domingo, 5 de maio de 2013

Diabruras do diabo


O diabo — que está presente em toda parte — não poderia estar ausente do folclore capixaba. Dei-me ao trabalho, certa vez, de indagar de minhas alunas do Colégio do Carmo, o que sabiam a respeito do diabo. As informações vieram, interessantes e copiosas. Vejam só:

1. Quando se vê uma pessoa muito preguiçosa, é costume se dizer: Coitado, aquele ali o diabo cruzou os braços.

2. Quando, ao se levantar, se dá uma topada sem querer, se diz: O diabo já deu sinal.

3. Quando a porta bate forte, após a nossa saída ou entrada em casa, foi o diabo que a fechou.

4. Quando se vê (na praia, por exemplo) a marca de um pé muito grande, diz-se: O diabo deixou o rastro dele aqui.

5. Quando está ventando muito forte é que o diabo está zangado.

6. Quando se está escrevendo bobagens ou coisa ruim — o diabo é que está soprando.

7. Quando desaparece uma coisa qualquer, foi o diabo que levou para a comadre dele. O jeito é esperar, porque quando não quiser mais, ele a devolve.

8. Quando um homem dança com uma mulher, o diabo fica no meio dos dois.

9. A mulher com o diabo no corpo não é capaz de sossegar.

10. Casar com mulher “sapeca” é ser o seu segundo marido, pois o diabo já foi o primeiro.

11. O diabo tem sete saias e um pé só.

12. Quando a gente se despede de uma pessoa de quem não gosta, fala assim (alto no começo e baixinho no final): “Vai com Deus e Nossa Senhora… o diabo atrás tocando viola.

13. O diabo está dançando nos rodamoinhos de vento. E se neste entrarmos, ele nos carrega.

14. Nas sextas-feiras, ao nos levantarmos, se virmos uma pessoa preta, o diabo vai nos atentar o dia inteiro.

15. Pôr um chifre de boi estrepado na ponta de um pau, no terreiro, espanta o capeta.

16. Queimar chifre de boi e casca de coco no canto da casa, à noite, espanta o capeta.

17. O gominho pequeno da laranja-cravo ou mexerica, se se puser sobre uma pedreira, às duas horas da tarde, no sol quente, o capeta aparece na pedra, dançando.

18. Esse mesmo gominho das laranjas (ou limas) não se deve chupar porque é do diabo.

19. Quando tem só duas pessoas em um cantinho conversando, o terceiro, com eles é o diabo.

20. Sonhar com espelho é traição do diabo.

21. Sonhar com formiga é tentação de pessoas que têm parte com o diabo.

22. É costume dizer-se: com mulher de bigode, nem o diabo pode. Ou mais alongadamente: Quem pode, pode, / Quem não pode se sacode / Mulher de bigode / Nem o diabo pode

23. Quando a gente se machuca, diz três vezes: Diabo, diabo, diabo! para a dor passar.

24. Quanto o bacurau canta de noite: “amanhã eu vou, amanhã eu vou”, dizem que é o diabo que está chamando.

25. Por fim, esta velha adivinha: D – I – D – I / Minha cabeça / A quem há de entender / Que vem a ser? (Resposta: O diabo)

B – O – B – O

Esta meninas do Carmo sabem de coisas…

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Neves, Guilherme Santos. “Diabruras do diabo”. A Gazeta. Vitória, 20 de setembro de 1960
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