sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Alimentação das almas

Nos sertões da Bahia, principalmente em Juazeiro, as cerimônias religiosas da Quaresma e Semana Santa não se restringem aos atos litúrgicos, celebrados nas igrejas pelos vigários da área. Entre os habitantes da zona rural, mantém-se viva uma manifestação do maior envolvimento místico: as cerimônias de alimentação das almas, uma maneira muito própria de rezar pelos seus mortos.

São quinze mulheres, em média. Algumas ainda crianças, não passam dos dez ou vinte anos. Cobertas por um lençol branco caminham lentamente pela caatinga, para o cemitério de Rodeadouro, um lugarejo no sertão sanfranciscano, próximo a Juazeiro. De longe, ouve-se um canto meloso, triste, lembrando o cantochão.

Esse espetáculo, raramente presenciado por pessoas estranhas, repete-se às quintas e sextas-feiras da Quaresma, no interior da Bahia. Ao lado de um outro, onde o misticismo do povo do interior atinge ao grotesco, quando homens se flagelam com chicotes de couro com pontas de metal, a “alimentação das almas”, é uma manifestação religiosa em extinção, mas que resiste desde o fim do século passado, em regiões da Chapada Diamantina, Monte Santo (no norte do estado) e nas margens do São Francisco.

À meia-noite, as “alimentadeiras” saem da capela de Rodeadouro para o cemitério, quatro quilômetros adiante, no meio da caatinga. As que seguem à frente do “cordão” conduzem velas acesas. No “cordão” apenas um homem: um rapaz que leva o “madeiro” — cruz feita de jatobá, de dois metros de altura. Na metade do caminho, a visão fantasmagórica, movendo-se lentamente em meio à escuridão, estanca. Uma voz estridente inicia uma ladainha ou um salmo. É o cântico iniciador da encomendação, ou alimentação, das almas.


A cerimônia lembra a via sacra. Divide-se, também, em estações. É o ruído da matraca — uma tábua de madeira com uma argola de arame grosso em cada lado, que produz um som seco quando agitada repentinamente — comanda um movimento brusco de genuflexão. A alimentadeira mais velha, dona do cordão entoa uma lauda. O coro responde rezando um padre nosso. Mais três laudas seguidas da oração, logo após todos cantam o senhor Deus. É a primeira estação.

Mais quarenta minutos de caminhada, a segunda estação é rezada e cantada, em cima de uns lagedões. A terceira estação já é no cemitério. Um cercado de 400 metros quadrados, com uma cruz caiada no centro. Já são duas horas da manhã, quando termina a última oração pela alma de diversas pessoas, antepassados, que foram enterrados ali. A procissão de retorno não é mais feita sob o comando da matraca, mas é acompanhada de cânticos lúgubres.

A alimentação das almas é uma manifestação religiosa que se repete nessas regiões, onde o envolvimento místico das populações chega, às vezes, a ser severamente combatido pelos párocos das freguesias mais próximas. Por isso, o cordão é fechado, não permitindo a participação de todo mundo. A dona do cordão recebe a incumbência da própria mãe, depois de preparada através dos anos. Essa herança perdura a cada geração. É a maneira própria de rezar pelas almas dos parentes e amigos, que a cada ano se realiza na Quaresma. Na Sexta-feira da Paixão, a cerimônia requer um toque de solenidade: todas as indumentárias e os lençóis que encobrem as alimentadeiras são utilizados especialmente para a ocasião.

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Fonte: Site Jangada Brasil in: "Alimentação das alma - Viver Bahia - Salvador, março de 1976".