quinta-feira, 24 de março de 2016

Ladrões de Cadáveres - I

Body Snatchers desenterrando um cadáver recém-enterrado (The Independent, EUA, séc. 19)

Antes da promulgação da Lei da Anatomia em 1832, os únicos cadáveres que se podiam usar para fins de estudo anatômico no Reino Unido eram os dos condenados a morte e dissecação pelos tribunais, ocasionando, assim, falta desse material para as escolas de medicina e anatomia.

No século XIX somente 55 pessoas foram condenadas a forca por ano, enquanto as escolas precisavam de pelos menos 500 corpos. Então, se recorreu aos ladrões de túmulos e assassinos de indigentes, para a obtenção de cadáveres, viabilizando o estudo de órgãos e tecidos por acadêmicos de medicina.

Roubar cadáveres era um delito menor, punível somente com multas e detenção. A venda de corpos era um negócio muito lucrativo e os infratores assumiam o risco de uma detenção, especialmente quando as autoridades fechavam os olhos, ao considerar que se tratava de um mal necessário.

Essa prática ficou tão comum nessa época, que não era raro parentes e irmãos de um recém falecido ficassem vigiando o corpo até o enterro, e que depois disso vigiassem também a tumba para evitar que a mesma não fosse violada. Os ataúdes de ferro começaram a ser usados com frequência, assim como uma armação de barras de ferro chamada de "mortsafe", se encontrando algumas bem conservadas na igreja de Geryfriars (Edimburgo).

Nos Países Baixos os hospícios costumavam receber uma pequena parte das multas que as empresas funerárias pagavam por infringir as leis sobre enterros e revender os corpos (normalmente daqueles que não tinham parentes) aos médicos.

Um método utilizado pelos ladrões de cadáveres ou "Body Snatchers", era cavar na frente de um túmulo novo, usando uma pá de madeira (mais silenciosa do que a de metal). Quando chegavam ao caixão (em Londres as sepulturas eram superficiais), o quebravam e amarravam uma corda no defunto e o puxavam. Tinham o cuidado de não se apossarem de joias ou roupas, para não transformar o pequeno delito em crime grave (essa última parte, no mínimo, curiosa ou difícil de se crer).

O "The Lancet", revista médica britânica, relatou um outro método: retirava-se uma parte do gramado que ficava a uns cinco ou seis metros da tumba, onde era escavado um túnel até o caixão, de onde o cadáver era removido. A vantagem desse método, era que os parentes que vigiavam as tumbas, não notavam nada de anormal. O artigo da revista sugere que o número de caixões vazios descobertos "prova além de qualquer dúvida de que, neste momento, o roubo de corpos era frequente."

Nos Estados Unidos, no final de 1800, a maioria das pessoas não estavam abertas à ideia de doar seus corpos para a ciência, e assim (como na Europa) era muito difícil para as escolas de medicina dessa época adquirir cadáveres frescos para os alunos dissecá-los e estudá-los.

Assim, toda uma indústria subterrânea foi desenvolvida na Costa Leste americana - uma indústria dedicada a roubar cadáveres e vendê-los para escolas médicas. Eram os "Body Snatchers", ou "Ressurreicionistas", como eles chamavam a si mesmos, que como abutres, rondavam os cemitérios à procura de escavações frescas e subornando agentes funerários para facilitar o roubo dos cadáveres.

Eles até entravam em asilos e se faziam passar por parentes de idosos que lá faleciam, para que pudessem reivindicar seus corpos.


Fontes: offbeat OREGON; Wikipédia; Bailey, J. B. (1896). The diary of a resurrectionist, 1811-1812. Londres: S. Sonnenschein & co.