sexta-feira, 22 de julho de 2016

Diagnóstico da Morte


"Sou menos supersticioso do que alguns de vocês, médicos — homens da ciência, como gostam de ser chamados", disse Hawver, respondendo a uma acusação que sequer fora formulada.

"Alguns de vocês — poucos, é verdade — acreditam na imortalidade da alma e em aparições que não têm a honestidade de chamar de fantasmas. Eu tenho apenas a convicção de que os seres vivos às vezes são vistos onde não estão, mas onde já estiveram — em lugares onde viveram por muito tempo, ou talvez tão intensamente, que deixaram sua marca no ambiente.

Sei, na verdade, que o ambiente onde uma pessoa vive pode ser afetado por sua personalidade, a ponto de emitir, muito tempo depois, a imagem dessa pessoa ante os olhos dos outros. Sem dúvida, não é qualquer personalidade que é assim tão marcante, assim como os olhos que percebem também têm de ser de um tipo especial — como os meus, por exemplo.”

"Sim, o tipo certo de olhos, mas enviando sensações para o tipo errado de cérebro", disse o Dr. Frayley, sorrindo.

"Obrigado. É bom quando nossas expectativas são atendidas. É exatamente essa a resposta que se espera ouvir em nome da civilidade.”

"Perdoe-me. Mas você diz que sabe. Isso é muita coisa, não acha? Talvez não se incomodasse em me contar como foi que aprendeu tudo isso.”

"Você vai dizer que é alucinação", respondeu Hawver, "mas não me importo.”

E foi assim que ele contou a história.

"No verão passado, eu fui, como você sabe, passar a temporada quente na cidade de Meridian. O parente em cuja casa pretendia hospedar-me ficou doente, por isso procurei outro local para ficar. Com muita dificuldade, consegui alugar uma casa que estava vazia, tendo sido antes ocupada por um médico excêntrico de nome Mannering, que se fora muitos anos antes. Para onde, ninguém sabia, nem mesmo seu agente. Ele próprio construíra a casa e nela vivera com uma velha criada durante cerca de dez anos. Após algum tempo, renunciara à prática da medicina, à qual já pouco se dedicava. Não apenas isso: na verdade, tornara-se um recluso, abrindo mão de qualquer tipo de vida social.

O médico local, única pessoa com a qual mantinha algum contato, contou-me que durante o período de reclusão ele se dedicara inteiramente a uma determinada pesquisa, cujo resultado expusera em um livro. Este fora desaprovado por seus pares, que na verdade consideravam-no meio louco. Não tive oportunidade de ler o livro, de cujo título sequer me recordo, mas sei que abordava uma teoria muito surpreendente. Ele assegurava ser possível a qualquer pessoa, desfrutando de boas condições de saúde, prever a própria morte com toda a precisão, com muitos meses de antecedência. O limite, creio, era de dezoito meses. Corriam histórias de que o médico exercera essa sua capacidade de fazer prognósticos — ou diagnósticos, como você chamaria. E dizem também que em todos os casos a pessoa, cujos amigos haviam sido avisados, morrera de repente na hora exata apontada por ele, sem qualquer razão aparente. Nada disso, porém, tem a ver com o que quero contar. Só achei que um médico se divertiria ouvindo isso."

"A casa era mobiliada, com os mesmos móveis do tempo em que ele lá vivera. Era na verdade uma casa sombria para alguém como eu, que não era nem recluso nem pesquisador, e acho que talvez me tenha transmitido um pouco dessa sua característica — ou talvez um pouco do caráter de seu ocupante anterior. Porque eu sentia nela uma constante melancolia que não fazia parte do meu temperamento, nem mesmo como consequência da solidão. Nenhum criado dormia na casa, mas eu sempre me senti muito bem em minha própria companhia, como você sabe, gostando muito de ler, embora não de estudar. Fosse qual fosse a causa, o efeito era de desalento, como se alguma coisa maléfica pairasse no ar. A sensação era especialmente forte no gabinete do Dr. Mannering, embora o aposento fosse o mais claro e arejado da casa.

O retrato a óleo do médico, em tamanho natural, ficava pendurado na parede, parecendo dominar toda a sala. Não havia nada de estranho na pintura. O homem tinha bom aspecto, aparentava cerca de cinquenta anos, cabelos grisalhos, rosto bem escanhoado e olhos graves e escuros. Mas algo naquele quadro sempre chamava e prendia minha atenção. A aparência do homem tornou-se familiar para mim e era quase como se me assombrasse."

"Certa noite atravessei a sala em direção a meu quarto, levando nas mãos uma lamparina — não há gás em Meridian. Como sempre fazia, parei diante do retrato que, à luz da lamparina, parecia ganhar uma expressão nova, de difícil definição, mas sem dúvida alguma sobrenatural. Fiquei interessado, mas não perturbado. Movi a lamparina de um lado para o outro, observando os efeitos provocados pelas nuances de luz. Quando o fazia, tive um impulso de virar-me. E, ao fazê-lo, vi que um homem atravessava a sala em minha direção! Assim que chegou perto o suficiente para que a luz lhe iluminasse o rosto, vi que era o Dr. Mannering. Era como se o retrato estivesse vivo."

"'Perdão', falei, com certa frieza, 'mas se o senhor bateu, eu não ouvi.'"

"Ele passou por mim, a um metro de distância, ergueu o dedo indicador da mão direita, como se quisesse fazer-me uma advertência, e sem dizer palavra saiu da sala, embora eu não o visse sair — da mesma forma como não o vira entrar. Claro, nem preciso dizer-lhe que aquilo era o que você chamaria de alucinação e eu de aparição. Aquela sala tinha apenas duas portas, sendo que uma estava trancada. A outra dava para um quarto de dormir, que não tinha outra saída. O que eu senti ao dar-me conta disso não tem real importância para o meu relato."

"Para você, sem dúvida, tudo isso deve ser uma 'história de assombração' das mais comuns — construída com os elementos regulares usados pelos velhos mestres da arte. Se assim fosse, não a teria contado, mesmo sendo verdadeira. O homem não estava morto. Eu o encontrei hoje na Union Street. Passou por mim em meio à multidão.”

Hawver tinha terminado sua história e os dois estavam em silêncio. O Dr. Frayley tamborilava os dedos sobre a mesa, com ar ausente.

"E hoje ele falou alguma coisa?", perguntou. "Alguma coisa que o levasse a crer que não está morto?”

Hawver olhou-o sem responder.

"Talvez", continuou o Dr. Frayley, "tenha feito um sinal um gesto. Erguido o dedo, como se em advertência. É um tique que ele tinha — um hábito, sempre que dizia alguma coisa séria — quando anunciava o resultado de um diagnóstico, por exemplo.”

"De fato, ele fez isso, sim — exatamente como a aparição havia feito. Mas... Deus do céu! Você o conhecia?”

Hawver parecia cada vez mais nervoso.

"Conhecia, sim. Li seus livros, como todos os médicos acabam fazendo um dia. É uma das contribuições mais importantes e fundamentais para a ciência médica deste século. Sim, eu o conhecia. E o atendi quando estava doente, há três anos. Ele está morto.”

Hawver ergueu-se da poltrona, visivelmente perturbado. Começou a andar de um lado para o outro da sala. Depois aproximou-se do amigo e, com a voz trêmula, disse:

"Doutor, o senhor tem alguma coisa a me dizer... como médico?”

"Não, Hawver. Você é a pessoa mais saudável que conheço. Como amigo, aconselho-o a ir para seu quarto. Você toca violino como um anjo. Toque. Toque alguma coisa leve e alegre. E tire essa maldita história da cabeça.”

No dia seguinte, Hawver foi encontrado morto em seu quarto, com o violino em posição, o arco sobre as cordas partitura, à sua frente, aberta na marcha fúnebre de Chopin.


Visões da Noite / Ambrose Bierce; organização e tradução Heloísa Seixas; ilustrações Mozart Couto. - Rio de Janeiro: Record, 1999.