quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O Sangue do Dragão

Siegfried massacrando o dragão (Arthur Rackham Illustration).

Na Romênia do século XV, Drácula – o príncipe Vlad Drakul, senhor de Valáquia – pertencia à Ordem do Dragão, confraria militar de iniciação fundada por Segismundo I da Hungria. Drac – a raiz do nome Drácula – significa Dragão, símbolo de imortalidade e de vitória sobre a morte.

Tradicionalmente, dragão é o guardião do sangue eterno. Para os taoístas, os adeptos que tenham vencido o túmulo tornam-se imortais voadores e tomam a aparência de um dragão. Na magia chinesa, as correntes de energia que atravessam a terra são chamadas «veias de dragão». Da mesma forma, as energias telúricas vindas do subsolo seriam o «sangue do dragão», o poder contido nas suas «veias».

Nas narrações mitológicas o dragão faz ninho nas entranhas da terra, vomita fogo, guarda a entrada da caverna ao fundo da qual protege um monstruoso tesouro. O dragão representa a força, a energia telúrica, a atração, as forças da gravitação que prendem a matéria e impedem a sua sublimidade.

O fato de se ter associado o dragão às forças e espíritos diabólicos não é uma simples superstição. Por detrás dessa crença esconde-se a opacidade, o peso, a obscuridade. O dragão retém a alma nos nós da matéria tal como o minério de ouro que, sem sair do subsolo, não conhecerá a deslumbrante purificação.

Os ascetas dos primeiros séculos da era cristã combateram muitas vezes o diabo sob a forma de um dragão que vem tentar a alma no momento da oração e leva-la de novo à profundidade das trevas.

«A alma da carne está no sangue», dizem as escrituras (Levítico). «É preciso que o dragão morra, isto é, que se destruam as forças diabólicas, para que o sangue se liberte desta força e volte a ser espírito. Então a alma se expandirá nas alturas, em sua plenitude.»

Na mitologia escandinava, Siegfried, o herói solar, bebe acidentalmente o sangue do dragão que acaba de vencer. Desde logo compreendeu a linguagem das aves. Ele espalha o sangue do monstro por todo o corpo, tornando-se incorruptível. A morte já não o deterá. Ele está coberto pelo Espírito.

O sangue do vampiro, retido nas entranhas da terra, não tem qualquer poder espiritual, mas sim psíquico. Ele age numa zona fechada e crepuscular, provocando a obsessão, o enfeitiçamento diabólico, a mediunidade, o sonambulismo, o cair em transe. Enfim, todos os sintomas de uma alma doente que desconhece a subtileza e a purificação.

As crenças vampirescas afirmam que o sangue esconde em si um poder indestrutível: a energia psíquica, o fluido mental, ligados inevitavelmente ao magnetismo da Lua.

Para os indianos da América do Norte e do Canadá, o vampiro coloca a sua boca, transformada em tromba, na orelha da pessoa que está a dormir e suga-lhe o cérebro. Note-se, como a maior parte dos casos de vampiros, que se trata de alguém entregue ao sono e, assim, à influência da Lua.

Outras tradições existem em que esta energia poderosa vem diretamente da Lua (de Hécate – pensa-se – a deusa lunar a quem são sacrificados os recém-nascidos de cujo sangue ela absorve a vitalidade).

Nas crenças chinesas, a família do defunto crê que a partir da influência da Lua poderá nascer o vampiro. Então veda todas as fendas do caixão de forma a que os raios lunares não possam aí penetrar. Estes teriam o poder de transformar o cadáver em «Kiang-si», o mesmo que «vampiro». Marcianos – eremita sírio dos primeiros séculos – abandonou o deserto para se consagrar exclusivamente à oração. Theodoret de Cyr conta a sua vitória sobre o dragão com a ajuda da força espiritual:

«Uma das vezes que o grande Marcianos orava no pátio de entrada, um dragão que rastejava pela parede leste debruçava-se lá do alto e, de goela aberta e olhar tenebroso, mostrava as suas intenções.

«Estava presente Eusébio, que ficou assustado com tal espetáculo e, convencido de que o seu senhor nada sabia quanto ao que se passava, gritou para preveni-lo e conseguir que ele fugisse depressa. Porém Marcianos rejeitou, bramindo, os temores daquele, que aliás seriam perniciosos e, persignando-se; soprou. O dragão como que seco pelo fogo e como que abrasado ficou feito em nada, tal como um pedaço de palha queimado.»

A respeito do poder espiritual de Marcianos, oposto aos poderes psíquicos do dragão, Thódoret de Cyr revela: «Marcianos esforçava-se por esconder o dom que possuía, mas as suas virtudes brilhavam como um clarão e punham a nu o poder que ele escondia.»

Nas lendas da Transilvânia, vê-se um caçador de vampiros enterrar uma estaca aguçada no coração do monstro. Logo, o sangue escorre em borbotões e o cadáver do morto vivo cai feito em pó.

Vlad Drakul – o Dragão – restitui à terra o sangue que ele mantinha com ajuda do sortilégio. Então, o sangue torna-se Espírito e o corpo libertado parte as amarras e volta ao pó.


Fonte: Os Vampiros - Jean-Paul Bourre - Publicações Europa-América (1986)