domingo, 14 de agosto de 2011

Um Acusador Fantasmagórico

Ouvi contar a história que me parece verídica de um homem trazido à barra da justiça por suspeita de assassinato, mas de um assassinato que ele não imaginava ser possível ao conhecimento humano desvendar.

Quando teve de fazer juramento no tribunal declarou-se inocente, e a corte começou a carecer de provas, só aparecendo suspeitas e circunstâncias. No entanto, todas as testemunhas possíveis foram examinadas, colocando-se estas, como é de costume, num pequeno estrado, para serem visíveis de todo o tribunal.

Quando a corte pensou que não tinha mais testemunhas para inquirir e já estava o homem prestes a ser absolvido, ele deu um salto no lugar onde se achava, como se alguma coisa o amedrontasse. Recobrando, no entanto, a coragem, apontou com o braço para um sítio onde se situavam usualmente testemunhas para depor em julgamento, e fazendo sinais com a mão disse:

- Meritíssimo. Isso não é justo. Isso não é legal. Ele não é uma testemunha legal!

A corte ficou surpresa e não podia entender o que queria dizer o homem. Mas o juiz, um homem de mais penetração, compreendeu o que se passava e, fazendo calar alguns da corte, que desejavam falar e que talvez tivessem ajudado o homem a recuperar a razão, disse:

-Quietos! - disse ele. - O homem vê alguma coisa mais do que nós vemos. Começo a entendê-lo.

E, virando-se para o prisioneiro:

-Como? - disse ele. - Ele não é uma testemunha legal? Creio que a corte aceitará o que disser quando vier a falar.

-Não, Meritíssimo. Não é justo. Não pode ser permitido - declarou o prisioneiro, com uma veemência confusa em sua fisionomia que demonstrava que ele tinha um coração audaz, mas uma consciência culpada.

-Por que não, meu amigo? Que razão você apresenta para isso? - perguntou o juiz.

-Meritíssimo - respondeu este -, nenhum homem pode ser testemunha em causa própria. Ele é uma parte, meritíssimo. Ele não pode ser testemunha.

-Mas você se engana - disse o juiz pois você é indiciado em nome do Rei, e o homem pode ser uma testemunha do Rei, como no caso de um assalto nas estradas nós sempre permitimos que a pessoa assaltada apareça como testemunha, porque, se não fosse assim, o assaltante não poderia ser condenado. Mas nós ouviremos o que tem a dizer quando for inquirido.

Isso foi dito pelo juiz com tanta gravidade e de uma forma tão natural que o criminoso no banco dos réus respondeu:

-Se o senhor permitir que ele seja uma testemunha, eu serei um homem morto.

Essa última palavra ele a pronunciou em tom mais baixo do que o resto, mas pediu uma cadeira para sentar-se.

A corte ordenou que lhe fosse dada uma cadeira, a qual, se não lhe houvesse sido oferecida, teria feito uma falta capaz de fazê-lo cair ao chão. Observou-se que, quando se sentou, aparentava grande consternação e que levantou as mãos várias vezes, repetindo:

-Sou um homem morto! Um homem morto!

Por fim, o juiz disse-lhe:

-Olhe aqui, Senhor... (chamando-o pelo nome). Não lhe resta mais do que um caminho, e eu o lerei para o senhor, do texto das Escrituras.

E, pedindo uma Bíblia, ele a abriu no Livro de Josué, e leu o texto de Josué 7, 19: "Então disse Josué a Acã: Filho, dá glória ao SENHOR Deus de Israel, e a ele rende louvores; e declara-me agora o que fizeste, não mo ocultes".

A essas palavras, o assassino que se condenava a si mesmo rompeu em choro e em lamentação por sua miserável condição, e fez uma inteira confissão do crime. E, quando a terminou, explicou da seguinte maneira os motivos de sua surpresa: que vira a pessoa assassinada no estrado das testemunhas, pronta a ser inquirida e prestes a mostrar a garganta que fora cortada pelo prisioneiro, e que, como disse o réu, permaneceu olhando-o com uma terrível fisionomia. E isso o deixou atônito, como é natural. E, contudo, não houve aparição real, não houve espectro ou fantasma. Tudo lhe pareceu existir por causa de sua culpa e pela agitação de sua alma, inflamada e surpreendida pela influência da consciência.


Daniel Defoe (1660-1731), o célebre autor de As aventuras de Robinson Crusoé foi um dos mais prolíficos escritores que se conhece, com mais de 500 títulos publicados. Entre os inúmeros gêneros que abordou (religião, política, sociologia, história, ficção, poesia) no seu jornal The Review (que ele escrevia praticamente sozinho). Defoe acreditava profundamente na reencarnação e escreveu  Contos de Fantasmas baseado em entrevistas ou relatos conhecidos. Segundo ele, os episódios aqui relacionados – com exceção dos que estão agrupados sob o título de "Falsos fantasmas" – são todos verdadeiros e, em alguns deles, ele estaria disposta a ir em juízo, levando testemunhas e provas concretas. "A aparição da senhora Veal" é um dos exemplos.