terça-feira, 23 de outubro de 2012

Páscoa: desgraças em cadeia


A curiosa e deprimente paisagem da Páscoa, as "cabeças de pedra", as enigmáticas galerias subterrâneas foram a base de inúmeras lendas, e agora é a vez da ficção científica. Um romancista americano acha até que Páscoa é o fragmento de um mundo destroçado que caiu sobre a Terra. Naturalmente trata-se de hipótese totalmente irreal, mas aquela ilha perdida na imensidade de oceano e céu não sugere a idéia de um asteróide?

Quando Roggeveen desembarcou, encontrou de 5 a 6 mil habitantes que logo iriam ter péssima impressão de seus hóspedes: em meio a injustificado tiroteio doze indígenas foram mortos, e a partir de então a história dos habitantes da ilha foi uma sucessão de desgraças.

Em 1859 e 1862 desembarcaram na ilha bandos de aventureiros peruanos sem escrúpulos, que reduziram à escravidão e deportaram para as terras do guano o povo inteiro, inclusive o rei Marata. O bispo de Taiti, Jaussen, enviou à Lima enérgico protesto, conseguindo a repatriação dos infelizes. Mas só alguns voltaram, trazendo varíola, lepra e sífilis, além de outras doenças contraídas nos luga­res insalubres onde foram obrigados a trabalhar.

Em 1864, quando o Padre Eynaud, primeiro missionário, desembarcou em Páscoa, encontrou somente poucas centenas de pessoas em muito mau estado. Contudo, o capitão do navio, que havia trazido o missionário, achou-os plenamente aptos para trabalhar como escravos nas plantações de Taiti, e assim uma centena de habitantes novamente conheceu a deportação.

Aos poucos restantes, o destino reservava outra desventura: chegou à ilha um embusteiro chamado Dutroux-Bornier que, afirmando ter comprado aquela terra ao rei de Taiti (ao qual parecia pertencer, não sabemos porquê), apoderou-se da única riqueza dos indígenas — alguns rebanhos de magras ovelhas — e instaurou um regime tão tirânico que os pascoanos, embora tímidos e pacíficos, acabaram por assassiná-lo.

Morto o rei de Taiti, Tati Salmon, a ilha foi herdada pela família Brander, que em 1888 a vendeu ao Chile, do qual ainda hoje é a única colônia.

Quando falamos na Ilha da Páscoa, a primeira imagem que aparece é a das gigantescas cabeças de pedra, os monumentos mais esquisitos e imponentes da Terra. Foram entalhadas em pedra vulcânica: no interior da cratera foram esculpidos 300 e depois erguidos e transportados sobre plataformas até 16 quilômetros de distância. Alguns desses colossos pesam 30 toneladas e sua altura varia entre 3,50 e 20 metros; existe um, inacabado, que mede bem uns 50 metros!

Interrogados sobre a origem dessas estátuas, os habitantes nunca souberam dar explicação alguma; isso sem dúvida deve-se ao fato de que com o rei Marata foram deportados os sábios pascoanos, depositários das tradições, que sem dúvida poderiam ter narrado coisas interessantíssimas não apenas sôbre o passado de sua pátria, mas também sobre as mais antigas e enigmáticas civilizações da Terra.

Restaram, é verdade, algumas tabuinhas de madeira (que não é da ilha), gravadas com caracteres que lembram em parte quer os hieróglifos da América pré-colombiana, quer os descobertos há alguns anos no vale do Indo e que remontam a cerca de 3.000 anos a.C.; mas parecia impossível conseguir decifrar aquelas tabuinhas.

Entretanto, a chave existia: encontrou-a aquele Bispo Jaussen que se havia preocupado com a deportação dos habitantes da ilha. Mas ninguém nada soube, até que em 1955 o Doutor Thomas Barthel, arrojado antropólogo alemão, concluiu suas apaixonantes pesquisas.

O cientista obteve, em 1953, algumas fotografias dos documentos manuscritos, estudados pelo culto bispo, descobrindo que Jaussen, interrogando os pascoanos que ficaram na ilha de Taiti para trabalhar, conseguira decifrar parte dos "paus cantantes", isto é, as tabuinhas que ficaram silenciosas para muitos especialistas.

O antropólogo chegou assim a compreender o significado de parte dos hieróglifos, mas para completar o trabalho faltava-lhe consultar os outros apontamentos de Jaussen. Onde encontrá-los? O bispo pertencera à congregação do Sagrado Coração, cuja sede deveria estar em Braine-le-Comte, Bélgica. O Doutor Barthel dirigiu-se para lá, onde descobriu que os religiosos haviam deixado para sempre aquela localidade. O acaso o levou, a seguir, à abadia de Grottaferrata, aos pés dos Montes Albanos, e lá ele encontrou as preciosas anotações que lhe permitiriam ler o passado de Páscoa.

Em quase todos os "paus cantantes" estão gravadas rezas pagãs, de acordo com um sistema denominado bustrophedon, pelo qual se inicia a leitura pela parte inferior, da esquerda para a direita, virando-se a tabuinha a cada linha.

"Eles chegaram de Rangitea" — revela o mais conhecido desses documentos, — "desembarcaram sobre esta ilha e rezaram ao deus de Rangitea..."

Isso confirma, entre outras coisas, a origem polinésica dos atuais habitantes da Páscoa, que lá devem ter chegado das superpovoadas Ilhas da Sociedade, em particular de Raiatea (ou Rangitea), em fins de 1200.

O notável trabalho do Bispo Jaussen e do Doutor Barthel nos permite formular uma hipótese sobre a origem das "cabeças de pedra": os gigantescos monumentos seriam muito menos antigos do que há alguns anos acreditávamos; os mais antigos remontariam à metade de 1.300, e todos deveriam ser encarados como simulacros de "grandes progenitores", em honra dos quais os pascoanos teriam celebrado rituais mágicos e sacrifícios humanos.

Como os ilhéus tenham conseguido transportar por longos trechos e levantar as pesadas estátuas com os meios rudimentares de que dispunham é um mistério. Thor Heyerdhal, chefe da famosa expedição da "Kon Tiki", afirma que a tração teria sido feita com cabos de ráfia e outras fibras vegetais, sobre cilindros de madeira, e a ereção realizada com planos inclinados construídos com areia e pedras. Mas os pascoanos não podiam, de maneira alguma, lançar mão de toras, porque, dado o estrato de terra demasiado fino que recobre as rochas vulcânicas, a ilha não pode sustentar árvores.

Além disso, por qual razão de todos os polinésicos só os emigrados de Rangitea tiveram a idéia de erguer tais monumentos? Ninguém nos poderá dizê-lo com certeza. Também o fato de muitas cabeças se apresentarem caídas e a escultura de outras ter sido repentinamente suspensa permanece obscuro: alguns falam numa revolução religiosa que teria levado à supressão do culto dos antepassados, e essa parece, para muitos, a única explicação viável.
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Fonte: KOLOSIMO, Peter - Antes dos Tempos Conhecidos -  Edições Melhoramentos - 4.a Edição  - 1968.