quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O Medo à Espreita


I. A sombra na chaminé
Trovejava na noite em que fui ao solar deserto no topo da Tempest Mountain para me defrontar com o medo que estava à espreita. Eu não estava só, pois a temeridade não se confundia, então, com aquele amor pelo grotesco e o terrível que fez de minha carreira uma sucessão de horrores singulares na literatura e na vida.

Estavam comigo dois homens fortes e leais que chamei quando chegou o momento, homens que, por sua peculiar adequação, havia muito se tinham associado a mim em minhas pavorosas investigações.

Saíramos discretamente do vilarejo por causa dos repórteres que ainda se demoravam por lá depois do pânico sinistro de um mês antes — o pesadelo da morte arrepiante. Mais tarde, pensei, eles poderiam ajudar-me, mas não os queria naquele momento. Praza Deus eu os tivesse deixado partilhar da busca, pois assim não teria de suportar, sozinho e por tanto tempo, o segredo, suportá-lo sozinho temendo que o mundo me achasse louco ou ele próprio enlouquecesse com as implicações diabólicas da coisa. Agora que, de qualquer sorte, estou contando tudo para que as aflições não me enlouqueçam, gostaria de não o haver ocultado. Pois eu, e somente eu, sei que tipo de pavor estava à espreita naquela montanha espectral e desolada.

Metidos num pequeno automóvel, cobrimos as milhas de morros e florestas primitivas até a encosta arborizada o impedir de seguir em frente. A região apresentava um aspecto mais sinistro do que o usual agora que a víamos à noite e sem as multidões costumeiras de investigadores, o que freqüentemente nos induziu a usar a lanterna de acetileno apesar da atenção que ela poderia atrair. Não era uma paisagem salubre depois de escurecer, e acredito que teria notado sua morbidez mesmo se não tivesse conhecimento do terror que andava à solta por lá. Criaturas selvagens não havia — elas ficam alertas quando a morte furtiva aproxima-se. As velhas árvores atingidas pelos raios pareciam extraordinariamente grandes e retorcidas, e o restante da vegetação terrivelmente denso e febril, enquanto curiosos montículos e outeiros no terreno coberto de mato esburacado por fulguritos sugeriam-me serpentes e crânios humanos avolumados a proporções gigantescas.

O medo estivera à espreita na Tempest Mountain por mais de um século. Isto eu logo fiquei sabendo pelos relatos dos jornais sobre a catástrofe que, pela primeira vez, atraiu o interesse mundial para a região. O lugar é uma elevação solitária e remota naquela parte das Catskills, onde a civilização holandesa penetrara, um dia, fraca e provisoriamente, deixando para trás, ao regredir, apenas algumas mansões arruinadas e uma população degenerada de posseiros habitando vilarejos esquálidos em ladeiras isoladas. Pessoas normais raramente visitavam o local antes da constituição da polícia estadual, e, mesmo agora, somente policiais montados o patrulham irregularmente. O medo, porém, é uma velha tradição em todas as povo-ações vizinhas, pois é o tópico principal da conversa simples dos pobres mestiços que às vezes abandonam seus vales para trocar cestos tecidos à mão pelos produtos de primeira necessidade primitivos que não podem derrubar com um tiro.

O medo estava à espreita no temido e deserto solar Martense que coroava o cume alto, mas não escarpado, cuja propensão a freqüentes tempestades lhe valera o nome de Tempest Mountain. Por mais de cem anos, a vetusta casa de pedra rodeada de bosques fora o mote de histórias extremamente violentas e repulsivas, histórias sobre uma morte colossal, silenciosa e arrepiante que rondava o lado de fora da casa no verão. Com chorosa insistência, os posseiros contavam casos de um demônio que atacava os viajantes solitários depois do escurecer, ora os carregando embora, ora os deixando desmem-brados, em estado de pavor absoluto; às vezes, eles segredavam histórias de trilhas de sangue seguindo na direção do longínquo solar. Para alguns, o trovão tirava o medo à espreita para fora de sua morada, enquanto que para outros, o trovão era a sua voz.

Ninguém que fosse de fora da região acreditava nessas histórias variadas e conflitantes, com suas descrições extravagantes, incoerentes, sobre um demônio apenas vislumbrado, mas nenhum agricultor ou aldeão duvidava de que o solar Martense fosse mal-assombrado. A história local excluía essa dúvida, muito embora os investigadores que haviam visitado a construção depois de alguns relatos especialmente exaltados dos posseiros jamais houvessem encontrado a menor evidência de malignidade. As velhas avós narravam mitos estranhos sobre o espectro dos Martense, mitos sobre a própria família Martense, sua singular desigualdade hereditária nos olhos, sua extensa e desnaturada crônica familiar e o assassinato que a amaldiçoara.

O terror que me levou àquele ambiente foi uma confirmação súbita e agourenta das mais desvairadas lendas dos montanheses. Certa noite estivai, depois de uma tempestade de violência sem precedente, a região foi despertada por uma correria de posseiros que uma mera ilusão não teria provocado. As hordas deploráveis de nati-vos gritavam e guinchavam sobre o indescritível horror que se descera sobre eles e não se mostravam inseguras. Não o haviam visto, mas tinham ouvido gritos de tal monta saídos de um vilarejo, que sabiam que uma morte rastejante havia chegado.

Pela manhã, gente da cidade e policiais montados da guarda estadual acompanharam os abalados montanheses até o lugar aonde diziam que a morte comparecera. A morte estava mesmo por lá. O chão embaixo de uma povoação de posseiros cedera depois de um raio, destruindo vários barracos malcheirosos, mas, a esses danos materiais, sobrepunha-se uma devastação orgânica que empanava por completo a sua importância. Dos possíveis setenta e cinco nativos que habitavam o local, não se avistou nenhum vivo. A terra revolvida estava coberta de sangue e restos humanos evidenciando, com extrema eloqüência, a devastação provocada pelas presas e garras do demônio, embora não houvesse uma trilha visível afastando-se da carnificina. Todos prontamente concordaram que o causador daquilo devia ser algum animal pavoroso, e nenhuma voz ergueu-se para renovar a acusação de que aquelas mortes enigmáticas poderiam ser atribuídas aos sórdidos assassinos tão comuns nas comunidades decadentes. Essa acusação só foi retomada quando se deu pela falta, entre os mortos, de vinte e cinco membros, talvez, da população estimada, e mesmo assim era difícil explicar o assassinato de cinqüenta pela metade desse número. Mas persistia o fato de que, numa noite estivai, um raio caíra dos céus extinguindo uma vila cujos corpos estavam horrivelmente misturados, mastigados e dilacerados.

A alvoroçada gente do mato relacionou imediatamente o horror ao assombrado solar Martense, embora os dois locais ficassem mais de três milhas distantes. Os policiais mostraram-se mais céticos, incluindo o solar em suas investigações por mera formalidade e descartando-o sumariamente quando o encontraram por completo deserto. Os campônios e aldeões, porém, esmiuçaram o lugar com infinito cuidado, revirando tudo que havia no interior da casa, perscrutando lagoas e riachos, batendo os arbustos e esquadrinhando as matas próximas. Foi tudo em vão; a morte havia partido sem deixar nenhum traço, salvo a própria destruição.

No segundo dia de busca, o caso foi amplamente ventilado pelos jornais. Repórteres infestaram a Tempest Mountain. Eles a descreveram com grande detalhe e com muitas entrevistas para elucidar o caso de horror tal como era contado pelas velhas locais. Eu acompanhei as matérias de início com indiferença, especialista que sou em horrores, mas, depois de uma semana, captei uma atmosfera que me deixou especialmente animado, e assim, em 5 de agosto de 1921, registrei-me entre os repórteres que lotavam o hotel de Lefferts Corners, o vilarejo mais próximo da Tempest Mountain e quartel-general reconhecido dos investigadores. Três semanas mais tarde, a dispersão dos repórteres deixou-me livre para iniciar uma terrível investigação com base nos inquéritos e levantamentos minuciosos em que me havia ocupado neste ínterim.

Assim, nessa noite estivai, enquanto os trovões ribombavam ao longe, desci do carro e escalei com dois companheiros armados as últi-mas encostas onduladas da Tempest Mountain, dirigindo o facho de uma lanterna elétrica para os paredões cinzentos espectrais que começavam a surgir por entre os gigantescos carvalhos à nossa frente. Naquela mórbida solidão noturna iluminada pela luz fraca e inconstante da lanterna, a enorme elevação em forma de caixa instigava misteriosas sugestões de medo que durante o dia não se revelavam, mas isso não me fez hesitar, pois viera com a firme intenção de testar uma idéia. Acreditava que o trovão fazia o demônio mortífero sair de algum temível lugar secreto e, fosse aquele demônio uma entidade sólida ou uma pestilência vaporosa, pretendia vê-lo.

Eu já havia revistado por inteiro as ruínas antes e, portanto, conhecia meu plano muito bem, havendo escolhido para sede de minha vigília o antigo quarto de Jan Martense, cujo assassinato reveste-se de particular importância nas lendas rurais. Por estranho que pareça, eu sentia que os aposentos dessa antiga vítima seriam os melhores para meus fins. O quarto, medindo perto de seis metros quadrados, continha, como os outros, um pouco de entulho que algum dia havia sido o mobiliário. Ficava no segundo andar, no canto sul da casa, e tinha uma imensa janela voltada para o leste e uma estreita para o sul, ambas sem vidraças nem gelosias. No lado oposto à grande janela, havia uma enorme lareira em estilo holandês, com ladrilhos decorados com motivos bíblicos representando o filho pródigo, e, no lado oposto à janela estreita, uma cama espaçosa encravada na parede.

Enquanto os trovões abafados pelas árvores iam ficando mais fortes, tratei de preparar os detalhes de meu plano. Primeiro pendurei, lado a lado, no peitoril da janela grande, três escadas de corda que havia trazido. Sabia, porque as havia testado, que chegariam até um ponto apropriado do gramado externo. Em seguida, nós três arrastamos uma grande armação de cama de quatro colunas de um outro quarto, encostando-a, de lado, à janela. Havendo forrado a cama de ramos de pinheiro, ali nos dei-tamos os três com as automáticas à mão, dois descansando enquanto um ficava de vigia. De qualquer direção que o monstro pudesse vir, nossa possível fuga estava preparada. Se viesse do interior da casa, tínhamos as escadas na janela; se viesse de fora, a porta e a escadaria. A julgar pelos fatos precedentes, não achamos que ele iria perseguir-nos até mais longe, mesmo na pior das hipóteses.

Meu turno de vigia foi da meia-noite à uma, quando, a despeito da casa sinistra, da ja-nela desprotegida e da aproximação dos raios e trovões, eu me senti singularmente sonolento. Estava acomodado entre meus dois companheiros, George Bennett do lado da janela e William Tobey do lado da lareira. Bennett dormia, tendo sentido, ao que parece, a mesma sonolência anormal que me afetara, por isso designei Tobey para o turno seguinte ainda que também ele estivesse cabeceando. E curiosa a intensidade com que eu estivera observando a lareira.

O aumento da tempestade deve ter-me afetado os sonhos, pois, no breve intervalo em que estive adormecido, visões apocalípticas me acometeram. Em certo momento, fiquei meio acordado, provavelmente porque o que estava dormindo perto da janela passou, sem querer, o braço sobre meu peito. Eu não estava desperto o bastante para verificar se Tobey estava cumprindo seus deveres de vigia, mas senti uma ansiedade distinta naquele momento. Nunca antes a presença do mal me oprimira de maneira tão intensa. Depois, devo ter caído de novo no sono, pois foi de um caos nebuloso que minha mente despertou sobressaltada quando a noite encheu-se de gritos pavorosos além de tudo que minha imaginação e experiência anteriores pode-riam proporcionar-me.

Em meio àquela gritaria, a alma mais secreta do medo e da agonia humanos agarrou-se desesperadamente aos portais escuros do esquecimento. Despertei para a loucura vermelha e os escárnios do diabolismo, enquanto aquela angústia demente e cristalina recuava reverberando, cada vez mais longe, mais longe, para visões inconcebíveis. Não havia luz, mas eu pude perceber, pelo espaço vazio à minha direita, que Tobey fora-se, só Deus sabe para onde. Sobre meu peito, jazia ainda o braço pesado do companheiro adormecido à minha esquerda.

Foi então que aconteceu o estrondo devastador do raio que abalou toda a montanha, iluminou as criptas mais escuras do venerável cemitério e fendeu a patriarca entre as árvores retorcidas. Ao estrondo infernal de uma estu-penda bola de fogo, o homem adormecido ergueu-se sobressaltado, enquanto o clarão do lado de fora da janela projetava nitidamente sua sombra na chaminé acima da lareira da qual meus olhos nunca se afastavam. O fato de eu ainda estar vivo e são é um prodígio que não posso explicar. Não posso explicar porque a sombra naquela chaminé não era a de George Bennett, nem a de alguma outra criatura humana, mas de uma monstruosidade ímpia dos abismos mais profundos do inferno, uma abominação informe que nenhuma mente poderia apreender por inteiro e nenhuma pena, ainda que canhestramente, poderia descrever.

Um instante depois eu estava só, tremendo e balbuciando, naquele solar amaldiçoado. George Bennett e William Tobey não haviam deixado traço, nem mesmo de luta. Nunca mais se soube deles.

II. Um passante na tempestade

Depois daquela pavorosa experiência no solar rodeado pela mata, passei muitos dias prostrado em meu quarto de hotel, em Lefferts Corners. Não me lembro exatamente de como consegui chegar ao carro, dar a partida e escapar sem ser visto para a vila, pois não guardo nenhuma lembrança nítida, salvo a de árvores titânicas de galhos retorcidos, os rugidos infernais da trovoada e as sombras diabólicas cruzando os montículos que pontilhavam e riscavam a região.

Enquanto tremia e meditava sobre aquela alucinante sombra projetada, tinha a certeza de ter ao menos vislumbrado um dos horrores supremos da Terra — uma daquelas indescritíveis influências malignas dos espaços ulteriores cujas tênues vibrações demoníacas às vezes ouvimos chegando dos cantos mais remotos do espaço e que a piedosa finitude de nossa visão nos poupa de ver. A sombra que eu vira eu não ouso analisar nem classificar. Alguma coisa postara-se entre mim e a janela naquela noite, mas eu sentia calafrios quando não conseguia livrar-me do instinto de classificá-la. Se ao menos ela houvesse rosnado, ou latido, ou soltado uma risada sarcástica — isso teria abrandado a repulsa abissal. Mas foi tudo tão silencioso...

Ela pousou um braço, ou uma pesada pata dianteira, em meu peito... Era orgânica, certamente, ou havia sido... Jan Martense, cujo quarto eu havia invadido, estava enterrado no cemitério perto do solar... Preciso encontrar Bennett e Tobey se estiverem vivos... Por que ela os pegou e me deixou por último?... O torpor é tão sufocante, e os sonhos tão horríveis...

Não demorou para eu perceber que teria de contar minha história a alguém ou sofreria um colapso. Já me decidira a não abandonar a busca do medo à espreita, pois, em minha temerária ignorância, algo me dizia que a incerteza seria pior que a compreensão, por mais terrível que essa viesse a se mostrar. Assim, decidi-me sobre o melhor caminho a seguir, quem escolher para minhas confidencias e como rastrear a coisa que havia eliminado dois homens e projetado uma sombra de pesadelo.

Meus principais conhecidos em Lefferts Corners haviam sido os afáveis repórteres; mui-tos tinham ficado por lá para recolher os ecos finais da tragédia. Foi entre eles que resolvi es-colher um colega e, quanto mais refletia, mais minhas preferências recaíam em Arthur Munroe, um homem magro e moreno, nos seus trinta e cinco anos, cuja cultura, gostos, inteligência e temperamento pareciam indicar alguém avesso a idéias e experiências convencionais.

Em certa tarde do começo de setembro, Arthur Munroe ouviu a minha história. Percebi, desde o começo, que ele mostrou-se também interessado e simpático. Quando concluí, ele analisou e discutiu o assunto com grande perspi-cácia e discernimento. Seu conselho, ademais, foi eminentemente prático, pois recomendou um adiamento das operações no solar Martense até nos prepararmos com dados históricos e geográficos mais detalhados. Por iniciativa dele, vasculhamos a região atrás de informações sobre a terrível família Martense e encontramos um homem que possuía um velho diário muito esclarecedor. Conversamos também de-moradamente com os mestiços montanheses que não haviam fugido do medo e da confusão para encostas mais distantes. Dispusemos, para preceder nossa tarefa culminante, um exame completo e definitivo dos locais associados às várias tragédias das lendas dos posseiros.

Os resultados dessa investigação não foram inicialmente esclarecedores, mas nossa tabulação pareceu revelar uma tendência muito significativa: o número de horrores relatados era, de longe, maior em áreas ou relativamente próximas da casa evitada, ou ligadas a ela por extensões da floresta doentia e hipertrofiada. Havia, por certo, exceções. Aliás, o horror que chamara a atenção do mundo ocorrera num descampado distante do solar e de suas matas adjacentes.

Quanto à natureza e à aparência do medo à espreita, nada pudemos obter dos assustados e ignorantes moradores dos barracos. Num mesmo fôlego, eles o chamavam de cobra e de gigante, um demônio-trovão e um morcego, um abutre e uma árvore andante. Nós, porém, nos sentíamos autorizados a supor que se tratava de um organismo vivo altamente suscetível a tempestades elétricas e, apesar de alguns relatos sugerirem asas, acreditávamos que a sua aversão por espaços abertos favorecia a teoria de sua locomoção por terra. A única coisa de fato incompatível com essa última visão era a rapidez com que a criatura devia ter-se deslocado para realizar todas as proezas que lhe eram atribuídas.

Quando ficamos conhecendo melhor os posseiros, achamo-los curiosamente parecidos sob muitos aspectos. Eram animais simples, recuando lentamente na escala evolutiva devido a sua lamentável ascendência e ao seu isolamento brutalizante. Temiam os forasteiros, mas aos poucos foram acostumando-se a nós e acabaram sendo de grande ajuda quando batemos todas as matas e arrasamos todas as divisórias da casa à procura do medo à espreita. Quando pedimos para nos ajudarem a encontrar Bennett e Tobey, ficaram pesarosos, porque queriam mesmo nos ajudar, mas sabiam que essas vítimas haviam deixado tão por completo o mundo quanto a sua própria gente desaparecida. Estávamos plena-mente convencidos de que um grande número deles havia sido morto e removido, da mesma forma que os animais selvagens haviam sido há muito exterminados, e esperávamos, apreensivos, a ocorrência de novas tragédias.

Em meados de outubro, nossa falta de progressos nos intrigou. Com a claridade das noites, nenhuma agressão diabólica ocorreu, e a total inutilidade de nossas buscas na casa e na região quase nos levou a considerar o medo à espreita um agente imaterial. Temíamos a chegada do tempo frio interrompendo nossas investigações, pois estávamos todos convencidos de que o demônio geralmente se aquietava no inverno. Assim, havia uma espécie de pressa e ansiedade em nossa última exploração, à luz do dia, no vilarejo assediado pelo medo, agora deserto por causa do pavor dos posseiros.

O malfadado vilarejo de posseiros não tinha nome, mas era muito antigo, incrustado numa fenda protegida, mas desmaiada, entre duas elevações chamadas, respectivamente, Cone Mountain e Maple Hill. Ele ficava mais perto da Maple Hill que da Cone Mountain; alguns de seus casebres eram, de fato, escavados na encosta do primeiro desses montes. Geograficamente, ele ficava a cerca de três quilômetros a noroeste da base da Tempest Mountain e a quatro quilômetros do solar rodeado de carvalhos. Da distância entre o vilarejo e o solar, três quilômetros e meio do lado da povoação formavam um espaço inteiramente descoberto, uma planície quase horizontal, exceto por uns outeiros baixos em forma de serpente, com uma vegetação de capim e arbustos esparsos. Considerando essa topografia, concluímos que o monstro devia ter vindo da Cone Mountain, da qual saía um braço arborizado para o sul até uma pequena distância do contraforte mais ocidental da Tempest Mountain. A elevação do terreno, nós atribuímos conclusivamente a um deslizamento de terra de Maple Hill, em cuja encosta uma árvore solitária, alta e fendida havia sido o ponto de impacto do raio que convocara o demônio.

Quando, pela vigésima vez ou mais, Arthur Munroe e eu esquadrinhávamos com minúcia cada centímetro do vilarejo devastado, tomou-nos um certo desalento mesclado com novos e vagos temores. Era muito estranho, mesmo quando tantas coisas insólitas e assustadoras pareciam comuns, encontrar um cenário tão desprovido de pistas depois de acontecimentos tão espantosos; e nós andávamos de um lado para outro, debaixo do céu de chumbo que escurecia, com aquele zelo trágico e desorientado resultante da combinação de um sentido de futilidade com a necessidade de ação. Nossos cuidados eram extremos. Cada casebre era visitado de novo, cada escavação na encosta era pesquisada novamente à procura de corpos, cada passagem espinhosa da encosta adjacente era mais uma vez esquadrinhada atrás de tocas e cavernas, mas foi tudo em vão. Como já comentei, porém, novos e vagos temores pairavam ameaçadores sobre nós, como se gigantescos grifos com asas de morcego nos espreitassem de abismos siderais.

À medida que a tarde avançava, a visão ia ficando cada vez mais difícil e podíamos ouvir o rumor da tormenta formando-se sobre a Tempest Mountain. Esse som, num lugar como aquele, decerto nos excitou, embora menos do que teria feito se já houvesse anoitecido. Naquelas circunstâncias, esperávamos que a tempestade fosse durar até muito depois de escurecer, e, com essa esperança, interrompemos nossas buscas incertas na encosta e nos dirigimos ao vilarejo habitado mais próximo com a intenção de reunir um grupo de posseiros para nos ajudar na investigação. Apesar de tímidos, um grupo dos mais jovens inspirou-se em nossa liderança protetora para prometer alguma ajuda.

Mal nos havíamos afastado, porém, desabou uma chuva tão torrencial e cegante, que era um imperativo absoluto encontrarmos algum abrigo. A escuridão extrema, quase noturna, do céu nos fazia tropeçar, mas, guiados pelos relâmpagos freqüentes e por nosso conhecimento detalhado da vila, logo alcançamos as últimas casinhas do agrupamento, uma combinação he-terogênea de troncos e tábuas cuja porta e a única e minúscula janela remanescentes davam para a Maple Hill. Trancando a porta às nossas costas contra a fúria do vento e da chuva, encaixamos a tosca vedação, que nossas buscas freqüentes nos haviam ensinado onde encontrar, na janela. Era terrível ficarmos ali, sentados em caixas raquíticas, naquela escuridão de breu, mas tratamos de fumar nossos cachimbos e, de tempos em tempos, acendíamos as lanternas de bolso.

De vez em quando, podíamos ver o clarão de um relâmpago através das rachaduras da parede. A tarde estava tão escura, que intensificava o brilho de cada clarão.

A vigília na tempestade fez-me recordar, estremecendo, minha noite apavorante na Tempest Mountain. Meu espírito retornou àquela estranha pergunta tão recorrente desde que a coisa medonha acontecera, e mais uma vez cismei sobre as razões pelas quais o monstro, tendo-se aproximado dos três vigilantes, seja pela janela, seja pelo interior, havia começado pelos homens das pontas e deixado o do meio por último, quando a titânica bola de fogo o afugen-tou. Por que não havia apanhado suas vítimas na ordem natural, eu em segundo lugar, de qualquer lado que se houvesse aproximado? Com que espécie de tentáculo de longo alcance ele agarrava suas presas? Saberia que eu era o líder e teria me poupado para um destino pior que o de meus companheiros?

Estava no meio dessas reflexões quando, como que num plano dramático para intensificá-las, caiu nas proximidades um raio terrível acompanhado por um ruído de terra deslizando, enquanto o feroz ulular do vento ascendia a alturas infernais. Estava claro que a árvore solitária da Maple Hill havia sido novamente atingida, e Munroe levantou-se de sua caixa e foi até a minúscula janela para verificar o estrago. Quando tirou a vedação, o vento e a chuva entraram uivando de maneira ensurdecedora, impedindo-me de ouvir o que ele dizia, mas esperei enquanto ele curvava-se para fora e tentava aquilatar o pandemônio da natureza.

O abrandamento gradual do vento e a dispersão da insólita escuridão nos informou que a tempestade estava passando. Eu esperava que ela fosse durar até a noite para ajudar em nossa busca, mas um furtivo raio de sol passando por um buraco de nó de madeira às minhas costas excluiu essa possibilidade. Sugerindo a Munroe que era melhor conseguirmos um pouco de luz antes de cair uma nova chuvarada, destranquei e abri a porta tosca. O chão do lado de fora era uma massa singular de lama e poças d’água, com novos montículos formados pelo leve deslizamento de terra, mas nada vi que justificasse o interesse que mantinha meu com-panheiro curvado, em silêncio, para fora da janela. Cruzando até onde ele estava, toquei em seu ombro, mas ele não se mexeu. Então, quando o sacudia vigorosamente e virava, senti as gavinhas sufocantes de um horror canceroso cujas raízes estendiam-se a passados infinitos e abismos imensuráveis das trevas que se estendem além dos tempos.

Pois Arthur Munroe estava morto. E, no que restara de sua cabeça mastigada e sem olhos, já não havia um rosto.

III. O que significava o clarão vermelho

Na noite tempestuosa de 8 de novembro de 1821, com uma lanterna projetando sombras espectrais, ali estava eu cavando, solitário e embrutecido, a sepultura de Jan Martense. Começara a cavar à tarde, porque a tempestade estava formando-se, e, agora que escurecera e a tempestade desabara sobre a folhagem densa, eu estava contente.

Creio que minha mente ficou um tanto perturbada pelos fatos desde 5 de agosto: a sombra diabólica no solar, a tensão geral e o desapontamento e aquilo que ocorrera na vila durante um vendaval em outubro. Depois daquilo, eu havia cavado uma sepultura para alguém cuja morte eu não pudera compreender. Sabia que outros também não poderiam, por isso os deixei pensar que Arthur Munroe perdera-se. Eles o procuraram sem nada encontrar. Os posseiros poderiam ter compreendido, mas não ousei apavorá-los ainda mais. Eu próprio me sentia curiosamente insensível. Aquele choque no solar havia produzido alguma coisa em meu cérebro, e tudo em que eu conseguia pensar era procurar um horror que agora havia adquirido uma estatura cataclísmica em minha imaginação, uma procura que o destino de Arthur Munroe me fizera jurar que manteria secreta e solitária.

O cenário de minhas escavações, sozinho, teria bastado para acovardar qualquer pessoa comum. Árvores primitivas, apavorantes por seus descomunais tamanhos, idade e aspecto grotesco me espreitavam como pilares de algum diabólico tempo druídico, abafando a tempesta-de, aplacando o vento mordente e deixando passar um pouco de chuva apenas. Além dos troncos lacerados do fundo, iluminados pelos fracos lampejos filtrados dos relâmpagos, erguiam-se as pedras úmidas cobertas de hera do solar deserto enquanto, um pouco mais perto, estava o abandonado jardim holandês cujos passeios e canteiros encontravam-se infestados por uma vegetação hipertrofiada, fétida, fúngica e esbranquiçada que jamais vira a luz plena do sol. E, mais perto ainda, havia o cemitério, onde as árvores deformadas projetavam galhos insanos quando suas raízes deslocavam as lajes profanas e sugavam o veneno do que jazia embaixo. Aqui e ali, por baixo da mortalha de folhas pardas que apodreciam e se putrefaziam na escuridão da mata antediluviana, eu podia divisar os contornos sinistros de alguns daqueles outeiros baixos que caracterizavam a região trespassada pelos raios.

A História me conduziu a essa sepultura arcaica. A História, de fato, era tudo que me restava depois de tudo mais terminar em zombeteiro satanismo. Eu agora acreditava que o medo à espreita não era um ser material, mas um fantasma com presas lupinas que cavalgava o relâmpago no meio da noite. E acreditava, em virtude de todo o folclore local que havia desenterrado na busca junto com Arthur Munroe, que o fantasma era o de Jan Martense, morto em 1762. Este era o motivo para estar cavando estupidamente em seu túmulo.

O solar Martense fora erguido em 1670 por Gerrit Martense, um abastado mercador de Nova Amsterdã que não gostou da passagem do poder para o domínio britânico e havia construído aquele faustoso domicílio num cume arborizado remoto cujas intocada solidão e insólita paisagem o agradaram. O único contratempo importante do lugar eram as violentas tempestades de verão. Ao escolher a colina e construir o seu solar, Mynheer Martense havia atribuído essas freqüentes irrupções naturais a alguma peculiaridade do ano, mas, com o tempo, ele percebeu que o local era especialmente propenso a tais fenômenos. Por fim, considerando que as tempestades eram uma ameaça a sua própria vida, adaptou um porão onde poderia proteger-se de suas ocorrências mais violentas.

Sabe-se ainda menos dos descendentes de Gerrit Martense do que dele próprio, pois todos foram criados no ódio à civilização inglesa e educados para evitar os colonos que a aceitavam. Sua vida era muito reclusa e as pessoas diziam que, por causa de seu isolamento, eles tinham-se tornado pessoas de poucas palavras e difícil compreensão. Ao que parece, todos eram portadores de uma peculiar dissemelhança hereditária de olhos, tendo geralmente um olho azul e outro castanho. Seus contatos sociais foram ficando cada vez mais raros até que eles finalmente deram para se casar com a numerosa população servil que havia na propriedade. Muitos degenerados da populosa família cruzaram o vale e mesclaram-se com a população mestiça que mais tarde viria a gerar os desgraçados posseiros. O resto havia-se aferrado com teimosia ao solar ancestral, encerrando-se cada vez mais no clã e desenvolvendo uma reação neurótica às freqüentes tempestades.

A maior parte dessas informações veio ao mundo por meio do jovem Jan Martense, que, movido por algum tipo de inquietação, alistou-se no exército colonial quando as notícias sobre a Convenção de Albany chegaram à Tempest Mountain. Ele foi o primeiro dos descendentes de Gerrit a ver alguma coisa do mundo externo e, quando voltou, em 1760, depois de seis anos de campanhas militares, foi odiado como um intruso por seu pai, seus tios e seus irmãos, apesar de ter os olhos desiguais dos Martense. Ele já não poderia compartilhar as peculiaridades e preconceitos dos Martense, e as próprias tem-pestades da montanha não conseguiam inebriá-lo como antes. Seu ambiente, agora, o deprimia, e ele chegou a escrever muitas vezes a um amigo de Albany sobre seus planos para deixar o abrigo paterno.

Na primavera de 1763, Jonathan Gifford, o amigo de Albany de Jan Martense, ficou preocupado com o silêncio de seu cor-respondente, especialmente por causa das condições e disputas no solar Martense. Decidido a visitar Jan em pessoa, partiu a cavalo para as montanhas. Seu diário afirma que ele chegou à Tempest Mountain em 20 de setembro, encontrando o solar em avançado estado de decrepitude. Os soturnos Martense, cuja aparência de animal sujo o deixou chocado, disseram-lhe com sons guturais entrecortados que Jan havia morrido. Insistiram em que ele fora atingido por um raio no outono anterior, e agora estava enterrado atrás dos maltratados jardins. Mostraram a sepultura árida e sem lápide ao visitante. Alguma coisa nos modos dos Martense produziu um sentimento de repulsa e suspeita em Gifford, e uma semana mais tarde ele voltou com uma pá e um enxadão para inves-tigar aquele lugar sepulcral. Encontrou o que já esperava: um crânio cruelmente esmagado por golpes selvagens; e, retornando a Albany, acusou abertamente os Martense do assassinato de seu parente.

Faltaram evidências legais, mas a história alastrou-se rapidamente por toda a região, e, da-quela época em diante, os Martense foram colocados em ostracismo pelo mundo. Ninguém queria negociar com eles, e sua propriedade dis-tante era evitada como um lugar maldito. De alguma forma, eles conseguiram seguir vivendo autonomamente com o produto de sua proprie-dade, pois as luzes ocasionais que brilhavam nas colinas distantes atestavam a persistência de sua presença. Essas luzes foram vistas até 1810, mas, já perto dessa época, haviam-se tornado muito inconstantes.

Neste ínterim, formou-se uma mitologia diabólica sobre o solar e a montanha. O lugar era evitado com redobrada atenção e investido de toda sorte de segredos míticos que a tradição poderia fornecer. Ficou sem ser visitado até 1816, quando a persistente ausência das luzes foi notada pelos posseiros. Nessa ocasião, um grupo fez investigações, encontrando a casa deserta e quase em ruínas.

Não encontraram esqueletos por lá, daí terem inferido que o caso era de partida, e não de morte. O clã parecia ter partido havia muitos anos, e os alpendres improvisados indicavam o tanto que se haviam multiplicado antes da mi-gração. Seu nível cultural descera muito, como ficava claro pelos móveis decadentes e a prataria espalhada que deviam ter sido havia muito abandonados quando os donos partiram. Mas, embora os temidos Martense houvessem parti-do, o medo da casa assombrada persistiu e ficou ainda mais forte quando novas e estranhas histórias começaram a correr entre os montanheses. Lá estava ela, deserta, temida e associada ao fantasma vingador de Jan Martense. Lá estava ela ainda na noite em que escavei o túmulo de Jan Martense.

Descrevi minha demorada escavação como estúpida, e assim ela era, de fato, tanto no método como nos objetivos. Não demorou para o esquife de Jan Martense ser desenterrado — continha agora apenas pó e salitre —, mas, em minha gana para exumar seu fantasma, cavei irracional e desordenadamente embaixo de onde ele fora depositado. Deus sabe o que eu esperava encontrar — sentia apenas que estava escavando a sepultura de um homem cujo fantasma deam-bulava à noite.

É impossível dizer que profundidade monstruosa eu havia alcançado quando minha pá, e logo depois meus pés, desmoronaram solo abaixo. O fato, nas circunstâncias, era fantástico, pois a existência ali de um espaço subterrâneo vinha confirmar, de maneira terrível, minhas loucas teorias. Na pequena queda, meu lampião apagou-se, mas tirei uma lanterna elétrica do bolso e avistei o estreito túnel horizontal que se afastava indefinidamente em ambas as direções. Ele era largo o bastante para um homem esguei-rar-se por ele, e, conquanto nenhuma pessoa sã teria tentado fazê-lo naquele momento, eu esqueci perigo, razão e limpeza em minha ânsia obstinada de desvendar o medo à espreita. Escolhendo a direção da casa, arrastei-me com ousadia por aquela cova estreita, contorcendo-me às cegas e às pressas para diante e só ocasionalmente acendendo a lanterna que conservava estendida à minha frente.

Que linguagem poderá descrever o espetáculo de um homem perdido na terra abismai, tateando, contorcendo-se, revirando-se, espremendo-se, arrastando-se como um louco por túneis sinuosos escavados numa escuridão imemorial sem qualquer noção de tempo, segurança, direção ou objetivo definido? Havia algo de hediondo naquilo, mas foi o que fiz. Eu o fiz por tanto tempo, que a vida desfez-se numa recordação distante, igualando-me às toupeiras e vermes das profundezas espectrais. Na verdade, foi por acidente apenas que, depois de curvas intermináveis, balancei minha esquecida lanterna elétrica, fazendo-a reluzir fantasticamente nas paredes de barro endurecido que se estendiam até uma curva à frente.

Eu vinha arrastando-me desse jeito havia algum tempo, de forma que minha bateria estava quase sem carga quando a passagem inclinou-se abruptamente para cima, alterando meu avanço. E, quando ergui os olhos, não estava preparado para o que vi cintilando à distância: dois reflexos diabólicos de minha bruxuleante lanterna, dois reflexos brilhando com um fulgor maligno e inconfundível, provocando recordações alucinadas. Parei automaticamente, embora me faltasse cabeça para retroceder. Os olhos apro-ximaram-se, mas eu só pude distinguir a garra da coisa que se aproximava.

Mas que garra! Em seguida, eu ouvi, muito ao longe, lá no alto, um leve estrondo que reconheci. Era a trovoada selvagem da montanha, elevada a um furor histérico — eu devia estar arrastando-me para cima já havia algum tempo e a superfície estava agora muito perto. E, quando o trovão abafado retumbou, aqueles olhos ainda me fitavam com uma vaga malignidade.

Graças a Deus, eu não sabia então do que se tratava, pois poderia ter morrido. Mas fui sal-vo pelo próprio trovão que a havia conclamado, pois, depois de uma pavorosa espera, explodiu do céu exterior invisível um daqueles freqüentes raios do lado da montanha cujas conseqüências eu havia notado, aqui e ali, como rasgos de terra revolvida e fulguritos dos mais variados tama-nhos. Com um furor ciclópico, ele rasgou o chão acima daquela cova abjeta, cegando-me e ensurdecendo-me, mas sem me reduzir completamente à inconsciência.

Agarrei-me, espojei-me no caos da terra revolvida pelo deslizamento até a chuva que caía sobre minha cabeça me recompor e pude notar que alcançara a superfície num ponto conhecido: um lugar íngreme, desmaiado, na encosta sudoeste da montanha. Uma sucessão de relâmpagos iluminou o solo revirado e os restos do curioso outeiro baixo que se estendera da encosta superior arborizada, mas não havia nada naquele caos que assinalasse o local de meu egresso da catacumba letal. Meu cérebro estava em estado tão caótico como a terra e, quando um distante clarão vermelho eclodiu no horizonte meridional, eu mal percebi o horror pelo qual havia passado.

Dois dias depois, porém, quando os pos-seiros explicaram-me o significado do clarão vermelho, senti um horror ainda maior do que me haviam causado a cova de lama, a garra e os olhos, um horror maior por suas estarrecedoras implicações. Num vilarejo a muitas milhas de distância, uma orgia de medo sucedera ao raio que me trouxera à superfície, e uma coisa indescritível havia saltado de uma árvore para dentro de uma cabana de telhado frágil.

Ela havia feito algo, mas os posseiros tinham ateado fogo à cabana antes que ela pudesse escapar. Ela estivera realizando aquilo no exato momento em que a terra desmoronara sobre a coisa com a garra e os olhos.

IV. O horror nos olhos

Não pode ser normal a mente de alguém que, sabendo o que eu sabia dos horrores da Tempest Mountain, saísse sozinho em busca do medo que estava à espreita naquele lugar. O fato de que pelo menos duas das encarnações do medo estavam destruídas não passava de uma frágil garantia de segurança física e mental neste Aqueronte de diabolismo multiforme, mas prossegui em minha busca com zelo ainda maior à medida que os fatos e as revelações iam-se tornando mais monstruosos.

Quando fiquei sabendo, dois dias depois de meu terrível rastejar por aquela cripta dos olhos e da garra, que uma criatura maligna havia aparecido a vinte milhas de distância no mesmo instante em que os olhos me fitavam, experimentei verdadeiras convulsões de pavor. Mas aquele pavor estava tão misturado com a admiração e uma excitação grotesca, que a sensação era quase agradável. Às vezes, na agonia de um pesadelo, quando potências invisíveis nos fazem rodopiar sobre os telhados de curiosas cidades mortas rumo ao abismo sorridente de Nis, é um alívio, e mesmo uma delícia, gritar freneticamente e atirar-se junto com o medonho vórtice da sina onírica em qualquer abismo sem fundo e escancarado que possa existir. E assim foi com o pesadelo ambu-lante de Tempest Mountain. A descoberta de que dois monstros haviam assombrado o lugar causou-me um desejo insano de mergulhar na própria terra da região maldita e desenterrar, com as mãos nuas, a morte que espreitava de cada polegada do solo venenoso.

Tão logo me foi possível, visitei o túmulo de Jan Martense e escavei inutilmente onde já havia cavado antes. Um extenso desmoronamento havia apagado qualquer traço da passagem subterrânea, enquanto a chuva varrera tanta terra para dentro da escavação, que eu não poderia dizer até que profundidade havia cavado no outro dia.

Também fiz uma árdua viagem até o vilarejo distante onde a criatura letal havia sido queimada, sem muito êxito. Entre as cinzas da fatídica cabana, encontrei vários ossos, mas, aparentemente, nenhum do monstro. Os posseiros disseram que a coisa fizera apenas uma vítima, mas nisto os julguei imprecisos, pois, além do crânio completo de um ser humano, havia um outro fragmento de osso que parecia ter pertencido algum dia a um crânio humano.

Embora houvessem visto a rápida queda do monstro, ninguém poderia dizer qual era a apa-rência exata da criatura. Os que a tinham vislumbrado, chamaram-na simplesmente de um diabo. Examinando a grande árvore onde ela estivera de tocaia, não pude discernir alguma marca especial. Tentei encontrar uma trilha na floresta escura, mas nesta ocasião não consegui suportar a visão daqueles troncos grossos e do-entios ou daquelas enormes raízes serpeantes que se retorciam de maneira tão maligna antes de mergulharem no solo.

Meu passo seguinte foi vasculhar com atenção microscópica o vilarejo deserto onde a morte comparecera com maior freqüência e onde Arthur Munroe vira algo que não vivera para descrever. Apesar de haver-me esmerado nas buscas anteriores, agora eu tinha novos dados para testar, pois meu horrível rastejar sepulcral me convencera de que ao menos uma das fases da monstruosidade havia sido uma criatura subterrânea. Desta vez, em 14 de novembro, minha busca concentrou-se nas encostas da Cone Mountain e da Maple Hill com vista para o infausto vilarejo, e dei uma atenção toda especial à terra solta da região do deslizamento nesta última elevação.

A tarde de minha busca não revelou nada, e o crepúsculo chegou quando eu estava na Ma-ple Hill olhando para baixo, para o vilarejo e, por sobre o vale, para a Tempest Mountain. O pôr-do-sol fora estupendo e agora a lua surgira quase cheia, inundando de prata a planície, a encosta distante e os curiosos outeiros baixos que se erguiam aqui e ali. Era um cenário tranqüilo, bucólico, mas, sabendo o que ele ocultava, eu o detestei. Detestei a lua zombeteira, a planície hipócrita, a montanha festiva e aqueles outeiros sinistros. Tudo me parecia maculado por um contágio abjeto e inspirado por uma associação espúria que encobria potências ocultas.

Então, enquanto olhava absorto para a paisagem enluarada, meu olhar foi atraído por alguma coisa singular na natureza e na disposição de alguns elementos topográficos. Sem ter um conhecimento preciso de geologia, desde o início eu me havia interessado pelos curiosos montes e outeiros da região. Havia notado que eles estavam distribuídos em toda a roda da Tempest Mountain, embora fossem menos numerosos na planície do que perto do próprio cume da montanha, onde a glaciação pré-histórica certa-mente havia encontrado menor oposição para suas caprichosas e fantásticas investidas.

Agora, à luz daquela lua baixa que projetava sombras longas, misteriosas, ocorreu-me que os diversos pontos e linhas do sistema de montes tinham uma relação peculiar com o cume da Tempest Mountain. Aquele cume era com certeza o centro de onde irradiavam, indefinida e irregularmente, as linhas ou fileiras de pontos, como se o abjeto solar Martense lançasse tentáculos visíveis de pavor. A idéia da existência desses tentáculos provocou-me um calafrio inexplicável, e eu parei para analisar meus motivos para acreditar que aqueles outeiros eram um fenômeno glacial.

Quanto mais eu analisava, menos acreditava, e, em minha mente recém-desperta, começaram a martelar analogias grotescas, horríveis, relacionadas a certos aspectos da superfície e da minha experiência subterrânea. Antes que desse por isso, estava balbuciando palavras desconexas: “Meu Deus!... montículos de toupeiras... o maldito lugar deve estar coalhado... quantos... aquela noite no solar... elas pegaram Bennet e Tobey primeiro... um de cada lado...”. Logo depois eu estava cavando freneticamente no montículo que me ficava mais próximo, cavando com desespero, tremendo, mas quase em júbilo, cavando até que enfim soltei um grito com uma espécie de emoção deslocada quando dei com um túnel, ou toca, como aquele onde havia rastejado naquela outra noite infernal.

Depois disso, lembro-me de ter corrido com a pá na mão, uma corrida medonha pelas campinas enluaradas eriçadas de pequenos morros e pelos precipícios doentios da assombrada floresta da encosta, saltando, gritando, ofegando, rumando para o terrível solar Martense. Lembro-me de ter cavado irracionalmente em todas as partes do porão atulhado de urzes, cavado para encontrar o cerne e o centro daquele universo maligno de montes. E, depois, lembro-me de como ri ao dar com a passagem, a abertura na base da velha chaminé, onde o mato espesso crescia projetando sombras singulares à luz da única vela que trazia comigo. O que ainda restava em baixo naquela colméia infernal, emboscado e à espera de ser convocado pelo trovão, eu não sabia. Dois haviam sido mortos; talvez aquilo houvesse acabado com eles. Mas havia ainda aquela vontade ardente de atingir o âmago do segredo do medo, que, uma vez mais, eu viera a considerar definido, material e orgânico.

Minhas indecisas especulações sobre se deveria explorar a passagem sozinho e imediatamente com minha lanterna ou tentar reunir um grupo de colonos para a busca foram interrompidas alguns instantes depois por uma súbita rajada de vento, vinda de fora, que apagou a vela, deixando-me na mais absoluta escuridão. A Lua já não brilhava através das frinchas e aberturas acima de mim e, com uma sensação de fatídico alarme, eu ouvi o sinistro e agourento rumor da tempestade aproximando-se.

Uma confusa associação de idéias apossou-se de meu cérebro, levando-me a caminhar às apalpadelas até o canto mais distante do porão. Meus olhos, porém, não se desviaram em nenhum momento da horrível abertura na base da chaminé, e pude vislumbrar os tijolos derrubados e as urzes doentias quando o brilho tênue dos relâmpagos transpunha a mata externa e iluminava as frinchas do alto da parede. A cada segundo, uma mistura de medo e curiosidade me consumia. O que a tempestade chamaria — teria sobrado alguma coisa a ser chamada? Guiado por um relâmpago, acomodei-me atrás de uma densa moita de arbustos que me permitia observar a abertura sem ser visto.

Se Deus tiver piedade, algum dia apagará de minha consciência a visão que eu tive e irá deixar-me viver em paz os anos que me restam. Não consigo dormir à noite e preciso tomar soníferos quando troveja. A coisa aconteceu abruptamente, sem aviso: a correria infernal como que de ratos de abismos remotos e impensáveis, o arquejar demoníaco e os grunhidos abafados e, então, daquela abertura embaixo da chaminé, a monumental irrupção de vida morfética — uma abjeta maré de corrupção orgânica mais devastadoramente medonha que a mais negra das conjurações de loucura e morbidez mortais.

Espumando, fervendo, borbulhando como a gosma de uma serpente, ela arrastou-se para fora daquela abertura escancarada, espalhando-se como um contágio purulento e escorrendo para fora do porão por cada ponto de saída — escorrendo para fora para se espalhar pela mata amaldiçoada no meio da noite, disseminando o medo, a loucura e a morte.

Deus sabe quantos poderiam haver — deviam ser milhares. Era estarrecedor ver aquela torrente deles sob os clarões intermitentes dos relâmpagos. Quando seu número reduziu-se o suficiente para poderem ser vistos como organismos separados, percebi que eram demônios, ou macacos, cabeludos, deformados e anãos — caricaturas monstruosas e diabólicas dos símios. Eram tão abjetamente silenciosos, que mal se ouviu um guincho quando um dos últimos des-garrados virou-se com a habilidade de uma longa prática para se servir, de modo habitual, de um companheiro mais fraco. Outros agarraram o que sobrou e comeram com avidez, babando de satisfação. Depois, apesar do susto e da repugnância, minha curiosidade mórbida triunfou, e, quando a última das monstruosidades esgueirou-se sozinha daquele misterioso mundo inferior de pesadelo, saquei a automática e disparei nela encoberto pelo trovão.

Sombras uivantes, deslizantes, torrenciais daquela gosmenta loucura vermelha caçando-se mutuamente por intermináveis passagens ensangüentadas de fulgurante céu purpurino...; fantasmas informes e mutações caleidoscópicas de uma cena fantasmagórica relembrada; florestas de carvalhos monstruosos hipertrofiados com raízes serpeantes retorcendo-se e sugando os humores inomináveis de uma terra verminosa povoada por milhões de monstros canibais; tentáculos em forma de montículos de terra tateando de núcleos subterrâneos de perversão poliposa...; raios enfurecidos sobre paredes cobertas de heras malignas e arcadas demoníacas asfixiadas pela vegetação bolorenta... Deus seja louvado pelo instinto que me levou inconsciente a lugares habitados por gente, ao pacífico vilarejo adormecido sob as plácidas estrelas do céu cristalino.

Em uma semana me recompus o suficiente para convocar um grupo de homens de Albany para explodir com dinamite o solar Martense e todo o cume da Tempest Mountain, obstruir todas as covas-montículos que encon-trasse e destruir certas árvores hipertrofiadas cuja existência parecia um insulto à sanidade mental. Consegui dormir um pouco depois de terem feito isso, mas jamais terei o verdadeiro repouso enquanto recordar aquele inominável segredo do medo à espreita. A coisa irá perseguir-me, pois quem poderá saber se o extermínio foi completo e se fenômenos análogos não poderão existir no mundo todo? Sabendo tudo que eu sei, quem poderia pensar nas cavernas ocultas da Terra sem um pavor infernal de futuras possibilidades? Não posso ver um poço ou uma entrada do trem metropolitano sem estremecer... Por que os mé-dicos não me dão algo para dormir ou para tranqüilizar de fato meu cérebro quando troveja?

O que vi sob o facho da lanterna depois de atirar na coisa indescritível retardatária foi tão simples, que quase um minuto se passou até eu compreender e ficar fora de mim. A coisa era nauseante, um imundo gorila esbranquiçado com presas agudas amareladas e pelagem emaranhada. Era o produto final da degeneração mamífera, o pavoroso resultado da proliferação, multiplicação e alimentação canibalesca isoladas em cima e em baixo da superfície do solo, a encarnação de todo o rosnante, caótico e sorridente pavor que espreita por trás da vida.

Ela olhou para mim enquanto morria, e seus olhos tinham a mesma qualidade estranha que marcava aqueles outros olhos que me haviam fitado no subterrâneo e instigado nebulosas recordações. Um olho era azul, o outro castanho.

Eram os olhos desiguais dos Martense de que falam as velhas lendas, e eu soube, num torrencial cataclismo de horror indizível, o que se havia passado com a família desaparecida, com a terrível casa de Martense ensandecida pelo trovão.

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