quinta-feira, 24 de março de 2016

Os Náufragos


Em "Os Náufragos", de 1944, o narrador recorda os desastres marítimos de sua infância. Quando havia gente rica a bordo, os naufrágios traziam alegria para a comunidade pobre. Eram dias de festa, com romaria e os pescadores cantando ...

A paisagem era baixa, escura e surda. Não se via logo o mar, mas desde longe pressentia-se a sua presença. E naquele lugar, onde eu sonhara tanto na minha infância, não havia dias, nem tardes, nem crepúsculos – não sei por que estranho acaso era sempre o mesmo tempo, a mesma hora indefinida, a mesma estabilidade na cor e a mesma doentia densidade nos minutos. Lembrava-me de coisas que decerto nunca tinham existido por ali: rochas, rochas bem nuas batidas pelo mar, palmeiras, areias claras como tantas vezes vira nas praias dos meus primeiros anos.

– Quem vem lá? – gritava eu assim que pressentia o menor rumor.

Às vezes não era ninguém, apenas o vento. Dir-se-ia que ali era ele mais forte e mais constante do que em todas as partes do mundo. O vento ali era soberano. Mas outras vezes, através daquele perpétuo entardecer que cobria a restinga, ouvia uma voz – um brado – alguém que se perdera, um caminhante ou um antigo conhecido de meu pai. Acendia então a lanterna e balançava-a para guiar melhor o visitante. Não raro, contavam-me histórias de naufrágios.

Às vezes histórias antigas, de vez em quando histórias modernas, o “Helena”, o “Duquesa Alisa”, “Abaeté” e outros, que povoam o mar de destroços e o lugar de um terror mais acentuado ainda. O “Duquesa Alisa” explodira não muito longe da rocha alta, a alguns quilômetros de distância, numa noite em que havia festa a bordo. Mais tarde, encontraram os corpos despedaçados, alguns ainda com joias, mulheres com diademas, homens com fraques pela metade.

Recolheram todos os anéis e todos os broches dos ricos que viajavam no navio sinistrado, levando-os mais tarde, em romaria, à Virgem Padroeira da restinga. Foi um dia de festa, os pescadores cantando, a caixa na frente, com as joias retiradas dos afogados. Por isto é que a Virgem, tão pequena, ostenta hoje um tão grande número de joias.

– Quem vem lá? – pergunto ainda quando acordo de noite e escuto o vento monótono, o eterno vento, passar acima do teto da cabana.

Ninguém responde. Há anos que ninguém responde coisa alguma. Meu avô, que também não dorme e acredita no castigo que nos espera além túmulo, tosse do seu canto e ri:

– Não é ninguém, menino, são os mortos do “Duquesa Alisa” que ainda procuram repouso.

Às vezes, para provar o que diz, ele sai em longas peregrinações pela praia, gastando nisto quase metade do dia – tão longe é o mar, tão grande é a praia. Volta com panos, madeiras, restos de embarcações, onde pinta em letras brancas e azuis, letras trocadas, conforme seu vocabulário: I – R – E – N – E. E outros nomes, como Maria Isabel, Julia, Marcelo, Joaquim e Teresa. Pergunto-lhe o que significam. Não me responde, apenas levanta os ombros e vai colocar as tábuas na cerca mais próxima, afirmando depois, quando está de bom humor, que assim pode auxiliar o espírito dos que morreram nos naufrágios, pois, depois de mortos, a única coisa que reconhecem são as letras dos nomes que usaram nesta vida.

Uma vez, vimos um navio grande apitar através da bruma. O mar, forte, fazia um rumor fora do comum.

– Deve estar em perigo – avisou meu avô.

Fomos até a praia, afrontando o vento e a neblina fria que vinha do mar. De novo ouvimos o apito, surdo, como se estivesse chamando por socorro.

– Estão talvez à procura de alguém, um barco de pescadores – disse de novo o meu avô.

Mas a cerração era muito forte e não víamos coisa alguma. Gastamos inutilmente várias horas, sem que nada conseguíssemos divisar. Só aquele apito surdo, intermitente, que às vezes rasgava a bruma e vinha até nós como uma sinistra advertência. Voltamos apreensivos, sem trocar palavra. Comigo mesmo imaginava que a Virgem da restinga ia ganhar mais algumas joias. E foi naquela noite, precisamente, que ouvimos falar na velha que provocava desastres.

– É ela quem comanda a Costa do Infortúnio – afirmou Simeão, descansando sua rede gasta num canto da sala.

Ainda não ouvira falar na misteriosa velha, por isto, com o coração trêmulo, aproximei-me da mesa, em torno da qual os velhos se reuniam. O rumor do mar era tão grande que as águas pareciam estar apenas a alguns passos de nós.


Os Náufragos - Lúcio Cardoso (publicado no jornal "A Manhã" em 1944)