sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A canela do defunto

Muitos dos contos ou das lendas populares que a tradição oral vai passando adiante, modificados ou alterados na sua forma primitiva, na sua tessitura íntima, mas conservado o sentido original, vieram de outras plagas longínquas, de além-mar. São contos ou histórias da península na maior parte. 

Portugal foi a tal respeito o nosso maior celeiro. Mandou-nos inúmeros deles que aqui se perpetuaram e se incorporaram definitivamente ao nosso folclore. O conto, de que a seguir reproduzo uma variante, está nesse caso. Proveio da boa cepa portuguesa.

Teófilo Braga apresenta em seus Contos tradicionais do povo português, uma versão do Algarve sob o título de A mulher curiosa, e Barros Ferreira inclui também, nas suas Lendas da Península, uma outra versão lusitana, tida como real, dando-lhe o nome de O fêmur do defunto. Lindolfo Gomes, consagrado folclorista e autor de várias obras consideradas de subido valor, na sua rica coletânea de contos populares consigna uma variante brasileira colhida em São João del Rei, Minas Gerais.

Leio, porém, em Contos tradicionais do Brasil, de Luís da Câmara Cascudo, que a "tradição é comum a Portugal e Espanha, onde os episódios são incontáveis". O insigne mestre professor Aurélio Espinosa possui duas versões recolhidas em terras de Espanha - La calle de la pierna (em Córdoba) e La averiguarana (em Ciudad Real).

Nas versões peninsulares, como na versão brasileira, a narração se prende a uma procissão das almas-do-outro-mundo ou das almas penadas do Purgatório, noite alta, percorrendo invisivelmente as ruas tranqüilas e desertas. Afirma a tradição que a criatura que a presencia morre nesse mesmo ano, não dura seis meses. Há também a suposição de que quem a vê fica pateta, amalucado, ou só pode avistá-la "quem tem uma palavra a menos no latim do batismo". O conto refere sempre a uma moça ou a uma velha curiosa, bisbilhotando o que se passa na rua, à meia-noite, e recebe como castigo um círio aceso que se transforma em osso de defunto ou num esqueleto.

A variante que recolhi é a seguinte: "A canela do defunto".


Havia em certo lugar uma velha muito beata e curiosa, que, às horas caladas da noite, se deixava ficar postada à janela da sala, vendo e ouvindo o que se passava na rua. Era um hábito que conservava de longa data. Certa vez, viu um cortejo fúnebre, que outro não era senão a procissão das almas penadas do Purgatório conduzindo um caixão de defunto, ao clarão de velas acesas. Aguçou-se-lhe mais a curiosidade e não se contentou de olhar apenas, através do vidro da janela ou das venezianas, a lúgubre jornada das almas-do-outro-mundo, vestidas nas suas mortalhas. Quis vê-las mais de perto. Abriu de par em par a janela. Aconteceu-lhe, entretanto, um fato estranho. Viu, estarrecida, deslocar-se do cortejo e encaminhar-se rapidamente para ela uma das almas, cujos segredos tentava desvendar na sua bisbilhotice. E antes que pudesse fechar a janela, o vulto entregou-lhe um círio aceso dizendo-lhe na sua voz fanhosa, como só devem possuir as almas-do-outro-mundo: - Amanhã, virei buscá-lo, às mesmas horas. Guarde-o bem guardado.

Mal pôde recobrar o ânimo, qual não foi o seu espanto quando notou que sustentava nas mãos ainda trêmulas e gélidas, uma canela de defunto. Entre horrorizada e arrependida, correu a colocá-lo no santuário, rezando o credo. Na noite seguinte, transida de medo, devolveu-lh’a com duas velas bentas, ao que lhe retrucou, na sua voz de falsete, ao recebê-la, a alma-penada: - Foi o que te valeu. Que te sirva esta de lição.

(Recolhida em Maceió)
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(DUARTE, Abelardo. Em Boletim alagoano de folclore) - Fonte: Jangada Brasil
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