domingo, 5 de maio de 2013

Prosas demoníacas

No capítulo das “estórias”, o filão mais rico é o dos contos de exemplo. Eles nasceram da alma do homem. Têm raízes dolorosas que ninguém nem nada no mundo conseguirá extirpar. Vêm do velho sonho humano de justiça e equidade, de que também nasceram o céu e o inferno.

Dizemos que o filão mais rico é dos contos de exemplo, sem contar, naturalmente as fábulas, que têm exemplo consciente, propositado, e cuja presunção fundamental é ensinar.

Assim, se examinarmos rapidamente o folclore universal, veremos exemplos de castigos da ambição — no conto do lenhador que derrubou o machado no rio, e na história dos dois corcundas. Castigo da leviandade e da inconsequência, na série de recontos, — “o afilhado do diabo”. Castigo da inveja, no ciclo da madrasta má, como a que existe no conto da gata borralheira. Castigo da desobediência, — na história do capuzinho vermelho. E ainda são castigados a cólera, a preguiça, e o excesso de boa fé, este tão pecado como os maiores que clamam aos céus vingança. A avareza e a maldade são punidas, na maior parte dos contos do ciclo do Malasartes.

Os contos de exemplo do ciclo demoníaco, refletem entre outras coisas, o defeito bem nacional, brasileiríssimo, da gabolice. E o conto se volta para o sestro nosso de falar muito sem pensar no que dizemos e também contra o hábito de irmos fazendo coisas, sem medirmos as conseqüências. Para ilustrar:

Contos de exemplo

Era uma moça muito rebelde e um dia resolveu fugir de casa. “O diabo está me tentando para fugir e eu vou fazer isso mesmo”. Pulou a janela, à noite, com uma trouxinha embaixo do braço. Mal ia virando a primeira esquina, apareceu-lhe o diabo, muito feio, muito rabudo, com os olhos vermelhos e uma capa preta.

— Onde vai moça?

A moça até perdeu a fala, com o susto. E o diabo, sério, sacudindo o dedo, na direção dela:

— Olhe aqui moça! Vá para a casa e fique lá, senão eu levo você mas é para o inferno. E largue de andar dizendo que foi o diabo que a tentou para fugir, que o diabo não tenta quem está quieto.

Disse e sumiu. A moça correu para dentro, desmanchou a trouxinha, e nunca mais quis saber de fugir.

(1939-1943. Vale do Paraíba).

No oeste de São Paulo, contou um soldado a meu irmão, havia um fazendeiro a quem disseram que as cobras tinham pernas. Mas para vê-las, era preciso passar limão na barriga desse réptil. E avisaram também que não prestava fazer isso porque chamava desgraça. Vai o fazendeiro não se incomodou e para tirar a coisa a limpo, passou limão na barriga da primeira cobra que encontrou de jeito.

Resultado: veio a seca, morreu o gado, perdeu-se a colheita, os filhos morreram pesteados, ficou endividado e acabou perdendo a fazenda “por via” de uma hipoteca.

Dizem que é o diabo quem faz aparecer as pernas malditas.

(quartel do 38º GC, em São Paulo, 1945)

Certo fazendeiro rico, que vivia sozinho, queria um companheiro para almoçar, nem que fosse o diabo. Quando bateu meio-dia e a mesa estava posta, um homem bateu à porta. Era o diabo. Pois bem. Almoçaram, conversaram, o diabo foi muito delicado e, à saída, retribuiu o convite, dizendo ao homem que o esperava qualquer dia no inferno, para almoçarem juntos. Marcaram a data e no dia aprazado o homem se pôs a caminho. Foi muito bem recebido no inferno. Depois do almoço, foi visitar as dependências da casa. Em um quarto todo em chamas, reconheceu vários de seus parentes. Investigando direito o caso, acabou por descobrir que a sua família inteira estava lá. Ficou impressionado e, quando voltou à terra, fez tantas boas obras, que se salvou.

(Fazenda do Romarim, arredores de Cachoeira. Informante idosa, analfabeta, doméstica. 1945)

Há uma variante, conhecida em Cachoeira, assim:

Havia um fazendeiro para os lados de Silveira (estado de São Paulo) que todos os dias dava pratos de comida aos andantes e se orgulhava de fazer caridade. Certo dia não apareceu nenhum pedinte e ele sentado no alpendre da fazenda, falou:
— Tenho que dar um prato de comida, nem que seja ao diabo.

Nessa hora chegou na fazenda lá fora na porteira, um homem bem vestido que disse:

— Escutei o seu convite e vim. Ponha comida aí que eu quero comer.

O fazendeiro ficou muito assustado e mandou a mulher arranjar o almoço. O estranho foi comendo tudo o que aparecia, e sempre pedia mais. Acabou o que havia pronto, e a mulher serviu tudo que tinha em reserva. Fritou todos os ovos, toda a lingüiça, todo o chouriço, trouxe quanto pão havia, e tirou todos os queijos da queijeira, mesmo assim o homem não ficou satisfeito. Então ela e o marido começaram a rezar e o homem sumiu. Mas, antes de sumir, falou:

— Isso é para você aprender. Nunca mais me chame, para me dar comida.

(Sinhana, uma roceira de idade indefinível, antiga moradora da fazenda do Mineiro, arredores de Cachoeira, contou. 1945)

Um homem era muito bom domador. Certo dia falou que era capaz de domar até no inferno. No mesmo dia apareceu um homem e convidou-o para domar potros bravos em sua fazenda. ele foi e montou em muitos burros. Por último veio o mais de todos e corcoveava tanto que ia até as nuvens. Ouvia-se um grande clamor de vozes: “Mate o patrão, Mate o capataz!” Por fim o burro parou e sumiu, deixando o domador a pé. Daí a pouco, apareceu o diabo em pessoa, com uma perna quebrada e falou ao domador:

— Você que me quebrou a perna, puxe daqui, que não quero ver nem o seu rastro mais.

Das mesma informante, mais esta:

Um violeiro disse que queria ir a uma festa, nem que fosse no inferno. Mal acabou de dizer, apareceu-lhe um homem com uma viola e convidou-o para ir a uma festa numa fazenda. Andaram muito e por fim chegaram a uma casa grande, com um enorme quintal todo plantado de árvores. Em baixo de cada árvore estava uma alma, fervendo dentro de um caldeirão. E num desses caldeirões estava gente da família do tocador. Na hora do baile, o violeiro viu uma sua antiga namorada que havia morrido há tempos. A moça avisou:

— Vá embora antes do cantar do galo.

O rapaz escapuliu em tempo mas ficou marcado. Desde esse dia, ficou surdo, mudo e louco.

Havia uma moça que queria se casar com um homem que tivesse dentes de ouro. Um dia, quando saía da igreja, deparou um moço todo risonho, na porta, e todos os dentes dele eram de ouro. “Esse me serve para marido”, pensou ela radiante, olhando para ele. Tornaram-se namorados. No dia do casório, logo após a cerimônia, ele quis levá-la para a casa dele. “Onde é?” “Longe daqui”. Ela calçou as chinelas bordadas e foram. Iam montados num cavalo só, e léguas e léguas foram percorridas, mas nunca chegavam. “Onde é a sua casa?” “Não é casa é um castelo.” “Ainda falta muito?” “Ainda”. E quando atravessaram um campo, no fim de um caminho, ela reparou que o marido tinha rabo e chifres. Ficou assustada e puxou o terço para rezar. O moço deu uma gargalhada, e disse: “Você não queria dente de ouro?” E foi se embora a galope deixando a moça na estrada.

(Sul de Minas Gerais, 1929. Informante: mulher velha, analfabeta)

Eram dois irmãos tropeiros. Um dia chegaram a um rancho no sertão de Minas Gerais. Num canto do rancho o mais velho achou uma pacuera e disse:

— Vou assar e comer este bofe.

— Deus no livre disso! — falou o outro se benzendo — Comer essas porcarias achadas no chão, sem saber quem jogou…

— Está fresca. Quem jogou não importa. É sinal que estava sobrando. Não vai me dar dor de barriga.

Assou calmamente a pacuera no espeto e comeu-a, rindo do irmão que juntou só carne-seca com farinha.

Foram dormir e já era bem tarde, quando acordaram sobressaltado, ao som de uma voz que urrava:

Pacuera-cuera!
Pacuera-cuera!
Pacuera-cuera!

Era o coisa-ruim que tinha dormido no rancho e esquecido a pacuera. O coisa foi bem direito no lugar onde o moço a encontrara. O irmão mais novo correu e subiu a uma árvore. O mais velho fez pé firme. O diabo, não achando o que procurava, perguntou ao moço:

— Onde está minha pacuera?

— Assei e comi.

O diabo ficou indignado.

— Você assou a minha pacuera? Pois agora eu vou assar e comer a sua, porque sem pacuera é que eu não posso ficar.

E foi uma infernal correria, pelo meio das árvores, com uma arrepiada testemunha tremendo e rezando, encarapitada numa delas, até que o diabo alcançou o moço e pôs-se a jogá-lo para cima, e a apará-lo, tornando a jogá-lo tão alto que passava as nuvens e sumia no ar, exatamente como se fosse uma peteca, insensível e leve. Deu meia-noite e a folia acabou. O rapaz que estava na árvore esperou o dia raiar, desceu, correu para o lugar onde permanecera o corpo inanimado do outro e viu que já nada poderia fazer por ele. Me contaram que o morto não tinha mais pacuera.

Este reconto é de uma fazenda do ramal bragantino. Informante, mulher, velha, analfabeta, italiana, colona. A história é brasileira.

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Guimarães, Ruth. “Prosas demoníacas”. Correio Paulistano. São Paulo, 13 de agosto de 1950.
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