segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O rastro de Charles Ashmore

Ambrose Bierce
A família de Christian Ashmore consistia em sua mulher, sua mãe, duas filhas crescidas e um filho de dezesseis anos. Moravam todos em Troy, Nova York, eram pessoas de bom nível, respeitadas, e tinham muitos amigos, alguns dos quais, lendo estas linhas, ouvirão falar pela primeira vez da história extraordinária ocorrida com o rapaz. 

Os Ashmores se mudaram de Troy para Richmond, Indiana, em 1871 ou 1872, seguindo, um ou dois anos depois, para os arredores de Quincy, Illinois, onde o Sr. Ashmore comprou uma fazenda e se instalou. A pouca distância da sede da fazenda havia uma fonte de água limpa e fresca, que a família usava para suprir suas necessidades durante o ano inteiro.

Na noite de 9 de novembro de 1878, lá pelas nove horas, o jovem Charles Ashmore deixou a família reunida em casa e, levando uma pequena jarra, saiu em direção à fonte. Como demorava a voltar, a família ficou inquieta, e o pai, indo até a porta por onde o rapaz saíra, chamou por ele sem obter resposta. Acendeu então uma lanterna e, junto com a filha mais velha, Martha, que insistiu em acompanhá-lo, saiu à procura.

Naquela noite havia caído um pouco de neve, que cobria o caminho mas deixava evidente a trilha feita pelo rapaz. Cada pegada era perfeitamente visível. Quando eles já haviam percorrido pouco mais do que a metade do caminho — cerca de sessenta metros —, o pai, que ia na frente, estacou e, erguendo a lanterna, ficou espiando a escuridão à sua frente.

"O que houve, pai?", perguntou a moça.

O que havia era o seguinte: a trilha do jovem terminava de repente e dali para a frente a neve fofa estava intocada. As últimas pegadas eram tão visíveis quanto as anteriores, sendo possível mesmo distinguir a marca da ponta dos dedos. O Sr. Ashmore olhou para cima, usando o chapéu de anteparo para que a luz da lanterna não o ofuscasse. As estrelas brilhavam.

Ficou assim afastada a hipótese que chegara a lhe ocorrer, por mais improvável que fosse, de que houvesse caído neve outra vez, e só dentro de um limite tão bem definido. Seguindo um caminho maior e rodeando o local onde estavam as últimas pegadas, de forma a deixá-las intocadas para voltar a examiná-las mais tarde, ele foi até a fonte, enquanto a moça seguia atrás, sentindo-se fraca e apavorada. Nenhum dos dois disse uma só palavra sobre o que tinham visto. A fonte estava coberta de gelo, obviamente endurecido havia muitas horas.

Voltando para casa, observaram a neve de ambos os lados, ao longo de todo o caminho. Não havia qualquer marca de pegadas afastando-se da trilha.

A luz do dia não trouxe qualquer nova evidência. Por toda parte havia neve, não muito profunda. E sempre macia, sem marcas, intocada.

Quatro dias depois, a mãe, arrasada, foi até a fonte em busca de água. Ao voltar, contou que, quando passava pelo local onde tinham sido vistas as últimas pegadas, ouvira a voz do filho e saíra, desesperada, chamando por ele, andando a esmo pelo lugar, já que a cada momento tinha a impressão de ouvir a voz vindo de uma diferente direção. Até que não agüentara mais, vencida pelo cansaço e pela emoção.

Quando lhe perguntaram o que a voz falava, não conseguiu dizer, embora asseverasse que as palavras eram perfeitamente audíveis. Imediatamente, toda a família foi até o local, mas ninguém ouviu nada e a conclusão foi a de que tudo não passara de uma alucinação causada pela ansiedade da mãe e por seus nervos destroçados.

Acontece que nos meses seguintes, com intervalos irregulares de alguns dias, a voz foi ouvida por todos os membros da família, e também por outras pessoas. Todos declararam estar absolutamente certos de que era a voz de Charles Ashmore, e todos concordaram que o som parecia vir de muito longe, fraco, mas articulado de forma perfeitamente audível. E, contudo, ninguém foi capaz de precisar de que direção vinha o som ou de repetir as palavras ditas. Os intervalos de silêncio foram aos poucos tornando-se mais longos, e a voz ficando mais fraca e distante, até que, no verão, parou de ser ouvida.

Se alguém conhece o destino de Charles Ashmore, esse alguém provavelmente é sua mãe. Ela está morta.





Ambrose Bierce nasceu em Ohio, EUA, a 24 Junho de 1842. Depois da Guerra Civil Americana, em que participou do lado da União, Bierce partiu para a Califórnia, onde se tornou jornalista. Na Inglaterra a partir de 1872, trabalhou para revistas humorísticas como a «Figaro» e a «Fun». Regressou aos Estados Unidos em 1875, iniciando um longo período de colaboração com vários jornais. Tornar-se-ia um dos jornalistas e escritores mais conhecidos do seu tempo, não deixando ninguém indiferente ao seu sentido acutilantemente crítico e satírico da humanidade. Com humor insolente, atacou todos os quadrantes da sociedade: as religiões, a política, a economia, o sentimentalismo... Em 1913, aos setenta e um anos, Bierce partiu ao encontro da Revolução Mexicana, sem deixar rastro. A sua morte permanece um mistério, mas acredita-se que possa ter acontecido durante a Batalha de Ojinaga, em Janeiro de 1914.
Postar um comentário