segunda-feira, 11 de julho de 2016

Prisão


Tendo assassinado o cunhado, Orrin Brower, de Kentucky, era um foragido da justiça. Escapara da prisão local, onde aguardava julgamento, batendo no vigia com uma barra de ferro e roubando-lhe as chaves, com as quais abrira a porta externa, desaparecendo na noite. 

Como o vigia estivesse desarmado, Brower fugira sem qualquer arma com a qual pudesse defender a recém-recuperada liberdade. Assim que se viu longe da cidade, cometeu a asneira de embrenhar-se por uma floresta. Isso aconteceu há muitos anos, quando aquela região era bem mais despovoada do que é hoje.

A noite estava muito escura, não havendo lua ou estrelas, e como Brower nunca andara por aquelas redondezas, desconhecendo a região, claro que logo estava perdido. Já não conseguiria dizer se estava caminhando para longe da cidade ou se retornava — o que era de suma importância para Orrin Brower. Sabia que, em qualquer uma das circunstâncias, um bando de homens com seus cães de caça logo estaria em seu encalço e suas chances de escapar seriam pequenas. Mas não ia facilitar as coisas. Por uma hora de liberdade que fosse, valeria a pena lutar.

De repente, saiu da floresta e deu numa velha estrada, na qual viu, indistintamente, a silhueta de um homem, imóvel na penumbra. Era tarde para tentar fugir. O fugitivo sabia que, ao primeiro movimento que fizesse tentando embrenhar-se de novo na floresta, seria, como diria depois, "crivado de balas". E assim os dois permaneceram ali parados como se fossem árvores, Brower quase sentindo-se sufocar com as batidas do próprio coração. O outro — bem, nada se sabe sobre as emoções do outro.

Um segundo depois — ou talvez tenha sido uma hora — a lua surgiu por entre as nuvens e o homem caçado viu nitidamente quando o policial ergueu o braço, apontando de forma significativa numa determinada direção. Compreendeu. Virando as costas para seu captor, caminhou submisso na direção indicada, sem olhar para os lados, mal ousando respirar, a cabeça e as costas já sofrendo com a profecia de uma bala.

Brower era o mais corajoso dos bandidos que sobreviveram para ser enforcados. Isso ficara patente pela maneira com que se expusera ao perigo ao assassinar friamente o cunhado. Não vamos relatá-la aqui. Tudo isso veio à tona em seu julgamento e a revelação de sua calma diante da situação quase salvou-lhe o pescoço. Mas o que vocês querem? Quando um bravo é vencido, ele se submete.

E, assim, eles seguiram em direção à prisão pela velha estrada, através da floresta. Somente uma vez Brower teve coragem de olhar para trás. Só uma vez, quando estava imerso na sombra e sabia que o outro estava sob a luz do luar, virou-se e espiou. Seu captor era Burton Duff, o vigia, pálido como a morte, trazendo ainda na fronte a marca vívida da barra de ferro. Orrin Brower não quis saber de mais nada.

Afinal, chegaram à cidade, onde tudo estava iluminado, embora deserto. Apenas mulheres e crianças tinham ficado na cidade, mas não estavam nas ruas. E o criminoso seguiu em frente, direto para a prisão. Dirigiu-se à entrada principal, tocou a maçaneta da pesada porta de ferro, empurrou-a sem que ninguém lhe mandasse, entrou e se viu na presença de meia dúzia de homens armados. Só então se virou. Ninguém mais entrou.

Sobre a mesa, no corredor, jazia o corpo morto de Burton Duff.


Visões da Noite / Ambrose Bierce; organização e tradução Heloísa Seixas. - Rio de Janeiro: Record, 1999.
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