sexta-feira, 26 de abril de 2013

Fiscal de quintais


Ouve-se no silêncio da madrugada um passo certeiro, meio surdo e que é por outro acompanhado, mas agora nítido, forte e como se quisesse furar o chão. De momento pára, nota-se um intervalo muito pequeno e, da maneira como parou instantâneo, prossegue o caminho de quem anda cem visita de fiscalização. Depois toma distância para se perder dos ouvidos. Sabe-se que não voltará mais naquela noite. Tem muito que fazer por outros sítios e não pode perder tempo com demoras longas. Noutras ocasiões o passo surdo é pressentido em forma e rapidez e numa como afobação de quem muito trabalha incansavelmente.

Esse fantasma é Upiara. Homem incansável e avançado em idade, que veio ninguém sabe de onde: uns dizem que do interior paraibano, batido pelas necessidades da seca; outros que é cria do litoral, foi escravo e fez a guerra do Paraguai. A verdade é que existe para um fim determinado. Anda curvo — e de cabeça inteiramente branca. É cego. Não usa calçado e apresenta os calcanhares rachados de tanta caminhada por cima de paus e pedras. O seu passo mostra-se manso, enquanto o outro que o acompanha, a querer entrar na terra, provém de um cacete que carrega na mão direita. Cacete de cego, que presta serviço inestimável e que, por is:o mesmo, nunca pode ser abandonado. Upiara também conduz bornal imenso no tamanho e onde põe tudo que consegue arrecadar na sua incessante peregrinação.

Ele visita certo quintal. Visitou ontem à noite e no dia seguinte se pode fazer uma revista que faltará, alguma coisa. Propriamente o fantasma não furta. O que se acha abandonado lhe pertence de pleno direito. Um trapo, restos de comida, um objeto qualquer, tudo serve para ser metido no seu bornal de couro de boi — e que dizem haver conseguido quando servia como soldado nas amplas campinas gaúchas. Mas não passa tudo isso de meras suposições. Ninguém ainda viu Upiara com os olhos que a terra terá de comer. São conclusões que o povo tira por sua livre e espontânea vontade. Entretanto, diga-se, são considerações aceitáveis, ponderadas e justas. A longa existência do espectro oferce motivos para um estudo acertado. E daí toda gente admitir a possibilidade ou mesmo a convicção de que ele conta com todos os detalhes já apontados.

Não mexe com ninguém; muito pacato, muito sério e gosta de agir pela madrugada, favorecido pela escuridão. Chegou tempo de lua, anda sumido. Antigamente vinha das bandas de Cruz das Almas. Agora, porém, com as investidas do progresso material, mudou de rumo e tudo indica que procede das matas de Jaguaribe.

Há fundas razões para essa suposição. É que existe naquelas matas um bando enorme de guaribas que levam o dia silenciosas e sem dar de si o menor sinal de vida. São ágeis bichos pretos com barbas e bigodes que fazem uma zoada danada. São diferentes macacos que adivinham chuva. O guaribão da mata inicia o concerto quando a cidade começa a ouvir o ruído das ondas do Cabo Branco. E já observaram a coincidência, pois logo após se ouve a passada suave e, ao mesmo tempo, surda, acompanhada por outra estridente. Upiara anda no mundo, soltou-se. Começou o itinerário pelos quintais à procura de coisas abandonadas para meter no seu saco fabuloso. E volta às primeiras claridades cinzentas da manhã. Vive na companhia das guaribas — e tem no meio delas uma importância de chefe.

As crianças evidentemente não apreciam a hipótese de perdidas horas de insônia. Amedrontam-se com a presença do avejão na sua passagem pelo quintal. Os passos ficam-lhes fixados na memória por forma tamanha que obrigam os adultos a acompanhá-los em tácita confirmação. Estão ouvindo toda a marcha de Upiara. Depois ficam mais sossegadas porque têm a certeza de que ele não volta jamais naquela noite. Ficará para a outra seguinte. Assim conseguem retomar o fio do sono perturbado. E. logo que acordam para se levantar, vão ver o que ele fez, se carregou alguma coisa.

Os meninos costumam fazer as suas experiências próprias. Deixam objetos abandonados em baixo das árvores e vão procurá-los na manhã seguinte. Às vezes desaparecem por interferência de terceiros. A culpa, todavia, é atirada ao preto cego, que traz um cacete na mão direita. E se permanecem no mesmo lugar, houve esquecimento, coitado, ele nem viu, passou tão avexado.

Bicho danado
da cabeça
de escapole …

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Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos populares brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.101-102