quarta-feira, 18 de maio de 2016

O Homem que Criava Fábulas

Foi no final da primavera que recebi uma carta da velha Richmond. Era uma amiga de minha avó, conhecia-me desde a infância e foi quem me nutriu o interesse por mitologia. Seu nome completo era impronunciável, uma mistura de poloneses e russos culminando com o sobrenome inglês do marido.

Para todos os efeitos, chamavam-na de Berta. Já era rica estando solteira, ao casar-se, ficou milionária. O marido fazia-lhe todas as vontades. Quando se aposentou, os dois entregaram-se a excentricidades que somente os ricos podem usufruir sem que sejam internados, e uma delas era colecionar animais exóticos nos grandes e bem cuidados jardins de sua casa de campo – lembro que foi lá que vi um pavão pela primeira vez. A cada aniversário, enviavam-me coletâneas de fábulas, resumos de odisseias gregas, bestiários variados. Com a morte de minha avó, perdi o contato com o casal de ingleses.

Mas, então, a carta. Quando, após tanto tempo sem contato, recebe-se uma correspondência, fica-se surpreso não apenas que o remetente ainda esteja vivo, mas que também se lembre de nós, e esse foi o meu caso. Na semana seguinte, faria dez anos da morte de minha avó, creio que a data tenha lhes despertado a lembrança. Berta e o marido convidavam-me para o fim de semana, para conhecer os novos animais que enfeitavam os jardins de sua casa, uma fazenda distante 580 quilômetros da capital. Ofereciam-me seu carro e motorista para a viagem de ida e volta. Qualquer coisa que evocasse a lembrança de minha avó me era agradável e eu não tinha motivos para recusar.

Ao chegar à fazenda, a curiosidade se tornou maior: um muro de cinco ou seis metros de altura, com grades de ferro pontiagudas no topo, cercava a área. O muro, por sua vez, era ladeado por enormes e frondosos eucaliptos, tornando impossível ver o que havia dentro da propriedade. O motorista explicou-me que era para afastar curiosos e sem-terra – a única coisa que detestavam mais do que argentinos.

Vendo o muro, pensei: o que teriam aprontado os Richmond dessa vez? Olhei para os jardins e os gramados, enquanto o carro percorria uma estradinha de terra até a casa da fazenda, mas não vi nada. Ao descer do carro, ela veio me cumprimentar. Estava gorda, o cabelo volumoso de laquê, joias pendendo dos punhos às dezenas, vestido pavonesco, uma diva de ópera. O marido, cujo primeiro nome nunca me foi revelado (sempre o tratavam pelo sobrenome) era franzino, magro, cabelos brancos, parecia quebrar quando o abraçavam forte.

Almoçamos. Passamos para a sobremesa, o café, os licores, e, quando achei que aqueles ingleses não parariam mais de comer, convidaram-me a uma caminhada para a digestão. Berta pegou-me pelo braço e disse que me mostraria os novos mimos que o marido tinha lhe dado no último aniversário. Começaremos pelo estábulo, você vai adorar, garantiu. Assim, lá fomos, e vi os animais. Chamavam-se Jorge e George. Vi suas testas. Não sabia se ficava maravilhado ou horrorizado, perguntei como uma coisa daquelas acontecera.

– Não aconteceu, nós os fizemos – explicou-me o velho Richmond, sorrindo deorgulho e satisfação. – Genética, menino. Pegamos o código genético de um narval e misturamos com o de um cavalo, inseminamos uma égua e...

Berta o interrompeu. Não estava interessada em ouvir novamente as tediosas explicações de seu marido, era tudo muito técnico, e os funcionários do laboratório que cuidassem dessas coisas. Virou-se para mim.

– Afinal, não nos interessa como isso é feito, e sim o resultado. Um narval e um cavalo, e temos estes dois belos animais aqui. São belos, não é mesmo?

Respondi que sim. Que mais poderia dizer? Nunca imaginei que veria um par de unicórnios na minha frente. Berta tomou-me pelo braço e seguimos o passeio. Um criado da casa trouxe-nos um carrinho desses que usam nos campos de golfe. O velho Richmond assumiu a direção. Os jardins eram belíssimos trabalhos de paisagismo, com sebes podadas na forma de animais e flores de todo tipo.

– Olhe bem para elas, meu querido – disse Berta, apontando-me a sebe.

Olhei outra vez. Moviam-se. O borametz, murmurei, empolgado. O cordeiro vegetal da Tartália! O velho Richmond começou a falar do cruzamento de animais e plantas, mas Berta o interrompeu novamente. Sem explicações, pediu, o que importa é a beleza dos resultados.

Chegamos à beira de um lago artificial, com um coreto de mármore em estilo neoclássico. Cisnes enormes nadavam no lago, mas, conforme chegamos mais perto, percebi que não eram cisnes, mas cavalos com asas de cisnes. Pégasos, dóceis como nunca vira. Perguntei se podiam voar, mas não, aquelas asas eram apenas um acréscimo estético, e mesmo os animais não pareciam saber bem como manejá-las. A todo momento, Berta me perguntava: não são lindos? Não são maravilhosos?

Por mais que estivesse deslumbrado, sentia-me cada vez mais constrangido frente àqueles animais. O simples fato de existirem me incomodava: não eram mamutes, dinossauros, dodôs ou qualquer outro animal extinto pelo destino; eram animais criados da imaginação do homem, não possuíam um lugar na ordem das coisas, não se encaixavam numa cadeia alimentar – e o borametz sequer poderia ser corretamente classificado. Se eram belos? Sim, claro. Horrorosamente belos.

Voltamos para a casa principal. Berta anunciou que estava cansada e se deitaria. Disse-me para ficar à vontade na propriedade. Após sair, foi o velho Richmond quem me tomou pelo braço e perguntou: quer ver um segredo? Estou guardando para o Natal. Concordei, voltamos ao carrinho de golfe e andamos quase dois quilômetros propriedade adentro até uma construção feia de concreto cinzento. Ali, havia homens armados e outros de jalecos brancos, fumando do lado de fora do prédio. Passamos pelos guardas, descemos do carro, ultrapassamos portas e corredores sombrios, descemos algumas escadas de concreto e estávamos numa espécie de fosso, com celas gradeadas e vazias. Exceto uma.

– Você vai gostar dela – disse-me o velho. – Mas não se aproxime muito da grade. Ela é inteligente e, desde que começou a falar, tem se mostrado astuta. Perdoe-nos pelo mau cheiro, mas deixamos de limpar a jaula desde que tivemos um... acidente.


Um fedor de carne estragada e sujeira encheu-me as narinas, cheiro que sentia sempre que visitava os grandes carnívoros do zoológico. Havia uma toca. Dentro da toca, um par de olhos amarelos e vibrantes nos fitava.

– Minha querida, eu trouxe visitas – disse o velho.

Surgiu um par de patas largas e peludas, enormes patas felinas. Em seguida, um par de seios volumosos e empinados, seguidos por um resto de corpo leonino, dotado de vistosas asas de águia. Tinha uma face humana feminina cuja beleza artificial provocava-me um estranhamento, misto de asco e atração. Seus lábios eram carnudos, o nariz era pequeno, uma perfeição científica.

– Ele é uma piada? – perguntou ela ao velho, mas olhando diretamente para mim. Sua voz pastosa e andrógina deu-me calafrios.

O velho olhou-me preocupado e explicou-me: logo que ela desenvolveu a habilidade da fala, comunicava-se como uma criança. Os tratadores acreditaram, então, que seria um bom passatempo deixá-la assistindo a velhos desenhos animados. Ela quis saber por que o gato ou o coiote sempre sofriam os piores destinos. Essa, explicaram, era a piada. Ela, então, manifestou o desejo de ter um gato como companhia, mas, aborrecida porque o animal não falava como ela, o devorou. Os tratadores riram, dizendo que ali estava outra boa piada.

– Não sou uma piada – respondi-lhe. – Mas posso conversar com você.

– Você pode me fazer rir?

Ergui os ombros. Talvez, se soubesse o que a fazia rir. Comida, ela me disse.

– Você ri quando come? − perguntei.

– Não, eu rio quando mato o que como.

Não consegui esconder meu asco daquele animal, e comentei que aquilo era uma coisa horrível de se dizer. Ela ficou perturbada, olhou para o velho Richmond como que em busca de uma resposta que não encontrou. Encarou-me, outra vez, com uma expressão intrigada.

Pedi para ir embora, era desconfortável ficar perto daquela coisa. O velho Richmond me acompanhou até a saída, pediu-me compreensão, disse que aquele animal era novo, recém começava a compreender o mundo à sua volta. Quando estivesse totalmente pronto, socializado, seria como um leão dotado de compreensão humana, uma perfeita companhia para o sítio dos Richmond.

Argumentei que um leão que compreende o próprio instinto e o verbaliza não necessariamente o abandona. Mas o velho me garantiu que, com ela, seria diferente. Ela seria especial. Como a filha que não tiveram.

Passei a noite na fazenda, uma noite horrível. Sonhei com Ela, sua face perfeita, seus seios empinados e suas patas de animal. Acordei incomodado com a ideia de estar próximo a uma criatura como aquela, quis ir embora imediatamente. Encontrei Berta na mesa do desjejum.

− Algo está errado − comentou ela, servindo-me de leite quente. − Não sente algo de estranho no ar? Até os animais estão agitados, tensos. Pobrezinhos. Não deve ser o tempo. Deve ter entrado algum animal de fora, um cão ou algo assim.

Senti um calafrio. A sensação de “algo errado” de Berta passou para mim. Um medo que vinha da minha infância, do sítio de meus avós, de quando algum animal conhecido aparecia morto por outro de fora, o incômodo da presença externa no ambiente familiar.

A resposta veio através de um empregado: havim encontrado o corpo do velho Richmond. Berta ficou em silêncio por um longo tempo, mas, com a fleuma que adquiriu do marido, perguntou com muita calma o que ocorrera. O empregado explicou que o velho fora morto por um animal novo, que nem havia saído fora do laboratório. Não quiseram mostrar a ela as gravações das câmeras de segurança.

Mas eu vi. Não havia som, não ficou claro o motivo que fez o velho entrar na jaula de madrugada. Na imagem chuviscada e cinzenta, pude ver apenas que chegou próximo o bastante da criatura para recebesse uma patada. O velho curvou-se, levando as mãos ao estômago. Quando as tirou, vi que segurava os próprios intestinos. Caiu no chão ainda vivo, enquanto Ela lhe devorava as vísceras. Terminada a refeição, a criatura ergueu o rosto e o balançou de um modo estranho. Aproximei os olhos do monitor: o animal gargalhava, e o fez por vários minutos antes de sair da jaula.

O resto da manhã foi terrível. Berta não imaginava por que o marido pudesse pensar que algo assim a agradaria, ela nunca quis nada que tivesse feições humanas. Mas compreendeu que eu quisesse ir embora o mais rápido possível. Lamentou que minha visita ocorresse num momento tão trágico, mas convidou-me para regressar assim que tudo voltasse à normalidade. Agradeci o convite prometendo retornar. Nunca mais pus os pés naquela fazenda outra vez.

Logo na saída, vi os funcionários agitados perto do portão. Enfim, haviam encontrado o animal. Aparentemente, tentara voar para ultrapassar o muro da propriedade, mas, ao chegar ao topo, caiu sobre as lanças. Morreu empalada.

por Samir Machado de Machado


Ficção de Polpa - Volume 1 - Organizado por Samir Machado de Machado - 2012.
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