sexta-feira, 15 de julho de 2016

O Bracelete de Cabelos Cadavéricos

Eu ia de Estrasburgo às caldas de Louesche e passava por Basileia – dizia-nos o Sr. Alliette –, onde devia largar o coche público e alugar uma carruagem. 

Chegando ao Hotel da Coroa, que me haviam recomendado, procurei uma carruagem e pedi ao dono do hotel que procurasse saber se alguém da cidade queria fazer a mesma viagem que eu. Nesse caso, incumbi-lhe propor a essa pessoa uma associação que tornaria menos dispendiosa e agradável a viagem.

À noite, ele voltou, tendo achado o que lhe havia eu pedido. A mulher de um comerciante, que acabava de perder um filhinho de três meses, a quem ela própria amamentava, tinha, em consequência dessa perda, adoecido, e haviam lhe aconselhado as caldas de Louesche. Era seu primeiro filho e estava casada havia um ano.

Muito lhe tinha custado resolver-se a separar-se de seu marido. Venceram-na, porém, as exigências da sua saúde, que a obrigavam a ir às caldas, e as necessidades do comércio, que exigiam a presença do marido em Basileia. Partiu, pois, comigo no dia seguinte, acompanhada só por uma criada.

Um padre católico, cura de uma aldeola vizinha, tomou o quarto lugar.

No dia seguinte, pelas oito horas da manhã, a carruagem veio receber-me. O padre já se achava nela. Entrei, e fomos receber a senhora e sua criada.

Do interior da carruagem assistimos à despedida do casal que, começada no interior da casa, continuou na loja e só acabou na rua. Sem dúvida tinha a mulher algum pressentimento, pois não podia consolar-se. Parecia que, em vez de partir para uma viagem de cinquenta léguas, partia para dar a volta ao mundo.

O marido parecia mais calmo do que ela. Todavia, estava mais taciturno do seria razoável em uma separação como aquela.

Partimos, por fim. Eu e o padre tínhamos cedido os dois melhores lugares à senhora e à sua criada; estávamos, pois, na frente, e elas no fundo.

Tomamos a estrada de Soleure, e no primeiro dia fomos dormir em Mundischwyll. Durante todo o dia, a nossa companheira havia-se mostrado inquieta e atormentada. À noite, vendo um coche que voltava para Basileia, queria tomá-lo e retornar para casa. Sua criada conseguiu convencê-la a continuar a viagem.

No dia seguinte, pusemo-nos a caminho pelas nove horas da manhã. A jornada seria pequena, pois só devíamos ir a Soleure. Pela tarde, quando íamos avistando a cidade, a nossa enferma estremeceu.

– Ah! – disse.  – Pare!  Estão nos perseguindo!

Inclinando-me, olhei por fora da portinhola.

– A senhora está enganada – disse. – A estrada está perfeitamente desocupada.

– É estranho – insistiu. – Estou ouvindo o galope de um cavalo. Julguei não ter olhado bem. Debrucei-me mais para fora da carruagem.

– Ninguém, senhora – disse-lhe.

Ela mesma quis olhar e viu, como eu, que a estrada estava deserta.

– Eu me enganei – disse-me ela, recostando-se no fundo da carruagem e fechando os olhos, como uma mulher deseja concentrar em si mesma toda a sua reflexão.

Pusemo-nos a caminho na manhã seguinte, bem cedo, pois devíamos ir a Berna. À mesma hora que na véspera – isto é, pela volta das cinco horas –, nossa companheira saiu da sonolência em que estava sepultada e, estendendo os braços para o cocheiro, exclamou:

– Pare!  Desta vez eu estou certa que alguém está nos perseguindo.

– Está enganada, senhora – respondeu esse homem. – Só vejo três camponeses que acabam de cruzar-se conosco, e que vão seguindo o seu caminho.

– Ora, estou ouvindo o galope de um cavalo!

Essas palavras eram proferidas com tanta convicção que não pude deixar de olhar para trás da carruagem. Como na véspera, a estrada estava de todo deserta.

– É impossível, senhora – respondi. – Não vejo cavaleiro algum.

– Como o senhor não vê o cavaleiro, se eu vejo a sombra de um homem e de um cavalo?

Olhei na direção da sua mão e, com efeito, vi a sombra de um homem e de um cavalo. Em vão, porém, procurei pelos corpos que projetavam essas sombras. Fiz com que o padre reparasse nesse singular fenômeno. O clérigo persignou-se. Pouco a pouco essa sombra foi-se esvaecendo, tornando-se menos visível. Finalmente, desapareceu completamente.

Entramos em Berna. Todos esses presságios pareciam fatais à pobre mulher. Dizia continuamente que queria voltar; todavia, continuava o seu caminho. Como resultado da inquietação do seu espírito, ou do progresso natural de sua enfermidade, ao chegar a Thun, ela, de tão debilitada que estava, somente pôde continuar a sua viagem de liteira. Assim atravessou o Kander-Thal e o Gemmi.

Ao chegar a Louesche, irrompeu uma erisipela e, por mais de um mês, ela permaneceu cega e surda. De toda sorte, os seus pressentimentos não a tinham enganado.

Mal havíamos caminhado vinte léguas, o seu marido, em Basileia, fora acometido de uma febre cerebral. Tão rápidos progressos fez a doença que, sentindo nesse mesmo dia a gravidade de seu estado, o marido mandou um homem a cavalo dar a notícia à sua mulher, pedindo-lhe que voltasse. Mas, entre Lauffen e Breinteinbach, o cavalo tropeçou, derrubando o cavaleiro, que, na queda, bateu com a cabeça numa pedra e ficara recolhido em uma estalagem, sem nada poder fazer por quem o enviara, a não ser adverti-lo do acidente que sofrera.

Então o marido despachou outro mensageiro. Sem dúvida, porém, sobre eles pesava alguma fatalidade. Na extremidade de Kander-Thal o emissário deixou a montaria e tomou um guia para subir o Schwalbach, que separa Oberland do Valais. Mas, em meio-caminho, uma massa de neve, desprendendose da montanha, o soterrara. Neste ínterim, a enfermidade do marido fazia terríveis progressos. Haviam-lhe raspado a cabeça, que tinha bastos e compridos cabelos, para aplicar-lhe gelo no crânio. Daí por diante, o moribundo não mais conservou qualquer esperança.

Em um momento de tranquilidade, escrevera à mulher:

“Querida Bertha. Estou morrendo; não quero, porém, separar-me de todo de ti. Manda fazer um bracelete com os cabelos que me acabam de cortar. Nunca o tires do braço; parece-me que assim sempre estaremos juntos. Teu Frédérick.”

Depois entregara essa carta a outro emissário, a quem ordenara que partisse logo que o visse morto. Isso aconteceu nessa mesma tarde, e uma hora depois, o mensageiro partiu. Mais feliz do que os seus predecessores, em cinco dias chegou a Louesche. Porém, encontrou a mulher cega e surda.

Somente um mês depois, graças à eficácia das caldas, essa dupla enfermidade começou a desaparecer. Só daí a um mês, tiveram a coragem de dar-lhe a notícia, para a qual aquelas diversas visões a haviam preparado. Permanecera nas caldas, para se restabelecer de todo, por mais um mês. Finalmente, após três meses de ausência, voltou a Basileia.

Como eu igualmente concluíra o meu tratamento – pois o que me levara às caldas fora reumatismo, de que já me achava aliviado –, pedi-lhe licença para acompanhá-la, o que ela aceitou com gratidão, pois em mim encontrava alguém com quem podia conversar acerca de seu marido, que eu mal entrevera no momento da partida, mas que, enfim, vira. Deixamos Louesche e, na noite do quinto dia, estávamos de volta a Basileia.

Nada foi mais triste e mais doloroso do que a volta dessa pobre viúva para sua casa.

Como os dois jovens cônjuges não tinham família, morto o marido, haviam fechado a loja: o comércio cessara como fenece o movimento de um pêndulo, quando acaba a corda. Chamou-se o médico que havia assistido o enfermo, as diversas pessoas que tinham estado presentes nos seus últimos momentos e com as suas informações, pôde a pobre mulher recompor essa agonia, reconstruir essa morte já esquecida pelos corações indiferentes. Perguntou-lhes, enfim, pelos cabelos que seu marido lhe havia legado. O médico recordou-se de tê-los mandado raspar, o barbeiro de ter cumprido a ordem. De nada mais se lembravam: os cabelos não haviam sido guardados. Estavam perdidos.

A viúva ficou desesperada: esse único desejo do moribundo, de que levasse no braço uma pulseira de seus cabelos, era, pois, impossível de realizar. Muitas noites se passaram, noites profundamente tristes, durante as quais a viúva, sozinha em sua deserta casa, mais parecia uma sombra do que um ente vivo. Assim que deitava, ou, antes, assim que adormecia, sentia o seu braço direito cair entorpecido, e acordava no momento em que esse torpor se estendia até o coração. Ele começava no punho, no lugar exato em que deveria estar a pulseira de cabelos, e onde sentia uma pressão igual à de um bracelete de ferro muito apertado.  E do punho, como dissemos, o entorpecimento ia-se estendendo até o coração.

Era evidente que o morto manifestava seu descontentamento por suas últimas vontades terem sido tão mal executadas. A viúva compreendeu que esses pesares vinham de além-túmulo. Resolveu mandar abrir a cova e, se a cabeça de seu marido não houvesse sido de todo raspada, procurar nela cabelo o suficiente para realizar aquele derradeiro desejo.

Portanto, sem dizer a ninguém os seus projetos, mandou chamar o coveiro. Todavia, o coveiro que havia enterrado o marido estava morto e o seu sucessor, que assumira a função há apenas quinze dias, não sabia o lugar da sepultura. Esperando uma revelação – ela, que pela duplicação da aparição do cavalo, do cavaleiro, pela pressão do bracelete, tinha o direito de acreditar em prodígios –, dirigiu-se sozinha ao cemitério, sentou-se em um cômoro coberto da relva verde e vivaz, como costuma crescer sobre os túmulos, e aí invocou algum novo sinal que a guiasse nas suas buscas.

Um funéreo quadro estava pintado na parede desse cemitério. Os seus olhos fitaram-se na Morte, nessa figura ao mesmo tempo sarcástica e terrível. Pareceu-lhe, então, que a morte levantava o braço descarnado e, com o ossudo dedo, apontava-lhe um túmulo entre as derradeiras sepulturas.

Para ela dirigiu-se a viúva e, quando lá chegou, pareceu-lhe ver com nitidez a Morte deixar cair o braço, e voltar à sua primitiva posição. Marcou então com um sinal a sepultura, foi procurar o coveiro e trouxe-o ao lugar designado, dizendo-lhe:

– Cava. É aqui. Eu assisti a essa operação. Queria acompanhar essa maravilhosa aventura até o fim.

O coveiro obedeceu. Ao atingir o caixão, ele ergueu a tampa.  A princípio, hesitara.  Mas a viúva lhe dissera, com firmeza:


– Abre. É o caixão do meu marido. Ele obedeceu, pois aquela mulher sabia inspirar em quem a ouvia a confiança que ela tinha em si mesma.

Apareceu, então, uma coisa milagrosa, e que eu vi com os meus próprios olhos. Não só o cadáver era o do seu marido, não só esse cadáver, afora a palidez, estava tal qual fora ele enquanto vivo, como até, depois que haviam sido raspados – isto é, desde o dia de sua morte –, os cabelos tinham crescido tanto que saíam como raízes por todas as fendas do caixão.

Então a pobre mulher inclinou-se para aquele cadáver que parecia apenas adormecido, beijou-lhe a testa, cortou uma mecha desses compridos cabelos, tão prodigiosamente crescidos na cabeça de um defunto, e mandou fazer um bracelete. Desde então, o entorpecimento noturno cessou.

E sempre que estava na iminência de sofrer um grande perigo, a viúva sentia uma suave pressão, um apertar amigo que lhe dizia que tomasse cuidado...


A Cabeça Decepada e Outros Contos de Terror - Alexandre Dumas - Triumviratus 2015