quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A Noiva Desaparecida


"...Guillemin deu um grito de horror e sua mente esclareceu-se. Aquela mulher ali sentada e imóvel, quem seria? De um salto aproximou-se e tocou-a! Era um cadáver mumificado, coberto com uma poeira azulada, os cabelos ainda louros, dourados, cobrindo-lhe os ombros e as olheiras fundas, vazias. Era Flora, a noiva perdida!..."

Carlos Gomes viveu longos anos na Itália em sua propriedade, a “Vila Brasília”, em Maggianico, perto de Lecco, na Lombardia, sítio que ele adorava pelo encanto da paisagem, inspiradora de cânticos e melodias bucólicas que perpassam com encantadora eloquência em toda a sua obra musical. Na encosta do Monte Resegone, que se avistava ao longe, dos terraços da Vila Brasília, ainda permaneciam as ruínas do Castelo de Trappio, cujos torreões guardaram por muito tempo doloroso segredo.

Certa manhã do mês de julho de 1720, o jovem conde Guillemin, último descendente de antigos e poderosos feudatários na região, percorria a cavalo a estrada ao longo das faldas do Resegone, quando o tempo, virando repentinamente como sempre sucede naquelas paragens, desabou em tremenda tempestade com chuva de pedra e raios, obrigando o cavaleiro e sua comitiva a pedir hospitalidade no vasto e tenebroso castelo do Trappio (nome que significa laço, ardil, engano ou cilada).

A construção medieval, generosamente ampliada em tempos posteriores, erguia-se sobre uma elevação escarpada, coberta de espessa vegetação, a poucos passos do caminho percorrido pelo tropel dos jovens viajantes. Hoje, penso eu, as ruínas da vetusta morada, já devem ter completamente desaparecido para dar maior espaço às casinhas da aldeia que vinha surgindo em redor dele.

A comitiva fora respeitosamente recebida pelo guarda, por sua mulher e filhas, únicos habitantes do castelo construído, de um lado, inteiramente a pique sobre o fundo de um precipício, as paredes furadas por muitas sacadas e janelas de grades, dando para fossos cheios de água e plantas espinhosas.

As mulheres puseram-se em grande azáfama para preparar uma ceia digna de tão nobres hóspedes, enquanto que o guarda contava-lhes a trágica história daquela estranha morada.

De havia vinte anos, os velhos senhores do Castelo de Trappio, barões de Cotignano, haviam abandonado a propriedade, após o misterioso desaparecimento de sua única filha Flora.

Apenas completando os dezoito anos, linda e boníssima, a moça havia sido pedida em casamento por um rico senhor de Florença, o jovem e guapo marquês de Adamanti. A união encantava a todos; aos noivos, às famílias e aos parentes. As núpcias foram decididas imediatamente. Apenas o tempo necessário para bordar o rico enxoval e cedo chegou o dia auspicioso e tão ansiosamente esperado.

Terminada a cerimônia nupcial na capela do castelo, os convidados reuniram-se em torno das amplas mesas, magnificamente preparadas nas galerias do rés-do-chão, para o suntuoso banquete. A loura, formosa nubente em sua longa veste azul, cor do céu, parecia resplandecente de felicidade.

Terminado o ágape e na espera que a noite diminuísse o calor daquela tarde de agosto, permitindo que fossem iniciadas as danças, um dos jovens convidados propôs uma partida de “esconde-esconde”, jogo muito em voga, naqueles tempos, nas amplas moradas fidalgas. Todos aceitaram a proposta com júbilo e depois de uma hora de alegres fugas, de perseguições e surpresas, entremeadas de soantes e frescas risadas, ecoando pelos tortuosos e longos corredores, pelas escadas e pelos mais recônditos quartos do castelo, a numerosa e jucunda reunião ouviu o toque do sino que anunciava o inicio do baile.

Todos correram para os salões iluminados; jovens e donzelas, mas só faltava a noiva! Talvez muito mais conhecedora de todos os meandros de sua casa natal, estivesse ela tão bem escondida, que não tinha podido ouvir o sinal que anunciava o final da brincadeira?

Chamaram-na, porem, não respondeu! O noivo, os amigos, cheios de curiosidade, recomeçaram a caça em cada vão de parede, em cada esconderijo, ou armário, porem em vão. Flora não fora encontrada! Todos, então, parentes, amigos, criados e convidados, impressionados por aquele estranho silêncio, debandaram-se em todas as direções do castelo à procura de Flora. Teria ela desmaiado em algum canto, impossibilitada de responder? Estaria doente, sofredora? Tudo foi revistado; muros e paredes examinados, o forro da casa, as adegas, as cozinhas e as cavalariças, mas em vão! Uma sensação de grande consternação e pavor começou a pesar em todos os ânimos. As arcadas dos pátios e dos salões ressoavam com os longos e angustiosos chamados do noivo:

— Flora! Flora! Flora!

Alguns camponeses, cheios de generosa compaixão, desceram amarrados por cordas presas à cinta até o fundo do abismo de rochedos, no temor de que a mocinha, de um terraço ou sacada, tivesse talvez caído ao fundo da escarpa? Mas não foi encontrada!

O faustoso dia de núpcias mergulhou na escuridão de uma temerosa tarde de luto!

Os barões e o noivo abandonaram desde então o castelo que, havia vinte anos, não era mais visitado por eles! A trágica morada só representava para os infelizes uma espaventosa lembrança e um horrendo túmulo!

A história do guarda havia perturbado a alegre assembléia e principalmente a Guillemin, de ânimo delicado e sensível. Mas, horas depois, os temperamentos vivazes e a mocidade imperiosa daquele alegre grupo de rapazes mudaram o rumo dos pensamentos. A ceia estava pronta e sentaram-se todos à mesa. Durante a refeição, Guillemin não pronunciou palavra! Preocupado, ar tristonho, passou todo o tempo acariciando um belo e gordo gato pardo, que se tinha acocorado sobre a cadeira, ao seu lado, como a lhe pedir carinho.

A tempestade, no entanto, continuava com idêntica violência e um dos rapazes quis inventar algo de divertido para esperar a hora de continuar a viagem.

“E por que não faríamos também nós uma partida de “esconde-esconde”?”

A proposta naquele momento, depois das confidências do guarda, pareceu a todos perigosa e audaz, e talvez, por isso mesmo, foi aceita com geral agrado! A comitiva separou-se em dois grupos. Um deveria esconder-se e o outro procurar. O conde Guillemin foi um dos primeiros a desaparecer, como se aquele divertimento o interessasse mais do que aos outros.

Ei-lo, correndo pelos corredores e escadas recônditos, chegar num ambiente vasto, quase escuro, com velhos afrescos nas paredes e uma porta ao fundo, dando para outro corredor de onde vinha um forte cheiro de mofo. De súbito ouviu passos furtivos que faziam gemer a escada de madeira pela qual tinha descido até o local onde se achava, e instintivamente procurou um esconderijo melhor. Apoiou-se, então, rente ao muro, numa depressão da parede, em forma de nicho oval, procurando fazer-se pequenino, invisível, bem encostado à superfície lisa que o envolvia quase como num berço e, de repente, sentiu-se transportado além do local onde estava, fora do quarto, num ambiente negro, sem ar nem luz para onde o arremessara a própria parede que com ele tinha girado sobre si.

No primeiro momento, não compreendeu o que se estava passando, julgou ser maravilhoso o esconderijo que o acaso lhe havia feito encontrar e apenas ouviu dissipar-se ao longe o ruído dos passos da pessoa que o perseguia e que tinha passado a poucos centímetros de distância, apenas separada dele pela espessura daquela parede mágica, procurou às apalpadelas encontrar a manivela da porta que lhe havia dado ingresso para o local escuro onde se achava, mas nada encontrou; a parede lisa estendia-se igualmente fria de um a outro lado, como numa sala de banho, nenhuma saliência nem interstício no material de construção fazia-lhe adivinhar qualquer abertura que o libertasse daquela prisão onde o ar era irrespirável. Seria mister sair dali!

Apalpando as paredes em torno com as mãos nervosas, sentiu finalmente uma pequena cavidade, apenas bastante larga para introduzir um dedo, e percebeu no fundo algo de metálico. Empurrou. Um ruído cavernoso, prolongando-se ao longe, respondeu ao seu gesto e, ao mesmo tempo, abriu-se diante dele um largo vão na parede dando acesso a um patamar com alguns degraus que desciam para uma vasta sala semi-obscura, toda em arcos, que mais parecia uma prisão ou um túmulo subterrâneo. Na altura do teto, duas estreitas aberturas engradadas, deixavam entrar um pouco de ar e luz. Ao longo das paredes, viam-se alinhadas muitas armaduras, entremeando móveis pesados, de estilo, uma larga mesa e algumas poltronas de espaldar alto.

Tudo estava envolto numa cor cinzenta, teias de aranha e um forte cheiro de mofo regelavam as veias. Sítio certamente reservado havia séculos, ao esquecimento e à morte?

Guillemin arregalava os olhos, na ânsia de encontrar uma saída que o libertasse daquele pesadelo e, no entanto, sim, numa das poltronas estava alguém sentado?

Surpreendido e simultaneamente reanimado, aproximou-se. Não havia que temer, desde que outro ser humano lá estava na calma atitude de quem repousa. Quem sabe, uma das filhas do guarda, que também tomava parte na brincadeira de “esconde-esconde”? Era, sem dúvida, uma mulher, que, no entanto, não fez o mínimo gesto ao deparar o intruso que penetrara no seu esconderijo.

— “Senhorita?” — perguntou timidamente Guillemin. Silêncio absoluto!

O jovem aproximou-se. Seria uma estátua? Uma boneca? Um manequim? Sobre a mesa, coberta de poeira, ao lado de alguns outros objetos, um grande livro de couro estava aberto pelo meio, onde se lia algo escrito a carvão com espessos caracteres. Apurando a vista, na meia escuridão do local o jovem conseguiu ler o seguinte:

— Quem entrar aqui, recomende a sua alma a Deus, pois nunca mais conseguirá sair. — Flora.

Guillemin deu um grito de horror e sua mente esclareceu-se. Aquela mulher ali sentada e imóvel, quem seria? De um salto aproximou-se e tocou-a! Era um cadáver mumificado, coberto com uma poeira azulada, os cabelos ainda louros, dourados, cobrindo-lhe os ombros e as olheiras fundas, vazias. Era Flora, a noiva perdida!

Como louco Guillemin pôs-se a gritar, a chamar em altos brados, mas sua voz não ultrapassava as muralhas daquela pavorosa prisão que muda como uma tumba!

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Guillemin, todavia, foi salvo no segundo dia do horrendo cativeiro, enquanto prostrado pela angústia e a fome, nem força tinha mais para se erguer do solo, sentiu como que uma carícia perpassar-lhe sobre uma das mãos. Levantando a cabeça, quase demente viu o gato pardo do guarda ao seu lado! O animalzinho, que havia quarenta e oito horas, ele tinha acariciado e nutrido de iguarias, o reconhecia agora, roçando-se de encontro ao amigo que o amimara com tanto afeto.

Guillemin procurou, então, acariciá-lo, não assustá-lo, pronunciando palavras carinhosas. Quem sabe quantas vezes o animalzinho tinha lá entrado pelas estreitas aberturas do teto, à cata de ratos e furões? Guillemin julgou rever um amigo e recobrou energia e coragem. Amarrou solidamente o seu lenço brasonado no pescoço do gato e procurou empurrá-lo para a abertura, olhando-o afetuosamente como a lhe confiar um recado e uma incumbência.

Do estratagema surtiu êxito. Os companheiros do conde e o guarda souberam finalmente descobrir por onde o gato passava e demolindo a grossa parede exterior do castelo, no sítio exato por onde o animalzinho se introduzira no edifício, pelas ameias da parede, conseguiram libertar Guillemin do trágico calabouço.

Foi assim desvelado o tenebroso mistério do Castelo de Trappio, mas nem Carlos Gomes, nem Ponchielli acharam possível fazer um bom libreto de ópera com a triste história da loura noivinha, morta de fome no esconderijo da fidalga morada medieval do monte Resegone.


Texto adaptado de Itala Gomes Vaz de Carvalho 

Fonte: A Noite Illustrada - Supplemento Semanal - 18/04/1944.

O Espírito Mau


"Pan... pan... pan... Enquanto a doença rebelde vai consumindo lentamente e inexoravelmente o enfermo, a família assombrada ouve um som sincrônico, metódico alucinante... Um carpinteiro invisível, com um martelo, também invisível, prega as tábuas de um caixão, horas mortas da noite, na casa rústica do velho camponês. A aldeia de Norfolk vive emocionada ante o fato misterioso. O espírito mau! Pan... pan... pan!..."

Antes de começar a minha narrativa, recordemos as célebres palavras de Pasteur: "Nós outros, pacientes perscrutadores da natureza, enriquecidos pelas descobertas dos nossos predecessores, munidos dos instrumentos mais delicados, armados dos severos métodos experimentais, tropeçamos a cada passo nas investigações à procura da verdade e percebemos que o mundo material, nas suas mínimas manifestações, é quase sempre outro e não esse que percebemos".

Incubam-se outros de discutir, comentar, contradizer ou repelir as ideias do grande homem. Eu prefiro narrar um fato.

Convém advertir, desde já, que estou longe de ser o que aí chamam de "carola". Antes, pelo contrário, sou o que há de mais cético e pirrônico entre os "são-thomés" que abundam atualmente nesse nosso mundozinho cada vez menos crendeiro.

A explicação disso, é, aliás, facílima: sou descendente de uma família de mágicos e prestidigitadores célebres, que durante sucessivas décadas se celebrizou nos grandes palcos europeus e, apesar de ideia de maravilhoso a que costumam subordinar a palavra magia branca, negra, amarela, ou cor de burro quando foge, nós nunca acreditamos nessa coisa de "sobrenatural", seja qual for o nome ou teoria com que se disfarce.

O meu pai, por exemplo, implicava solenemente com o baixo espiritismo e uma das tarefas a que se entregava com maior entusiasmo era a desmascarar impostores, descobrir fraudes, desencantar assombrações. Nessas lutas em que se empenhava constantemente, levava sempre a vantagem proporcionada pela suas habilidades e argúcia de mágico dos palcos londrinos.

Essas qualidades e disposições espirituais de meu pai eu não só as herdei como desenvolvi e cultivei com orgulho.

Entretanto...

Um dos fatos mais extraordinários da minha vida ocorreu em 1924 no interior da Inglaterra. Andava eu naquela ocasião em Norfolk em visita a velhos conhecidos e em descanso. Uma tarde estava eu na hospedaria, conversando com um dos habitantes do lugar.

Era um velho supersticioso e, como seria lógico, poucos momentos depois de iniciarmos a palestra, o homem orientou-se para os assuntos que mais o apaixonavam.

E disse-me que havia um espírito mau numa cabana a pouca distância da aldeia.

— Espírito mau?

— Sim, senhor. Existe na cabana um menino muito doente — explicou o homem com a sua voz cansada. — Não melhora... Não melhora porque há em casa uma alma penada que o persegue. Talvez algum "mandado"... O pobre menino morrerá. De nada valem os remédios que o doutor lhe manda dor. O espírito mal...

Essa explicação ingênua fez-me sorrir.

— Senhor... Com coisas do outro mundo não se brinca! falou o homem com veemência. — Se o senhor tivesse visto...

— Pode-se ver?

— Pode=se, sim, senhor. Eu o levarei lá.

A humilde cabana pertencia a um pastor. Informaram-me lá que o pobre menino estava num quarto acima com uma rebelde pneumonia e que o médico havia sido chamado em tempo, mas o doentinho cava vez mais piorava. O pai estava abatido em desespero e eu procurei falar-lhe acerca do espírito mau.

— Sim, meu senhor! Há uma alma penada nesta casa. O senhor poderá ouvi-la, às vezes, durante cerca de meia hora, outras vezes, apenas durante uns cinco minutos.

— Que espécie de som? Gritos? Cantos? Gemidos?

— Nada disso, meu senhor. A alma penada bate com um martelo. É como se estive pregando tábuas de um caixão: pan, pan, pan!... Isso enlouquece a gente. Parece estar preparando o caixão do meu filho. É horrível!

— Já ouviu no próprio quarto onde está o menino doente?

O homem tornou-se lívido como se eu falasse de uma catástrofe.

— Não fale isso, senhor. Se isso acontecer o meu pobre filhinho nunca mais verá a luz do sol.

Senti verdadeira piedade pelo pobre pai e por toda aquela gente simples do campo. A que estado de angústia e terrores podem conduzir a suas crendices, as suas superstições! Procurei consolá-lo, diminuir-lhe o pavor. Se me fosse possível desvendar o mistério do fantasma batedor de pregos, talvez isso lhe proporcionasse um grande alívio e mais confiança. Manifestei o meu desejo de ouvir o tal espírito mau e o homem concordou prontamente. À noite, a mulher exausta e acabrunhada foi-se deitar. Eu e o camponês ficamos perto da cozinha, num quarto, à esquerda, fumando os nossos cachimbos e de raro em raro trocando algumas palavras, à luz tênue e vasquejante de uma lamparina de querosene.

Subitamente...

Era meia hora depois da meia noite. O rosto do camponês transfigurou-se numa expressão de terror. O seu olhar dirigiu-se a cozinha, para a porta da sala fronteira, a sala de visitas... Camarinhas de suor desciam-lhe pela testa enrugada. Então, eu comecei a ouvir o som inconfundível: Pan... pan... pan!... Era um martelo, pausadamente, metodicamente, regularmente, batendo um prego.

Pus de lado o meu cachimbo, atravessei a cozinha, empurrei a porta da sala de visitas e entrei corajosamente.

A sala estava erma.

Fiquei estupefato. Não sou supersticioso nem sofro de alucinações, mas não tinha a menor dúvida de haver ouvido distintamente as pancadas de um martelo metendo um prego em madeira.

Está claro que no dia seguinte eu já não encontrava razões para rir do terror supersticioso dos pobres camponeses e após algumas garrafas de cerveja me animei a discutir o mistério.

— Escuta, meu velho — falei ao pastor — se há um espírito mau, provavelmente existirá outra espécie de espírito que possa combatê-lo e até expulsá-lo de sua casa. Ainda não pensou nisso?

I sso era evidentemente transigir e aceitar a ideia da existência do espírito mau, pois a realidade é que com os meus recursos pessoais me sentia inteiramente desarmado para combater o carpinteiro invisível.

O homem ficou silencioso, baforando fumaradas do seu cachimbo; depois falou, balançando tristemente a cabeça:

— Isso há, senhor! Mas eu não sei lidar com espíritos... Gente que já não é deste mundo... Ah, mas o senhor teve uma boa ideia... A cigana...

— Cigana?

— Sim, eu conheço uma cigana que é feiticeira e deve andar agora com a caravana a quatro léguas daqui... Oh... ela seria capaz de dar u m jeito nisso... Se eu pudesse ir buscá-la a tempo...

O remanescente da superstição infantil, que dormitava no fundo da minh'alma de cidadão consciente, despertou em mim. Deixei o meu companheiro e, arranjando um cavalo, parti apressado em busco do acampamento de ciganos. Não me custou muito descobrir o paradeiro da tribo errante. Havia três ou quatro carroças um pouco afastadas do acampamento e uma delas era a morada da velha bruxa.

Após as informações necessárias bati à porta. Esperei cerca de um minuto até que a porta de madeira se abriu e uma mulher feia, rosto rugoso, surgiu envolta nos trajes característicos, xale de cores berrantes, saia de veludo, um espartilho, onde se viam remanescentes de contas e ouropéis pendentes. A sua cabeça estava envolvida numa espécie de lenço grande listrado de vermelho e azul; Cerca de noventa anos de idade.

— Que deseja, meu senhor? inquiriu ela com voz trêmula. — O senhor quer tirar a sorte?

Balancei a cabeça e meti-lhe entre os dedos alguns shillings.

— Escuta uma coisa, mãezinha — falei num tom humilde e carinhoso. — Já ouviu falar em espírito mau?

— Já ouvi falar em muitos espíritos maus — disse ela. — Sim, mas que quer dizer com essa pergunta?

Contei o fato que havia presenciado na casa do velho camponês de Norfolk, a respeito do carpinteiro invisível. Quando terminei, ela soltou uma risadinha velha de gente cansada.

— Ah... que dúvida, moço! É um espírito mau. Almas penadas! Quer levar o menino para o outro mundo. Eu sei como é que a gente luta com elas, mas essas coisas não se podem fazer andar a torto e a direito, não, senhor...

Procurei convencê-la da melhor forma possível, mas a mulher relutava. Depois de muitos argumentos inúteis, meti-lhe na mão uma nota de libra, com promessa de mais depois. Já era um argumento mais forte.

— Vai, minha velha, fazer bem! Salvar um pobre menino, coitadinho!...

Na manhã seguinte o menino estava ainda mais fraquinho, mas ao por do sol a velha cigana chegou, acompanhada por um homem, também cigano, velho, e, tal qual ela, boca desdentada e trôpego. Traziam na mão uma caixinha de papelão como essas em que se guardam envelopes, e eu não pude ver-lhe o conteúdo, mas pareceu-me ter-lhe distinguido algo semelhante a dentes de alho.

Foi aí que eu tive a ocasião de presenciar um dos fatos mais impressionantes da minha vida.

Antes de mais nada deram uma volta em torno da casa; fecharam todas as janelas a seguir. Depois desarrolharam uma garrafa em que havia um líquido avermelhado e saíram borrifando as janelas, as paredes e as roupas deixadas ao acaso. Taparam com trapos todas as fendas e buracos de determinado tamanho. Depois de tudo isso feito a velha cigana tirou vários dentes de alho e esfregou-os contras as portas e janelas. Sentaram-se ambos num banco, apagaram as luzes. Ficamos esperando na escuridão.

A uma hora da madrugada, mais ou menos, o espírito carpinteiro chegou... ou pelo menos foi essa a minha conclusão...

"Pan... pan... pan...", as pancadas persistentes do martelo começaram e se fazer ouvir na cozinha, com uma bulha infernal... A alma do velho camponês devia estar-lhe toda nos olhos. Como estávamos todos juntos ao leito do doentinho, podíamos perceber-lhe a respiração angustiada intercalada de gemidos débeis... Ao som das marteladas agitava-se, gemia aflito.

Apesar de estar toda fechada a casa e todas as luzes permanecessem apagadas, pudemos distinguir na penumbra a velha cigana dar um salto e correr em direção à caixinha que havia trazido. O seu vulto naquelas circunstâncias tinha algo de fantástico e metia medo. Tirou de dentro da cainha um frasco, desarrolhou-o. Riscou um fósforo e, a luz de uma tênue chama, rolos de fumo começaram a espreguiçar-se e a expandir-se no ar com um cheiro acre. O espírito carpinteiro continuava na sua faina diabólica e ininterrupta na cozinha. Então o odor começou a se intensificar cada vez mais e a se tornar cada vez mais forte.

Na cozinha dava-se o inverso: as pancadas do martelo tornavam-se cada vez mais fracas. A cigana tinha uma atitude de êxtase que infundia medo. Era a feiticeira combatendo poderes estranhos. Dos seus lábios saiam sons guturais, palavras ciciadas. Subitamente mudou de atitude, segurou o companheiro pelo ombro.

— Vai prendê-lo, Todan! Agora já não poderá escapar.

O homem nada disse. Apanhou um dos frascos, agora vazio, e encaminhou-se para a cozinha. Demorou-se lá uns quinze minutos, depois voltou. Abriram todas as janelas e o ar renovou naquele ambiente lôbrego. O homem então informou a todos de que o espírito mau estava preso no frasco.

Arranjou uma picareta com o camponês, fez um buraco no chão a pouca distância da casa, atirou nele o frasco, enterrando-o...

Tirei do bolso outra libra e entreguei à cigana.

É verdade que tudo aquilo podia ser considerado uma grande farsa. A fumaça, o perfume, os dentes de alho, as portas e as janelas fechadas, os sortilégios da bruxa, tudo enfim, poderia ter como fito exclusivo sugestionar os assistentes, mas o inexplicável, o inegável e a cessação das pancadas do martelo do carpinteiro fantasma. O enterro da assombração também foi um fato que noutras circunstâncias me teria provocado estrondosas gargalhadas... Depois os ciganos partiram, investiguei toda a casa a procura de uma explicação racional para o fato. Não foi possível.

Pela primeira vez na vida estava eu diante de um acontecimento inexplicável.

A ideia de um espírito mau enterrado numa garrafa, por um lado me repugnava e parecia ridícula, por isso evitei o mais possível fazer referências ao fato. Apenas me limitava a confirmar com a cabeça a narrativa do camponês entusiasmado e me resignei ante a realidade insofismável do desaparecimento das pancadas e melhoras do menino.

Passei uma semana impressionado em Norfolk e, à medida que o tempo corria, mais forte se tornava a impressão. Sentia necessidade de melhores explicações. A velha bruxa talvez se conformasse em falar a respeito desse outro mundo do qual parecia entender tanto. Sim, senhor! Há realmente almas penadas e espíritos maus, indivíduos que, depois de mortos se deixam dominar por uma ideia má, uma paixão perversa e estúpida e se põem a perseguir os vivos, a assustá-los, a fazer-lhes mal. E há também os bons. E dizer-se que eu passei metade da existência combatendo teimosamente a verdade. Que me valera afinal aquele discernimento de que tanto me orgulhava? Oh... inferno! A ideia se impunha.

Eu necessitava de luzes. Precisa renegar-me. Mandar ao diabo toda a inteligência e argúcia.

Só a velha cigana me poderia por em contato com a verdade.

Tomei um automóvel e fui encontrar o acampamento de ciganos muitas léguas à frente.

Depois de três dias de insistência e de gratificá-lo com cem libras, o casal fez-me jurar sob palavra de honra, em nome de Deus, etc., e mandou-me, finalmente, entrar na carroça.

— Fala você, Todan! disse a velha acocorando-se a um canto. — Dê as explicações.

O velho Todan acendeu o cachimbo e encarou-me com os olhos fundos.

— Senhor, não julgue que para compreender o mistério do espírito mau seja necessário mais de uma explicação.

— Sim... sim... — respondi eu curioso.

— Em primeiro lugar tenha em mente que o fantasma carpinteiro só apareceu na casa do camponês de Norfolk depois que nos passamos naquele lugar há uma semana.

— E que tem isso?

— Quer dizer que foi um dos membros da nossa tribo quem lá pôs tal assombração, na esperança de que mais tarde o camponês viesse a procurar a nossa bruxa. Não repare senhor. Nós agora temos a sua palavra de honra e eu confio...

— Mas botou assombração na casa! Como?

O homem abriu uma bolsinha de couro. Tirou de dentro dois pequenos pedaços de chumbo. Mostrou-nos.

— Não é em toda casa que podemos fazer isso. É preciso antes de tudo que a casa esteja situada em lugar onde faça muito vento, na beira da praia ou no alto de um morro como aquela. Outra circunstância favorável é a credulidade da família.

— Sim...

— Enquanto toda a família do camponês de Nolfolk se reunia na sala para tirar a sorte com uma cigana, um de nossos companheiros pendurou esses dois pedaços de chumbo junto à janela do oitão. Preso a linha finíssima, ao sopro do vento, à noite, isso toma impulso e fica ao vai-e-vem como o pêndulo de um relógio. Encontrando como obstáculo as tábuas finíssimas da janela os pedacinhos de chumbo ficam geralmente dando pancadas regulares. Quando o vento pára, está claro que as pancadas cessam. Durante o dia as pancadas tornam-se imperceptíveis no meio de mil outros ruídos. Mas nas horas caladas da noite...

Deu uma risadinha canalha:

— No fundo as pancadas não se parecem muito com marteladas, mas o senhor sabe... a imaginação da gente mal-assombrada se incumbe de argumentar e exagerar as coisas...

— Ah... isso é verdade. Mas o menino...

— O menino já estava doente de pneumonia. A cigana que tirou a sorte, aproveitou a oportunidade para lançar a ideia da existência do espírito mau, batedor de martelo. O senhor compreende: um menino de dez anos já possui a superstição dos pais. Primeiro, ao ouvir as marteladas, sugestionou-se para piorar; depois com o exorcismo sugestionou-se para melhorar. Além disso, a pessoa que pendurou os pedacinhos de chumbo no oitão é hábil no desempenho da tarefa.

Eu estava maravilhado com a simplicidade das coisas.

Não censurei os ciganos.

Num mundo imperfeito como o nosso, onde a virtude está longe de imperar e os homens de serem santos, aquele ardil dos ciganos pareceu-me justo, razoável e honestíssimo. Por que não?

Na luta pela existência há de haver sempre vítimas e cada um peleja com as armas que possui.


por Edward Kennedy 

Fonte: Fonte: A Noite Illustrada - Supplemento Semanal - 03/01/1934.

O Fantasma do Castelo Northumberland

Era uma vez um fantasma de Northumberland... 

Ora, acontece que, na minha vida de homem que sempre sorriu das histórias de assombração, me vi uma noite às voltas com um desses fatos misteriosos capazes de enlouquecer um frade de pedra. Felizmente, tenho bons nervos e uma reputação incólume de cético a defender.

O velho copeiro da casa senhorial estava farto de ver o fantasma do feudo, à noite, e não era sem muita comoção que o descrevia como a forma de um homem corpulento e sem cabeça, a passear impune ao longo dos corredores do vetusto casarão feudal.

O fantasma do feudo fizera renome na redondeza, mas só o copeiro tivera oportunidade de vê-lo, talvez em virtude de algum dom especial. Os outros não viam, mas ouviam. Para se convencer da sua realidade bastava dormir a gente uma noite naquela herdade de Northumberland.

Foi, há alguns anos passados que, abrindo a minha correspondência à mesa de jantar como era dos meus hábitos, deparei com uma carta de um oficial reformado do exército, possuidor de uma herdade em Northumberland. Esse cavalheiro me informava que, conhecendo a minha reputação de investigador de fenômenos ocultos, estava disposto a receber minha visita à sua casa para desvendar uma série de fatos inexplicáveis, quando eu quisesse e achasse conveniente...

Seis meses mais tarde tive oportunidade de aceitar o convite e tornar-me seu hóspede. A casa era um majestoso edifício do tempo de Maria Stuart, erguendo-se em meio de um parque e tendo ao fundo um bosque. Um quadro romântico e magnífico. Grande, quadrada, tinha as paredes e o teto cobertos de hera. Um aspecto poético!

À noite, ao jantar, foi que o meu hospedeiro contou a história:

— Eu sou o homem menos supersticioso que existe neste mundo, Sr. Howell, — falou gravemente — mas devo dizer-lhe que não há nem pode haver a menor dúvida sobre esse fantasma. Ele existe definitivamente.

— Realmente!? Está aí uma informação que muito me agrada, pois eu sempre desejei ver um fantasma que exista. Os de que apenas falam são banalíssimos.

Ele sorriu.

— Está bem! O senhor não o “verá”, mas terá ocasião de “ouvi-lo”.

Eu o escutava incrédulo.

— Que faz ele? Fala ou canta?

— Nem uma nem outra coisa — falou o homem. — Toca uma espineta. Toca uma bela música antiga e o mais incrível é que toca através de toda a casa. Mas deixe-me explicar. Eu ouvi essa história há anos passados quando herdei essa casa. Disseram-me ser ela mal assombrada, que aqui vagava, à noite, a alma penada de um dos meus ancestrais, que se insurgira contra Cromwell, combatendo-o de armas na mão, em defesa do rei. Vencido e aprisionado, foi decapitado. É essa a razão por que se apresenta hoje sem cabeça. Marchou para o cadafalso cantando: “À glorificação de sua majestade!”.  Acreditei candidamente nessa história durante certo tempo. Depois o mundo e a vida mudaram-me o modo de pensar e acabei achando-a ingênua e supersticiosa. Mas uma noite, sentado à livraria, que é o apartamento situado imediatamente acima deste, fiquei estupefato ao ouvir uma bela música tocada numa espineta no mesmo local em que eu estava lendo.

Devo explicar-lhe que a música não era tocada completamente. Ouvia-se a primeira linha, a frase musical correspondente ao verso “À glorificação de sua majestade”. Havia uma pausa. A linha seguinte da música era omitida, mas alguns segundos mais tarde se fazia ouvir a terceira linha “Confusão aos seus inimigos!”. E a música terminava com falhas apenas de umas doze notas, como aconteceria num piano de teclado deficiente. Exceto eu, não havia pessoa alguma no apartamento e eu não encontrava uma explicação para o estranho fato, mas o meu copeiro, que tem estado ao serviço de meu pai e meu desde pequeno, sendo, ao que se diz, médium vidente e entendido em assuntos espíritas, afirma ter visto frequentemente nos últimos tempos e em vários quartos o velho cavaleiro, vestido com as suas roupas luxuosas, sem cabeça e tocando uma espineta. O homem afirma convicto e sinceramente. Não sei até que ponto vai a verdade, mas a espineta eu ouço iniludível e frequentemente tocando sempre a mesma música ou fragmentos dela, e o mais interessante é que isso se dá através da casa toda.

Houve um longo silêncio. O meu amigo acendeu um cachimbo, baforou algumas fumaradas. Erguemo-nos automaticamente e nos aproximamos da janela. Lá fora o arvoredo ramalhava com um sussurro perene sob o céu constelado. Estávamos, cada um, entregues aos nossos pensamentos. Não era ele um homem inculto nem supersticioso e as suas palavras mereciam, portanto, respeito.

— Eu gostaria de ouvir! — falei.

— Oh...Mas não tenha dúvidas. O senhor ouvirá. É muito muito frequente agora.

— Toca regularmente? — interroguei. — Ou há períodos de interrupção?

— É, como já expliquei, frequente em certas épocas, mas há longos lapsos de tempo em que ninguém o escuta.

— Quando, mais Ou menos?

Ele refletiu um minuto:

— É difícil determinar, mas parece-me que é menos frequente no verão e isso, suponho, devido a existência de reduzido número de pessoas para ouvi-lo, pois a maioria dos apartamentos fica fechado. Estou convencido de hoje o ouviremos. Talvez toque no seu próprio quarto, mas eu vou dar instruções para que todas as portas fiquem abertas afim de que possamos correr a ouvir a música onde quer que seja tocada.

Eu estava confuso. O meu hospedeiro era um homem inteligente e incapaz de se deixar impressionar por qualquer conto infantil e, apesar disso, estava plenamente convencido de que a estranha música existia. A coisa parecia ser séria e, em breve, eu haveria de ouvi-la também.

Eram duas horas da madrugada quando fui acordado pelo homem.

— Depressa, Sr. Howell. O copeiro a ouviu nesse momento! Está tocando na sala de jantar.

De fato, encontramos o copeiro no corredor vestindo um sobretudo por cima do pijama, os olhos arregalados, em expressão de assombro:

— Viu alguma coisa? interroguei.

— Vi, sim, senhor. Vi-o de novo! Ouvi a música e espiei através da porta da sala dc jantar. O quarto estava em plena escuridão, mas junto da janela, no alto, estava o fantasma, meio luminoso com uma espada e sem cabeça. Estava vestido de veludo e tocando aquele instrumento esquisito. Ah, meu senhor... isso é horrível... Quem pode se acostumar com uma coisa dessas?!

—Vamos descer — convidei.

Passamos pela escada e andamos ao longo de um grande corredor, chegando à porta da sala de jantar que estava em plena escuridão. Não se ouviu som algum, exceto o ruído de nossos passos sobre o tapete. Logo que entramos o meu hospedeiro acendeu a luz. Pouco depois, suave mas distintamente, começaram as notas da música misteriosa: “À glorificação de sua majestade!”. Ficamos mudos olhando um para o outro. Subitamente, parou. Não havia a menor dúvida no meu espírito de que o som vinha da direção em que o copeiro afirmava ter visto o fantasma. Eu estava maravilhado. Era algo de assombroso e inexplicável.

— Bem! exclamou o dono da herdade. — Que diz o senhor agora a respeito? Não lhe parece realmente admirável.

— Sem dúvida! respondi, perplexo.

Depois de alguns comentários, voltamos cada um para a sua cama. Deitei-me preocupado quando qualquer coisa me fez sentar assustado sobre a cama. 

A música estava agora sendo tocada no meu próprio quarto!

Acendi a luz. Não se via coisa alguma ali. Todos os móveis nos seus lugares, tudo parado, silencioso... E aquela música! ... Muito tempo depois foi que consegui conciliar o sono.

No outro dia esforcei-me o mais que me foi possível para descobrir uma explicação para o estranho fato. Apesar da inutilidade das minhas investigações persistia-me no espírito a suspeita de haver alguma coisa oculta acerca da música do fantasma. Já estava desanimado de decifrar o enigma e, depois de investigar por todo o parque, dirigindo-me para a grande vivenda na intenção de confessar o fracasso a meu hóspede, dizendo-lhe que pela primeira vez na vida me via forçado a acreditar em assombrações. Um golpe súbito de vento arrebatou-me o chapéu e fui obrigado a sair, correndo atrás dele através do pomar e junto aos fundos da casa.

Quando me abaixei para apanha-lo, o meu olhar se deteve na folhagem das trepadeiras que cobriam as partes da casa, o sopro do vento tirava em alguns ramos um som esquisito, como um silvo. Apesar de inverossímil e mal delineada em começo, a estranha ideia se apoderou do meu espírito. Talvez por ali eu chegasse a uma solução do mistério.

Corri empolgado em redor da casa, entrei. Vinte minuto mais tarde estávamos com longas escadas de mão colocadas contra as paredes, nas faces exteriores, e o mistério do velho feudo deixava de ser mistério.

O velho cavalheiro que combatera tão ardentemente os cromwellianos fora certamente dotado de um apreciável senso de humor. Ele havia previsto que a sua bela vivenda seria presenteada a alguns partidários de Cromwell depois do confisco.

Mas os novos moradores da casa não haveriam de viver muito bem ali. Ele haveria dc deixar um fantasma a atormenta-los, um aleijão partidário do rei a assombra-los constantemente com as suas lamúrias patrióticas. E fê-lo com habilidade.

Do lado oriental da majestosa mansão, no alto, coberto pela densa hera, descobrimos uma série de buracos regularmente feitos estendendo-se sobre todo o lado da parede.

Retirando alguns tijolos, vimos atrás desses, palhetas metálicas e canudos semelhantes aos tubos de órgãos. Quando o vento soprava de leste, penetrava na cavidade da parede e era conduzido através de longo tubo metálico que o levava aos canudos de órgão, sendo esses colocados na mesma ordem das notas do canto. Atrás dos canudos havia uma cavidade oca e uma caixa de pinho que aumentava a sonoridade, depois a parede, que era muito grossa em conjunto, tornava-se tão tênue que o som penetrava facilmente dentro de casa.

O mesmo princípio era aplicado no lado ocidental sobre o terceiro andar, ao norte, sobre o segundo, e ao sul, sobre o primeiro. Quando o vento mudava de direção a música era ouvida num apartamento e andar diferentes.

O mistério estava deslindado para tranquilidade e alegria de todos. A única pessoa que não gostou da descoberta foi o velho copeiro da casa senhorial, pois este, graças as suas excepcionais qualidades de vidente, havia visto repetidas vezes o cavaleiro fantasma da velha história, sem cabeça e tocando uma espineta...

Em toda história há sempre uma vítima e não seria razoável que nesse caso da música fantástica alguém não saísse perdendo...


por Jack Dee

Fonte: A Noite Illustrada - Supplemento Semanal - 06/09/1933.