sábado, 26 de outubro de 2013

O Segredo do Castelo de Glamis

Lord Strathmore quando foi buscar vinho

Quando o segundo filho do rei George casou com lady Elizabeth Bowes-Lyon, filha do conde de Strathmore, teria a noiva revelado o terrível segredo do castelo de Glamis, o qual, durante gerações e gerações foi conservado entre a família Glamis?

Todos os velhos castelos da Europa têm as suas lendas de monstros, almas penadas, quartos secretos, etc., mas o velho solar de Glamis tem a sua história real e misteriosa. E a verdadeira lenda é tão assombrosa que o velho lorde Strathmore, avô da esposa do duque de York, interrogado por seus amigos, disse-lhes:

"Se vocês suspeitassem a natureza do terrível mistério, agradeceriam a Deus, de joelhos, por deixá-los na ignorância..."

Quando, durante a guerra, esse famoso castelo foi posto à venda, ninguém se apresentou para comprá-lo e, certo, pessoa alguma o quereria habitar, ainda que lhe dessem de graça, tais as histórias de monstros, almas e duendes que diziam assombrar as criptas, cavernas e subterrâneos do berço dos Glamis.

Mesmo o prudente Walter Scott, que em 1794, passou uma noite no famoso castelo, diz que ali se sentia a carne arrepiar de horror. Walter Scott não fala em coisas sobrenaturais, mas diz que realmente havia algo de misterioso que assustava.

O conde de Crawford referindo-se à velha casa senhorial diz que só dois herdeiros podiam conhecer bem o verdadeiro segredo do quarto mal-assombrado: o lorde e seu filho mais velho. Por morte do lorde, o filho contava ao seu herdeiro primogênito, e assim por diante, de maneira que só duas pessoas ficavam de posse da horrível verdade.

O atual lorde Strathmore tem um filho, que, na natural ordem de sucessão, herdará o castelo e o segredo. É de supor que esse rapaz tenha contado a lenda à irmã, lady Bowes-Lyon, a qual, provavelmente, a transmitirá ao marido — o duque de York.

Serão duas lendas? Assim deve ser, pois a de 1794, referida por Walter Scott, não pode ser a mesma que recentemente ainda assombrava o pai do atual conde.

Pelos arredores de Glamis corre a lenda de que o quarto secreto foi construído, outrora, para um monstro que nasce na família, de cem em cem anos, como punição de antigo crime. Esse monstro é mantido no quarto secreto até morrer, para que o mundo ignore o castigo horrível que pesa sobre os Glamis.

Conta a lenda que o monstro tem a forma de uma rã e que, na noite em que ele morre, todas as rãs dos charcos da vizinhança se reúnem em volta do castelo de Glamis, aos milhares. Elas começam a coaxar dolorosamente, como a carpir a companheira que expira com a qual tem um parentesco sobrenatural.

A lenda do homem-rã nasceu de um trecho da história do próprio castelo, que conta que, em 1537, a jovem viúva do quinto lorde de Strathmore foi queimada, apesar de inocente, por suspeitarem de ela estar mancomunada com o diabo na prática de feitiçarias.

Mais de uma pessoa do distrito, afirma que o monstro existiu e até se referem ao seu tamanho descomunal e à sua ferocidade. Perguntarão como foi possível a essa gente saber o que se passava dentro do quarto mal-assombrado, Mas a resposta é simples: um criado encarregado de guardar a adega do castelo viu, de uma feita, o monstro horrendo, no momento em que o lorde abria a porta do quarto, julgando que ali não estivesse o seu empregado. Daí por diante foi impossível arranjar quem quisesse tomar o cargo de guarda do depósito de vinhos.

Foi assim que uma vez, quando o pai do atual conde estava sem criado de adega, depois de um jantar dado por ele a alguns amigos, faltou vinho, e o conde, em pessoa, foi buscá-lo. Demorou-se tanto, porém, no subterrâneo, que os seus amigos, assustados, foram procurá-lo. Chegaram à porta da casa dos vinhos mo momento em que ele dali saía, fechando, violentamente, a porta por onde passara. Ele trazia as vestes despedaçadas, o rosto ensanguentado e a fisionomia contraída, com todos os sinais de quem lutara desesperadamente.

Quem lhe fizera tanto mal? O castelão não o disse aos seus amigos e, além disso, pediu que não o interrogassem a esse respeito.

No dia seguinte a essa cena, o lord suplicou aos hóspedes que lhe fizessem o favor de ficar nos seus quartos até ouvirem o sino do castelo tocar. Todos acederam a esse pedido, e só três quartos de hora mais tarde o sino tocou, libertando-os do compromisso tomado. Eles ficaram convencidos de que a imprudente e misteriosa criatura do castelo Glamis tinha mais poder para produzir danos físicos do que qualquer mera alma penada.

Quem poderia ter causado tais prejuízos e ofensas senão o monstruoso morador do quarto mal-assombrado? Não há dúvida que existe qualquer segredo tenebroso no castelo de Glamis. O lugar do quarto trágico só é conhecido pelo conde e seu filho primogênito, herdeiro do solar e do título.

Contam que o avô do atual conde, não contente com a lenda do quarto, e querendo desvendar o segredo antes que o pai lhe contasse, reuniu diversos amigos que com ele tinham jantado e, em procissão ruidosa, foi pelo corredor que conduzia ao quarto lendário. Em uma das mãos carregava uma lâmpada e na outra a chave que descobrira escondida na secretária do pai. Um dos presentes descreveu assim a cena que presenciou e que foi relatada pelo dr. Lee, amigo desse hóspede indiscreto:

"Ele abriu a porta, levantou a lâmpada e começou a entrar no quarto. Ainda não havia dado dois passos quando soltou um grito medonho e caiu nos nossos braços, completamente desacordado! Foi a fisionomia mais horrorizada que jamais vi! Nunca se conseguiu que ele falasse sobre o assunto, tal o horror de que ficou possuído!".

Isso se passou com o avô de lady Bowes-Lyon. Ele transmitiu o segredo ao filho, e esse, por sua vez, teve a confirmação no dia em que foi buscar a garrafa de vinho na adega. Por duas vezes os hóspedes do lord tentaram desvendar o mistério do quarto do subterrâneo, mas de ambas foram mal sucedidos. Da primeira vez a tentativa foi feita por umas moças destemidas, que combinaram deixar, nas janelas dos seus quartos, as toalhas de rosto, e depois foram para o prado observar qual a janela que não tinha toalha, pois essa devia ser a procurada. O lorde ficou furioso e, no dia seguinte, todas elas receberam ordem de deixar o castelo. O mesmo aconteceu a um médico que, surpreendido fazendo pesquisas, deram-lhe os seus honorários e a passagem de volta...

O atual lorde Strathmore, décimo - quarto desse nome, reconhecido em 1876, no dia do seu reconhecimento, foi chamado por seu pai para ser informado e ver o segredo do castelo: voltou dessa conferência tão horrorizado que não teve mais alegria durante todo o resto da recepção, assim contaram os jornais da Escócia. Seja como for, um dos habitantes do quarto secreto morreu em 1885, pois o jornal Edimburgh Scotsman, que é um dos mais sérios e abalizados, seu a seguinte notícia: "Faleceu, na idade de 84 anos, lorde Thomas Glamis". Entretanto, na lista dos pares não havia a menor referência a esse lorde, o que leva a crer que ele fosse um dos monstros encarcerados da família do velho solar escocês.

A esposa do duque de York saberá do segredo? Ou o pai teria tido pena e poupou à jovem o horror desse espetáculo?


Fonte: Revista "Fon Fon" - Dezembro/1923
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