quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Hans Staden e o Canibalismo

A palavra “canibal” tem origem no idioma arawan, o qual era falado por uma tribo da América do Sul que realizava a prática. O canibalismo se caracteriza pelo consumo de partes do corpo de um indivíduo da mesma espécie. Existem evidências de que o canibalismo já esteve presente na África, América do Sul, América do Norte, ilhas do Pacífico Sul e Antilhas.

Hans Staden, etnógrafo, nasceu na Alemanha e veio para o Brasil num navio mercante português, em 1547, contratado como artilheiro. Depois de uma viagem acidentada e difícil, tanto que a embarcação, fugindo de um temporal violento e se acostando ao litoral brasileiro, colhida pela vaga naufragou nas proximidades de Itanhaém. Staden e seus companheiros conseguiram salvar-se, penetrando no interior da terra desconhecida.

Uma vez salvo, procurou a amizade dos portugueses ali estabelecidos, conseguindo o seu intento, tanto que, conhecedores da coragem e ousadia do germânico, os lusos não tiveram dúvidas em entregar-lhe o governo do forte que guarnecia o povoado de Bertioga.

Certa manhã se distancia do forte em busca de uma caça indispensável para alimento, que pouca era a provisão, e, quando em plena mata, é surpreendido e cercado pelos Tupinambás, que o ferem, despedaçam-lhe as vestes, pondo-o nu para melhor ferirem-no e ensangüentá-lo, maltratando-o impiedosamente. Levam-no, em seguida, para a taba da tribo, em lugar distante e de marcha penosa, onde havia sete casinholas de palha e a que denominavam Ybatuba.

Prisioneiro desses índios ferozes passou pelos mais atrozes sofrimentos, enfrentado o martírio com inquebrantável fé cristã. Apesar de muito sofrer, tinha a vida respeitada pelo selvagem, acreditando ele que pelo fato de possuir a pele muito alva e basta pilosidade ruiva...

O primeiro relato objetivo de canibalismo no Brasil é descrito por esse navegador, que presenciou diversos rituais deste gênero. De volta à Europa, depois de conseguir ajuda de um navio francês, escreve Duas viagens ao Brasil . Em uma das histórias, Staden conta que as crianças para as quais ele ensinava música acabaram assassinadas e usadas numa sopa que ele consumiu sem saber dos ingredientes. O alemão só se deu conta do que havia ocorrido quando viu, no fundo do caldeirão, os pequenos crânios.

Leia alguns trechos do documento de Staden, quando prisioneiro dos índios:

"Quando nos aproximamos, vimos uma pequena aldeia de sete choças... Chamavam-na Ubatuba. Dirigimo-nos para uma praia aberta ao mar. Bem perto trabalhavam as mulheres numa cultura de plantas de raízes, que eles chamavam mandioca. Estavam ai muitas delas, que arrancavam raízes e tive que lhes gritar, em sua língua "Aju ne xé peê remiurama", isto é: "Estou chegando eu, vossa comida."... Deixaram-me com as mulheres. Algumas foram à minha frente, outras atrás, dançando e cantando uma canção que, segundo seu costume entoavam aos prisioneiros que tencionavam devorar..."

"... No interior da caiçara arrojaram-se as mulheres todas sobre mim, dando socos, arrepelando-me a barba, e diziam em sua linguagem: "Xé anama poepika aé!" - "Com esta pancada vingo-me pelo homem que teus amigos nos mataram". ... "Os homens estavam durante este tempo reunidos em uma outra choça. Lá bebiam cauim e cantavam em honra de seus ídolos, chamados Maracá, que são matracas feitas de cabaças, os quais talvez lhes houvessem profetizado que iriam fazer-me prisioneiro. O canto eu ouvia, mas durante meia hora não houve nenhum homem perto de mim, apenas mulheres e crianças..."

"...Golpeiam o prisioneiro na nuca, de modo que lhe saltam os miolos, e imediatamente levam-lhe as mulheres, o morto para o fogo, raspam-lhe toda a pele, fazendo-o inteiramente branco, e tapando-lhe o anus com um pau a fim de que nada dele se escape..."

Na terra natal de Staden, a Europa, não se praticava canibalismo. Mas nessa época os "civilizados europeus" tinham a Santa Inquisição que torturava, estrangulava e queimava as pessoas...

Fontes: Ubatuba - Personagens: Hans Staden; As obras indígenas - Guiomar; Sociologia: canibalismo

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