sexta-feira, 15 de julho de 2016

A Cabeça Decepada

– Eu acabava de sair da Abadia e atravessava a praça de Taranne para ir à rua de Tournon, onde morava – contou-nos o Sr. Ledru –, quando ouvi um grito de mulher pedindo socorro. Não podiam ser malfeitores, pois ainda não seriam dez horas da noite. 

Corri para onde ouvira os gritos e, ao clarão da lua, que saía de uma nuvem, vi uma mulher a debater-se em meio a uma patrulha de sans-culottes. A mulher também me viu e, percebendo pelos meus trajes que eu não era de todo um homem do povo, correu em minha direção, exclamando:

– Ah, felizmente aqui está o Sr. Albert, a quem conheço. Ele confirmará que eu sou realmente filha da lavadeira Ledieu.

E ao mesmo tempo a miserável, completamente pálida de trêmula, agarrou-se a mim como um náufrago à tábua de salvação.

– Ainda que sejas a filha da lavadeira Ledieu, não tens carta de civismo. Minha jovem, terás que me acompanhar ao corpo da guarda – disse um dos patrulheiros.

A moça apertou-me o braço. Senti quanta súplica, quanto terror havia naquele gesto. Compreendi tudo. Como ela havia-me chamado pelo primeiro nome que lhe ocorrera, chamei-a pelo primeiro nome que me passou pela cabeça:

– Como!  És tu, minha pobre Solange? – eu disse. – Então, o que te aconteceu?

– Ah, estão vendo, senhores? – tornou ela. – Bem, parece-me que nos poderias chamar cidadãos.

– Ouça, senhor sargento:  não é culpa minha se falo assim – disse a moça. – Minha mãe tinha fregueses da alta sociedade e ensinou-me a ser polida. De modo que adquiri esse mau costume, bem sei, esse costume da aristocracia. Mas – o que quer, senhor sargento? – não consigo perdê-lo.

Havia nessa resposta, dada com a voz trêmula, um imperceptível escárnio, que somente eu pude perceber. E perguntava a mim mesmo quem seria aquela mulher, o que era, aliás, um problema impossível de se resolver. O que, com certeza, fiquei sabendo foi que filha de lavadeira ela não era.

– Sabe o que me acontece, cidadão Albert? Eu fui levar a roupa lavada a uma freguesa e não a achei em casa; tive de esperar, para receber o meu dinheiro, que ela voltasse.  Ora, hoje em dia todos têm necessidade de dinheiro. Anoiteceu. Como eu esperava voltar a casa com a luz do dia, não trouxe comigo a carta de civismo.  Caí no meio desses senhores... perdão... desses cidadãos, que me pediram a carta.  Eu lhes disse a verdade, mas eles quiseram levar-me ao corpo guarda. Gritei e o senhor acudiu, justamente um conhecido meu. Então, tranquilizei-me. Disse comigo: “Já que o Sr. Albert sabe que eu me chamo Solange, já que sabe que eu sou filha da lavadeira Ledieu, ele responderá por mim.”  Não é mesmo, Sr. Albert?

– É claro que eu respondo por ela.

– Bem – disse o cabo da patrulha –, mas quem por ti responde, Sr. faceiro? – Danton.  Serve-te este?  E ele é um bom patriota? – Ah, se Danton responde por ti, nada há o que se dizer. – Pois bem. Hoje é dia de reunião nas Cordeliers.  Vamos ao clube. – Vamos – disse o sargento.  Cidadãos sans culottes, avante! Marchem! O clube dos Cordeliers ficava no antigo convento dos franciscanos, na rua da Observance.

Lá chegamos rapidamente. À porta, rasguei uma página de minha carteira, escrevi a lápis algumas palavras e entreguei o bilhete ao sargento, para que o levasse a Danton.  O sargento entrou no clube e voltou com Danton.

– Como! – disse-me ele. – Então te prenderam? A ti, meu amigo e de Camille! Um dos melhores republicanos que existem! Ora, cidadão sargento – acrescentou, voltando-se para o chefe dos sans culottes –, respondo por ele. Isto te é bastante?

– Respondes por ele. Mas repondes, também, por ela? – indagou o obstinado sargento.

– Por ela?  De quem estás falando?

– Ora, dessa mulher!

– Por ele, por ela, por todos quantos os cercam. Estás satisfeito?

– Sim – disse o sargento.

– E mais ainda por te ter visto.

– Ora, esta satisfação pouco te custa. Olha para mim a teu gosto enquanto aqui estou.

– Obrigado. Continua a sustentar, como fazes, os interesses do povo e, tenhas certeza, o povo te será agradecido.

– Sim! E eu conto muitíssimo com isso – disse Danton.

– Permite-me que eu te aperte a mão? – prosseguiu o sargento.

– Por que não? E Danton deu-lhe a mão.

– Viva Danton! – bradou o sargento.

– Viva Danton! – repetiu a patrulha.

E a patrulha retirou-se, conduzida pelo seu chefe que, a dez passos dali, voltou-se e, agitando o barrete vermelho, gritou mais uma vez “Viva Danton!”, grito que foi pelos seus repetido. Eu já ia agradecer a Danton quando o seu nome, repetido mil vezes no interior do clube, foi por nós ouvido. – Danton! Danton! – gritavam inúmeras vozes. – À tribuna!

– Desculpa-me, meu caro – disse ele. – Estás ouvindo. Apertemo-nos as mãos e nos separemos.

Dei a mão direita ao sargento; a ti, dou a direita. Quem sabe se o digno patriota não está com sarnas? E dando-nos as costas:

– Já vou! – disse com aquela voz poderosa que agitava e acalmava as tempestades das ruas. – Já vou! Esperem por mim! E entrou no clube.

Fiquei sozinho à porta com a minha desconhecida.

– Agora, senhorita – disse-lhe –, diga-me onde quer que eu a leve. Estou às suas ordens.

– Ora, para a casa da lavadeira Ledieu – respondeu-me, rindo. – Não sabe que ela é a minha mãe?

– E onde mora a Sra. Ledieu?

– Na rua Ferou nº 24.

– Pois vamos à casa da Sra. Ledieu, rua Ferrou nº 24.

E pusemo-nos a caminho. Descemos a rua Fosses-Monsieur-le-Prince, ganhamos a Rua Fosses-Saint-Germain e, depois, a rua do Petit-Lion. Chegamos à praça Saint-Sulpice, e, em seguida, à rua Ferou. Em todo trajeto, não trocamos palavra. Somente aos raios da lua, que brilhava com todo o seu esplendor, pude examiná-la com vagar.

Era uma encantadora moça de vinte a vinte e dois anos, morena, com grandes olhos azuis mais espirituosos que melancólicos, nariz fino e reto, lábios zombeteiros, dentes como pérolas, mãos de rainha e pés de menina. Tendo tudo isto, conservava, sob os vulgares trajes da filha da lavadeira Ledieu, um tom aristocrático que, com justa razão, despertara a desconfiança do valente sargento e da sua belicosa patrulha.

Paramos ao chegar à porta e olhamos, em silêncio, um para o outro.

– Então, o que deseja de mim, meu caro Sr. Albert? – disse-me, sorrindo, a desconhecida.

– Eu queria lhe dizer, minha cara senhorita Solange, que não valia a pena de nos termos encontrado para tão depressa nos separarmos.

– Ora, peço-lhe um milhão de desculpas. Pois acho que, muito pelo contrário, valia bem a pena, porque, se não o tivesse encontrado, eu teria sido levada ao corpo da guarda e, verificando eles que eu não era filha da lavadeira Ledieu, teriam descoberto que eu era uma aristocrata e, muito provavelmente, teriam cortado a minha cabeça.

– Então confessa que é uma aristocrata?

– Não confesso nada.

– Então ao menos diga-me o seu nome.

– Solange.

– Bem se vê que esse nome, que ao acaso eu lhe atribuí, não pode ser o seu.

– Não faz mal. Gosto dele. E conservo-o, ao menos para o senhor.

– Que necessidade há de conservá-lo para mim, se nós não nos veremos mais?

– Não foi isso o que eu disse. Falei, apenas, que, se nos tornarmos a ver, será inútil ao senhor saber como me chamo, assim como eu saber como o senhor se chama. Eu o chamei de Albert. Conserve esse nome, assim como eu conservo o de Solange.

– Está bem!  Mas ouça, Solange... – disse-lhe.

– Estou ouvindo, Albert – ela me respondeu.

– É uma aristocrata. Confesse!

– Se eu não confessasse, o senhor adivinharia. A minha confissão perde, pois, muito de seu mérito.

– E, na qualidade de aristocrata, está proscrita.

– Isto não é de todo inexato.

– E se oculta para evitar perseguições...

– Na rua Ferou nº 24, na casa da lavadeira Ledieu, cujo marido foi cocheiro do meu pai. Bem se vê que não tenho segredos para o senhor.

– E seu pai?

– Quanto aos que são somente meus, não tenho segredos para o senhor, meu caro Albert. Porém, os meus segredos não são os do meu pai. Meu pai também está escondido até achar uma ocasião de emigrar. É só o que posso dizer.

– E a senhorita, o que pretende fazer?

– Acompanhar o meu pai, se for possível. Se for impossível, deixá-lo partir sozinho e depois segui-lo.

– E hoje, quando foi presa, voltava da casa de seu pai?

– Sim.

– Ouça-me, querida Solange.

– Estou ouvindo.

– Viu o que aconteceu esta noite.

– Sim.  E pude verificar a medida de sua influência.

– Infelizmente, minha influência não é grande. Todavia, tenho alguns amigos.

– E nesta noite conheci um deles.

– E a senhorita bem sabe que ele não é dos homens menos importantes da época.

– Pretende empregar a sua influência para facilitar a fuga de meu pai?

– Não. Reservo-a para a senhorita.

– E para o meu pai?

– Para seu pai, tenho outro meio.

– Tem outro meio! – exclamou Solange, tomando-me a mãos e olhando para mim com ansiedade.

– Se eu salvar seu pai, conservará uma boa lembrança de mim?

– Serei grata ao senhor por toda a vida. E proferiu essas palavras com adorável inflexão de antecipada gratidão. Depois, olhando para mim, suplicante, disse:

– Mas isso lhe será suficiente?

– Sim – respondi.

– Oh, eu não estava enganada! O senhor tem um nobre coração. Agradeço-lhe em meu nome e em nome do meu pai. E mesmo que não tenhamos sucesso, ainda assim sou agradecida pelo que o senhor já fez.

– E quando nos veremos novamente, Solange?

– Quando o senhor precisa encontrar-me?

– Espero, amanhã, dar-lhe uma boa notícia.

– Então, vemo-nos amanhã.

– Onde?

– Aqui, se quiser.

– Aqui, na rua?

– Sim, aqui. Bem se vê que é o lugar mais seguro. Estamos a conversar há meia hora, junto a esta porta, e ninguém passou.

– Por que não vou à sua casa?  Ou a senhorita não vem à minha?

– Porque, se o senhor vier à minha casa, comprometo a boa gente que me dá asilo. Se eu for à sua, comprometo o senhor.

– Então, está bem. Pegarei a carta de civismo de uma das minhas parentes para a senhorita.

– Para que guilhotinem a sua parente, caso me prendam.

– Tem razão. Conseguirei uma carta com o nome de Solange.

– Muito bem. Verá que Solange terminará sendo o meu verdadeiro nome.

– A que horas nos veremos?

– À mesma em que hoje nos encontramos.

– Certo. Às dez horas. Mas, como nos reuniremos?

– Nada mais simples: às cinco para dez, o senhor estará na porta. Às dez, eu descerei.

– Então, até amanhã, às dez horas, querida Solange.

– Amanhã, às dez horas, querido Albert. Quis beijar-lhe a mão; ela me ofereceu a fronte.

No dia seguinte, às nove e meia, eu estava na rua. Às quinze para as dez, Solange abria a porta.  Cada um de nós comparecera ao encontro antes da hora marcada. Aproximei-me rapidamente.

– Vejo que me traz boas notícias – disse ela, sorrindo.

– Excelentes: primeiro, aqui está a sua carta.

– Falemos primeiro de meu pai.

– Seu pai estará salvo, se quiser.

– Se quiser, diz o senhor. Então o que deverá fazer?

– É preciso que confie em mim.

– Isto já está feito.

– A senhorita o visitou?

– Sim.

– Então quis se expor deliberadamente?

– O que fazer? Era necessário. Porém, Deus nos protege.

– E disse tudo ao seu pai?

– Disse que o senhor havia salvado a minha vida e que talvez, amanhã, salvasse a dele.

– Amanhã, sim. Justamente amanhã, se ele quiser.

– Como será, então? Diga, fale! Que admirável encontro será este se tudo isso se realizar.

– Somente... – disse, hesitando.

– Então o quê?

– A senhorita não pode acompanhá-lo.

– Oh, quanto a esse respeito, a minha decisão já está tomada!

– Depois, tenho certeza que conseguirei um passaporte para você.

– Falemos primeiro de meu pai. De mim, falamos depois.

– Pois bem. Eu lhe disse que tenho alguns amigos, não foi?

– Disse.

– Hoje mesmo fui visitar um deles.

– E então?

– Um homem a quem a senhorita há de conhecer de nome e este nome é uma garantia de coragem, de honra e lealdade.

– Qual é esse nome?

– Marceau.

– O general Marceau!

– Ele próprio.

– Tem razão. Se ele prometeu, cumprirá a promessa.

– Prometeu.

– Oh, quanta alegria eu lhe devo. Vejamos, o que ele lhe prometeu? Diga!

– Prometeu servir-nos.

– Mas como?

– Do modo mais simples. Kléber acabou de nomeá-lo general em chefe do exército do Oeste. Ele parte amanhã à tarde.

– Amanhã à tarde... Não temos tempo de preparar coisa alguma.

– Mas nada há o que preparar.

– Não estou entendendo...

– O general lavará consigo o seu pai.

– Meu pai?

– Como secretário. Chegando a Vendeia, seu pai há de obrigar-se para com Marceau a nunca servir contra a França e numa noite irá fugir para algum acampamento de vendeanos, daí irá à Bretanha e de lá embarcará para a Inglaterra. Quando se achar em Londres, mandará notícias. Conseguirei um passaporte para a senhorita, que irá encontrá-lo lá.

– Amanhã! – exclamou Solange. – Meu pai partirá amanhã!

– Mas não há tempo a perder.

– Meu pai não está ciente de nada.

– Conte-lhe tudo.

– Agora!

– Sim, agora!

– Mas como, a estas horas?

– A senhorita tem uma carta de civismo e eis aqui o meu braço.

– Tem razão. Dê-me a carta. Entreguei o documento a ela, que o meteu na bolsa.

– Agora, dê-me o seu braço. E vamos.

Descemos até a praça Taranne, onde na véspera eu a havia encontrado.

– Espere-me aqui – disse-me.

Assenti com uma mesura e esperei. Ela desapareceu na esquina do antigo palácio Matignon. Depois, ao fim de quinze minutos, voltou.

– Venha – disse ela. – Meu pai deseja vê-lo e agradecer-lhe.

Ela tomou o meu braço e me conduziu à rua de Saint-Guillaume, em frente ao palácio Mortemart. Ali chegando, tirou do bolso uma chave, abriu uma portinhola, deu-me a
mão, levou-me ao segundo andar e bateu de um modo especial.  Um homem de quarenta e oito para cinquenta anos abriu a porta. Estava vestido como um oficial mecânico e parecia exercer o ofício de encadernador. Mas logo às primeiras palavras que me disse, aos agradecimentos que me dirigiu, o fidalgo se revelara.

– Senhor – disse-me ele –, a Providência o pôs em nosso caminho e como enviado da Providência eu o recebo. Será verdade que pode e, especialmente, que quer me salvar?

Contei tudo a ele. Disse-lhe como Marceu se encarregara de levá-lo na qualidade de secretário e só lhe pedia a sua promessa de não se armar contra a França.

– Faço essa promessa espontaneamente e a repetirei.

– Agradeço-lhe em nome do general e do meu.

– E quando parte o general?

– Amanhã.

– Deverei ir para a casa dele este noite?

– Quando lhe aprouver. Ele já o espera.

O pai e a filha se entreolharam.

– Acho que seria mais prudente que o senhor fosse hoje mesmo, meu pai – disse Solange.

– Sim. Mas, se me agarrarem, não tenho carta de civismo.

– Aqui está a minha.

– E o senhor?

– Eu sou conhecido.

– Onde Marceu mora?

– Na rua da Universidade nº 40, na casa de sua irmã, senhora Desgraviers Marceu.

– O senhor nos acompanha?

– Eu os seguirei de longe. Escoltarei a senhorita, quando chegarmos.

– E como Marceu saberá que sou o homem de quem o senhor falou?

– Entregue-lhe esta roseta tricolor. É o sinal combinado.

– Como lhe mostrarei a minha gratidão?

– Entregando-me a salvação de sua filha, como ela me entregou a sua.

– Vamos.

Ele pôs o chapéu e apagou as luzes. Descemos ao clarão da lua que se infiltrava pelas janelas da escada. Na porta, ele deu o braço à filha, tomou à direita e, pela rua dos Santos Padres, foi ter à rua da Universidade. Acompanhei-os sempre a uma distância de dez passos. Chegamos ao nº 40 sem ter encontrado ninguém no caminho.

Aproximei-me deles.

– É um bom sinal – disse.

– Agora, quer que espere ou que suba?

– Não. Não se comprometa mais. Espere aqui por minha filha.

Inclinei-me, numa mesura.

– Mais uma vez – disse ele –, muito obrigado e adeus. A língua não tem palavras que traduzam os sentimentos que lhe dedico. Espere que Deus um dia me faculte a oportunidade de manifestar-lhe toda a minha gratidão.

Respondi apertando-lhe a mão. Entrou. Solange o acompanhou. Mas, antes de entrar, também apertou-me a mão. Após dez minutos, a porta se abriu novamente.

– Então? – disse-lhe.

– O seu amigo – respondeu-me Solange – é decerto digno de ser seu amigo. Quero dizer que tem todas as delicadezas. Compreende que eu ficaria feliz se ficasse com o meu pai até o momento de sua partida. A irmã do general mandou fazer-me uma cama no seu quarto. Amanhã, às três horas da tarde, meu pai estará fora de perigo. Amanhã, às dez das noite, como hoje, se o senhor entender que a gratidão de uma filha que lhe deve a salvação de seu pai vale a pena de o incomodar, vá procura-la à rua Ferou.

– Decerto irei. Mas o seu pai nada disse para mim?

– Nesta carta, que lhe dou, ele lhe agradece pelo que fez, e lhe pede que, quanto o mais depressa puder, faça-me sair da França.

– Há de ser quando a senhorita quiser – respondi com o coração constrito.

– Ao menos, gostaria de saber onde irei encontrar-me com o meu pai – respondeu, sorrindo-me. E prosseguiu: – Oh, o senhor ainda não está livre de mim!

Tomei a sua mão e a apertei de encontro ao peito. Exibindo-me a testa, como fizera na noite anterior, disse-me:

– Até amanhã. E, aplicando os meus lábios sobre a sua testa, não foi só a sua mão que estreitei em meu coração, mas também o seu coração palpitante.

Voltei à casa com o coração mais satisfeito do que nunca. Seria pela boa ação que eu acabara de praticar? Seria porque já amava aquela adorável moça? Não sei se dormi ou se fiquei acordado. Sei que em mim ecoavam todas as harmonias da natureza; sei que a noite me pareceu sem fim e o dia imenso; sei que, ao mesmo tempo, desejando precipitar as horas, desejava demorá-las para não perder um só minuto dos dias que ainda teria que viver. No dia seguinte, às nove horas, eu já estava na rua Ferou. Às nove e meia, Solange apareceu. Dirigiu-se a mim e apertou-me nos seus braços.

– Salvo! – exclamou. – O meu pai está salvo e devo ao senhor a sua salvação! Oh, como eu o amo!

Daí a quinze dias Solange recebeu uma carta anunciando-lhe que o seu pai estava na Inglaterra. No dia seguinte, levei-lhe um passaporte. Recebendo-o, Solange desfez-se em prantos.

– Então o senhor não me ama! – disse.

– Amo-a mais que a vida – respondi. – Porém, obriguei-me para com o seu pai, e antes de tudo cumpre desempenhar a minha palavra.

– Então – disse ela –, faltarei eu à minha. Se tem coragem de separar-se de mim, Albert, eu não tenho a de deixá-lo. Ai de mim! Ela ficou.


*******


Passaram-se três meses desde a noite em que tratamos da viagem de Solange. E, nesse período, nem uma só palavra de separação havia sido proferida. Solange queria morar na rua Taranne. Aluguei para ela um aposento sob o nome de Solange. Eu não lhe conhecia outro nome que não este, assim como ela somente me conhecia por Albert. Eu a fiz entrar num colégio de meninas, como professora, para assim melhor subtraí-la às investigações da polícia revolucionária, mais ativa do que nunca.

Aos domingos e às quintas-feiras passávamos juntos nesse aposento na rua Taranne. Da janela do quarto de dormir, víamos a praça em que pela primeira vez nos tínhamos encontrado. Cada dia recebíamos uma carta: a dela dirigida a Albert; a minha, a Solange. Esses três meses foram os mais felizes de minha vida. Entretanto, eu não tinha renunciado ao projeto que havia concebido depois de minha conversa com o criado do verdugo.

Tinha pedido licença para fazer experiências sobre a persistência da vida após a execução. Estas experiências me demonstraram que a dor continuava após o suplício na guilhotina, e que tal dor deveria ser terrível. Não se pode negar que a lâmina fere a parte mais sensível de nosso corpo, por ser a em que se acham reunidos os nervos.

No pescoço, enfeixam-se todos os nervos dos membros superiores: o simpático, o vago, o frêmio, enfim, a medula espinhal, que é a origem mesma dos nervos que pertencem aos membros inferiores. Ninguém negará que o quebrar, o esmigalhar da coluna vertebral óssea deva produzir dores mais atrozes que é possível à criatura humana sofrer.

Alguns dirão que essa dor dura apenas alguns segundos. Mas eu nego essa hipótese, com profunda convicção. E mesmo que tal dor dure apenas alguns segundos, a sensibilidade, a personalidade, o eu permanecem vivos. A cabeça decepada vê, sente, compreende e julga a segregação do seu ser. E quem dirá se a curta duração do sofrimento pode compensar a sua horrível intensidade?

Assim, compreendo que o decreto da assembleia, que substituiu a forca pela guilhotina, foi um erro humanitário. Creio que é mais doloroso ser decapitado do que enforcado. Quanto a isto, não tenho dúvida. Muita gente se enforcou ou foi enforcada e depois foi restituída à vida. Neste caso, pois, pode-se saber o que se sofre. É a sensação da apoplexia fulminante, ou seja, a de um sono profundo sem dor alguma especial, sem o menor sentimento de angústia.

Algo como uma chama salta diante dos olhos e logo toma a cor azulada e logo escurece. E, então, cai-se em uma síncope. Qualquer médico, como eu, sabe disto. O homem cujo cérebro é comprimido com o dedo em algum ponto em que falta o pedaço de crânio não sofre dor alguma. Adormece. Pois dá-se o mesmo fenômeno quando o cérebro é comprimido por uma erupção de sangue. Ora, no enforcado o sangue amontoa-se. Primeiro porque entra no cérebro pelas artérias vertebrais que, atravessando os canais ósseos do pescoço, não podem ser comprimidas. Em seguida porque, tendendo a refluir pelas veias do pescoço, acha-se impedido pela articulação que liga o pescoço e as veias.

Mas voltemos às minhas experiências. Infelizmente, não me faltava em que fazê-las. Estávamos no período mais ativo das execuções: trinta a quarenta pessoas eram guilhotinadas por dia e tanto sangue cobria a praça da Revolução que se fizera necessário escavar um fosso, de três pés de profundidade, em torno do cadafalso. Esse fosso era coberto de tábuas.

Certo dia, essa tábua cedeu quando sobre ela passava uma criança de oito ou dez anos. Ela caiu e afogou-se. Bem percebem que eu tinha todo o cuidado em não dizer a Solange como eu ocupava o meu tempo nos dias em que não a via.  Além disso, devo confessar que tinha a princípio sentido uma forte repugnância por aqueles míseros destroços humanos, e que me horrorizava com a lembrança das dores que minhas experiências talvez acrescentassem ao suplício.

Eu estava convencido, porém, de que esses meus estudos eram ditados pelo desejo de ser útil a toda humanidade, pois se conseguisse levar as minhas convicções a uma reunião de legisladores, talvez obtivesse a abolição da pena de morte. À medida que as minhas experiências iam dando resultados, eu os registrava em um relatório. Ao fim de dois meses, eu tinha feito todas as possíveis experiências acerca da persistência da vida após a execução. Resolvi levá-las ainda mais longe, se fosse possível, por meio do galvanismo e da eletricidade.

Entregaram-me o cemitério de Clamart e puseram à minha disposição todas as cabeças e corpos dos executados. Haviam transformado uma capelinha, a um canto do cemitério, em laboratório. Sabe-se que, depois que os reis foram expulsos de seus palácios, também foi Deus expulsos de suas igrejas. Nesse laboratório eu tinha uma máquina elétrica e três ou quatro desses instrumentos a que se chamam excitadores. Por volta das cinco horas chegava o terrível funeral: os corpos vinham atirados num carro, as cabeças dentro de um saco. Ao acaso, eu escolhia uma ou duas cabeças e um ou dois corpos.  Tudo mais era atirado numa vala. No dia seguinte, as cabeças e os corpos em que eu havia feito as experiências eram enterrados com os novos cadáveres desse dia. Quase sempre o meu irmão ajudava-me nessas experiências.


Entrementes a estes contatos com a morte, o meu amor por Solange aumentava dia a dia e, quanto a ela, a mísera menina amava-me com todas as forças de seu coração. Muitas vezes pensara em casar-me com ela, muitas vezes tínhamos calculado a felicidade que esta união nos traria. Mas para casar-se comigo, seria necessário que Solange declarasse o seu nome de família.  Mas esse nome era o nome de um emigrado, de um aristocrata, de um proscrito: a sua sentença de morte.

Seu pai por diversas vezes lhe havia escrito para apressar a sua partida. Ela, porém, revelou-lhe a nossa paixão e pediu seu consentimento para o nosso casamento. Ele o concedeu. Portanto, quanto a isso, tudo corria bem. Todavia, entre todos aqueles terríveis julgamentos, um ainda mais terrível nos entristeceu a ambos: o da rainha Maria Antonieta.

Instaurado no dia 4 de outubro, esse processo tramitou celeremente: no dia 14 ela já comparecera diante do tribunal revolucionário; no dia 16, às quatro horas da manhã, havia sido condenada; no mesmo dia, às onze horas, subira ao cadafalso. De manhã, eu havia recebido uma carta de Solange. Dizia-me que não queria passar esse dia sem me ver. Cheguei às duas horas ao nosso pequeno aposento da rua Taranne e a encontrei desfeita em prantos. Eu também estava profundamente abalado com aquela execução. Em minha infância, a rainha havia sido tão boa para comigo que eu conservava uma profunda recordação daquela bondade.

Oh, sempre hei de me lembrar daquele dia. Era uma quarta-feira. Havia em Paris mais do que tristeza: havia terror. Eu estava entregue a um singular desânimo, como um pressentimento de uma grande desgraça. Havia procurado dar força e ânimo a Solange, que chorava, caída em meus braços. Mas faltavam-me palavras de conforto, porque o consolo não estava em meu coração. Como de costume, passamos a noite juntos. E essa noite foi ainda mais triste do que o dia.

Lembro-me de que um cão, trancado no aposento sob o nosso, uivou até as duas horas da madrugada. No dia seguinte, soubemos por quê. O seu dono havia saído, levando a chave consigo. Na rua, fora preso e levado ao tribunal revolucionário. Condenado às três horas da tarde, fora executado às quatro. Urgia que nos separássemos. As aulas de Solange começavam às nove horas da manhã. Seu colégio era próximo ao Jardim das Plantas. Hesitei muito tempo em deixá-la partir. Ela mesma relutava em me abandonar. Mas ficar dois dias fora do colégio era expor-se às investigações, estas sempre nocivas em sua situação.

Chamei um coche e a levei até a esquina da rua dos Fossés-Saint-Bernard, onde apeei, para que ela seguisse sozinha ao internato. Em todo o caminho, tínhamos ficado abraçados, sem proferir uma só palavra, confundindo as nossas lágrimas, que escorriam até os nossos lábios, mesclando a sua amargura à doçura de nossos beijos.

Desci do carro, mas, em vez de retirar-me, fiquei como que grudado no mesmo lugar, para ver por mais tempo o coche que a levava. Vinte passos adiante, o carro parou e Solange passou a cabeça pela portinhola, como se adivinhasse que eu ainda me encontrava ali. Corri para ela. Entrei no coche, fechei-o e a apertei novamente nos braços. Mas davam nove horas em Saint Étienne-du-Mont. Enxuguei as suas lágrimas, selei os seus lábios com um tríplice beijo e, saltando, afastei-me correndo. Pareceu-me que Solange me chamava novamente. Mas todas essas lágrimas, todas essas hesitações podiam chamar atenção. Tive a fatal coragem de não me voltar. Entrei em casa desesperado. Passei o dia todo escrevendo a Solange.

À noite, enviei-lhe um volume. Acabava de levar a minha carta ao correio, quando recebi uma dela. Tinham-na repreendido. Haviam-na multiplicado de perguntas. Ameaçaram-na de privá-la de sua próxima saída. Tal saída seria no domingo seguinte. Solange, porém, jurara-me que iria encontrar-se comigo, ainda que fosse necessário romper com a diretora do internato. Eu também jurei. Parecia-me que, se ficasse sete dias sem vê-la, o que aconteceria se ela perdesse a saída de domingo, eu enlouqueceria. Ainda mais porque Solange manifestava alguma inquietação: uma carta que achara no colégio, ao lá retornar, enviada por seu pai, parecia-lhe ter sido violada. Passei uma péssima noite e pior ainda foi o dia seguinte.  Como de costume, escrevi a Solange e, como era meu dia de experiências, por volta das dez horas passei pela casa de meu irmão a fim de levá-lo comigo a Clamart. Não o achei em casa. Fui sozinho.

O tempo estava horrível. A natureza aflita dissolvia-se em chuva, uma chuva fria e torrencial que anuncia o inverno. Em toda a extensão de meu caminho, eu ouvia os pregoeiros públicos berrarem, com voz rouquenha, a lista dos condenados desse dia. Era longa. Havia homens, mulheres e crianças. A sanguinolenta ceifa era abundante e não haveria de me faltar, naquela tarde, objeto de estudo. Os dias terminavam cedo. Às quatro horas, quando cheguei a Clamat, era quase noite. O aspecto desse cemitério, com as suas vastas sepulturas recém revolvidas, com as suas árvores escassas, ressonando com o soprar dos ventos como esqueletos, era assustador e quase hediondo. Tudo o que não era terra revolvida era relva, cardos e urtigas.

A cada dia, a terra revolvida invadia ainda mais a área verde. Em meio a todas essas intumescências do terreno, a vala do dia estava aberta, e aguardava a sua presa. Haviam previsto um incremento no número dos supliciados, pois essa vala era maior do que costumava ser. Dirigi-me a ela maquinalmente. O fundo estava cheio d’água. Quão míseros não eram os corpos nus e frios que seriam lançados naquela água, tão gélida quanto eles! Ao aproximar-me da vala, escorreguei, e quase caí. Os meus cabelos se eriçaram. Eu estava molhado e com frio. Neste estado, cheguei ao meu laboratório. Era, como disse, uma antiga capela.

Procurei com os olhos... por que procurava, não sei... Procurei com os olhos se, na parede, ou no que teria sido o altar, restava algum sinal de culto: as paredes estavam nuas; o que fora altar, completamente demolido. No lugar em que estivera o tabernáculo (isto é, Deus, a vida), havia uma caveira (isto é, a morte, o nada). Acendi a minha vela, colocando-a sobre a minha mesa de trabalho, toda coberta de instrumentos de formato estranho, por mim mesmo inventados, e sentei-me, pensando... em quê?

Naquela pobre rainha que eu vira tão bela, tão feliz, tão querida; que na véspera, perseguida pelas imprecações de mil fúrias tinha sido levada ao patíbulo em uma carroça e que nesse momento, com a cabeça separada do corpo, dormia na vala dos indigentes, ela que havia dormido sobre os dourados tetos de Versalhes e de Saint-Cloud.

Enquanto eu mergulhava nessas sinistras reflexões, a chuva recrudescia, o vento dobrava de intensidade, soltando os seus lúgubres uivos por entre os galhos das árvores e as hastes das ervas, que crepitavam. Logo esse barulho confundiu-se com um lúgubre troar. Mas, ao invés de roncar nas nuvens, esse trovão vinha da terra e a fazia estremecer. Era o estrépito da carroça vermelha, que vinha da praça da Revolução e entrava no cemitério de Clamart. A porta da capelinha se abriu e dois homens, completamente molhados, entraram, trazendo um saco. Um desses era o mesmo Legros, a quem eu visitara na cadeia, e o outro era um coveiro.

– Aqui tem, senhor Ledru – disse-me o criado do carrasco. – Não é preciso que o senhor se apresse esta noite. Deixaremos toda essa mixórdia para o senhor. Amanhã faremos o enterro.  Oh, os cadáveres não irão gripar por passarem uma noite ao sereno!

E, com uma hedionda risada, estes dois assalariados da morte puseram o seu saco a um canto, junto ao antigo altar, à minha esquerda.

Depois saíram sem fechar a porta, que se pôs a bater, compassadamente, na moldura, deixando passar baforadas de vento que faziam vacilar a chama da vela, a qual subia lívida, moribunda, pelo pavio enegrecido. Eu os ouvi desatrelar os cavalos da carroça, fechar o cemitério e partir, abandonando a carroça repleta de cadáveres. Eu sentia uma grande vontade de ir-me com eles. Mas não sei o que me prendia àquele lugar, embora estremecesse todo. Certamente, não era de medo. Mas o ruído daquele vento, o crepitar daquela chuva, o gemer das árvores que se retorciam, o sibilar do temporal que fazia tremer a luz de minha vela, tudo isso vibrava em minha mente o vago pavor que, a partir da úmida raiz dos meus cabelos, disseminava-se por todo o meu corpo.

De súbito, pareceu-me que uma voz, ao mesmo tempo doce e lastimosa, saía do âmago da capelinha e pronunciava o nome de Albert. Oh, dessa vez estremeci. Albert! Somente uma pessoa no mundo me chamava assim. Meus olhos alucinados percorreram lentamente a capelinha – cujo recinto, embora limitadíssimo, não podia ser completamente iluminado por minha vela – e pararam sobre o saco encostado ao canto do altar: o tecido ensanguentado denunciava o seu fúnebre conteúdo. No momento em que os meus olhos se detiveram nesse saco, a mesma voz, porém mais débil e lastimosa, repetiu:

– Albert!

Ergui-me, gelado de pavor. Aquela voz parecia sair do interior do saco. Apalpei-me para ver se dormia ou se estava acordado. Depois, rígido, caminhando como um homem pétreo, com os braços estendidos, dirigi-me para o saco e nele mergulhei uma das mãos. Pareceu-me então que lábios ainda quentes encostavam-se na minha mão. Eu estava nesse grau de terror em que o excesso desse mesmo terror infunde-nos a coragem. Segurei essa cabeça e, voltando para a minha cadeira, em que caí sentado, coloquei-a sobre a mesa.

Oh, soltei um terrível grito! Aquela cabeça, cujos lábios pareciam ainda quentes, cujos olhos estavam entreabertos, era a cabeça de Solange. Julguei estar louco. Gritei, três vezes:

– Solange! Solange! Solange!

Ao terceiro grito, os olhos abriram-se, fixaram-se em mim, deixaram cair duas lágrimas e, lançando uma chama úmida, como se deles escapasse a alma, fecharam-se para não mais se abrirem. Levantei-me louco, perdido, furioso. Queria fugir. Mas, levantando-me, prendi na mesa a aba da casaca. A mesa caiu, fazendo com que a vela se apagasse. A cabeça rolou pelo chão, arrastando-me também.

Então pareceu-me que aquela cabeça, deslizando pelo declive das lajes, vinha em minha direção. Seus lábios encostaram-se aos meus. Um glacial calafrio percorreu todo o meu corpo. Soltei um gemido e desmaiei.

No dia seguinte, às seis horas da manhã, os coveiros encontraram-me tão frio quanto a laje em que eu caíra desfalecido.

Solange, denunciada pela carta do pai, tinha sido presa, condenada e executada no mesmo dia. E aquela cabeça que havia falado comigo, aqueles olhos que haviam me fitado, aqueles lábios que haviam beijado os meus lábios eram mesmo os lábios, os olhos e a cabeça de Solange.


A Cabeça Decepada e Outros Contos de Terror - Alexandre Dumas - Triumviratus 2015