segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O Ambiente Adequado


I

A noite

Numa noite de pleno verão, o filho de um fazendeiro que vivia a cerca de quinze quilômetros de Cincinnati seguia por uma trilha de cavalos em meio a uma floresta densa e escura. O rapaz se perdera quando procurava por algumas vacas desgarradas e por volta da meia-noite já estava a uma enorme distância de casa, numa região que lhe era desconhecida. Mas tratava-se de um rapaz corajoso e, sabendo vagamente qual era a direção de casa, seguira floresta adentro sem hesitar, guiando-se pelas estrelas. Ao dar com a trilha de cavalos, e notando que ela rumava exatamente na direção certa, decidiu segui-la.

A noite estava clara, mas dentro da floresta a escuridão envolvia tudo. Era mais pelo tato do que pela visão que ele seguia caminho. Na verdade, seria difícil sair da trilha. De ambos os lados a vegetação, de tão fechada, era quase impenetrável. Já caminhara floresta adentro por dois ou três quilômetros quando se surpreendeu ao ver uma fraca luminosidade brilhando através da folhagem na beira do caminho, à sua esquerda. Aquela visão deixou-o atônito e seu coração começou a bater com toda força.

"A velha casa Breede fica perto daqui", disse para si mesmo. "Devo estar na outra extremidade do caminho que vai dar lá, saindo de nossa casa. Mas... por que será que há uma luz ali?”

De qualquer forma, seguiu em frente. Pouco depois, emergia da floresta, indo dar num pequeno espaço aberto, recoberto de espinheiros. Havia resquícios de uma cerca, semidestruída. A poucos metros da trilha, no meio da clareira, lá estava a casa de onde emanava a luz, através de uma janela sem vidros. A janela um dia tivera uma vidraça, mas esta, assim como a esquadria, tinha sido há muito destruída pelos projéteis arremessados por meninos aventureiros, dispostos a provar, a um só tempo, sua coragem e sua hostilidade às forças sobrenaturais. Sim, porque a casa Breede tinha a reputação maldita de ser uma casa mal-assombrada. Talvez não o fosse, mas nem mesmo o mais cético poderia negar que estava abandonada — o que, em zonas rurais, significa praticamente a mesma coisa.

Olhando para a luz misteriosa que emanava através da janela quebrada, o garoto lembrou-se, com certa apreensão, que sua própria mão contribuíra para aquela destruição. Claro que sua penitência, por tardia e inútil, seria terrível. De certa forma ele esperava ser punido por todos os espíritos maléficos e inomináveis que desafiara, ao ajudar a arrebentar-lhes as janelas e a paz. Mas nem assim o rapaz obstinado, que tremia da cabeça aos pés, fugiu. O sangue em suas veias era forte e rico em ferro, como o dos homens da fronteira. Pertencia à segunda geração daqueles que haviam dominado os índios. E seguiu em frente, pronto para passar em frente à casa.

No momento em que passava, olhando através do vão da janela, deu com um cenário estranho e aterrador — a figura de um homem sentado no meio da sala, diante de uma mesa onde havia algumas folhas de papel. Os cotovelos estavam sobre a mesa e as mãos sustentavam a cabeça, sem chapéu. De ambos os lados, os dedos estavam enfiados nos cabelos. À luz da única vela que brilhava a seu lado, o rosto do homem era de uma palidez cadavérica. A chama iluminava só um lado do rosto e o outro estava envolto pela escuridão. Seus olhos estavam fixos no vão da janela, com um olhar que um observador mais frio e mais experiente descreveria como de medo, mas que para o rapaz pareceu um olhar vazio, sem alma. Ele achou que o homem estava morto.

A situação era horrível, mas carregava algum fascínio. E o rapaz parou para olhar melhor. Sentia-se fraco, tremia, parecia a ponto de desmaiar. Podia sentir o sangue fugir-lhe do rosto. E contudo, trincando os dentes, avançou em direção à casa. Não sabia ao certo o que iria fazer — era a mera coragem provocada pelo terror. Enfiou o rosto pálido pelo vão iluminado da janela. Naquele instante, um grito agudo e estranho cortou o silêncio da noite — era o piado de uma coruja. O homem pôs-se de pé num pulo, derrubando a mesa e apagando a vela. E o rapaz saiu em disparada.

II

O dia anterior 

"Bom dia, Colston. Parece que estou dando sorte. Você já cansou de dizer que meus elogios a seu trabalho literário eram por pura educação e agora me encontra aqui absorto — na verdade completamente envolvido —, com sua última história no Messenger. Só mesmo seu toque no meu ombro me fez recobrar a consciência.”

"A prova é mais forte do que imagina", respondeu o outro. "Você está tão ansioso por conhecer a história que é capaz de renunciar às próprias considerações e estragar todo o prazer que poderia obter com ela.”

"Não estou entendendo", disse o leitor, dobrando o jornal e guardando-o no bolso. "Vocês, escritores, são muito esquisitos. Vamos lá. Conte-me o que foi que eu fiz ou deixei de fazer, Em que sentido o prazer que tiro, ou posso tirar, de seu trabalho depende de mim?”

"Em vários sentidos. Você gostaria de tomar seu café da manhã aqui neste bonde? E suponha que houvesse um fonógrafo tão perfeito que fosse capaz de reproduzir uma ópera inteira — o canto, a orquestração, tudo —, você acha que a ouviria com prazer em pleno escritório, durante o trabalho? Você seria capaz de apreciar uma serenata de Schubert tocada ao violino por um italiano inoportuno, no ferryboat matinal? Você está sempre disposto a se divertir? Está sempre atento, pronto para apreciar tudo? Permita-me lembrar-lhe, meu caro, que a história que acabou de me dar a honra de começar a ler, apenas como um artifício para esquecer o desconforto deste bonde, é uma história de assombração!”

"E daí?”

"E daí? Será que o leitor não tem também deveres, correspondentes a seus privilégios? Você pagou cinco centavos por esse jornal. É seu. Tem o direito de lê-lo quando e onde quiser. A maior parte do que está escrito nele não será afetada, para melhor ou para pior, pelo momento, local ou clima da leitura. Algumas notícias devem mesmo ser lidas de imediato — enquanto ainda têm gás. Mas minha história não é desse tipo, Não faz parte da lista de 'últimas novidades' da Terra Assombrada. Você não tem obrigação de estar atualizado acerca de tudo o que acontece nas regiões do além. Essa história se manterá até que você possa conceder à sua mente um momento de relaxamento, apropriado para apreender seu significado — e, com todo respeito, devo dizer-lhe que isto não pode ser feito dentro de um bonde, mesmo que você seja o único passageiro. Porque, ainda assim, a solidão será uma solidão inadequada. Um escritor tem direitos que o leitor deve respeitar.”

"Dê um exemplo específico.”

"O direito a ter uma atenção exclusiva por parte do leitor, negá-lo, seria imoral. Fazê-lo dividir a atenção com o barulho de um bonde, com as imagens corridas dos transeuntes nas calçadas, com os prédios passando — com milhares de outras distrações que compõem nosso ambiente habitual — é ameaçá-lo com uma injustiça grosseira. Por Deus, é infame!”

O escritor se pusera de pé, segurando-se em um dos apoios pendurados no teto do bonde. O outro olhava-o espantado, perguntando-se como uma ofensa tão banal podia justificar linguagem tão dura. Notou que o rosto do escritor estava extraordinariamente pálido, enquanto seus olhos brilhavam como carvões em brasa.

"Sabe bem o que quero dizer", continuou ele, atropelando as palavras, "sabe o que quero dizer, Marsh. O que escrevo nesse matutino traz o subtítulo 'Uma história assombrada'. Está mais do que claro. Qualquer um dos meus honrados leitores entenderá que com isso estão subentendidas as condições sob as quais o texto deve ser lido.”

O homem chamado Marsh estremeceu levemente e depois perguntou com um sorriso:

"Que condições? Você sabe muito bem que sou apenas um homem de negócios, do qual não se espera que entenda de determinados assuntos. Como, quando e onde devo ler sua história de assombração?”

"Em total solidão — à noite — sob a luz de uma vela. Há certas emoções que um escritor pode provocar com facilidade - como divertimento ou compaixão. Posso levá-lo às lágrimas ou a uma gargalhada em praticamente qualquer circunstância. Mas para que minha história de assombração tenha efeito, você precisa sentir medo — ou pelo menos uma forte sensação de sobrenatural—, e aí está algo difícil. Tenho o direito de esperar que, já que me lê, você deva me dar uma chance. E se disponha a sentir a emoção que estou tentando inspirar.”

O bonde acabara de chegar ao terminal e parara. A viagem recém terminada era a primeira do dia e a conversa dos dois passageiros madrugadores não fora interrompida. As ruas ainda estavam vazias, silenciosas. Os telhados das casas apenas começavam a receber a luz do sol. Assim que saltaram e começaram a caminhar juntos, Marsh observou seu companheiro, do qual se dizia, como aliás da maioria dos homens com rara habilidade literária, ser chegado a vários vícios destrutivos. É essa a vingança das mentes simples contra aquelas mais brilhantes, por se ressentirem de sua superioridade. O Sr. Colston era conhecido como um homem de gênio. Há almas honestas que acreditam serem os gênios uma espécie de excesso. Sabia-se que Colston não era de beber, mas muitos comentavam que ele usava ópio. Alguma coisa em sua aparência naquela manhã — um certo olhar selvagem, a estranha palidez, a maneira de falar, rápida e rouca — parecia ao Sr. Marsh confirmar tais comentários. Mas ele não abandonaria um assunto que achava interessante, por mais que isso deixasse seu amigo agitado.

"Você quer dizer", falou, "que se eu me desse ao trabalho de seguir seus conselhos — criando as condições pedidas: solidão, noite, um toco de vela —, você e sua história assombrada seriam capazes de provocar em mim a sensação desconfortável do sobrenatural, como você chama? Você acha que seria capaz de acelerar meu pulso, de me fazer levantar de um pulo ao ouvir um ruído, de sentir um arrepio nervoso percorrer minha espinha, fazendo meu cabelo arrepiar-se?”

Colston virou-se de repente, encarando o outro, à medida que andavam.

"Você não ousaria. Não teria coragem", disse. Enfatizou a frase com um gesto de desdém. "Você é corajoso o suficiente para me ler num bonde, mas numa casa abandonada, sozinho, no meio da floresta, e à noite? Ah! Tenho aqui no bolso um manuscrito que seria capaz de matá-lo!”

Marsh zangou-se. Considerava-se corajoso e aquelas palavras mexeram com ele.

"Se você conhece um lugar assim", disse, "leve-me até lá hoje à noite e deixe-me com sua história e um toco de vela. Vá me procurar quando achar que já deu tempo de ler o texto, que vou lhe contar o enredo todo — e botar você para correr!”

E foi assim que o jovem fazendeiro, olhando através do vão da janela da casa Breede, viu um homem sentado sob a luz de uma vela.

III

O dia seguinte 

Na tarde seguinte, três homens e um rapaz se aproximaram da casa Breede pelo mesmo local de onde, na noite anterior, viera o jovem fazendeiro. Os homens estavam alegres. Falavam alto e riam. Faziam piadas e comentários irônicos sobre a história que o rapaz contara, na qual evidentemente não acreditavam. O garoto aceitava a provocação sério, sem responder. Tinha uma noção apropriada das coisas e sabia muito bem que quando alguém conta que viu um homem morto levantar-se de sua cadeira e apagar uma vela ninguém acredita nele.

Ao chegarem, e encontrando a porta destrancada, os investigadores entraram sem qualquer cerimônia. No corredor junto à entrada havia duas outras portas, uma à direita e uma à esquerda. Penetraram no aposento da esquerda — aquele que tinha a janela dando para a frente. E encontraram o cadáver de um homem. Estava caído meio de lado, com o braço esticado sob o corpo e o rosto contra o chão. Os olhos estavam arregalados. E o olhar que tinha não era um espetáculo agradável. Com a mandíbula caída, escorria de sua boca um fio de saliva, formando uma pequena poça.

Uma mesa derrubada, um toco de vela, uma cadeira e algumas folhas de papel manuscritas eram os únicos outros objetos do aposento. Os homens observaram o corpo, tocando-lhe o rosto. O rapaz olhava tudo com gravidade, quase com um olhar de posse. Nunca na vida se sentira tão orgulhoso. Um dos homens virou-se para ele.

"Você é dos bons" — comentário que foi recebido pelos outros dois com sinais de concordância. Era o Ceticismo pedindo desculpas à Verdade.

Em seguida, um dos homens apanhou do chão os papéis manuscritos e encaminhou-se até a janela, porque as sombras da noite já começavam a descer sobre a floresta. O som do bacurau já se fazia ouvir a distância e um besouro gigantesco voejou junto à janela com suas asas ruidosas, desaparecendo em seguida. E o homem leu.

IV

O manuscrito 

"Antes de cometer o ato sobre o qual, certo ou errado, estou decidido, e de apresentar-me diante de meu Criador para julgamento, eu, James R. Colston, na qualidade de jornalista, sinto-me no dever de dar um testemunho a meu público. Meu nome é, ao que sei, razoavelmente conhecido como escritor de contos trágicos, mas nem a imaginação mais sombria seria capaz de conceber algo mais terrível do que a história de minha própria vida. Não pelo que tenha acontecido: minha vida tem sido destituída de aventuras ou ação. Mas minha carreira mental tem sido ensombrecida por assassinatos e maldições. Não vou contá-los aqui — alguns deles já estão escritos e prontos para publicação em outro lugar. O objetivo destas linhas é explicar a quem interessar possa que minha morte é voluntária — resultado de minha própria vontade. Deverei morrer à meia-noite do dia 15 de julho — uma data significativa para mim, já que foi nesse dia, e nessa hora, que meu amigo, no tempo e na eternidade, Charles Breede, fez a mim seu juramento, cometendo o mesmo ato ao qual, por sua fidelidade a nosso pacto, sinto-me agora obrigado. Ele se matou em 85 sua casa na floresta de Copeton. Houve o veredicto de sempre atestando 'insanidade temporária'. Tivesse eu testemunhado naquele inquérito — tivesse eu contado tudo o que sabia, e eles me teriam classificado de louco.”

Seguia-se uma passagem evidentemente longa que o homem com o manuscrito leu para si. O restante, leu em voz alta:

"Ainda tenho uma semana de vida para tomar todas as providências e preparar-me para a grande transformação. É o bastante, pois tenho poucos negócios e já faz quatro anos que a morte se tornou para mim uma obrigação imperativa. Deixarei este manuscrito ao lado de meu corpo. Quem o encontrar, por favor, leve-o ao juiz.”

James R. Colston.

"P. S.—Willard Marsh: neste dia fatal de julho, passo a suas mãos o manuscrito, para ser aberto e lido nas condições acordadas, bem como no local por mim designado. Desisto de deixar este manuscrito junto a meu corpo para explicar as circunstâncias de minha morte, já que isso não tem importância. Ele servirá para explicar as circunstâncias da sua. Vou ter com você durante a noite para me assegurar de que leu o texto. Você me conhece bem e sabe que o farei. Mas, meu caro amigo, eu o farei depois da meia-noite. Que Deus tenha piedade de nossas almas!”

J. R. C.

Enquanto o homem lia o manuscrito, a vela havia sido apanhada do chão e acesa. Quando a leitura terminou, ele calmamente levou o papel em direção à chama e, apesar dos protestos dos outros, manteve-o ali até que se transformasse em cinzas. O homem que fez isso, e que mais tarde receberia sem reagir uma severa reprimenda do juiz, era genro do finado Charles Breede. Durante o inquérito, não foi possível esclarecer o que havia escrito naquele papel.

V

Do Times 

"Ontem, a Delegacia de Insanidade recolheu ao asilo o Sr. James R. Colston, um conhecido escritor local que colaborava com o Messenger. Deve ser lembrado que na noite do dia 15 passado, o Sr. Colston foi entregue à polícia por um de seus companheiros de quarto na Pensão Baine, segundo o qual ele agia de forma muito suspeita, desnudando o pescoço e molhando uma lâmina — depois de testar se estava afiada —, passando-a na pele do braço etc. Ao ser entregue à polícia, o infeliz opôs forte resistência e desde então tem estado tão violento que foi preciso encerrá-lo numa camisa-de-força. Nossos outros estimados escritores da atualidade continuam, na maioria, à solta.”


Visões da Noite / Ambrose Bierce; organização e tradução Heloísa Seixas; ilustrações Mozart Couto. - Rio de Janeiro: Record, 1999.
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