terça-feira, 28 de outubro de 2008

O Funil de Couro

Meu amigo, Lionel Dacre, morava na Avenue de Wagram, em Paris. Sua casa era dessas comuns, tendo grades de ferro e um espaçoso gramado na frente, e ficava no lado esquerdo se você viesse pelo Arco do Triunfo. Imagino que ela já existia ali bem antes da construção da avenida, pois as telhas cinzas estavam manchadas de líquens, e as paredes mostravam-se emboloradas e desbotadas pelo tempo. Vista da rua, dava a impressão de ser uma casa pequena, com cinco janelas na fachada, se estou bem lembrado, mas que se estreitava para o fundo até reduzir-se a um único amplo aposento.

Era ali que Dacre colocara a singular biblioteca de literatura de ocultismo, e as fantásticas curiosidades que consistiam, ao mesmo tempo, na sua paixão predileta e num divertimento para seus amigos. Homem abastado, de gostos excêntricos e refinados, ele investira boa parte da sua vida e da sua fortuna em reunir o que se dizia ser a única coleção particular de obras cabalísticas, talmúdicas e de artes mágicas, muitas das quais de grande raridade e valia. Suas preferências inclinavam-se para o maravilhoso e o monstruoso, e tenho ouvido dizer que os experimentos que fazia no campo do desconhecido haviam transposto todos os limites do civilizado e do decente.

Ele jamais fez referências sobre esses assuntos a seus amigos ingleses, assumindo sempre a postura do estudioso e do especialista; mas um francês, cujos gostos eram da mesma natureza que os de Dacre, assegurou-me que os piores excessos da missa negra haviam sido perpetrados naquele amplo e alto salão, que se alongava entre as estantes de livros e os mostruários de seu museu.

A aparência de Dacre era suficiente para mostrar que seu acentuado interesse nesses assuntos psíquicos era de ordem intelectual antes que espiritual. Não havia o menor vestígio de ascetismo naquela face robusta, e sim muita energia mental no volumoso crânio em formato de abóbada, que se elevava em curva por entre delgados anéis de cabelo, como um pico nevado acima da orla de abetos.

Seu conhecimento eramaior que sua cautela, e suas faculdades eram bem superiores ao seu caráter. Os pequenos olhos claros, afundados no rosto carnudo, cintilavam com inteligência e uma inabalável curiosidade pela vida, mas eram olhos de alguém sensual e egotista. O que foi dito sobre esse homem é o suficiente, pois agora já é morto, pobre coitado, morto exatamente no momento em que estava certo de haver finalmente descoberto o elixir da vida. Não é do seu caráter complexo que irei me ocupar, mas com o incidente muito estranho e inexplicável que ocorreu durante a visita que lhe fiz no início da primavera de 1882.

Conheci Dacre na Inglaterra, porque minhas pesquisas no salão assírio do Museu Britânico foram conduzidas ao mesmo tempo em que ele tentava estabelecer um significado místico e esotérico a tabuinhas de argila com inscrições da Babilônia, e tal coincidência de interesses foi a causa da nossa aproximação. Comentários casuais converteram-se em conversações diárias, e essas foram nos conduzindo a algo próximo da amizade. Prometi a ele que na seguinte viagem que fizesse a Paris, iria visitá-lo. Quando foi possível cumprir a promessa, eu estava morando numa pequena casa em Fontainebleau, e como os trens noturnos eram inconvenientes, ele me convidou a passar a noite em sua casa.

— Tenho somente aquela peça disponível – disse ele, apontando para um largo sofá em sua ampla biblioteca. — Espero que possa ficar confortável ali.

Era um singular quarto de dormir, com as altas paredes cobertas de volumes encadernados de capa marrom, mas não haveria mobília mais agradável para um rato de biblioteca da minha espécie, e minhas narinas não sentiriam melhor perfume que o leve, sutil cheiro característico que se exala de um velho livro. Disse a ele que não podia desejar aposento mais encantador e ambiente mais apropriado.

— Se as armações não são nada convenientes nem convencionais, são pelo menos valiosas – disse ele, olhando as estantes em torno. — Investi cerca de um quarto de milhão em dinheiro nesses objetos que o cercam. Livros, armas, jóias, esculturas, tapeçarias, imagens – dificilmente haverá aqui algo que não tenha a sua história, geralmente digna de ser contada.

Enquanto dizia essas coisas, ele estava sentado a um lado da espaçosa lareira e eu do outro lado. A mesa de leitura ficava a sua direita e o forte candeeiro acima dela lançava um vívido círculo de luz. No centro da mesa, um palimpsesto semi-enrolado tinha ao redor vários e estranhos artigos de antiquários. Um deles era um volumoso funil, como aqueles usados para encher tonéis de vinho. Parecia ser feito de madeira negra, com as bordas revestidas de latão descorado.

— Eis ali uma coisa curiosa – observei. — Qual é a sua história?

— Ah! – disse ele – é exatamente a pergunta que mais de uma vez tive ocasião de fazer a mim mesmo.Gostaria muito de saber a resposta. Vamos, pegue o funil, examine-o.

Foi o que fiz, descobrindo que aquilo que eu imaginara ser madeira era na realidade couro, embora o tempo o tivesse endurecido ao extremo. Era um enorme funil, e deveria conter pouco mais de um litro quando cheio. O latão recobria as bordas do círculo maior, mas a ponta do funil era também revestida de metal.

— O que você acha disso? – perguntou Dacre.

— Poderia imaginar que pertenceu a algum negociante de vinho ou fabricante de malte da Idade Média – respondi. — Já vi na Inglaterra jarros de couro do século dezessete, para servir bebidas – eram chamados de black jacks. Tinham a mesma cor e solidez dessa peça.

— Arrisco afirmar que esse funil é mais ou menos da mesma data – disse Dacre – e, sem dúvida, também era usado para encher recipientes com líquidos. Se as minha suspeitas forem corretas, contudo, um estranho vinhateiro foi quem o usou e o recipiente a ser enchido, bastante singular. Você não observa nada fora do comum na extremidade mais estreita?

Quando o levantei próximo da luz, pude verificar que numa estreita faixa, cinco polegadas acima do bico de metal, o gargalo de couro do funil estava todo esfolado e riscado, como se alguém tivesse feito cortes ao redor com uma lâmina cega. Somente nessa faixa ocorria isso; a parte restante da superfície negra e fosca não apresentava qualquer aspereza.

— Alguém experimentou cortar o gargalo.

— Você chamaria a isso de corte?

— Está lacerado e esfiapado. Foi preciso alguma força para deixar essas marcas em material tão resistente, qualquer que tenha sido o instrumento utilizado. Mas, e você, o que pensa disso? Acho que você sabe mais do que está dizendo.

Dacre sorriu e seus olhinhos experientes piscaram.

— Você incluiu a psicologia dos sonhos entre os seus assuntos de estudo? – indagou.

— Eu nem mesmo soube até agora da existência de tal psicologia.

— Meu caro senhor, aquela prateleira acima da vitrine de jóias está repleta de livros, de Alberto Magno e outros autores. Tratam exclusivamente desse assunto que, em si mesmo, é uma ciência.

— Uma ciência de charlatães.

— O charlatão é sempre o pioneiro. Do astrólogo surgiu o astrônomo, do alquimista o químico, do mesmeriano o psicólogo experimental. O impostor de ontem é o professor de amanhã. Mesmo coisas tão sutis e impalpáveis como os sonhos serão, no devido tempo, submetidas a sistema e ordem. Quando chegar esse tempo, as pesquisas de nossos amigos daquela prateleira de livros deixarão de ser divertimento dos místicos para se tornarem os fundamentos de uma ciência.

— Supondo que isso seja verdadeiro, que relação pode existir entre a ciência dos sonhos e um funil enorme, negro, com as bordas revestidas de latão?

— Vou contar-lhe. Você sabe que tenho um agente que está sempre atento em relação às raridades e curiosidades de interesse para a minha coleção. Alguns dias atrás ele ouviu falar que um negociante do cais do Sena havia adquirido algumas velhas quinquilharias encontradas num armário de uma casa antiga, aos fundos da rua Mathurin, no Quartier Latin. A sala de jantar dessa velha residência era decorada com um escudo de armas, que continha insígnias, e listas vermelhas sobre um fundo prateado, o que, após investigações, foi comprovado ser o escudo de Nicolas de la Reynie, alto funcionário do rei Luís XIV. Não resta nenhuma dúvida de que os demais artigos encontrados no armário datavam-se de antes do início desse reinado. A inferência é que, por conseguinte, todos os artigos eram propriedade desse Nicolas de la Reynie, que foi, pelo que sei, o cavalheiro que se ocupou com a manutenção e execução das draconianas leis da época.

— E daí?

— Eu pediria a você para segurar uma vez mais o funil e examinar a borda superior, revestida de latão.

Havia por certo alguns arranhões sobre ela, quase apagados pelo tempo. O efeito geral era o da existência de diversas letras gravadas; a última delas mostrava certa semelhança com um B.

— Trata-se de um B, não é?

— Acho que sim.

— Penso também desse modo. Na verdade, não tenho dúvida alguma de que se trata de um B.

— No entanto o nome do aristocrata que você mencionou tinha R por inicial.

— Exatamente! Eis a beleza da coisa. Ele possuía este curioso objeto e, entretanto, o objeto tinha as iniciais de outra pessoa gravadas nele. Por que o guardava?

— Não posso imaginar. Você pode?

— Bem, talvez possa ter uma hipótese. Você consegue ver algum desenho um pouco adiante, nessa mesma borda?

— Eu diria que é o desenho de uma coroa.

— É de fato uma coroa; mas se você examiná-la sob uma boa luz, vai ficar convencido de que não é uma coroa qualquer. É uma coroa heráldica – um emblema de distinção, e esse aí se compõe alternadamente de quatro pérolas e quatro folhas de morangueiro, o emblema representativo de um marquês. Podemos inferir, portando, que a pessoa cujas iniciais terminam com a letra B possuía o título que lhe dava direito ao uso desse diadema.

— Então, esse vulgar funil de couro pertenceu a um marquês? Dacre sorriu de modo peculiar.

— Ou a algum membro da família de um marquês – disse ele. — Isso é tudo que podemos claramente reunir a propósito dessa borda gravada. — Mas o que tudo isso tem a ver com sonhos?

Eu não sei se era algo na expressão do rosto de Dacre, ou qualquer sutil sugestão advinda de seus gestos, mas um sentimento de repulsa, de horror irracional tomou conta de mim, enquanto olhava aquele antigo e rugoso volume de couro.

— Mais de uma vez tenho recebido informações importantes por intermédio de meus sonhos – disse meu companheiro, com o didatismo característico em sua maneira de falar. — Agora faço disso uma norma: sempre que duvido das informações obtidas sobre qualquer objeto, lembro de colocá-lo próximo a mim, quando vou dormir, e fico na expectativa de algum esclarecimento a seu respeito. Tal procedimento não me parece absurdo, embora não tenha ainda merecido as benções da ciência ortodoxa. De acordo com minha teoria, um objeto associado intimamente a qualquer paroxismo da emoção humana, seja de alegria ou de sofrimento, conservará uma certa atmosfera ou ligação com esse evento, capaz de ser comunicada a uma mente sensível. Quero significar, por mente sensível, não uma sensibilidade fora do normal, mas uma inteligência treinada e educada como a sua ou a minha.

—Você quer dizer que, por exemplo, se eu dormir junto daquela velha espada, que está ali na parede, posso sonhar com algum episódio sangrento do qual aquela mesma espada fez parte?

— É um excelente exemplo, pois, a bem da verdade, eu próprio usei aquela espada com esse propósito, e vi no meu sonho a morte de seu possuidor. Morreu durante uma movimentada escaramuça, que não fui capaz de identificar, mas que ocorreu na época das guerras frondistas. Se você pensar a respeito desse assunto, algumas de nossas lendas populares mostram que esse fenômeno já era reconhecido por nossos ancestrais, embora nós, com a nossa sabedoria, as tenhamos classificado entre as superstições.

— Por exemplo?

— Bem, o costume de colocar gulodices de noiva debaixo do travesseiro, de modo que, ao dormir, tenha ela sonhos agradáveis. Este é um dos diversos exemplos que você poderá encontrar num folheto que eu mesmo escrevi sobre o tema. Mas, voltando ao que interessa, dormi certa noite com esse funil ao meu lado, e tive um sonho que sem dúvida projetou uma curiosa luz sobre seu uso e sua origem.

— O que sonhou você?

— Eu sonhei... – Ele fez uma pausa e uma compenetrada expressão de interesse surgiu em seu rosto imponente —.Por Júpiter, é uma ótima idéia! – exclamou. — Realmente vai ser uma experiência muitíssimo interessante. Você é um indivíduo dotado de psiquismo, com nervos que respondem prontamente a qualquer impressão.

— Nunca fiz testes comigo mesmo nessa direção.

— Pois vai testar hoje à noite. Seria demasiado pedir-lhe, como um grande favor, para colocar o velho funil ao lado de seu travesseiro, quando você for deitar-se no sofá?

Tal solicitação pareceu-me grotesca; mas devo admitir que, na complexidade da minha natureza, existe um fascínio para tudo que é bizarro e fantástico. Não acreditava nem um pouco na teoria de Dacre, nem esperava qualquer êxito nesse tipo de experiência; entretanto, seduzia-me o fato de que ela pudesse ser realizada. Dacre, com muita seriedade, levou uma banqueta à cabeceira do sofá e colocou o funil sobre ela. Depois disso, após uma breve conversação, desejou-me boanoite e saiu da sala.

Fiquei algum tempo ali, sentado, fumando, ao calor da lareira, enquanto revolvia mentalmente o incidente ocorrido e a estranha experiência que parecia ainda me aguardar adiante. Cético que eu fosse, havia alguma coisa impressiva no comportamento confiante de Dacre, e aquele ambiente extraordinário que me cercava, o espaço enorme com objetos incomuns, sinistros, espalhados ou suspensos em torno dele, tudo isso criava uma aura de solenidade em meu espírito. Por fim, desvesti-me e, apagando o candeeiro, deitei-me no sofá. Após revolverme por longo tempo, adormeci.

Vou tentar descrever do modo mais exato possível o drama que surgiu em meus sonhos. Ele agora está fixado na minha memória mais claramente do que tudo que eu tenha visto com os olhos despertos. Havia um quarto que tinha a aparência de uma abóbada. Quatro arcos de base triangular levantavam-se dos quatro cantos na altura que seria do forro do quarto e reuniam-se num ponto mais acima, criando um teto na forma de taça. A arquitetura era tosca, mas visivelmente sólida. Com certeza, fazia parte de uma grande construção.

Três homens de vestes negras, que usavam esquisitos chapéus de veludo também negro, mais amplos no topo, sentavam-se numa linha tapetada de vermelho de um estrado. Os rostos eram bastante solenes e melancólicos. À esquerda, de pé, viam-se dois homens, de longas togas, segurando nas mãos porta-fólios que pareciam atulhados de papéis. No lado direito, olhando na minha direção, estava uma mulher de baixa estatura, cabelos louros e olhos azul-claros, expressivos – os olhos de uma menina. Já ultrapassara a primeira juventude, mas não se podia dizer que estivesse na meia-idade. Seu corpo tendia à gordura, mas o porte era altivo e confiante. O rosto, pálido e sereno. Era um rosto interessante, gracioso e no entanto felino, com uma tênue sugestão de crueldade em torno da pequena boca, reta, firme e do maxilar rechonchudo. Vestia uma espécie de camisola branca e larga. De pé, ao lado dela, um sacerdote magro, de expressão ansiosa, murmurava-lhe algo ao ouvido e continuamente elevava um crucifixo diante de seus olhos. Ela voltava a cabeça e olhava fixamente, para além do crucifixo, os três homens de preto que eram, eu senti, os seus juízes.

Enquanto eu olhava, os três homens se levantaram e alguma coisa foi dita, mas não consegui entender uma única palavra, embora percebesse que, dos três, era o homem do centro quem estava falando. Depois abandonaram a sala, seguidos pelos dois homens com portafólios. No mesmo instante vários indivíduos de aparência rude, vestindo sólidas jaquetas, entraram impetuosos e foram removendo, primeiro o assento tapetado de vermelho, depois as armações do estrado, de modo a deixarem aquele espaço inteiramente vazio. Quando a armação de fundo do estrado foi removida, vi alguns objetos assustadores, peças de mobília, que estavam por detrás dela. Uma dessas peças parecia uma cama com cilindros de madeira nas duas extremidades e um sarilho manual para regular o seu comprimento. Outro objeto era um potro de madeira. E assim havia diversas outras coisas igualmente estranhas e também um conjunto de cordas suspensas que passavam por roldanas. Tudo aquilo não era diferente de uma moderna sala de ginástica.

Assim que o estrado foi retirado, apareceu em cena um novo personagem. Era um homem alto, magro, de roupagem negra, tendo um rosto descarnado e austero. O aspecto desse homem me fez estremecer. Suas roupas brilhavam de tão engraxadas e estavam salpicadas de manchas. Movia-se com lenta e impressionante dignidade, como quem assumisse o comando de tudo desde o instante de sua entrada. A despeito da aparência rude e das vestes sujas, aquela sala era agora sua responsabilidade, estava sob seu controle. Viam-se cordas finas enroladas e dependuradas em seu antebraço esquerdo. A mulher examinou-o de alto a baixo com os olhos, mantendo a expressão impassível. Sua expressão era confiante, até mesmo de desafio. Mas foi muito diferente com o sacerdote. O rosto deste tornou-se horrivelmente lívido e eu vi a umidade do suor brilhar e deslizar pela sua fronte ampla e levemente inclinada. Ele ergueu as mãos em gesto de prece e curvava-se continuamente para murmurar palavras frenéticas no ouvido da mulher.

O homem de vestes negras agora avançava e, tomando uma das cordas em seu braço esquerdo, amarrou os pulsos da mulher, que ficou com as mãos unidas. Ela estendia os braços sem resistência na direção dele, enquanto era amarrada. Então ele segurou-a rudemente pelos ombros, empurrando-a na direção do potro de madeira, cujo assento ficava um pouco acima da cintura dela. Por isso ergueram-na e colocaram-na sobre o assento, deitada de costas, com o rosto voltado para o teto, enquanto o sacerdote, horrorizado e trêmulo, fugia da sala. A mulher movia rapidamente os lábios, e, ainda que eu não pudesse ouvir nada, sabia que ela estava rezando. Seus pés pendiam suspensos nos dois lados do potro e vi que alguns lacaios grosseiros, sob ordem, haviam-lhe amarrado os tornozelos e prendido a outra extremidade das cordas em anéis de ferro fixados sobre o chão de pedra.

Senti que meu coração afundava, enquanto eu via aqueles sinistros preparativos e ao mesmo tempo me achava preso ao fascínio do horror e não conseguia afastar os olhos daquele terrível espetáculo. Um homem entrara na sala carregando um balde de água em cada mão Outro homem o seguia, trazendo um terceiro balde. Foram deixados ao lado do cavalo de madeira. O segundo homem segurava na outra mão uma grande concha de madeira – espécie de tigela com uma asa reta. Entregou-a ao homem de vestes negras.

Nesse momento um dos lacaios se aproximou da mulher com um objeto escuro nas mãos, o qual, mesmo em sonho, apoderou-se de mim, originando um vago sentimento de familiaridade. Era um funil de couro. Com um impulso enérgico e horrível, o lacaio enfiou-o na... – mas não pude mais suportar. Meus cabelos se arrepiaram de pavor. Eu me estorci e debati, conseguindo romper os limites do sonho, soltando o grito mais forte de toda minha vida e fui encontrar-me, trêmulo de horror, no sofá de uma ampla biblioteca, com raios de luar fluindo da janela e atirando arabescos sombreados e prateados na parede oposta.

Ah, que alívio abençoado sentir que estava de volta ao século dezenove, e não sob uma abóbada medieval, que estava num mundo onde os homens tinham corações humanos em seus peitos. Sentei-me no sofá, tendo os membros ainda trêmulos, a mente dividida entre a gratidão e o horror. Pensar que coisas tais foram um dia realizadas, que puderam ser realizadas sem que Deus houvesse fulminado os vilões responsáveis. Foi tudo uma fantasia, ou foi algo que realmente aconteceu nos dias negros, cruéis, da história do mundo? Mergulhei a cabeça palpitante entre as mãos ainda trêmulas. E, então, repentinamente, tive a impressão que cessavam as batidas de meu coração, e eu nem mesmo consegui gritar, tão grande foi o meu medo. Alguma coisa se movimentava na minha direção, na escuridão do quarto.

É uma seqüência de horrores que abate o espírito humano. Eu não conseguia raciocinar, nem podia rezar; podia somente ficar sentado como uma imagem congelada, e olhar o sombrio espectro que atravessava a ampla sala. Mas então ele se moveu sobre uma faixa iluminada pelo luar e eu pude respirar aliviado uma vez mais. Era Dacre, e seu rosto indicava que ele parecia tão assustado quanto eu.

— Foi você? Pelo amor de Deus, o que houve? – perguntou ele com uma voz áspera.

— Como me alegro em vê-lo, Dacre! Estive no inferno. Foi uma coisa medonha.

— Então foi você quem gritou?

— Ouso dizer que sim.

— Seu grito ressoou por toda a casa. Os criados estão apavorados. Dacre acendeu um fósforo e levou-o ao candeeiro.

— Vamos atiçar o fogo da lareira e aquecer de novo o ambiente – acrescentou, atirando algumas achas de lenha sobre as brasas. — Por Deus, meu caro, como você está pálido! Dá a impressão de ter visto um fantasma!

— Você tem razão. Foram vários fantasmas.

— Quer dizer que o funil de couro funcionou, afinal?

— Eu não dormiria de novo ao lado dessa coisa infernal nem por todo o dinheiro que você pudesse oferecer-me.

Dacre soltou uma risadinha reprimida.

— Eu esperava que você tivesse uma noite agitada – disse ele. — Mas você me deu o troco, pois aquele grito não foi nada agradável, às duas horas da madrugada. Suponho pelo que você está dizendo que você viu todo o terrível negócio.

— Que terrível negócio?

— A tortura pela água, o “interrogatório extraordinário”, como era chamado nos alegres dias de Le Roi Soleil. Você agüentou até o fim?

— Não, graças a Deus. Acordei antes que começasse de fato.

— Ah, você é um felizardo! Eu suportei até o terceiro balde. Bem, é uma velha estória, e todos os que dela participaram estão agora em suas tumbas, assim, de qualquer modo, que importância tem sabermos como chegaram até ali? Suponho que você tenha alguma idéia a propósito daquilo que viu?

— A tortura de alguma malfeitora. A mulher deve ter sido uma terrivel malfeitora, na verdade, se os seus crimes foram cometidos na proporção de sua penalidade.

— Bem, temos esse pequeno consolo – disse Dacre, arrepanhando o roupão e acocorando-se mais próximo da lareira. — Eles foram cometidos na proporção da penalidade. Quer dizer, se estou correto sobre a identidade da mulher.

— Como pôde saber a provável identidade dela?

Por resposta, Dacre apanhou da prateleira próxima um antigo volume com capa de velino.

— Apenas escute – disse ele. — Está escrito num francês do século dezessete, mas farei uma tradução aproximada. Você julgará por si mesmo se matei ou não a charada: “A prisioneira foi conduzida à presença das Grand Chambers e Tournelles do Parlamento, em sessões de corte de justiça, acusada do assassinato do mestre Dreux d’Aubray, o pai dela, e de seus dois irmãos,os senhores d’Aubray, um deles tenente civil, e conselheiro do Parlamento o outro. Em pessoa, parecia difícil de acreditar que ela realmente tivesse cometido ações de tal perversidade, pois seu aspecto era meigo, e de baixa estatura, com uma pele bonita e olhos azuis. Entretanto, a Corte, tendo averiguado a sua culpa, condenou-a aos interrogatórios usual e extraordinário, de modo a obrigá-la a confessar os nomes de seus cúmplices, depois do que seria conduzida numa carreta até a Place de Grève, onde seria decapitada, sendo seu corpo posteriormente queimado e as cinzas jogadas aos ventos. A data deste registro é de 16 julho de 1676.”

— É interessante – eu disse — mas não muito convincente Como você prova serem a mesma essas duas mulheres?

— Já vou fazê-lo. A narrativa prossegue, descrevendo a conduta da mulher ao ser interrogada: “Quando o carrasco se aproximou, ela o reconheceu pelas cordas que ele trazia nas mãos, e ela em seguida estendeu as próprias mãos para ele, olhando-o de alto a baixo sem pronunciar uma palavra”. Que tal isso?

— Confere, de fato.

— “Ela olhou sem estremecer o potro de madeira e os anéis de ferro que tinham retorcido tantos membros humanos e causado tantos gritos de angústia. Quando seus olhos caíram sobre os três baldes com água, que estavam já preparados para ela, disse com um sorriso, ‘toda essa água deve ter sido trazida aqui com o propósito de afogar-me, monsieur. O senhor decerto não tem, confio eu, a menor idéia de forçar uma pessoa da minha estatura a beber tudo isso”. Deverei ler os detalhes da tortura?

— Não, pelo amor de Deus, não!

— Eis um parágrafo da sentença que vai lhe mostrar que o que está aqui registrado é uma cena que, por certo, você presenciou esta noite: “O bom abade Pirot, incapaz de contemplar os tormentos a que ia ser submetida a sua penitente, saiu correndo da sala” Isso convence você?

— Completamente.Não tenho mais dúvida de que se trata do mesmo evento. Mas, quem era essa mulher de aparência tão atraente e cujo fim foi tão horrível?

Sem responder, Dacre cruzou-me à frente e trouxe, aceso, um pequeno lampião, colocando-o depois sobre a banqueta que estava ao lado do sofá. Erguendo o funil agourento, iluminou em cheio a orla de latão. Vistas assim, bem iluminadas, as gravações na orla pareciam mais nítidas que na noite anterior.

— Já concordamos que se trata do emblema de um marquês ou marquesa – disse ele. Também acertamos que a última letra é B.

— Sem dúvida.

— Vou sugerir agora a você que as outras letras, da direita para a esquerda, são M, M; um d minúsculo, A, um d minúsculo e, então, finalmente, o B.

— Sim, Você tem razão.Posso ver claramente os dois d minúsculos.

— O que eu li a você esta noite – disse Dacre – é a cópia do registro oficial do processo de Marie Madeleine d’Aubray, marquesa de Brinvilliers, uma das mais célebres envenenadoras e assassinas de todos os tempos.

Fiquei sentado em silêncio, acabrunhado ante a natureza extraordinária do acontecimento. e ante a inteireza das provas em relação às quais Dacre expusera o real significado. De um modo vago, recordei alguns detalhes da carreira da mulher, sua libertinagem desenfreada, o sangue-frio e a prolongada tortura a seu pai doente, o assassinato dos irmãos motivado por lucros mesquinhos. Lembrei também que a bravura de seu fim havia reparado de algum modo o horror de sua vida, e que Paris em peso havia simpatizado com seus momentos finais, havendo-a abençoado como mártir poucos dias depois de havê-la amaldiçoado como assassina. Uma objeção, e apenas uma, passou-me pela mente.

— Como as iniciais de seu nome e o emblema de sua categoria vieram a ser gravados no funil? Por certo a admiração medieval à nobreza não chegava ao ponto de ornamentar os instrumentos de tortura com os títulos de suas vítimas, não é verdade?

— Essa questão também me intrigou – disse Dacre –, mas ela admite uma explicação simples. O processo provocou extraordinário interesse na época, e nada poderia ser mais natural que La Reynie, o Chefe de Polícia, tivesse retido esse funil como sinistro souvenir. Não era acontecimento freqüente que uma marquesa de França fosse submetida ao interrogatório extraordinário.Que ele tivesse mandado gravar as iniciais dela sobre o funil, a título de informação para as demais pessoas, era seguramente um procedimento comum em casos assim.

— E isto? - perguntei, apontando para as marcas sobre o gargalo de couro do funil.

— Ela era uma tigresa cruel – disse Dacre, enquanto se afastava dali. — Penso ser evidente que, a exemplo das outras tigresas, essa também tivesse dentes fortes e afiados.


por Arthur Conan Doyle
traduzido por Silveira de Souza

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