quarta-feira, 20 de abril de 2016

A Propriedade Moses Day


Na movimentada Boston Road em Haverhill, Massachusetts, fica uma grandiosa casa colonial de doze cômodos do final do século XVII, conhecida pela Sociedade Histórica local como a Propriedade Moses Day. É uma das casas mais antigas na região e, por quatro anos, foi a casa que partilhei com Al (meu companheiro), minha mãe e meu tio Richard, que sofria de um caso grave de doença de Parkinson.

No dia em que comprei a propriedade, meu agente imobiliário - que alega ter visto a imagem fugidia de um fantasma da era colonial em uma cadeira de balanço do lado da lareira no quarto principal enquanto mostrava a casa a outro possível comprador - presenteou-me com uma dádiva de boas-vindas. Era um artigo de pesquisa maravilhosamente feito por um historiador local que catalogou em detalhes a história da Propriedade Moses Day, listando os nomes das pessoas que sabidamente viveram nela nos últimos trezentos anos. Incluía também a data de seus nascimentos e mortes.

Enquanto passava os olhos pelos inúmeros nomes dos antigos ocupantes da casa, não pude deixar de imaginar se os espíritos de alguma dessas pessoas poderia ainda estar habitando o lugar. Não foi muito depois de nos mudarmos para nosso novo lar que uma série de eventos incomuns e inexplicados começaram a ocorrer. Por alguma razão, muitos deles aconteciam no quarto principal, onde Al e eu dormíamos.

Certa vez, tarde da noite, o som lamentoso de uma criança chorando baixinho perturbou nosso sono. Parecia emanar de dentro da lareira do quarto principal, a qual, como as outras seis lareiras da casa, estava selada com tijolos por um número indeterminado de anos. Al e eu ouvimos esse choro sinistro em diversas ocasiões, apesar de só acontecer tarde da noite e parecia esperar até que tivéssemos adormecido. Algumas vezes, em vez do choro, ouvíamos uma voz sussurrante vinda da lareira, mas não importava quanta atenção prestávamos, nunca podíamos falar claramente o que ela estava dizendo.

O mistério da lareira assombrada do quarto principal despertou nossa imaginação e nos levou um dia a abri-la com um martelo para revelar quaisquer segredos sombrios e talvez centenários que lá se escondiam. Após derrubar os tijolos e olhar lá dentro, nossos olhos depararam-se com um amontoado de cinzas, ferrugem de chaminé e tijolos cobertos de creosoto, envolvido por teias de aranha grossas e cinzentas, em razão de décadas de pó acumulado.

Usando uma pá, começamos a limpar a lareira e ficamos perplexos quando encontramos um grande osso no meio da sujeira. De início pensamos que era humano, mas depois descobrimos que era, na verdade, o osso da perna traseira de um cachorro. Isso apenas levantou novas questões sobre o mistério. Onde estava o resto do esqueleto do cachorro? Por que razão um de seus ossos foi selado na lareira do quarto principal tanto tempo atrás? E seria o choro fantasmagórico que ouvíamos com frequência à noite, talvez de uma criança fantasma morta há muito tempo, um lamento pela perda de um animal de estimação muito amado no passado tão longínquo? Só pudemos imaginar.

Al e eu ouvíamos com frequência à noite o que parecia ser o som de passos vindos do sótão sobre nosso quarto e, uma tarde em que Al estava me ajudando a guardar as roupas lavadas, um aspirador de pó no outro lado do cômodo repentinamente ligou-se sozinho, dando-nos um enorme susto, para dizer o mínimo! Uma noite, quando estávamos dormindo no quarto principal, tive um sonho incomum e assustador. Era o tipo de sonho que parece tão real que é impossível não imaginar se não seria mais que um simples sonho.

No meu caso em particular, senti que algo sobrenatural estava usando meu sonho para comunicar-se comigo: sonhei que acordei sozinha no quarto, levantei-me da cama e desci as escadas até a sala de estar. A televisão estava ligada, mas não tinha som e, em frente a ela, eu vi Al levitando de costas no ar em algum tipo de transe, com seus olhos bem abertos. Como se alguém controlasse todos os meus movimentos, comecei a andar em direção à cozinha onde, no escuro, pude ver uma coisa escura e sem forma definida se materializar e em seguida começar a mover-se lentamente em minha direção. Tomada pelo terror, gritei e então despertei do sonho. Como no sonho, vi-me sozinha no quarto. Desci as escadas para encontrar Al e do corredor no fim delas pude ver a luz da televisão vinda da sala de estar, mas não havia som. O volume tinha sido diminuído totalmente ou estava tão baixo que mal podia ser ouvido.

Sentindo-me um pouco preocupada em virtude das similaridades entre o que acabara de experimentar no sonho e o que estava experimentando acordada, entrei na sala de estar, sem saber o que esperar. Encontrei Al no chão em frente à televisão. Ele estava dormindo e seu corpo estava na mesma posição, de costas. Então ouvi um estranho som vindo da cozinha e pensei se deveria investigar. Entretanto, meu medo de reencontrar a entidade sem forma e escura que vira antes em meu sonho era muito maior que minha curiosidade. Então, em vez de fazer isso, acordei Al e o levei de volta para a cama.

No ano seguinte, conforme a condição de meu tio Richard piorava e ele foi ficando cada vez mais frágil e fraco, uma onda de atividades do tipo de poltergeist começou em seu quarto. Cestas de roupa suja eram viradas no chão e gavetas pesadas cheias de roupas eram lançadas da penteadeira e acabavam do outro lado do quarto. Surgiu um pequeno buraco na parede e, como se estivesse sendo escavado aos poucos, ia crescendo a cada dia que passava até que tinha uns trinta centímetros de diâmetro. Acamado e progressivamente delirante, tio Richard não tinha forças para fazer tal coisa.

Ele começou a ver pessoas estranhas em seu quarto quando não havia ninguém com ele. E, certa vez, exigiu com raiva que minha mãe explicasse quem eram aquelas pessoas e por que ficavam entrando em seu quarto à noite, acordando-o. Ele contou-lhe que elas sussurravam e resmungavam coisas estranhas para ele de maneira ininteligível. Minha mãe achou que ele ficara louco. À noite podíamos ouvi-lo em seu quarto conversando com seus visitantes espectrais. Às vezes, ele tinha longas conversas com eles, contando piadas e rindo. E, às vezes, parecia-nos que ele estava falando de trás para frente ou em alguma língua estrangeira irreconhecível, que se diz ser uma das características comuns de quem está possuído. Em certas ocasiões, ele ficava bastante irado e ordenava-lhes que saíssem de seu quarto. Uma vez o ouvimos conversando com sua mãe, que morrera quinze anos antes.

Conforme a morte aproximava-se dele, a condição mental de tio Richard começou a deteriorar rapidamente, deixando o resto de nós incertos se as visitas noturnas que ele alegava estar recebendo não seriam nada além do resultado da demência causada por sua doença ou se eram espíritos reais dos mortos que vinham chamá-lo. Afinal de contas, estávamos mesmo vivendo em uma casa onde fenômenos paranormais foram presenciados em uma oportunidade ou outra por todos os membros da família. Mas, sem dúvida, uma das coisas mais estranhas e assustadoras que experimentamos com meu tio foi a noite em que minha mãe, Al e eu o escutamos sozinho em seu quarto falando em diferentes vozes, incluindo uma que parecia com a voz de uma mulher. Intrigados, nós três ficamos no pé da escada por um bom tempo e escutamos com atenção a conversa bizarra e ininteligível que estava acontecendo no escuro atrás da porta. Entretanto, quando as vozes começaram a falar simultaneamente, olhamos uns para os outros com horror e confusão estampados em nossos rostos.

Al sugeriu que subíssemos as escadas para checar como estava Richard, mas nenhum de nós se sentiu confortável para fazer isso naquele momento. Quando a conversa foi substituída por um silêncio espectral, nós três juntamos coragem suficiente para subir nas pontas dos pés até o quarto com uma lanterna. Encontramos tio Richard dormindo um sono solto em sua cama. Olhamos em volta, mas não parecia haver nada fora do lugar no quarto.

Na noite seguinte, quando fui dar ao tio Richard seu remédio, encontrei-o em sua cama com seus olhos encarando inexpressivamente e sua boca aberta e contorcida de forma assustadora. Sua pele estava pálida e fria e eu soube imediatamente que ele estava morto. A expressão em seu rosto era terrível. Parecia que ele literalmente morrera de tanto medo.

Cremamos o corpo do tio Richard e suas cinzas foram devolvidas a nós em uma pequena urna crematória, que coloquei sobre meu altar no sótão e rezei sobre ela. Não muito depois de sua morte, minha mãe teve uma experiência assustadora em seu quarto. Ela acordou uma noite e encontrou uma renda amarelada e em decomposição amarrada em volta de seu pescoço. Quando ela a mostrou a mim na manhã seguinte, recebi dela a impressão psíquica de que viera da mortalha de um corpo. Eu senti também que o corpo era de alguém que vivera na casa muito tempo atrás e cujo espírito nela remanescia. Como ou por que o pedaço de renda acabou aparecendo no quarto de minha mãe provavelmente nunca saberemos.

Al também foi alvo dos mortos sem descanso da Propriedade Moses Day em diversas ocasiões. Numa tarde, quando estava cortando a grama, ele foi atingido por diversas garrafas de vidro e latas de refrigerante jogadas por forças invisíveis. Noutra ocasião, enquanto varria as folhas no lado sul da casa, uma tela de uma das janelas do segundo andar se soltou e caiu no chão, quase acertando sua cabeça. Entretanto, esses ataques inexplicados e outros similares nunca assustaram muito o Al. Em vez disso, ele achava esses fenômenos muito fascinantes e, algumas vezes, até divertidos.

Uma noite, enquanto minha mãe e eu estávamos na cozinha discutindo por alguma coisa, fomos interrompidas por uma rápida sucessão de pancadas fortes. Pareciam vir do sótão, onde guardávamos as cinzas do tio Richard enquanto decidíamos o que fazer com elas. Subimos até o topo da escada do sótão para investigar, mas não conseguimos encontrar nenhuma explicação para as pancadas. Perguntamo-nos se poderia ser um sinal de que o espírito do tio Richard estava se sentindo incomodado com nossa discussão, ou se estava tentando nos dizer que não estava conseguindo descansar em razão de seus restos mortais esquecidos no sótão. Na primavera seguinte enterramos as cinzas de Richard em uma cova sem marca no terreno, e um sentimento de calma pareceu tomar toda a casa. Sentimos em nossos corações que o espírito de Richard finalmente conseguira descansar em paz.

Em dezembro de 1990, vendemos a Propriedade Moses Day e nos mudamos de volta para o San Fernando Valley, ao norte de Los Angeles. Ficamos lá por três anos até que tive uma perturbadora premonição que nos levou a mudar de volta para a região leste. Aproximadamente três semanas após deixarmos a Califórnia, um terremoto devastador atingiu o San Fernando Valley, registrando 6.7 na escala Richter.

"Em quase todas as famílias há registro de como alguém 'ouviu vozes que os outros não conseguiam ouvir', ou dos mortos falando em tom familiar. Daí a crença em fantasmas, assim que os homens começaram a preocupar-se com a morte ou a sentir falta dos que já partiram" - Charles Godfrey Leland.


Fonte: Guia das Bruxas sobre Fantasmas e o Sobrenatural - Gerina Dunwich - 2003, Madras Editora Ltda.