão tinha dois andares e um ático, depois descobriria que havia também um porão. Como já esperava, o lugar estava entulhado de quinquilharias, com espaço restrito até para um magro como eu me movimentar. Mexi em algumas pilhas de coisas, abri armários, gavetas, nada que prestasse.

Tentei ligar para Elisa e dizer que já estava retornando, mas este fim-de-mundo era tão fim-de-mundo que nem celular funcionava. É óbvio que eu não poderia contar que houvesse telefone no casarão, muito menos conexão de banda-larga.

As nuvens carregadas me inquietaram, se desabasse a chover, o meu Gol não conseguiria ir muito longe com aquelas estradas em péssima condição. Cumprindo o meu temor, quando havia dirigido por menos de um quilômetro, começou um temporal e a estrada se tornou intransitável.

Um capiau num trator me ajudou a desatolar o carro e retornei o mais rápido que pude ao casarão desabitado, sob um aguaceiro sem precedentes e raios caindo por todos os lados.

Outra bela surpresa a casa me reservava, com a morte da moradora, a energia havia sido cortada, então, estava eu, nunca casa abandonada, anoitecendo, e sem poder sair dali. Aproveitei o resquício de claridade do dia para procurar por velas e fósforos, e consegui encontrá-los na cozinha. Depois, puxei uma cadeira até o alpendre e fiquei observando a chuva até escurecer.

Não havia muito a ser feito e meu suprimento de velas era escasso, apenas cinco; com este pequeno lume percorri a habitação à procura dum quarto. No segundo andar, descobri o que deveria ter sido o aposento de Joaquina. Eu não acreditava em almas penadas, mas ver a cama desfeita, na penumbra, e a porta do guarda-roupas aberta me perturbou. Imaginei até que a cama desarrumada estivesse assim porque Joaquina havia morrido dormindo, e o armário aberto porque tiveram de escolher uma roupa para sepultá-la.

Recusei-me a dormir ali. Vaguei pelos outros cômodos, mas aquela era a única cama na casa, portanto, eu seria obrigado a voltar para lá e me conformar.

O meu plano era ir e voltar para cidade no mesmo dia, por isto, eu só estava com a roupa do corpo, e este foi o meu pijama. Jantei o resto dum sanduíche que comprei na estrada, escovei os dentes com o dedo mesmo, assoprei a vela e tentei dormir.

Mas a chuva pesada na janela e o vento a gemer lá fora me despertavam a todo o momento. Numa das vezes que acordei, tive a impressão de haver visto uma silhueta, mãos apoiadas no batente da janela, braços esquálidos, cabelos brancos, olhando para fora. Eu torcia para fosse mera impressão.

Posteriormente, por volta de uma da manhã, escutei barulhos vindo dos andares inferiores. Era como se arrastassem móveis, abrissem e fechassem janelas, passos, risos, tosses.

Eu tremia sob o lençol, tal qual quando eu era criança e minha prima me contou que havia visto o pai morto, e, à noite, eu não conseguia parar de pensar nisto, fantasiando a figura do meu tio, crânio esfacelado por causa do acidente de carro, fitando-me como quem procura ajuda.

Oprimido por minha agonia e medo, juro que ouvi um sussurro:

— Que bom que você veio, Pedro. Esperei tanto tempo por isto...

E uma mão gelada se encostou na minha, com ternura, mas que me deixou em pânico. Saltei da cama, mas pouco podia ver na escuridão. Estava com medo de me aproximar do criado-mudo para pegar a caixa de fósforos; medo de que, quando eu estendesse minha mão, aquela outra mão gélida me tocasse novamente.

— Quem está aí? — resmunguei, mas implorava para que não viesse resposta — Quem está aí?

Lembrei-me do celular. Apertei um botão e ele se iluminou, luzinha fraca, mas o suficiente para me certificar de que não havia ninguém na cama.

Apanhei os fósforos e acendi a vela.

Os ruídos vindo debaixo cessaram.

Não sou machão; não sou daquelas pessoas que, quando têm um problema na frente, matam no peito e seguem adiante. Na verdade, aquela situação inusitada estava me sufocando, quase me controlava para não cagar nas calças, é sério!

Mas eu já havia percebido que, naquela noite, eu não teria sossego. Talvez fossem ratos andando pela casa, o que não diminuía o asco, mas me consolava do medo. Desci vagarosamente a escada e cheguei ao primeiro andar. Nada diferente atraiu minha atenção. Desci também para o térreo, também nada. Pensei que poderia dormir no carro, desconfortável, mas não teria ratos por perto.

Esta havia sido a melhor ideia da noite, quando estava quase na porta, ouvi ruídos no porão. Eu precisava confirmar o que era; se fosse embora pensando ter sido assombrado por fantasmas, que aquela mão me tocando fosse de Joaquina, eu nunca mais teria uma noite tranquila na vida. Era necessário eu provar para mim mesmo que eram ratos, ou alguma outra explicação racional.

Abri a portinhola que dava para o porão, de lá, vinham risos, gemidos, sussurros. Certamente, não eram ratos. Minhas pernas fraquejavam, as mãos trêmulas, garganta seca e olhos ardendo, com vontade de chorar. Degrau a degrau, desci, aos poucos iluminando a câmara. Os risos, murmúrios e gemidos se silenciaram, quem quer que estivesse ali embaixo havia me ouvido descendo. Quando a vela iluminou parte do porão, vi minha tia-avó esfaqueando um homem. Não era fisicamente ela, era quase uma névoa. Ao lado dela, pessoas observavam, numa espécie de ritual de tortura, ou execução, ou sadomasoquismo. Perdi as forças e deixei a vela cair e se apagar.

Completamente no escuro, meu coração quase me afogando de tão forte que batia, os risos recomeçaram com maior força, os gritos se tornaram ensurdecedores, a voz de Joaquina berrando:

— Meu querido Pedro finalmente veio! Também quer participar!

É óbvio que eu não queria participar, independente do que fosse que aquelas aberrações estivessem fazendo, tropeçando, ofegante, engatinhando quase, subi a escada do porão e cheguei à cozinha. Então, esbarrando em tudo que havia no caminho, alcancei a porta de entrada, atravessei a varanda e, mergulhando no temporal, corri para o automóvel.

Enquanto dava ignição, percebi que, na janela do quarto no qual eu estava, no segundo andar, uma mulher apareceu, apoiou os braços no batente e, após alguns segundos, acenou para mim.

Dei a ré no carro, atingindo uma cerca e, depois, em desespero, dirigi pela estrada enlameada, afundando o Gol no barro, derrapando nas curvas, fugindo do inexplicável.

Perdi o controle da direção após uma meia hora, voando para fora da estrada, e desaparecendo no matagal. Chorava, calça mijada, em completo descontrole emocional.

Quando amanheceu, a chuva havia dado uma trégua. Caminhei pela estrada uns bons quilômetros, peguei carona num pau-de-arara e, já na beira da rodovia, liguei para minha esposa, quase implorando por ajuda.

Todo mundo riu da minha experiência. Na família, descrentes, zombaram de mim, dizendo que, se alguém um dia virasse assombração, só poderia ser a Joaquina mesmo.

Resolvi vender o terreno, mas demolir a casa primeiro. Não desejava que outra pessoa passasse pelo mesmo desespero que eu. Porém, um funcionário da empresa de demolição me ligou enraivecido, xingando-me por ter pregado um trote neles, pois eles haviam se metido no meio do nada e não havia casa alguma para ser demolida.

De cagão, minha reputação passou a ser de mentiroso e de lunático.

Mas, um dia, eu crio coragem e volto a Soledad, para confirmar a existência daquela casa maldita, habitada por seres malditos.

Nova York
26/07/2007


Fonte: Fantasmas, Vampiros, Demônios e histórias de outros Monstros — Henry Alfred Bugalho — Oficina Editora, 2013.
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