segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O Velho da Estrada

Era sábado, dia de mercado, e os caboclos vinham da Pedreira para a venda semanal. Bento montara com os balaios de verduras que as últimas chuvas haviam tornado viçosas. Não tinha pressa. O sol nascera há pouco; o mercado só abria às sete. O jumento feio e magro, trotava pela picada a fora numa cadência monótona que embalava os pensamentos do Bento. Se o fiscal não aparecesse, tudo estaria bem. O lucro seria grande, porque tinha fregueses certos, que não regateavam. Poderia comprar alguma coisa para os meninos e para a mulher, dia após dia, no ribeirão, consumindo-se na lavagem de roupa. Poderia fazer tanta coisa! ...

A neblina ia desaparecendo lentamente, embora não se avistasse ainda a encosta do morro. O jumento prosseguia preguiçoso: tóc, tóc ...

Passaram pelo açude ladeado de amoreiras silvestres.

— Bom dia, dono.

Bento fez parar o animal. Um velho maltrapilho e sórdido descansava sob as árvores.

— Bom dia. Qué garupa?

O mendigo agradeceu.

— Já não posso cavalgá, seu moço. Apenas um favorzinho...

E deu-lhe dinheiro para que comprasse no mercado alguns metros de fazenda (bem resistente), agulha e linha. Bento estranhou a encomenda, e surpreendeu-se ainda mais diante da nota de cem mil réis, novinha, que o ancião lhe confiou. Mas prometeu fazer a compra. Com três lambadas no jumento, partiu, e agora em passo ligeiro, pois o sol já se erguera de todo.

O fiscal não aparecera. Os fregueses como sempre, deram preferência às suas verduras, e o lucro compensou a longa e estafante caminhada. Estava feliz.

Depois do almoço e da sesta tirada na estalagem do Juvêncio juntou os balaios de taquara, prendeu-os à sela do anima1 e preparou-se para a volta. Só então lembrou-se do velho que encontrara sob as amoreiras. Fazenda bem resistente, linha, agulha. Talvez, fosse um pobre diabo sem juízo. Apalpou a nota. Tão novinha! Tão provocante! Cem mil réis dariam para muita coisa! ... Por um momento, a indecisão dominou-o. Mas o velho confiara-lhe o dinheiro; era preciso cumprir o prometido. Ficaria com a consciência tranquila. Comprou a fazenda, o carretel de linha e a agulha.

Rumou para casa, com seu jeitão de caboclo pachorrento, sem pressa montado no jumento magro.

A noite descera, uma clara noite de lua, A estrada alongava-se a sua frente e as sombras das árvores, projetadas no chão, sugeriam os mais absurdos fantasmas. As maravilhas, brancas e escarlates, desprendiam perfume suave. Ah! O luar na mata! O casario da cidade perdia-se ao longe, na base do morro, insignificante no pisca-pisca de suas luzes. Bento voltava contente. Trazia dinheiro. Cachaça, fumo, água de cheiro para as meninas. Esqueceriam, por um pouco, as misérias e as desgraças. A pobreza. A fome. As doenças. A sordidez do barraco. Maria, talvez sorrisse e entrasse a fazer planos. Era sempre assim. Nas noites de luar, sentados no terreiro, ouvindo as violas, imaginavam uma vida diferente. Comprariam fazenda, plantariam eucaliptos, teriam criação... Deixariam a Pedreira, o ribeirão, a vida miserável de beiradeiro.

O luar descia molemente sobre as árvores. Na mata, estalavam galhos secos. Cobras ou espíritos malignos. Persignou-se. Para afugentar o medo, iniciou uma cantiga:

“Meu pai é bom caçadô,
Vai pr’o mato, vai caçá ... “

Velha cantiga que passava de boca em boca. Afasta o coisa ruim, diziam. São inúmeros os mistérios da mata. Bento, como todo caboclo, sabia-os verídicos e temia as almas penadas, o bode preto, o saci...

— De volta, seu moço?

Estava à beira do açude, perto das amoreiras. O velho emergira das sombras, envolto no manto de farrapos, as mãos descamadas erguidas, um sorriso indefinível nos lábios.

— Eu trouxe as coisas, pai. Tá aqui no balaio.

Aflito, nervoso, o mendigo agarrou as encomendas. Desdobrou a peça de pano.

— É bem forte! — disse, falando consigo.

Depois, em tom irônico, perguntou:

— Tu crê em alma penada, moço?

Bento estremeceu. Não soube o que responder. O jumento corcoveava, relinchando. Quis rezar um Padre Nosso. As palavras misturavam-se no cérebro. Os olhos do ancião tornaram-se vermelhos como brasa. E ele ria, um riso malvado e cruel, agitando os andrajos encardidos e o corpo esquelético.

— Nhô Quim! — exclamou o caboclo, apavorado.

Num momento, recordou a história que se espalhara na Pedreira. A alma de nhô Quim, assassinado há muitos anos junto ao açude, só descansaria quando matasse alguém que, por sua livre vontade fosse comprar a própria mortalha. Somente agora, ele atinava com o motivo da encomenda: linha, agulha, fazenda bem resistente. Tentou fugir. Uma estranha força emanava-se dos olhos do espectro, um diabólico fascínio que encantava e endoidecia. Ele foi chegando. Estendeu os braços. Crisparam-se lhe as mãos. E as unhas aduncas entraram na carne do caboclo.

No dia seguinte, encontraram à beira do açude, sob as amoreiras, um corpo enrolado em tiras de pano, fortemente costuradas. Nhô Quim conseguira finalmente o repouso eterno. Pobre Bento!


Conto de José de Oliveira Nunes 

Fonte: Revista "O Malho" — Janeiro de 1951
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