quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O Cão Da Morte

Foi por intermédio de William P. Ryan, correspondente de um jornal americano, que ouvi falar pela primeira vez no caso. Estava jantando com ele em Londres na véspera de seu regresso a Nova York e, por acaso, mencionei que na manhã seguinte pretendia ir a Folbridge.

Ele levantou os olhos e perguntou abruptamente:

- Folbridge, na Cornualha?

Ora, é raríssima a pessoa que sabe que existe Folbridge, na Cornualha. Todo mundo sempre pensa que se trata de Folbridge em Hampshire. Por isso o conhecimento de Ryan despertou minha curiosidade.

-É - respondi. - Você já esteve lá?

Ele limitou-se a praguejar. Depois perguntou se por acaso eu não conhecia uma casa chamada Trearne, que ficava por lá.

Meu interesse aumentou.

- Claro que conheço. Por sinal, é para lá que eu vou. É a casa da minha irmã.

-Puxa! - exclamou William P. Ryan. - Só faltava mais essa!

Sugeri que parasse de fazer comentários enigmáticos e se explicasse melhor.

- Bem - disse ele. - Para isso terei que começar por uma experiência que tive no início da guerra.

Suspirei. A história que estou contando aconteceu em 1921. A última coisa que podia me interessar era relembrar a guerra, graças a Deus já quase esquecida... Além do mais, eu sabia que William P. Ryan tinha o costume de ser incrivelmente prolixo quando se punha a descrever suas experiências de combate.

Mas agora não havia mais jeito de impedir.

- No princípio da guerra, como acho que você sabe, eu me encontrava na Bélgica a serviço do jornal... andando de um lado para o outro. Pois existia um lugarejo... vamos chama-lo de X. A aldeia mais insignificante que já se viu, mas onde há um convento bastante grande. Freiras de branco, como é mesmo que elas se chamam? ... Sei lá o nome da ardem. Enfim, não vem ao caso. Pois esta cidadezinha ficava bem no caminho da avançada alemã. Os boches chegaram ...

Agitei-me incômodo no assento. William P. Ryan levantou a mão, para me tranqüilizar.

- Não se assuste - disse. - Não é uma história de atrocidades germânicas. Podia ter sido, talvez, mas não foi. Para ser franco, aconteceu exatamente o contrário. Os boches atacaram o tal convento ... e quando entraram, a coisa toda voou pelos ares.

- Puxa! - exclamei , espantado.

- Negócio estranho, não é? Claro que a primeira coisa que eu diria é que os boches estavam festejando a vitória e começaram a brincar com seus próprios explosivos. Mas parece que não havia nenhuma coisa deste tipo entre os armamentos que eles carregavam. Não era uma unidade encarregada do transporte de dinamite. Pois muito bem, eu então pergunto a você o que é que um bando de religiosas entende de explosivos? Que freiras danadas, hein?

- De fato, é estranho - concordei.

- Fiquei interessado em ouvir a opinião dos camponeses sobre o assunto. Para eles a explicação não podia ser mais simples. Tratava-se de um milagre moderno, sensacional, cem por cento eficaz. Segundo eles, uma das freiras havia criado uma espécie de fama ... uma vocação de santa ... entrava em transe e tinha visões. E me disseram que foi ela a autora da proeza. Pediu que um raio fulminasse o invasor impiedoso ... e não há que negar que fulminou mesmo ... e tudo mais que se encontrava por perto. Milagre bem eficaz, esse!

"Nunca consegui apurar a verdade direito ... não deu tempo. Mas naquela época surgiam milagres por tudo quanto é canto ... anjos em Mons, e assim por diante. Escrevi o artigo, adicionei uma boa dose de pieguice, explorei bem o lado religioso, e mandei pro jornal. Causou sucesso nos Estados Unidos. Era o tipo de coisa que gostavam de ler naquele tempo.

"Mas (não sei se você vai compreender isto) ao escrever o artigo, fiquei meio interessado. Achei que gostaria de saber o que tinha realmente acontecido. No próprio local não havia nada para se ver. Ainda restavam duas paredes de pé, numa delas existia uma grande marca de pólvora preta com a forma exata de um enorme cão de caça. Os camponeses das imediações andavam mortos de medo da tal marca. Botaram-lhe o nome de Cão da morte e não passavam por lá depois que anoitecia.

"A superstição é sempre uma coisa interessante. Resolvi procurar a freira autora da proeza. Parecia que continuava viva. Mas tinha vindo para a Inglaterra, junto com um grupo de outros refugiados. Me dei ao trabalho de localizá-la. Descobri que havia ido para Trearne, em Folbridge, na Cornualha."

Confirmei com a cabeça.

- Minha irmã acolheu uma porção de refugiados belgas no começo da guerra. Uns vinte, mais ou menos.

- Pois me prometi que, quando tivesse tempo, iria procurar a tal freira. Queria que ela me contasse a sua própria versão da tragédia. Depois, andando sempre às voltas com uma coisa e outra, não pensei mais no assunto. A Cornualha, de qualquer forma, fica meio fora de mão. Para falar a verdade, tinha-me esquecido por completo dessa história, até que você, ao mencionar Folbridge há pouco, trouxe tudo de volta à minha memória.

- Vou perguntar à minha irmã - disse eu. - Ela deve ter ouvido falar no caso. Só que os belgas, naturalmente, já foram repatriados há muito tempo.

- Lógico. Mesmo assim, se sua irmã souber de alguma coisa, eu gostaria muito que você me comunicasse.

- Pode ficar descansado - prometi.

E a coisa ficou nesse pé.

Foi no dia seguinte à minha chegada a Trearne que me lembrei da história. Minha irmã e eu estávamos tomando chá no terraço.

- Kitty - perguntei, - não havia uma freira entre os belgas que você acolheu?

- Você não quer dizer a irmã Marie Angelique, não é?

- É possível que sim - respondi, precavido. - Me fale sobre ela.

- Ah, meu caro! É uma criatura simplesmente fantástica. Ainda mora aqui, você sabia?

- Quê? Aqui em casa?

- Não, não, na aldeia. O Dr. Rose ... lembra-se do Dr. Rose?

Sacudi a cabeça.

- Eu me lembro de um velho de seus oitenta e três anos.

- O Dr. Laird? Não, esse já morreu. Faz pouco tempo que o Dr. Rose veio para cá. É bem moço e cheio de idéias avançadas. Se tomou de um interesse enorme pela irmã Marie Angelique. Sabe, ela sofre de alucinações e não sei mais o quê, e pelo jeito é tremendamente interessante sob o ponto de vista médico. Coitada, não tinha para onde ir ... e realmente, na minha opinião, era bem amalucada ... só que de uma maneira comovente, se é que você me entende ... pois bem, como eu ia dizendo, ela não tinha para onde ir e o Dr. Rose, muito gentilmente, arrumou para que ela ficasse na aldeia. Creio que está escrevendo uma monografia ou seja lá o que for que os médicos escrevem, a respeito dela.

Fez uma pausa e depois perguntou:

- Mas o que é que você sabe dela?

- Ouvi uma história bastante curiosa.

E contei exatamente o que Ryan tinha medito. Kitty ficou interessadíssima.

- Ela parece mesmo o tipo da pessoa que seria capaz de mandar você pelos ares ... entende o que eu quero dizer, não é?

- Estou achando - respondi, cada vez mais curioso, - que preciso mesmo falar com essa moça.

- Pois fale. Eu gostaria de saber sua opinião sobre ela. Mas primeiro procure o Dr. Rose. Por que não vai até a aldeia depois do chá?

Aceitei a sugestão.

Encontrei o Dr. Rose em casa e me apresentei. Parecia ser um rapaz simpático, mas havia qualquer coisa na sua personalidade que não me agradou muito. Era prepotente demais para deixar a gente inteiramente à vontade.

Ficou bem atento quando mencionei a irmã Marie Angelique. Era evidente que estava profundamente interessado. Contei-lhe a história que tinha ouvido de Ryan.

- Ah! - exclamou, pensativo. - Isso explica uma porção de coisas.

Levantou rápido os olhos para mim e continuou.

- O caso, de fato, é incrivelmente interessante. Quando ela chegou aqui, era evidente que tinha sofrido algum choque muito grande. Encontrava-se também num estado de grave perturbação mental. Era dada a alucinações de uma natureza simplesmente desconcertante. A personalidade dela é absolutamente fora do comum. Talvez o senhor queira vir junto comigo para lhe fazermos uma visita. Vale a pena conversar com ela.

Concordei prontamente.

Dirigimo-nos a um pequeno chalé nos arredores da aldeia. Folbridge é um lugar muito pitoresco. Fica na foz do rio Fol, sobretudo na margem leste; a margem oeste é escarpada demais para ser povoada, o que não impede que existam algumas casas construídas temerariamente lá por aqueles penhascos. A do médico, por exemplo, estava encarapitada bem na extremidade do penhasco do lado oeste. Dali se avistavam as grandes ondas batendo contra os rochedos negros.

O pequeno chalé para onde agora nos dirigíamos ficava afastado da costa, sem vista para o mar.

- A enfermeira local mora aqui - explicou o Dr. Rose.

- Eu providenciei para que a irmã Marie Angelique se hospedasse com ela. É melhor que permaneça sob cuidados especiais.

- Ela tem comportamento normal? - perguntei , curioso.

- Daqui a pouco o senhor verá com seus próprios olhos - respondeu-me, sorrindo.

A enfermeira local, uma mulherzinha baixota e simpática, estava saindo de bicicleta quando chegamos.

- Boa tarde, enfermeira. Como vai a paciente? - gritou o médico.

- Como sempre, doutor. Sentada lá dentro com as mãos no colo e o espírito ausente. Muitas vezes não responde quando lhe falo, apesar de que deve-se levar em conta que ainda não entende bem o inglês.

Rose concordou com a cabeça e, enquanto a enfermeira saía pedalando pela estrada afora, foi até a porta do chalé, bateu com força e entrou.

A irmã Marie Angelique estava reclinada numa preguiçosa perto da janela. Virou a cabeça para o nosso lado.

Tinha um rosto estranho - pálido, transparente, com olhos imensos. Pareciam conter uma infinidade de tragédias.

- Boa tarde, irmã - disse o médico, em francês.

- Boa tarde, M. le docteur.

- Permita-me apresentar-lhe um amigo, Mr. Anstruther.

Fiz uma mesura. Ela inclinou a cabeça com um leve sorriso.

- Como está hoje? - perguntou o médico, sentando-se a seu lado.

- Como sempre. - Houve uma pausa. Depois continuou. - Nada me parece real. São dias ... meses ... ou anos que passam? El mal sei. Só meus sonhos me parecem reais.

- Ainda sonha muito, então?

- Sempre ... sempre ... e, o senhor compreende? ... os sonhos parecem mais reais do que a vida.

- Sonha com seu país ... com a Bélgica?

Ela sacudiu a cabeça.

- Não. Sonho com um país que nunca existiu ... nunca. Mas isso o senhor está cansado de saber, M. le docteur. Já lhe contei várias vezes. - Parou e depois disse bruscamente:

- Mas talvez este senhor também seja médico ... um especialista de doenças do cérebro?

- Não, não.

Rose quis tranquilizá-la, mas enquanto sorria, notei como seus dentes caninos eram incrivelmente pontudos e me ocorreu que havia qualquer coisa de lobo nele.

Prosseguiu:

- Achei que talvez tivesse interesse em conversar com Mr. Anstruther. Ele conhece um pouco a Bélgica. Ultimamente recebeu notícias do seu convento.

Os olhos dela se viraram para mim. Senti que avermelhei de leve.

- Não é nada, realmente - me apressei a explicar. - Mas outra noite estava jantando com um amigo que me descreveu as paredes desmoronadas do convento.

- Quer dizer então que desmoronaram!

Era uma exclamação sufocada, dirigida mais a ela própria do que a nós mesmos.

Depois, olhando-me mais uma vez, perguntou hesitante:

- Diga-me monsieur, o seu amigo não descreveu como ... de que maneira ... desmoronaram?

- Foi devido a uma explosão - respondi, e acrescentei:

- Os camponeses têm medo de passar lá de noite.

- Por quê?

- Por causa de uma marca preta nos escombros de uma parede. São muito supersticiosos.

Ela se curvou para a frente.

- Diga-me, monsieur ... depressa ... depressa ... diga-me! Como é esta marca?

- Tem a forma de um enorme cão de caça - respondi.

- Os camponeses lhe botaram o nome de Cão da Morte.

- Ah! - exclamou num grito. - Então é verdade ... é verdade. Tudo o que eu me lembro é verdade. Não foi nenhum pesadelo. Isso aconteceu! Aconteceu!

- O que aconteceu irmã? - perguntou o médico em voz baixa.

Ela se virou ansiosa, para ele.

- Eu me lembrava. Lá nos degraus, eu me lembrava.

Me lembrava de tudo. Usei o poder que tínhamos antigamente. Fiquei parada nos degraus do altar e pedi que não se aproximassem. Mandei que fossem embora, em paz. Não quiseram ouvir, continuaram vindo apesar das minhas advertências. E aí ... - Curvou-se para frente e fez um gesto estranho. - E aí eu soltei o Cão da Morte em cima deles ...

Recostou-se de novo na cadeira, estremecendo da cabeça aos pés, os olhos fechados. O médico se levantou, foi buscar um copo no armário, encheu de água até o meio, pingou duas gotas de um frasquinho que tirou do bolso, e depois levou para ela.

- Beba isto aqui - pediu, autoritário.

Ela obedeceu - maquinalmente, por assim dizer. Tinha o olhar distante, como se estivesse contemplando uma visão que só ela podia enxergar.

- Mas então tudo é verdade - murmurou. - Tudo. A cidade dos círculos, as pessoas de cristal ... tudo. É tudo verdade.

- Parece que sim - concordou Rose.

Falava em voz baixa, apaziguadora, com o nítido propósito de estimular e não perturbar a associação de idéias da religiosa.

- Fale-me da cidade - pediu. - Da Cidade dos Círculos, não foi isso que você disse?

- Sim ... havia três círculos - respondeu maquinalmente, distraída. - O primeiro se destinava aos eleitos, o segundo às sacerdotisas e o ultimo aos sacerdotes.

- E no centro?

Ela tomou fôlego com veemência e a voz adquiriu um tom de indescritível pavor.

- A casa de Cristal ...

Ao pronunciar essas palavras, levantou a mão direita e traçou com o dedo um contorno qualquer sobre a testa.

Seu corpo pareceu mais rígido e, sempre de olhos fechados, oscilou um pouco - depois, de repente, endireitou-se de um salto, como se tivesse acordado bruscamente.

- Que foi? - perguntou, confusa. - Que que eu estava falando?

- Não foi nada - respondeu Rose. - Você está cansada. Quer descansar. Nós já vamos embora.

- Então - disse Rose, já do lado de fora. - Qual foi a sua impressão?

Lançou-me um olhar penetrante enquanto caminhávamos.

- Acho que ela está completamente desequilibrada - respondi, devagar.

- Foi isso que lhe pareceu, é?

- Não ... para dizer a verdade, ela quase me convenceu ... de uma maneira até estranha. Ouvindo o que ela falava, tive a impressão de que, de fato, havia feito tudo aquilo que descrevia ... operando uma espécie de gigantesco milagre. O jeito como ela acredita nisso me parece bastante autêntico. É por isso que ...

- É por isso que o senhor diz que ela está desequilibrada. Tem razão. Mas agora encare o caso sob outro aspecto. Suponhamos que ela tenha, realmente, feito aquele milagre ... suponhamos que ela, pessoalmente, tenha destruído um prédio e centenas de seres humanos.

- Pelo simples poder da vontade? - retruquei, sorrindo.

- Não diria bem isso. O senhor sabe que uma pessoa pode destruir uma multidão apertando um botão que controla um sistema de minas.

- Sim, mas isso é uma coisa mecânica.

- De fato, é uma coisa mecânica, mas é a utilização e o controle de forças naturais. As trovoadas e a usina elétrica são, fundamentalmente, a mesma coisa.

- Sim, mas para controlar a trovoada nós temos que recorrer a processos mecânicos.

Rose sorriu.

- Vou escapar pela tangente. Existe uma substância chamada gaultéria, que aparece na natureza em forma de vegetal, mas que também pode ser obtida sintética e quimicamente no laboratório.

- E daí?

- O que eu quero dizer é que muitas vezes há duas maneiras de chegar ao mesmo resultado. A nossa é, reconhecidamente, a sintética. Mas talvez haja outra. Os incríveis resultados conseguidos pelos faquires hindus, por exemplo, não se explicam satisfatoriamente com qualquer resposta fácil. As coisas que chamamos de sobrenaturais não têm, necessariamente, nada de sobrenatural. Uma lanterna elétrica seria sobrenatural para um selvagem. O sobrenatural é apenas o natural daquilo cujas leis ainda não entendemos.

- Que quer dizer? - perguntei, fascinado.

- Que não posso excluir por completo a possibilidade de que o ser humano talvez seja capaz de armazenar uma grande força destruidora e usa-la para atingir seus objetivos. Os meios pelos quais ele conseguiria isso poderiam nos parecer sobrenaturais ... mas na realidade não são.

Arregalei os olhos.

Ele riu.

- Trata-se apenas de uma especulação - disse, despreocupado ... - Me diga uma coisa, o senhor não reparou no gesto que ela fez quando mencionou a Casa de Cristal?

- Ela passou a mão pela testa.

- Exatamente. E traçou um círculo com o dedo. Tal como um católico ao fazer o sinal da cruz. Agora vou lhe contar uma coisa bastante curiosa, Mr. Anstruther. A palavra cristal já foi usada tantas vezes nas divagações da minha paciente, que decidi fazer uma experiência. Peguei um cristal emprestado e um dia mostrei-o inesperadamente para testar a reação dela.

- E daí?

- Bem, o resultado foi muito interessante e sugestivo. Ela endureceu todo o corpo e ficou olhando para o cristal como se não pudesse acreditar no que estava vendo. Depois caiu de joelhos diante dele, murmurou algumas palavras ... e desmaiou.

- Que palavras que ela disse?

- Muito estranhas. "O Cristal! Então a fé ainda vive!"

- Que coisa incrível!

- Dá para a gente pensar, não é? Agora vem a parte curiosa. Quando ela voltou a si do desmaio, tinha-se esquecido de tudo. Mostrei-lhe o cristal e perguntei se sabia o que era. Me respondeu que imaginava que fosse uma dessas bolas de cristal usadas pelos adivinhos. Perguntei-lhe se nunca tinha visto uma. Ela respondeu: "Nunca, M. le docteur". Mas eu notei que estava com o olhar perplexo. "O que é que a está preocupando, irmã?", perguntei. Ela respondeu: "É que acho tão estranho. Nunca tinha visto antes um cristal e no entanto ... me parece que já conheço tão bem. Tem uma coisa ... se ao menos pudesse me lembrar ..." O esforço que fazia para recordar era evidentemente tão penoso que eu proibi que pensasse mais naquilo. Isso foi há duas semanas. Venho contemporizando de propósito. Amanhã vou fazer uma nova experiência.

- Com o cristal?

- É. Quero que ela olhe bem para ele. Acho que o resultado vai ser interessante.

- Que espera descobrir? - perguntei, curioso.

A pergunta era ociosa, mas o resultado foi inesperado. Rose se impertigou todo, avermelhou, e quando respondeu seu comportamento havia mudado sem que se desse conta. Esta mais formal, mais profissional.

- A explicação para certos desequilíbrios mentais que não se compreendem direito. A irmã Marie Angelique é um objeto de estudo muito interessante.

Quer dizer, então, que o interesse de Rose era unicamente profissional? - pensei.
- Não se importa que eu venha junto? - perguntei.

Talvez fosse imaginação minha, mas me pareceu que ele hesitou antes de responder. Tive a súbita intuição de que não queria que eu fosse.

- Claro que não. Não faço a menor objeção.

E acrescentou:

- O senhor não pretende se demorar muito por aqui, não é?

- Só vou ficar até depois de amanhã.

Deu-me a impressão de ter ficado contente com a resposta. Desanuviou a testa e começou a falar sobre certas experiências feitas recentemente em cobaias.

Na tarde do dia seguinte me encontrei com o médico na hora marcada e fomos juntos à casa da irmã Marie Angelique. Ele estava todo gentil, talvez para desfazer a impressão causada na véspera.

Não leve muito a sério o que eu disse - comentou, rindo. - Não vá pensar que me dedico a ciências ocultas. O diabo é que eu tenho uma fraqueza infernal para tirar as coisas a limpo.

- É mesmo?

- É sim, e quanto mais fantásticas, mais eu gosto.

Riu como a gente ri de uma fraqueza engraçada.

Quando chegamos ao chalé, a enfermeira local queria consultar Rose sobre não sei o quê, de modo que fiquei a sós com a irmã Marie Angelique.

Vi que ela me analisava minuciosamente. Não demorou muito, disse:

- A nossa querida enfermeira me falou que o senhor é irmão daquela senhora tão educada que mora lá no casarão para onde me levaram quando vim da Bélgica.

- Sou, sim - confirmei.

- Ela foi muito boa para mim. É uma ótima pessoa.

Calou-se, como que remoendo uma idéia. Por fim perguntou:

- M. le docteur também é uma ótima pessoa?

Fiquei meio atrapalhado.

- É sim. Quero dizer ... acho que é.

- Ah! - Fez uma pausa e depois acrescentou: - Não há que negar que ele tem sido muito bom para mim.

- Sem dúvida nenhuma.

Ela levantou bruscamente os olhos.

- Monsieur ... o senhor ... o senhor que agora está conversando aqui comigo ... o senhor acha que eu estou louca?

- Ora, irmã, uma idéia dessas nunca me ...

Ela sacudiu lentamente a cabeça - interrompendo meu protesto.

- Será que estou louca? Sei lá ... as coisas que eu lembro ... as coisas que eu esqueço ...

Suspirou, e nesse instante Rose entrou na sala.

Cumprimentou-a alegremente e explicou o que desejava que ela fizesse.

- Sabe, há certas pessoas que possuem o dom de ver coisas num cristal. Desconfio que você também possua esse dom, irmã.

Pareceu inquieta.

- Não, não, eu não posso fazer isso. Tentar adivinhar o futuro ... isso é pecado. Rose ficou surpreso. Não contava com aquela reação. Mudou logo de tática.

- Não se deve querer ver o futuro, tem toda a razão. Já o passado ... é diferente.

- O passado?

- Sim ... existem muitas coisas estranhas no passado. Que voltam como relâmpagos ... entrevistos um instante ... e depois desaparecem de novo. Não procure enxergar nada no cristal, já que isso não lhe está permitido. Apenas pegue-o nas mãos ... assim. Olhe para ele ... olhe bem. É ... olhe bem no fundo ... cada vez mais. Já está se lembrando, não é? Está sim. E também ouve minha voz, falando com você. Agora responda minhas perguntas. Não está me ouvindo?

A irmã Marie Angelique tinha pegado o cristal como ele pedia, segurando-o com estranho respeito. Depois, à medida que ia olhando bem para ele, seu olhar se tornou vago, como se não estivesse vendo mais nada, e deixou pender a cabeça. Parecia estar dormindo.

O médico tirou-lhe o cristal delicadamente das mãos e colocou-o em cima da mesa. Levantou-lhe o canto da pálpebra. Depois veio sentar-se ao meu lado.

- Temos que esperar que acorde. Acho que não vai demorar muito.

Tinha razão. Ao cabo de cinco minutos, a irmã Marie Angelique se mexeu. Abriu languidamente os olhos.

- Onde estou?

- Aqui ... em casa. Você dormiu um pouco. Sonhou, não sonhou?

Ela confirmou com a cabeça.

- Sonhei, sim.

- Foi com o Cristal?

- Foi,

- Conte pra nós.

- O senhor vai me achar louca, M. le docteur. Pois imagine, no meu sonho, o Cristal era um emblema sagrado. Cheguei, inclusive a conceber um segundo Cristo, um Mestre do Cristal, que morreu pela sua fé, cujos discípulos foram caçados ... perseguidos ... Mas a fé sobreviveu.

- Sobreviveu?

- Sim ... durante quinze mil luas cheias ... quero dizer, durante quinze mil anos.

- Quanto tempo dura uma lua cheia?

- O tempo de treze luas comuns. Sim, foi na décima - quinta milésima lua cheia ... eu, naturalmente era uma Sacerdotisa do Quinto Signo na Casa de Cristal. Foi nos primeiros dias do advento do Sexto Signo ...

Franziu as sobrancelhas e uma expressão de medo passou-lhe pelo rosto.

- Cedo demais - murmurou. - Cedo demais. Um engano ... Ah sim! Agora me lembro! O Sexto Signo!

Meio que saltou em pé, depois recostou-se de novo, passando a mão pelo rosto e murmurando:

- Mas que estou dizendo? Deliro Essas coisas nunca aconteceram.

- Vamos, não se preocupe.

Mas ela o olhava, perplexa, angustiada.

- M. le docteur, eu não entendo. Por que é que eu tenho esses sonhos ... essas fantasias? Eu tinha apenas dezesseis anos quando entrei para a vida religiosa. Nunca viajei. No entanto sonho com cidades, com pessoas e costumes estranhos. Por quê?

Apertou a cabeça entre as mãos.

- Nunca foi hipnotizada, irmã? Nem entrou em estado de transe?

- Nunca fui hipnotizada, M. le docteur. Quanto ao transe, quando eu rezava na capela, meu espírito muitas vezes se alienava do corpo e eu ficava uma porção de horas como se estivesse morta. Era, sem dúvida, um estado de bem - aventurança, um estado de graça ... como dizia a Reverenda Madre. Ah, é? - Prendeu a respiração. - Agora me lembro. Nós também chamávamos isto de estado de graça.

- Gostaria de fazer uma experiência, irmã - disse Rose numa voz bem natural. - Talvez disperse essas lembranças penosas. Vou lhe pedir que olhe mais uma vez para o cristal. Depois lhe direi uma determinada palavra. Você responderá com outra. Continuaremos assim até que se sinta cansada. Concentre seus pensamentos no cristal e não nas palavras.

Enquanto eu tornava a desembrulhar o cristal e o entregava à irmã Marie Angelique, reparei na maneira respeitosa com que ela o pegava. Pousado sobre o veludo preto, ficou entre as delgadas palmas de suas mãos. Ela o fitava com aqueles maravilhosos olhos profundos. Houve um curto silêncio e depois o médico disse: "Cão".
A irmã Marie Angelique respondeu imediatamente: "Morte".

Não pretendo descrever todos os pormenores da experiência. O médico pronunciou muitas palavras sem importância nem sentido. Repetiu outras várias vezes, ora obtendo a mesma resposta, ora obtendo uma resposta diferente.

Naquela noite comentamos o resultado da experiência no pequeno chalé do médico nos penhascos.

Ele pigarreou e puxou seu caderno de notas mais para perto.

- Estes resultados são interessantíssimos ... muito curiosos. Em resposta às palavras "Sexto Signo", nós obtivemos uma profusão de outras: Destruição, Roxo, Cão, Poder, depois novamente Destruição e, por fim, Poder. Mais tarde, como talvez tenha observado, inverti o método, com os seguintes resultados. Em resposta a Destruição, obtive Cão; a Roxo, Poder; a Cão, novamente Morte, e a Poder, Cão. Isso está tudo inter-relacionado, mas numa segunda repetição de Destruição, eu obtive Mar, que parece totalmente descabido. Para as palavras "Quinto Signo", eu obtive Azul, Pensamentos, Pássaro, novamente Azul e, por fim, a frase bastante sugestiva Abertura do espírito à percepção. A partir do fato de que "Quarto Signo" evoca a palavra Amarelo, e depois Luz, e que "Primeiro Signo" é respondido por Sangue, eu deduzo que cada Signo tenha uma cor própria, e possivelmente um símbolo próprio, sendo que o do Quinto seria um Pássaro e o do Sexto um Cão. Desconfio, porém que o Quinto Signo representasse o que se conhece comumente pelo nome de telepatia - a abertura do espírito à percepção. O Sexto Signo, sem dúvida, representa o Poder da Destruição.

- Qual o significado de Mar?

- Isso, confesso que não sei explicar. Eu pronunciei a palavra depois e obtive a resposta comum de Barco. Para o Sétimo Signo, houve primeiro Vida, e na segunda vez Amor. Para o Oitavo Signo, obtive a resposta Nenhum. Suponho, portanto, que Sete era a soma e o número dos signos.

- Mas o sétimo não foi atingido - exclamei, numa súbita inspiração. - Pois com o Sexto chegava a Destruição!

- Ah! O senhor acha é? Mas nós estamos levando essas ... divagações malucas muito a sério. Elas de fato, só possuem interesse sob um ponto de vista médico.

- Certamente atrairão a atenção dos investigadores de fenômenos psíquicos.


Os olhos do médico se franziram.

- Meu caro senhor, eu não tenho a menor intenção de divulga-las ao público.

- Então o seu interesse ...?

- É unicamente profissional. Está claro que tomarei notas sobre o caso.

- Compreendo.

Mas, pela primeira vez, percebi que não estava compreendendo nada. Levantei-me.

- Bem, desejo-lhe uma boa noite, doutor. Amanhã parto de volta para a cidade.

- Ah!

Tive impressão de que havia satisfação, talvez alívio, atrás dessa exclamação.

- Desejo-lhe boa sorte nas suas investigações continuei, despreocupadamente. - Da próxima vez que nos encontrarmos, não solte o Cão da Morte em cima de mim, hein?!

Enquanto falava, segurava-lhe as mãos e senti o susto que levou. Mas logo se recompôs. Os lábios se abriram num sorriso, mostrando os longos dentes pontudos.

- Que poder para um homem que se embriagasse com ele! - exclamou. - Ter a vida de cada ser humano na palma da mão!

E alargou ainda mais o sorriso.

Esse foi o fim de minha ligação direta com o caso.

Mais tarde, o caderno de notas e o diário do médico chegaram às minhas mãos. Vou reproduzir aqui os seus rápidos apontamentos, embora vocês hão de compreender que eles só caíram em meu poder algum tempo depois.

5 de agosto. Descobri que a irmã M.A. entende por "Eleitos" aqueles que reproduziram a raça. Eram, pelo visto, venerados e exaltados acima do Sacerdócio. Veja-se o contraste com os cristãos primitivos.

7 de agosto. Convenci a irmã M.A. a me deixar hipnotizá-la. Consegui provocar-lhe o sono e o transe hipnótico, mas não estabeleci nenhuma relação.

9 de agosto. Teriam existido civilizações antigas perto das quais a nossa fosse insignificante? Por estranho que pareça, tudo indica que sim, e eu sou o único homem que possui a pista ...

12 de agosto. A irmã M.A. não se mostra nada suscetível à sugestão quando hipnotizada. No entanto, o estado de transe é facílimo de ser provocado. Não posso entender.

13 de agosto. A irmã M.A. mencionou hoje que em "estado de graça" o "portão precisa ficar fechado, para que ninguém mais domine o corpo". Interessante - mas desconcertante.

18 de agosto. Quer dizer, pois, que o Primeiro Signo não é senão ... (faltam palavras que foram apagadas) ... então quantos séculos vai levar para chegar ao Sexto? Mas se houvesse um atalho para o poder ...

20 de agosto. Providenciei tudo para que M.A. viesse para cá com a enfermeira. Disse-lhe que é indispensável manter a paciente sob a ação da morfina. Estarei louco? Ou será que sou o Super - homem, com o Poder da Morte em minhas mãos?

(Aqui terminam os apontamentos.)

Creio que foi no dia 29 de agosto que recebi a carta. Vinha endereçada a mim, aos cuidados de minha cunhada, numa letra deitada de estrangeira. Abri o envelope com certa curiosidade. Dizia o seguinte:

Cher monsieur,

Falei só duas vezes com o senhor, mas sinto que é uma pessoa em quem posso confiar. Não sei se meus sonhos são verdadeiros ou não, mas ultimamente se tornaram mais nítidos ... E monsieur, de uma coisa estou absolutamente certa, o Cão da morte não é nenhum sonho ... Nos dias de que lhe falo ( não sei se foram reais ou não). Aquele que era o Guarda do cristal revelou cedo demais o Sexto Signo ao Povo ... O mal se apoderou de seus corações. Ganharam o poder de matar à vontade - e injustamente - tomados de cólera. Embriagaram-se com o volúpia do Poder. Quando percebemos isso, nós que ainda éramos puros, logo vimos que mais uma vez não completaríamos o Círculo nem atingiríamos o Signo da Vida Eterna. E aquele que estava escalado para ser o próximo Guarda do Cristal teve que agir. Para que os velhos perecessem e os novos, depois de séculos sem fim, pudessem ressurgir, ele soltou o Cão da Morte em cima do mar ( cuidando para não fechar o círculo) e o mar se levantou na forma de um Cão e tragou a terra por completo ...

Já me lembrei disso antes - nos degraus do altar, na Bélgica ...

O Dr. Rose pertence à Irmandade. Ele conhece o Primeiro Signo e a forma do Segundo, embora ninguém, salvo alguns eleitos, esteja a par do seu significado. Por meu intermédio ele chegaria ao Sexto. Até agora consegui resistir-lhe - mas me sinto cada vez mais fraca, monsieur, e não convém que um homem atinja o poder antes da hora. Muitos séculos hão de se passar antes que o mundo esteja preparado para receber o poder da morte em suas mãos ... Eu lhe suplico, monsieur, o senhor que tanto preza o bem e a verdade, me ajude ... antes que seja tarde demais.

Sua irmã em Cristo,Marie Angelique.

Deixei o papel cair no chão. A terra sob os meus pés parecia menos firme que de costume. Depois comecei a me reanimar. A crença da coitada, por mais autêntica que fosse, tinha quase me contagiado. Mas não havia dúvida. O Dr. Rose, com seu fanatismo para tirar as coisas a limpo, estava ultrapassando dos limites de sua condição profissional. Eu ia correr até lá e ...

De repente dei com uma carta de Kitty no meio da correspondência. Abri o envelope. Dizia:

Aconteceu uma coisa horrível. Você se lembra do chalezinho do Dr. Rose, lá no penhasco? Pois, ontem à noite, houve um desmoronamento de terra e o doutor e aquela pobre freira, a irmã Marie Angelique, morreram. Os destroços na praia são um verdadeiro horror - tudo amontoado de uma maneira fantástica - de longe parece um enorme cão ...

A carta me caiu das mãos.

Os outros fatos talvez fossem coincidência. Um tal de Mr. Rose, que eu descobri que era um parente rico do médico, morreu repentinamente, naquela mesma noite - dizem que fulminado por um raio. Ao que me consta, não houve nenhum temporal nas imediações, mas duas pessoas declararam ter ouvido uma trovoada. E no corpo do morto apareceu uma queimadura elétrica "de uma forma curiosa". Em seu testamento deixava tudo para o sobrinho, o Dr. Rose.

Ora, suponhamos que o Dr. Rose conseguisse obter o segredo do Sexto Signo por intermédio da irmã Marie Angelique. Ele sempre me deu impressão de ser um sujeito inescrupuloso - que não hesitaria em dar cabo da vida do tio se tivesse certeza de que ficaria impune. Mas uma frase da carta da irmã Marie Angelique não me sai da cabeça:" ... cuidando para não fechar o Círculo ... " O Dr. Rose não teve esse cuidado - talvez ignorasse as medidas que devia tomar ou até nem soubesse que precisava fazer isso. E assim a Força que usou se voltou contra ele, fechando o círculo ...

Mas claro, que bobagem! A explicação é perfeitamente natural. Que o doutor acreditasse nas alucinações da irmã Marie Angelique apenas prova que o cérebro dele também estava levemente desequilibrado.

No entanto, às vezes eu sonho com um continente submarino onde a humanidade outrora viveu e atingiu um grau de civilização muito mais adiantado que o nosso ... Ou será que a memória da irmã Marie Angelique funcionava de trás para diante - como alguns dizem que é possível - e que a tal Cidade dos Círculos se encontra no futuro e não no passado?

Bobagem - claro que tudo foi só alucinação!

por Agatha Christie

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