quinta-feira, 14 de abril de 2016

Amor Imortal


Eu observo você todas as noites.

Vejo quando você chega em casa e procura a chave na bolsa para entrar em seu prédio. Depois, você abre a porta do apartamento, põe o casaco sobre o encosto da cadeira e as compras no balcão da cozinha. Vejo você indo ao banheiro e, pelo reflexo do espelho, tomando uma ducha. Acompanho-a caminhando seminua até seu quarto, pondo sua camisola e assistindo TV na sala.

Então, você apaga a luz do quarto e deita-se para dormir.

O que é o fim do dia para você, para mim é apenas o começo.

Como uma névoa, entro por uma fresta na janela e logo estou ao seu lado, na cama, vendo-a adormecida, respiração profunda, pele branca e veias saltando no pescoço.
Aproximo meus caninos da sua garganta, mas não me movo, apenas sinto o seu calor. Não sou daqueles que busca satisfação imediata, tenho paciência, saberei aguardar seu tempo.

Para sobrevivência, busco as prostitutas do porto, dispostas a dar litros e litros de sangue, se fossem necessários, por meros vinte reais. Mas com você é diferente, é mais do que isto.

Você deveria me conhecer, já nos vimos várias vezes antes em seus vernissages, foi numa das suas exposições de pintura que me apaixonei por você, tão bela dando entrevista aos repórteres, tão emotiva nas cores que lançou nas telas. Em duzentos anos, eu nunca havia me sentido assim e, desde que a vi pela primeira vez, venho todas as noites até seu quarto, velando seu sono.

Vou lhe contar tudo que ocorrerá nas próximas semanas.

Amanhã, vamos nos esbarrar numa discoteca e você olhará para mim. — Desculpe-me, mademoiselle — eu lhe direi e você ficará fascinada por meu sotaque francês.
— Já não nos conhecemos? — você me perguntará.

— Eu me lembraria de uma mulher tão linda como você — eu direi, e por mais que seja uma cantada barata, você não se importará.

Conversaremos a noite inteira e você esperará que eu lhe dê um beijo ao nos despedirmos, mas não, beijarei a sua mão e prometerei que nos encontraremos novamente.
Então, na noite seguinte, eu passarei diante da sua porta no mesmo instante em que você chegar do trabalho. Você me verá e se assustará:

— Que coincidência!

— Você mora aqui? — perguntarei.

— Sim, e você?

— Do outro lado da rua. É o destino — direi.

Você me convidará para entrar e beberemos um vinho juntos, mas penso no seu sangue, em meus dentes cravados nas veias de seu pescoço.

Você tomará a iniciativa e me beijará.

— Tem frio? Sua pele está tão gelada.

Mas eu a calarei com outros beijos e logo estaremos nus em seu quarto.

Não posso lhe dar o prazer que você busca. Ser imortal tem as suas desvantagens e você achará que a culpa é sua.

— Não o excito? — você me perguntará.

— Nada disto. O problema é comigo — eu responderei — Mas posso lhe dar um prazer que você nunca sentiu antes — prometerei — Basta que você feche os olhos.

Você obedecerá, arfando, contorcendo-se de excitação, ansiosa para descobrir o que se sucederá. Eu me aproximarei lentamente de seu pescoço delicado, vou lambê-lo e, enfim, rasgar sua pele com meus dentes, beber o seu sangue e você gemerá, tremendo, agarrando os meus cabelos, num misto de gozo e pavor.

Partirei e durante vários dias não a verei. Você terá medo, ficará aterrorizada que eu retorne, mas numa noite solitária, diante da certeza que me ama e que eu a observo, você sussurrará desde sua cama.

— Sinto sua falta...

E eu entrarei em seu quarto e nos amaremos do meu modo particular.

Aos poucos, sua vida mudará. Você deixará de trabalhar, acordará com o pôr do sol e dormirá quando ele nascer, assim como eu.

Sua família e seus amigos ficarão preocupados, tentarão nos afastar. Então serei obrigado a matá-los um por um, começando por seu pai, aquele desgraçado! E você será toda minha, o tempo todo, a minha escrava!

Como não quero vê-la morrer, deixando-me sozinho, numa noite proporei que você se torne como eu e você aceitará.

Você será amaldiçoada, assim como eu. Jamais verá a luz do sol novamente. Verá o mundo se transformar e todas as pessoas que conhece morrerão, mas você continuará jovem.

Seremos duas criaturas da noite, vagando por este mundo por todo o sempre.

Até que, daqui centenas de anos, você me odiará. E eu me arrependerei de tê-la conhecido.

Buenos Aires
26/11/2011


Fonte: Fantasmas, Vampiros, Demônios e histórias de outros Monstros — Henry Alfred Bugalho — Oficina Editora, 2013.

terça-feira, 12 de abril de 2016

A Coleção de Bonecas


Julieta desfez o embrulho, primeiro o laço de cetim, depois a caixa colorida e o enchimento de papel de seda. A boneca de porcelana jazia ali em silêncio, olhos azuis escancarados, quase perdida entre os panos do vestido.

O pai sorria satisfeito.

— Esta boneca é uma raridade. Item de colecionador.

E Julieta se enquadrava justamente nesta categoria: nas paredes de seu quarto, centenas de bonecas semelhantes vigiavam seu sono, uma mais linda do que a outra, de todas as partes do mundo, desde as de pouco valor até as mais incomuns.

— Obrigada, papai! Ela o abraçou, para enfim desaparecer escada acima, boneca debaixo do braço, mal se contendo para admirá-la.

Jogou-se na cama e acomodou o presente ao seu lado. Deslizou o dedo pela face fria e reluzente, cuidou cada detalhe da roupinha dela, e realizou o último dos rituais — batizá-la.

— Princesa Elizabeth, Julieta decidiu. A boneca tinha ares aristocráticos, nada melhor do que receber também um título nobiliárquico.

Princesa Elizabeth ganhou um lugar de destaque nas prateleiras, bem aos pés da cama de Julieta — o que significou degredo para Carmen, a bonequinha espanhola, realocada num dos cantos vazios —, para que a dona pudesse observá-la ao se deitar.

Mas o olhar de Princesa Elizabeth era incômodo, Julieta logo descobriu. Parecia que ele o acompanhava pelo quarto, enquanto ela se trocava após o banho, ou ao estudar para a prova na escola naquela semana. De sobre sua prateleira, a boneca vigiava, altiva, em silêncio, imóvel.

— Pare! Julieta resmungou para Princesa Elizabeth — Pare de me olhar!

No entanto, a boneca não obedeceu, cada vez menos discreta, nem ao menos escondendo o ódio que brotava através dos dois vidros azuis.

Julieta até chegou a pensar em se desembaraçar dela, jogando-a no baú, para longe da vista, mas teve medo. Não tinha certeza o que exatamente temia, mas suas mãos não conseguiriam tocá-la de novo, uma vez que ela havia sido posta em seu lugar de destaque. Como uma soberana, Princesa Elizabeth havia sido coroada, não seria uma mera súdita quem a deporia.

A menina se deitou com a luz acesa.

No entanto, desta fugidia proteção — a claridade do quarto — Julieta seria privada quando seu pai passou diante do cômodo.

— Quer que eu apague a luz, filha?

Envergonhada do próprio medo, receando um riso sardônico do pai, Julieta concordou.

E assim que a luz se esvaiu, dois lumes pequenos, redondos, azulados, brotaram da prateleira, fitando Julieta. Tomada de calafrios, ela buscou alguma explicação, talvez um feixe de luz vindo da rua através da cortina, para o reflexo nos olhos de Princesa Elizabeth. Não encontrou explanação para isto, tampouco para as piscadelas a cada alguns segundos — a boneca estava viva!

Julieta também passou a ouvir uma respiração lenta e profunda, que se contrapunha a seu arfar em pânico.

— Quem está aí? Julieta sussurrou. Quem está aí?

Sempre sem resposta alguma, sempre senão o silêncio.

E esta agonia se repetiria pelos dias e semanas seguintes: o mesmo olhar frio a cuidá-la, a mesma respiração lenta e impiedosa, a sensação de não estar só, de que algo maligno e terrível a circundava.

No entanto, numa destas noites de desespero, Julieta ouviu um outro som. Alguém cantarolava uma melodia. Na escuridão, violada apenas pelos olhinhos brilhantes de Princesa Elizabeth, Julieta sentiu a presença de alguém.

A garota enfiou a mão sob o travesseiro e retirou uma pequena lanterna — com a qual iluminava sua cabana de lençóis quando queria se esconder. Acendeu-a e a apontou em direção à penteadeira, donde provinha a cantoria.

O feixe de luz revelou uma moça, de costas, penteando longos cabelos negros, mas, no reflexo do espelho nada havia.

— Quem é você? Julieta balbuciou.

A moça se voltou lentamente. Julieta pôde perceber então sua pele flácida e esverdeada, as olheiras negras, o olhar baço.

— Quem é você? A moça da penteadeira retrucou — O que você faz no meu quarto?

Ela perguntou, levantando-se.

— Este é o meu quarto! O meu quarto! Me deixe em paz... Julieta chorava, acuada, afastando-se da criatura que vinha em sua direção.

— Não. Veja, até minha boneca favorita está ali, e a moça apontou para Princesa Elizabeth. — Este é o meu quarto. E você vai embora agora!

***

— Que coisa mais horrível! As senhoras sussurravam no velório — Uma menina tão nova morrendo desta maneira estranha.

— Ouvi dizer que ela foi encontrada no canto do quarto, toda encolhida, olhar de desespero, boca escancarada. Ninguém soube explicar a causa da morte, outra dizia.

— Parece que o pai da pobrezinha leiloará a coleção de bonecas dela. Estima-se algo em torno de vinte mil dólares.

Curiosamente, quando o leilão veio a ser realizado, os lances mais altos foram para Princesa Elizabeth — todos queriam para si aquela preciosidade, atraídos pelo irresistível magnetismo que dela emanava. A jóia de qualquer coleção.

Nova York
15/08/2008


Fonte: Fantasmas, Vampiros, Demônios e histórias de outros Monstros — Henry Alfred Bugalho — Oficina Editora, 2013.

O Segredo do Porão


Todos nós escondemos nossos monstros em algum lugar. No dia a dia, sentimo-nos obrigados a fingir ser melhores do que realmente somos, para sermos aceitos, para sermos queridos, para sermos respeitados. Se um dia expuséssemos nossos demônios interiores, simplesmente não existiria mais vida na Terra, nós nos mataríamos uns aos outros.

Mas leva muito tempo para chegarmos a esta constatação, temos de fazer uma autoavaliação e trazermos à tona os nossos maiores medos. Foi o que descobri depois de me casar com Julia.

Nós nos conhecemos na escola, dois adolescentes aprendendo o que é amor. Brigamos várias vezes e, ocasionalmente, namorávamos outras pessoas, mas sempre retornávamos um para os braços do outro até que, um dia, resolvemos tornar sério o nosso relacionamento; assumimos para todos os amigos e jurávamos que nos casaríamos.

Terminei o colégio e comecei a trabalhar num escritório. Estávamos com o dia do casório marcado quando o pai e a mãe de Julia morreram tragicamente num acidente de carro, atingidos por um caminhão com um motorista bêbado no volante. Julia ficou devastada, mal conseguia erguer-se da cama e, num de seus momentos de razão, ela me disse:

— Por favor, venha morar comigo na casa dos meus pais. Ela é grande e tenho medo de ficar sozinha lá.

Então peguei as minhas tralhas e eu e Julia passamos a morar juntos. O casamento havia sido adiado por tempo indeterminado.

Ela havia feito questão que eu me sentisse à vontade, como se estivesse na minha própria casa e não demorou para que eu ficasse confortável. A única ressalva que ela me fez foi:

— Só não vá ao porão. As coisas dos meus pais estão lá embaixo e quero deixá-las lá. Por favor, jure que não descerá até lá.

Prometi de pés juntos, sem questionar, afinal aquela havia sido a casa dos finados, não me custaria respeitar este limite.

No entanto, depois de algumas semanas, reparei que Julia descia ao porão todas as manhãs e permanecia vários minutos lá embaixo. Primeiro, pensei que ela remexia as coisas dos pais, tentando matar as saudades deles, mas, depois, fiquei com a pulga atrás da orelha. À noite, ouvia ruídos e gritos vindos de abaixo, como se alguém estivesse aprisionado no porão.

Julia era a pessoa mais meiga do mundo, portanto, jamais poderia imaginar que ela fosse daqueles tipos de psicopatas que fazem estas coisas, como aquele austríaco que manteve a filha presa nos fundos da casa por décadas, estuprando-a, e que tivera com ela uma meia dúzia de filhos incestuosos. Julia jamais faria isto!

Mesmo assim, as descidas diárias ao porão e os gritos abafados à noite me inquietavam.

— O que tem lá embaixo mesmo? — perguntei a ela.

— Já lhe disse: as coisas dos meus pais.

— Que tipos de coisas?

— Retratos, móveis, roupas, pertences pessoais... Você sabe, objetos deles — Julia gaguejou, ela mentia para mim.

Algum tempo depois, Julia teve de ir a um congresso da universidade e passaria uma noite fora, retornando na manhã seguinte.

— Cuide-se — ela me disse, cheia de uma estranha preocupação, quando nos despedimos na rodoviária — Amanhã estou de volta.

Ao sair do trabalho, aproveitei para encontrar-me com alguns amigos num bar e pôr a conversa em dia. Cheguei tarde em casa, já havia passado da meia noite e estava preocupado que Julia já houvesse me ligado. Levaria uma bela mijada dela, caso isto houvesse ocorrido. Até podia escutá-la dizendo: “é só eu sair de casa por uma noite que você já cai na gandaia!”. E eu teria de inventar mil explicações, suplicar perdão e dizer- lhe um trilhão de vezes que a amava.

Tomei um banho rápido e me joguei na cama, mas logo comecei a ouvir os sons e gritos vindos do porão.

Julia não está em casa, que mal faria descer e ver o que ela esconde de mim?, pensei. Se já estava ferrado por ter saído para beber com os amigos, adicionar mais esta infração na lista seria apenas um detalhe. Assim, fui até a cozinha e tentei abrir a porta para o porão, que estava trancada. Dei alguns murros na porta e ela parecia ser de metal, como aquelas portas corta-fogo, ou seja, sem a chave eu não teria como abri-la. Depois das pancadas, ouvi alguns berros e murmúrios, realmente era como se alguém estivesse lá embaixo, num cativeiro, e esta ideia me atormentou por várias horas naquela noite.

Tentei dormir, mas não conseguia. Refleti que, se eu não descobrisse o que havia lá embaixo naquela oportunidade, com Julia fora de casa, talvez não tivesse outra tão cedo.

Por isto, revirei as gavetas de Julia e encontrei um molho com várias chaves. Retornei à cozinha e testei chave por chave, já estava quase desistindo quando uma delas se encaixou na fechadura e consegui destrancá-la. Meu coração disparou.

Fiquei cogitando as possibilidades: e se realmente houvesse uma pessoa sequestrada ali embaixo, o que eu faria? Delataria Julia à polícia? Talvez não, tornando-me assim cúmplice dela. Eu seria obrigado a ajudá-la, a encobrir os rastros de seu crime e quem sabe o que mais decorreria disto.

Criei coragem e desci, degrau por degrau, lentamente.

O porão estava escuro, havia apenas uma pequena lâmpada num canto, onde havia também uma cama. Não era um cômodo entulhado como eu imaginava, havia bem pouca coisa ali excetuando a lâmpada e a cama, onde, aparentemente, alguém dormia.

Fiquei aterrorizado. A família de Julia era uma quadrilha de sequestradores! Nestas horas, ponderei que a melhor decisão seria soltar a vítima e chamar a polícia. Era a única decisão sensata possível.

Aproximei-me da cama e vi uma moça com os braços e pernas amarradas.

Parecia estar dormindo, com uma respiração pesada, quase um ronco, e vestida apenas com uma camisola. Chegando mais perto, reconheci seus traços, apesar da pele branca e do corpo magérrimo, quase um esqueleto. Havia visto algumas fotos de Julia com uma outra jovem, sua irmã, morta por causa de alguma doença rara vários anos atrás.
Fiz uns cálculos mentais e supus que aquela moça deveria estar presa no porão há mais de seis anos, e os pulsos e tornozelos arroxeados e em carne viva confirmavam a minha hipótese.

— Bárbaros — resmunguei — como fazem isto com a própria filha!

Então cutuquei a jovem, tentando acordá-la.

— Está tudo bem com você? — perguntei.

Ela abriu os olhos num segundo e tentou morder a minha cara. Berrava, urrava, debatia-se como um animal selvagem. Seus dentes podres e olhar negro avançavam em minha direção, enquanto os braços tentavam se soltar das amarras.

— Maldito! — ela gritava — Maldito! Eu quero a sua alma desgraçada!

Recuei, apavorado, caindo de costas no chão.

A moça remexia-se na cama, quase arrancando-a do chão. Eu me arrastava para trás.

Vendo que sua estratégia não havia funcionado, a moça mudou de abordagem. Sussurrando, quase sibilando, ela me chamou:

— Perdão... Não queria assustar você. Por favor, solte-me... Solte-me.

Levantei-me e cheguei até a sentir pena dela.

— Como você é lindo — ela me disse, lambendo os lábios — Venha, solte-me e me foda... Venha e me coma.

— Não posso... — murmurei — Não posso...

— Miserável! — a voz dela engrossou — Vou matá-lo, rasgarei sua garganta e tomarei sua alma. Vou matá-lo!

Deixei-a gritando e corri para a cozinha. Procurei por uma faca e estava decidido voltar e acabar com o sofrimento daquela jovem.

Por que teriam mantido-a tanto tempo presa lá embaixo? Não seria mais fácil ter procurado ajuda médica? Um exorcista? Uma equipe de parapsicólogos?

No entanto, depois pensei que talvez eles até houvessem tentado tudo isto sem sucesso. Quem era eu para julgá-los?

Tranquei a porta do porão e devolvi a chave no exato lugar onde a havia encontrado. Nunca disse nada a Julia sobre aquela noite, também nunca mais perguntei sobre as das dela ao porão.

A irmã endemoniada continua lá embaixo, berrando, contorcendo-se e amaldiçoando-nos. Tenho medo que um dia ela se solte das cordas e mate-nos a nós dois. Tenho medo, medo de verdade, mas meu amor por Julia é maior. E ela jamais poderá me repreender, um dia, quando descobrir quais são os monstros que também guardo no porão.

Buenos Aires
26/11/2011



Fonte: Fantasmas, Vampiros, Demônios e histórias de outros Monstros — Henry Alfred Bugalho — Oficina Editora, 2013.