segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O Demônio da Tanoaria

Não foi coisa fácil trazer o "Gamecock" até a ilha, porque o rio arrastara tanta lama que os bancos se estendiam muitas milhas pelo Atlântico a dentro. A costa ainda mal se via quando a primeira linha branca de arrebentação nos preveniu do perigo, e desse ponto em diante avançamos com muito cuidado com a vela grande e a bujarrona, conservando a arrebentação da água bem para a esquerda, como estava indicado na carta.

Mais de uma vez a quilha tocou na areia (estávamos calando um pouco mais de seis pés, naquela ocasião) mas tivemos sempre jeito e porte para passar. Finalmente, a água encheu-se rapidamente de bancos, mas tinham mandado uma canoa da feitoria e o piloto Krooboy levou-nos até uma distância de duzentas jardas da ilha.

Aí lançamos ferro, porque os gestos do negro indicavam que não podíamos esperar avançar mais. O azul do mar mudara para o castanho do rio e mesmo ao abrigo da ilha a corrente cantava e remoinhava em volta da nossa proa. A maré parecia estar cheia porque passava acima das raízes das palmeiras e, por todos os lados, sobre sua superfície barrenta e oleosa podíamos ver pedaços de madeira e destroços de toda espécie que tinham sido arrastados pela enxurrada.

Quando me certifiquei de que estávamos firmes em nossa ancoragem, pensei que era melhor começar a tomar água imediatamente, porque o lugar parecia inquinado de febres. O rio denso, os bancos lamacentos e lodosos, o verde brilhante e venenoso da mata, o vapor úmido no ar, eram outros tantos sinais para quem soubesse lê-os. Mandei portanto arriar o escaler com dois grandes odres, que seriam suficientes para durar até chegarmos a São Paulo de Loanda. Quanto a mim, tomei o bote pequeno e remei para a ilha, porque podia ver a bandeira inglesa flutuando acima das palmeiras para marcar a posição do entreposto comercial de Armitage & Wilson.

Depois de passar para além do pequeno bosque pude ver o lugar, uma construção baixa, comprida, caiada, com profunda varanda na frente e imensas pilhas de barris de óleo de palma de ambos os lados. Uma fila de caíques e canoas estava amarrada ao longo da praia e um simples pontão se projetava pelo rio. Dois homens de roupa branca, com faixas vermelhas em volta da cintura, estavam esperando na extremidade para me receber. Um era um camarada grande e corpulento, de barba grisalha. O outro era magro e alto, de rosto pálido, enrugado, meio escondido sob um grande chapéu em feitio de cogumelo.

— Muito prazer em vê-lo — disse este último, cordialmente. — Sou Walker, agente de Armitage & Wilson. Permita-me apresentar-lhe o Doutor Severall, da mesma companhia. Não é muitas vezes que vemos um iate particular nestas paragens.

— É o Gamecock — expliquei — Sou o proprietário e comandante. Meldrum é o meu nome.

— Explorador? — perguntou ele.

— Sou um entomologista — um caçador de borboletas. Estive fazendo a costa oeste, do Senegal para baixo.

— Bom esporte? — perguntou o doutor, voltando para mim um olhar lento, amarelado.

— Tenho quarenta caixas cheias. Viemos aqui para tomar água e também para ver o que tem na minha especialidade.

Estas apresentações e explicações tomaram o tempo durante o qual os meus dois Krooboys amarraram o caíque. Então caminhei pelo pontão com um dos meus novos conhecidos de cada lado, ambos crivando-me de perguntas porque não viam um homem branco havia meses.

— O que fazemos? — disse o doutor quando comecei a fazer perguntas por minha vez. — Nosso negocio dá-nos bastante que fazer, e nas horas vagas discutimos política.

— Sim, por especial mercê da Providencia, Severall é um radical ferrenho e eu sou um unionista inflexível, e discutimos o "Home Rule" durante duas boas horas todas as tardes.

— E bebemos coquetéis de quinino — disse o doutor. — Agora já estamos ambos bem "salgados", mas nossa temperatura normal era de 80 graus no ano passado! Como conselheiro imparcial, não lhe recomendaria ficar aqui por muito tempo, a menos que queira colecionar bacilos, além de borboletas. A embocadura do rio Ogowai nunca será um clima saudável.

Não há nada mais interessante do que a maneira pela qual aqueles marcos avançados da civilização conseguem destilar bom humor da situação desolada em que se encontram, e mostram cara não só calma como alegre às contingências que a vida possa trazer. Por toda a parte desde a Serra Leoa para baixo, encontrei os mesmos pântanos pestilentos, as mesmas comunidades isoladas, torturadas pelas febres, e os mesmos maus gracejos. Há qualquer coisa, que toca as raias do divino naquela forca do homem de erguer-se acima das circunstancias e usar a inteligência para zombar das misérias do corpo.

— O jantar estará pronto dentro de uma meia hora, capitão Meldrum — disse o doutor. — Walker foi providenciar a esse respeito; é o encarregado da casa, esta semana. Entretanto, se quiser, poderemos dar uma volta por ai, e eu lhe mostrarei as vistas da ilha.

O sol já descera abaixo da linha de palmeiras, e a grande abóbada do céu sobre as nossas cabeças era como o interior de uma calote imensa, irisada de cor-de-rosa claro e delicadas nuanças. Ninguém que não tenha vivido numa terra onde o peso e o calor de um guardanapo se tornam intoleráveis sobre os joelhos, pode imaginar o abençoado alívio que o frescor das tardes traz consigo. Naquele ar mais leve e mais puro o doutor e eu caminhamos em volta da pequena ilha, ele apontando os armazéns e explicando a rotina do serviço.

— O lugar é um tanto romântico — disse ele, em resposta a alguma das minhas observações sobre a monotonia daquela vida. — Estamos vivendo aqui bem no limiar do grande desconhecido. Ali — continuou apontando para o nordeste — penetrou Du Chaillu e encontrou a terra dos gorilas. É o país de Gabão — a terra dos grandes símios. Naquela direção — apontando para o sudeste — ninguém avançou muito. A região irrigada por este rio é praticamente desconhecida aos europeus. Cada tronco de árvore que passa por aqui arrastado pela corrente vem de território inexplorado. Desejei muitas vezes ser melhor botânico quando vi singulares orquídeas e plantas de aspecto curioso que encalharam na extremidade oriental da ilha.

O lugar que o doutor indicava era uma praia em declive, literalmente coberta pelos destroços arrastados pela corrente. Em cada extremidade havia uma ponta curva, formando uma espécie de quebra-mar natural, de modo que havia uma pequena baía entre as duas. Esta estava cheia de vegetação flutuante, com um único grande tronco de árvore atravessado no meio, e de encontro ao qual a correnteza vinha quebrar-se.

— Isto é tudo lá de cima — disse o doutor. — Ficam presas em nossa baía até que alguma nova enxurrada desce e são novamente arrastadas para o mar.

— Que árvore é aquela?

— Oh, uma variedade de teca, imagino, mas bastante apodrecida, ao que parece. Chega-nos toda espécie de grandes árvores de madeira de lei flutuando até aqui, para não falar das palmeiras. Venha cá, por favor.

Conduziu-me até um comprido edifício, com enorme quantidade de aduelas de barris e aros de ferro espalhados lá dentro.

— Isto é a nossa tanoaria — disse — Mandam-nos as aduelas em amarrados, e nós montamos os barris aqui. Agora, não acha nada de particularmente sinistro neste edifício, pois não?

Olhei em volta, para o alto do telhado de zinco corrugado, para as paredes de madeiras caiadas e para o chão de terra batida. A um canto havia um colchão e um cobertor.

— Não vejo nada de muito alarmante — disse eu.

— E no entanto há qualquer coisa fora do comum, também — observou ele — Vê aquela cama? Bem, tenciono dormir nela esta noite. Não quero gabar-me, mas acho que é uma boa experiência para os nervos.

— Por que?

— Oh, tem acontecido umas coisas engraçadas. Estive falando a respeito da monotonia da nossa vida, mas asseguro que ela é às vezes tão excitante quanto poderíamos desejá-lo. Seria melhor voltarmos para a casa, agora, porque depois do crepúsculo começa a vir-nos o nevoeiro da febre lá dos pântanos. Ali, pode vê-lo vir através do rio.

Olhei e vi longos tentáculos de vapor branco subindo em espirais de entre o denso matagal verde e arrastando-se em nossa direção por sobre a larga superfície crespa do rio barrento. Ao mesmo tempo o ar se tornou de súbito úmido e frio.

— Lá está o gongo do jantar — disse o doutor. Se este assunto lhe interessa, falar-lhe-ei sobre ele depois.

Interessava-me muito, porque havia qualquer coisa de sério e contrafeito nas suas maneiras enquanto ele estava parado na tanoaria deserta, que me excitava fortemente a imaginação. Era um homem grande, resoluto, aquele doutor, e no entanto vislumbrei-lhe um curioso brilho nos olhos quando os passeava em sua volta — uma expressão que eu não descreveria como sendo de medo, mas antes como a de um homem que está alerta e em guarda.

— Incidentalmente — disse eu quanto voltávamos para a casa — mostrou-me as cabanas de grande parte de seus auxiliares nativos, mas não vi qualquer um deles.

— Dormem no batelão, acolá — respondeu o doutor, apontando para um dos bancos.

— De fato. Mas esse caso não me parece que precisem das cabanas.

— Oh, usavam as cabanas até bem recentemente. Pusemo-nos no batelão até que recuperem um pouco a confiança. Estavam todos meio loucos de medo, e por isso os deixamos ir. Ninguém dorme na ilha, exceto Walker e eu.

— O que foi que os assustou?

— Bem, isso nos traz de novo à mesma história. Suponho que Walker não fará objeção a que ouça tudo a esse respeito. Não sei por que haveríamos de fazer segredo disso, se bem que seja na realidade um assunto bem desagradável.

Não fizemos qualquer outra alusão ao caso durante o excelente jantar que fora preparado em minha honra. Parecia que, mal a vela branca do "Gamecock" surgira na extremidade do cabo Lopez, aqueles hospitaleiros camaradas tinham começado a preparar a famosa "panela-de-pimenta" — que é o ardente cozido peculiar à costa oeste — a cozinhar os inhames e as batatas doces. Servimo-nos de um jantar nativo tão bom quanto se poderia desejar, servido por um elegante criadinho da Serra Leoa. Estava já observando comigo mesmo que ele pelo menos não tomara parte na conversa geral quando, tendo colocado a sobremesa e o vinho em cima da mesa, ele levou a mão ao turbante.

— mais alguma coisa para eu fazer, Massa Walker? — perguntou.

— Não, acho que é tudo, Moussa — respondeu o meu anfitrião. — No entanto, não estou me sentindo bem esta noite, e preferiria muito que ficasses na ilha.

Vi a luta entre o medo e o dever no rosto do negro africano. Sua pele tomara aquele tom lívido-arroxeado que toma o lugar da palidez nos pretos, e seus olhos giraram furtivamente pela sala.

— Não, não, Massa Walker — exclamou por fim — é melhor que venha para o batelão comigo, patrão. Poderei tomar conta do senhor muito melhor no batelão.

— Isso não serve, Moussa. Os homens brancos não fogem dos postos onde são colocados.

De novo vi a luta desesperada no rosto do negro, e de novo seus receios prevaleceram.

— Não adianta, Massa Walker! — exclamou. — Nem que me batessem, não poderia faze-lo. Se fosse ontem, ou se fosse amanha..., mas esta é a terceira noite, patrão, e é mais do que eu posso suportar.

Walker encolheu os ombros.

— Dá o fora, então — disse. — Quando o navio do correio vier podes voltar para a Serra Leoa, porque não preciso de um criado que me abandona quando mais preciso dele. Suponho que isto tudo é um mistério para o senhor, ou o doutor já lhe contou, capitão Meldrum?

— Mostrei ao capitão Meldrum a tanoaria, mas não lhe contei coisa alguma — disse o doutor Several. — Está com mau aspecto, Walker — acrescentou, olhando para o companheiro. Vai ter um forte acesso.

— Sim, tive calafrios o dia inteiro e agora a minha cabeça está oca como um tambor. Tomei dez grãos de quinino, e meus ouvidos estão zumbindo como uma chaleira. Mas quero dormir com você na tanoaria esta noite.

— Não, não meu caro amigo. Não me fale em semelhante coisa. Deve meter-se na cama já, e tenho a certeza de que Meldrum o desculpará. Vou dormir na tanoaria eu, e prometo-lhe que estarei aqui com o seu remédio antes do café.

Era evidente que Walker fora atacado por um desses súbitos e violentos acessos de febre intermitente que são a praga da costa Oeste. Suas faces macilentas estavam vermelhas, os olhos brilhavam com a febre e, de súbito, ali mesmo sentado como estava, começou a bradar uma canção com a voz esganiçada do delírio.

— Vamos, vamos, temos de levá-lo para a cama, amigo velho — disse o Doutor; e com o meu auxílio conduziu o amigo para o quarto de dormir. Ali o despimos e, em seguida, depois de tomar forte sedativo, caiu em profundo torpor.

— Está bem para passar a noite — disse o doutor, quando nos sentamos e tornamos a encher os copos mais uma vez. — Ora é a minha vez, ora a dele, mas felizmente jamais caímos os dois ao mesmo tempo. Teria pena de ficar inutilizado esta noite, porque tenho um pequeno mistério a desvendar. Disse-lhe que tencionava dormir na tanoaria.

— Disse, sim.

— Quando disse dormir queria dizer montar guarda, porque não poderei dormir. Tivemos um tal alarme aqui que nenhum nativo seria capaz de ficar depois do por-do-sol, e tenciono descobrir esta noite qual pode ser a causa disso tudo. Foi sempre nosso costume ter um vigia noturno dormindo na tanoaria para evitar que os aros sejam roubados. Bem, há seis dias o camarada que dormia lá desapareceu, e não pudemos encontrar a menor pista dele. Era, por certo, singular, porque nenhuma canoa fora roubada e estas águas estão tão cheias de crocodilos que não seria possível um homem atravessá-las a nado. O que aconteceu ao camarada ou como poderia ele ter abandonado a ilha, é um mistério. Walker e eu ficamos surpresos, mas os pretos ficaram assombrados e estranhas histórias de vudu começaram a circular entre eles. Porém o verdadeiro pânico começou quando, há três noites, o novo vigia da tanoaria desapareceu também.

— Que foi feito dele? — perguntei.

— Bem, não só não sabemos como nem sequer podemos ter uma idéia que convenha aos fatos. Os negros juram que há um demônio na tanoaria que exige um homem de três em três dias. Não querem ficar na ilha — nada poderia persuadi-los. Até mesmo Moussa, que é um rapaz de bastante confiança, preferiu abandonar, como viu, o patrão com forte acesso de febre a ficar aqui durante a noite. Se quisermos continuar o negócio neste lugar, teremos de tranqüilizar os nossos negros, e não conheço outra maneira melhor de faze-lo do que ficando eu próprio uma noite lá. Hoje é a terceira noite, sabe, de maneira que espero que a coisa venha, seja lá o que for.

— Não tem qualquer indício? — perguntei — . Não havia qualquer sinal de violência, qualquer mancha de sangue, pegadas, nada que lhe possa dar uma idéia da espécie de perigo que terá que enfrentar?

— Absolutamente nada. O homem desapareceu, e é tudo. Da última vez foi o velho Ali, que tinha sido guarda do cais desde que aqui estamos. Estivera sempre firme como uma rocha e nada senão uma desgraça poderia faze-lo abandonar o serviço.

— Bem — disse eu — realmente não acho que isso seja serviço para um homem só. Seu amigo está cheio de láudano, e haja o que houver, não poderá prestar-lhe o menor auxilio. Vai permitir-me passar a noite com o senhor na tanoaria.

— Bom, isso é na realidade muita bondade sua, sr. Meldrum — disse ele cordialmente. — Não é coisa que eu me tivesse atrevido a propor, pois seria exigir muito de um mero visitante casual, mas se de fato quer...

— Por certo que quero. Se me der licença um momento, chamarei à fala o "Gamecock" e avisá-lo-ei de que não precisam me esperar.

Quando voltávamos da outra extremidade do pontão, ficamos espantados com o aspecto da noite. Enorme montanha de nuvens cor de chumbo elevara-se do lado da terra, e vento vinha daquela direção em pequenas baforadas quentes que batiam nos nossos rostos como as baforadas de uma fornalha aberta. Sob o pontão o rio fazia redemoinhos e escachoava, atirando pequenos salpicos de espuma branca por cima das pranchas.

— Com os diabos! — disse o doutor Severall. — Estamos arriscados a ter uma cheia, por cima de todos os nossos embaraço. Essa subida de nível do rio significa chuvas pesadas no interior, e quando começa ninguém sabe até onde irá. Já tivemos a ilha quase coberta, antes. bem, vamos ver se Walker está passando bem e depois, se quiser, iremos para a nossa vigília.

O doente estava mergulhado em profundo torpor e deixamos algumas limas espremidas em um copo ao lado dele, para o caso que acordasse com a sede da febre. Depois nos encaminhamos através da escuridão insólita lançada pelas nuvens ameaçadoras. O rio subira tanto que a pequena baía que descrevi, e que ficava na extremidade da ilha, estava quase obliterada pela submersão da península lateral. A grande balsa de detritos de madeira com a enorme árvore escura no meio estava derivando para cima e para baixo na corrente engrossada.

— Isso é ma boa coisa que a cheia fará por nós — disse o doutor. — Arrasta todo este lixo vegetal que é trazido para a extremidade leste da ilha. Veio com a correnteza no outro dia e aqui ficará até que uma cheia o arraste para o meio do rio. Bem, aqui está o nosso quarto e aqui estão alguns livros, e a minha bolsa de tabaco e vamos tentar passar a noite da melhor maneira possível.

À luz de nossa única lanterna, o grande salão solitário parecia muito vazio e triste. Salvo as pilhas de aduelas e montes de aros, não havia absolutamente nada nele, exceto o colchão preparado a um canto para o doutor. Fizemos dois assentos e uma mesa com as aduelas e iniciamos, juntos, uma longa vigília. Severall trouxera um revólver para mim e estava ele próprio armado com uma espingarda de caça de dois canos. Carregou as armas e deixou-as ao alcance da mão. O pequeno círculo de luz e as sombras negras que nos envolviam eram tão melancólicas que ele foi até a casa e trouxe duas velas. Um dos lados da tanoaria era, porém, rasgado por várias janelas, e foi somente protegendo as nossas luzes com o auxilio de aduelas que conseguimos mante-las acesas.

O doutor, que parecia ser um homem com nervos de ferro, dedicara-se à leitura de um livro, mas eu observei que de vez em quando o pousava sobre os joelhos e passeava um olhar atento à sua volta. Pelo meu lado, embora tentasse uma ou duas vezes ler, achei impossível concentrar os pensamentos no livro. Voltavam sempre a vaguear por aquele grande salão vazio e silencioso e a prender-se naquele sinistro mistério que o envolvia. Torturei o cérebro procurando qualquer teoria possível que pudesse explicar o desaparecimento daqueles dois homens. Havia o fato positivo que se tinham sumido e nem o menor ponto de referência de como nem para onde. E ali estávamos nós, esperando no mesmo lugar — esperando sem a menor idéia sobre aquilo que esperávamos. Tivera razão em dizer que não era empresa para um só homem. Já era bastante excitante naquelas condições, porém fora alguma no mundo me teria feito ficar ali sem um companheiro.

Que noite infindável e tediosa aquela! Lá fora ouvíamos o murmúrio e rumorejo do grande rio e o soluçar do vento em ascensão. Lá dentro, salvo a nossa respiração, o virar das páginas pelo doutor e o zumbido agudo e fino de algum ocasional mosquito, havia um silêncio pesado. Em certo momento senti o coração subir-me à boca ao mesmo tempo que o livro de Severall caía ao chão e ele se punha em pé de um pulo com os olhos fitos em uma das janelas.

— Viu alguma coisa, Meldrum?

— Não. E você?

— Bem, tive a vaga sensação de movimento do lado de fora daquela janela — Pegou na espingarda e aproximou-se dela. — Não, não se vê nada, e contudo eu seria capaz de jurar que alguma coisa passou lentamente por junto dela.

— Uma folha de palmeira, talvez — disse eu, porque o vento se estava tornando mais forte a cada momento.

— Muito provavelmente — concordou ele, e voltou de novo ao seu livro, mas seus olhos desde então lançavam de vez em quando rápidas olhadelas desconfiadas para a janela. Pus-me a observá-la também, mas lá fora estava tudo quieto.

E então, de súbito, nossos pensamentos foram desviados em outra direção, pelo desabar da tempestade. Um relâmpago encandeador foi seguido por um trovão que abalou o prédio. Mais uma vez e mais outra vinha o vívido clarão e o estrondo de uma peça de artilharia. E então desabou a chuva tropical, retinindo e roncando no telheiro de zinco corrugado da tanoaria. O vasto espaço oco ressoava como um grande tambor. Da escuridão ergueu-se estranha mistura de ruídos, um gorgolejar, respingar, pingar, borbulhar, escoar, gotejar — todos os sons líquidos que a natureza pode produzir, desde o desabar e cantar da chuva até ao surdo escachoeirar do rio. Hora após hora o tumulto se tornou mais forte e mais contínuo.

— Palavra, — disse Severall — vamos ter a mãe de todas as cheias, desta vez. Bem, aí vem a aurora, afinal, e isso é uma bênção. Estamos quase acabando de extirpar a superstição da terceira noite, de qualquer maneira.

Uma luz cinzenta ia invadindo a tanoaria e o dia raiou pouco depois. A chuva estiara, mas o rio cor de café rugia como uma catarata. Sua força me fez recear pela ancoragem do "Gamecock".

— Tenho de ir a bordo — disse eu. — Se ele desgarrar, nunca mais será capaz de subir o rio outra vez.

— A ilha é um ótimo quebra-mar — respondeu o doutor — Posso dar-lhe uma xícara de café se vier até a casa.

Sentia-me enregelado e deprimido, e a sugestão foi bem acolhida. Deixamos a agourenta tanoaria com seu mistério ainda por desvendar e patinhamos pela lama até a casa.

— Temos ali o fogareiro de álcool. Se quiser acendê-lo, irei ver como Walker se sente esta manhã — disse Severall.

Deixou-me, mas voltou logo em seguida com uma cara assombrada.

— Foi-se! — exclamou, com voz rouca.

Aquelas palavras deram-me um calafrio de terror. Fiquei parado com a lâmpada na mão, olhando para ele.

— Sim, foi-se! — repetiu — . Venha ver.

Segui-o sem uma palavra e a primeira coisa que vi quando entrei no quarto foi o próprio Walker deitado na cama, com o pijama de flanela cinza que eu ajuda a vestir-lhe na véspera.

— Não está morto, decerto! — gaguejei.

O doutor estava terrivelmente agitado. Suas mãos tremiam como folhas ao vento.

— Morreu há várias horas.

— Foi a febre?

— Febre! Olhe para o pé dele.

Lancei um olhar para baixo e um grito de horror escapou-me dos lábios. Um dos pés estava não somente deslocado, mas torcido completamente na mais grotesca contorção.

— Santo Deus! — exclamei — . O que terá podido fazer isto?

Severall pousara a mão sobre o peito do morto.

— Apalpe aqui! — sussurrou.

Coloquei a minha mão no mesmo lugar. Não houve resistência. O corpo estava absolutamente fofo e mole. Era como apalpar um boneco de serragem.

— O osso esterno desapareceu — disse Several no mesmo murmúrio assustado. Graças a Deus que ele tinha tomado o láudano. Pode ver-lhe pelo rosto que morreu dormindo.

— Mas quem pode ter feito isso? — Já tenho bastante disso — disse o doutor, enxugando a testa. — Não sei se sou mais cobarde do que os meus vizinhos, mas isto vai além das minhas forças. Se vai para o Gamecock...

— Venha daí! — disse eu, e seguimos. Se não corremos foi porque cada um de nós queria conservar uma última sombra de respeito perante o outro. Era perigoso arriscar-se em uma leve canoa sobre as águas do rio engrossado, mas não paramos um instante para pensar isso. Ele ao leme e eu remando, conseguimos mante-la à tona d’água e chegamos à coberta do iate. Ali, com duzentas jardas de água entre nós e aquela maldita ilha, sentimos que éramos nós mesmos de novo.

— Voltaremos dentro de uma hora ou duas — disse ele — mas precisamos de algum tempo para nos refazer. Não consentiria que os negros me vissem no estado em que eu estava ainda agora nem por um ano de salário.

— Eu disse ao despenseiro para preparar o café. Depois voltaremos — disse eu. — Mas, em nome de Deus, doutor, que concluiu de tudo isto?

— Vai além da minha compreensão; simplesmente além da minha compreensão. Tenho ouvido falar da feitiçaria dos vudus, e ria-me disso, com os outros. Mas que o pobre velho Walker, um cidadão inglês decente, temente a Deus, do século dezenove, tivesse de ser enterrado assim, sem um único osso no corpo — isso me abalou, não nego. Mas olhe para ali, Meldrum; estará aquele seu homem maluco, bêbado, ou que é que ele tem?

O velho Patterson, o homem mais antigo da tripulação, e calmo como as pirâmides, estivera de quarto à popa com um croque para afastar os troncos flutuantes que desciam arrastados pela correnteza. Agora estava de cócoras, com os olhos esgazeados olhando para a frente e o dedo indicador agitando-se furiosamente no ar.

— Olhem para ela! — gritava — Olhem para ela!

E no mesmo instante vimo-la.

Um enorme tronco de árvore preto vinha descendo rio abaixo, com a parte superior apenas lambida pelas águas. E na frente dele — cerca de três pés a frente — arqueando-se para cima como a figura de proa de um navio, via-se uma cabeça terrível, balançando devagar de um lado para o outro. Era achatada, malévola, do tamanho de um pequeno barril de cerveja, cor de fungo desbotada, mas o pescoço que a sustentava era mosqueado de amarelo e preto. Enquanto passava ao longo do costado do Gamecock arrastada no torvelinho das águas, vi duas imensas roscas distenderem-se de dentro de um grande buraco no tronco, e a horrenda cabeça ergueu-se de súbito à altura de oito ou dez pés, fitando o iate com olhos sombrios, cobertos de escamas.

— Que é aquilo? — exclamei.

— É o nosso demônio da tanoaria — disse o doutor Severall tornando-se em um instante o mesmo homem resoluto, confiante em si próprio que fora antes — . Sim, aquilo é o diabo que andou assombrando nossa ilha. É a grande serpente píton do Gabão.

Pensei nas histórias que ouvira ao longo de toda a costa sobre os monstruosos constritores do interior, do apetite periódico, e os efeitos assassinos de seu aperto mortal. Então, tudo tomou forma no meu espírito. Houvera uma inundação na semana anterior. Trouxera rio abaixo aquele enorme tronco com seu horrendo ocupante. Quem sabe de que distante floresta tropical teria vindo? Ficara detido na pequena baía a leste da ilha. A tanoaria era a construção mais próxima. Duas vezes, com a volta do apetite periódico, carregara um vigia. Nessa noite voltara sem dúvida, quando Severall julgou ver qualquer coisa movendo-se na janela, mas as nossas luzes tinham-na afastado. Seguira para diante e matara o pobre Walker.

— Por que não o carregou? — perguntei. — Os trovões e relâmpagos devem ter assustado o bruto. Aí vem o despenseiro, Meldrum. Quanto mais depressa tomarmos café e voltarmos à ilha, melhor, porque alguns negros poderiam pensar que tivemos medo.


por Arthur Conan Doyle

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