terça-feira, 12 de abril de 2016

A Coleção de Bonecas


Julieta desfez o embrulho, primeiro o laço de cetim, depois a caixa colorida e o enchimento de papel de seda. A boneca de porcelana jazia ali em silêncio, olhos azuis escancarados, quase perdida entre os panos do vestido.

O pai sorria satisfeito.

— Esta boneca é uma raridade. Item de colecionador.

E Julieta se enquadrava justamente nesta categoria: nas paredes de seu quarto, centenas de bonecas semelhantes vigiavam seu sono, uma mais linda do que a outra, de todas as partes do mundo, desde as de pouco valor até as mais incomuns.

— Obrigada, papai! Ela o abraçou, para enfim desaparecer escada acima, boneca debaixo do braço, mal se contendo para admirá-la.

Jogou-se na cama e acomodou o presente ao seu lado. Deslizou o dedo pela face fria e reluzente, cuidou cada detalhe da roupinha dela, e realizou o último dos rituais — batizá-la.

— Princesa Elizabeth, Julieta decidiu. A boneca tinha ares aristocráticos, nada melhor do que receber também um título nobiliárquico.

Princesa Elizabeth ganhou um lugar de destaque nas prateleiras, bem aos pés da cama de Julieta — o que significou degredo para Carmen, a bonequinha espanhola, realocada num dos cantos vazios —, para que a dona pudesse observá-la ao se deitar.

Mas o olhar de Princesa Elizabeth era incômodo, Julieta logo descobriu. Parecia que ele o acompanhava pelo quarto, enquanto ela se trocava após o banho, ou ao estudar para a prova na escola naquela semana. De sobre sua prateleira, a boneca vigiava, altiva, em silêncio, imóvel.

— Pare! Julieta resmungou para Princesa Elizabeth — Pare de me olhar!

No entanto, a boneca não obedeceu, cada vez menos discreta, nem ao menos escondendo o ódio que brotava através dos dois vidros azuis.

Julieta até chegou a pensar em se desembaraçar dela, jogando-a no baú, para longe da vista, mas teve medo. Não tinha certeza o que exatamente temia, mas suas mãos não conseguiriam tocá-la de novo, uma vez que ela havia sido posta em seu lugar de destaque. Como uma soberana, Princesa Elizabeth havia sido coroada, não seria uma mera súdita quem a deporia.

A menina se deitou com a luz acesa.

No entanto, desta fugidia proteção — a claridade do quarto — Julieta seria privada quando seu pai passou diante do cômodo.

— Quer que eu apague a luz, filha?

Envergonhada do próprio medo, receando um riso sardônico do pai, Julieta concordou.

E assim que a luz se esvaiu, dois lumes pequenos, redondos, azulados, brotaram da prateleira, fitando Julieta. Tomada de calafrios, ela buscou alguma explicação, talvez um feixe de luz vindo da rua através da cortina, para o reflexo nos olhos de Princesa Elizabeth. Não encontrou explanação para isto, tampouco para as piscadelas a cada alguns segundos — a boneca estava viva!

Julieta também passou a ouvir uma respiração lenta e profunda, que se contrapunha a seu arfar em pânico.

— Quem está aí? Julieta sussurrou. Quem está aí?

Sempre sem resposta alguma, sempre senão o silêncio.

E esta agonia se repetiria pelos dias e semanas seguintes: o mesmo olhar frio a cuidá-la, a mesma respiração lenta e impiedosa, a sensação de não estar só, de que algo maligno e terrível a circundava.

No entanto, numa destas noites de desespero, Julieta ouviu um outro som. Alguém cantarolava uma melodia. Na escuridão, violada apenas pelos olhinhos brilhantes de Princesa Elizabeth, Julieta sentiu a presença de alguém.

A garota enfiou a mão sob o travesseiro e retirou uma pequena lanterna — com a qual iluminava sua cabana de lençóis quando queria se esconder. Acendeu-a e a apontou em direção à penteadeira, donde provinha a cantoria.

O feixe de luz revelou uma moça, de costas, penteando longos cabelos negros, mas, no reflexo do espelho nada havia.

— Quem é você? Julieta balbuciou.

A moça se voltou lentamente. Julieta pôde perceber então sua pele flácida e esverdeada, as olheiras negras, o olhar baço.

— Quem é você? A moça da penteadeira retrucou — O que você faz no meu quarto?

Ela perguntou, levantando-se.

— Este é o meu quarto! O meu quarto! Me deixe em paz... Julieta chorava, acuada, afastando-se da criatura que vinha em sua direção.

— Não. Veja, até minha boneca favorita está ali, e a moça apontou para Princesa Elizabeth. — Este é o meu quarto. E você vai embora agora!

***

— Que coisa mais horrível! As senhoras sussurravam no velório — Uma menina tão nova morrendo desta maneira estranha.

— Ouvi dizer que ela foi encontrada no canto do quarto, toda encolhida, olhar de desespero, boca escancarada. Ninguém soube explicar a causa da morte, outra dizia.

— Parece que o pai da pobrezinha leiloará a coleção de bonecas dela. Estima-se algo em torno de vinte mil dólares.

Curiosamente, quando o leilão veio a ser realizado, os lances mais altos foram para Princesa Elizabeth — todos queriam para si aquela preciosidade, atraídos pelo irresistível magnetismo que dela emanava. A jóia de qualquer coleção.

Nova York
15/08/2008


Fonte: Fantasmas, Vampiros, Demônios e histórias de outros Monstros — Henry Alfred Bugalho — Oficina Editora, 2013.
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