quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Um Drama no Além Túmulo

Após um delíquio momentâneo, em que se esvaia toda a lucidez e parecia se extinguir o último vestígio de vida, Libório sentiu um alívio reconfortante. Havia seis meses que estava quase, imóvel estendido na cama, ouvindo soluços e suspiros, percebendo lágrimas mal disfarçadas.

Desenganado.

Não lhe disseram claramente isso, mas ele o percebera. Mas graças a Deus, às vezes os médicos se enganam. A natureza frequentemente reage e aquilo que se tornara insuperável aos parcos recursos da ciência é facilmente vencido pelas forças misteriosas da vitalidade.

Senão qual a explicação para aquela súbita sensação de alívio, aquela tranquilidade que lhe voltava ao espírito?

Sentia-se forte, rijo, lesto. Ergueu-se do leito. Aquilo até estava cheirando a milagre.

* * *

Lá fora uma lua redonda e bonita, num céu límpido e pontilhado de estrelas, pareciam espiá-lo com a sua curiosidade sideral sobre os leques farfalhantes das palmeiras esguias.

"Minha terra tem palmeiras..."

O espírito se encheu de reminiscências aprazíveis, velhas ânsias, saudades recordações... Viver é bom! A alma regurgitou-se de trinados e chilros sutis. Ah... noites de outrora! Noites de amor e poesia! Seis meses entre a vida e a morte! ... Já era padecer... A ciência esgotara todos os recursos. Desvanecera-se toda a esperança, mas, apesar de tudo, se sentia agora restabelecido, sem o mais remoto achaque. Satisfeito, forte, ágil e por quê?

Não sabia.

Lá fora a magia estonteante do luar, a noite cantava pela garganta de mil pássaros noturnos, pelos mil e um acroamas bárbaros da natureza eternamente moça: eram zuídos, zizios, sopros, farfalhos, chiados, gargarejos, guinchos — era a orquestração desarmônica e polífona de toda a natureza animada pelo magnetismo do luar...

A noite entoava a cantoria bárbaras dos zumbis misteriosos, das chilreadas crispantes, das cavatinas de milhões de ramos a se esfrolarem e do uivo do vento nos frechais. Parecia que toda a natureza se engalanara para a festa nupcial de um deus miraculoso. O céu polviralha-se de carepas de ouro. A lua vogava redonda sobre a superfície tranquila do imenso lastro de poeira cósmica.

E Libório reconquistava o paraíso perdido. São! Livre! Teve vontade de passear e não se preocupava com as prescrições médicas.

Mas que esquisitice! Sentia-se leve, muito leve mesmo, quase imponderável, quase volátil...

Quis ir a um canto do quarto e o seu corpo, movido exclusivamente pela força de volição, como que impulsionado pelo pensamento, transportou-se rápido como uma fumaça soprada pela brisa.

Livre! Livre de tudo! Liberdade completa, absoluta! Até a força da gravidade parecia não existir para ele. Experimentando as novas possibilidades, deu um salto para ver se alcançava o teto e.... bumba!

Facílimo!

Agarrou-se ao fio da lâmpada elétrica e ficou a balouçar-se no espaço um instante, como um grande morcego, pendurado, maravilhado consigo mesmo, sem sentir o peso do próprio corpo. Sim, senhor! ... Depois, desprendendo-se e não querendo tocar o assoalho, perambulou no alto a uns dois metros em todas as direções ao sabor da vontade. Deu saltos mortais sem cair, cambalhotou, rebolou-se, contorceu-se, pinchou, dançou, saracoteou.

Não havia dúvidas! Um milagre! O mais assombroso dos milagres! Sentia-se dotado de um poder sobrenatural, uma partícula do poder divino. A sua vontade era um poder supremo, ilimitado, que não sofria restrições de nenhuma lei natural. O seu querer era de fato o seu poder. Fez uma nova experiência: colocou-se no meio do aposento e disse para si mesmo, para a sua própria onipotência:

— Quero me tornar um gigante — e.... a sua cabeça tocou o teto. O busto se lhe agigantou formidavelmente. Os membros e os músculos aumentaram de proporções, enrijeceram-se, tornaram-se descomunais. Apanhou o espelho, um espelho mediano, em cima da mesa e pode nele ver o reflexo contra a luz do luar de uma parte do nariz teratológico.

Depois...

— Vou me tornar do tamanho daquela bonequinha — e.... zás! Espinoteou sobre a ponta da mesa, minúsculo, uma espécie de gnomo, um entezinho de contos de crianças, um anãozinho saltado vivo de uma página de história medieval, bracinhos miúdos, pernas curtinhas, inquieto, saltitante...

Depois... voltando à estatura normal: — A Amélia! Há quanto tempo já não a vejo! Está tão longe! Três dias de viagem de trem. — Meditou um instante. — Sim... Mas sinto-me capaz de vê-la hoje... E já... Vai ficar maravilhada com a minha presença... Assombrada! Dois anos de ausência! Que saudade! Vou vê-la!

Foi obra de um momento! O seu corpo se projetou como uma bala através da janela escancarada, alçou-se no espaço, sobre as frondes do arvoredo rociado, numa parábola gigantesca, sobre os píncaros de montanhas, vales, abismos, rios, florestas, cidades iluminadas, que passavam embaralhados com a rapidez de um raio e.... zás!


Estava no quarto de Amélia.

Entrara sem bater como? As portas e as janelas estavam fechadas.

À meia luz de um abajur, num pijama, abandonada lascivamente, a mulher parecia sonhar. Respiração quase inaudível, um sorriso leve nos lábios como se pronta a receber os beijos de um amante imaginário.

Libório a contemplou embevecido, encantado. Depois inclinou-se sob a fascinação irresistível, delirante e.... a beijou. Um abraço longo, apertado...

A amante estremunhou, acordou, arregalou os olhos e o encarou assombrada. Soltou um grito e saltou da cama a correr e a gritar como louca, despertando toda a casa e pondo tudo em polvorosa.

— Amélia! — murmurou Libório consternado e aflito.

Rumores de todos os lados.

O quarto encheu-se de gente. "Foi pesadelo!". "Que foi?". "Só podia ser pesadelo". "Não, não! Eu vi, o vi bem! Estava inclinado sobre o meu corpo!". Os comentários fervilhavam. Como poderia ter entrado? Libório ouviu aquilo tudo atrás do guarda-roupa, sem compreender também. Depois se retirou desgostoso.

Passou vários dias perambulando a esmo, visitando vários lugares, sem sentir fome nem sede. Fato estranho este! Não sentia fome nem sede. Talvez fosse resultado do desgosto causado pelo susto estapafúrdio da amante. Pois então era ele algum bicho para infundir terror a alguém?

Lembrou-se afinal da casa. E voltou.

Estava fechada. Mas Libório nem deu por isso. Foi entrando assim mesmo. E que diabo! ... Por que haviam feito aquilo? Já ali não se encontravam os móveis. Despejo? Não se recordava bem do que se passara relativamente ao aluguel de casa nesses últimos seis meses, mas custava se convencer de um despejo assim, só porque ele saíra de casa uns dias. Tudo vazio, escuro. Salas e quartos ermos... Tristeza! Para onde teriam levado os seus haveres? Era o cúmulo!

Só havia o recurso de ir à casa do irmão e se informar.

* * *

— José!

Mas, Ó inferno! Que houve! O espanto foi duplo. Mal o encarou, o outro se mostrou possuído de um terror inexplicável e disparou como um louco a correr para os fundos da casa, assombrado, gritando, tremendo como se visse o próprio Satanás. Foi um alvoroço dos diabos.

Libório ficou estupefato no meio da sala, espantado também sem saber de que. Quis acompanhar o irmão, explicar-lhe, pedir explicações, mas ficou como pregado ao solo. Depois, sucumbido, triste, resignado, se retirou a passos tardos.

Que acabrunhamento!

Alguma moléstia contagiosa? Morfeia? Não... Não... Não estava morfético. E que estivesse, ora esta. Não, não haveria motivos para tamanho estardalhaço.

Passou mais alguns dias vagando atoa, oprimido sob o peso do mais cruel dos destinos. Tudo o repelia. Todos o temiam como um demônio e por que? Por que? Por que? Era de alucinar...

Não teve mais ânimo de se dirigir a pessoa alguma, temendo novas cenas daquelas. Tornou-se arredio, macambuzio, sinistro, afastou-se para os lugares ermos, embrenhou-se no mato sem entender nada, sem compreender coisa alguma. O mundo lhe parecia agora um enigma indecifrável, torturante. Um véu de inexplicável mistério cobria todas as coisas e os seres todos. A inteligência, como emboscada, esmagada pela realidade brutal, não concatenava as ideias e os fatos. O cérebro entorpecido não se prestava ao mais leve raciocínio. A verdade estúpida o enlouquecia. Sua alma se encheu de fel e veneno.

Em noites de lua se punha a vagar solitário pelos campos em fazenda do interior. Já não sabia mais por onde andava. Perambulava atoa, assustando sem querer os transeuntes noturnos. Até que um dia a ideia sinistra lhe adentrou pelo espírito e dentro em pouco se transformou em preocupação única, em invencível obsessão.

Enforcar-se?

Não. Havia tanto despenhadeiro por ali afora. Serras e mais serras...

* * *

E lá estava ele finalmente em cima do monte. Sentou-se despreocupadamente à borda do abismo, a lançar o último olhar enfarado à paisagem inundada de sol. Contemplou com prazer quase voluptuoso as saliências rochosas do despenhadeiro eriçado de arestas navalhantes. Jamais imaginara pudesse um homem encarar a morte com maior calma e prazer. Lá embaixo, no fundo do precipício, uma grande laje branquejava ao sol. Era ali que o seu corpo iria bater finalmente já todo espedaçado, truncado pelas asperezas.

Morte! Sinônimo de liberdade! Dentro em pouco estariam arrebentados os grilhões daquela fatalidade inelutável. O abismo o fascinava.

Fechou finalmente os olhos e se atirou pelo alcantil abaixo.

Mas em vez da queda precipitada e rápida, Ó inferno! o seu corpo flutuou no espaço como um floco de algodão, num descenso lento, rolando vagarosamente pela face ríspida do despenhadeiro, como uma pluma, uma fumaça imponderável, detendo-se às vezes ao menor obstáculo.

Só muito tempo depois é que fui alcançar o fundo remoto do algar, a face horizontal do lajedo enorme. Mas o corpo estava perfeito, sem o menor ferimento.

Libório soltou uma risada lamentosa, triste, uma risada de insano desespero.

Que diabo! ...

Mas era preciso morrer! A morte era agora a aspiração suprema, o dourado sonho de liberdade.

E pinchou-se resolutamente num remoinho d'água ao pé de uma cachoeira espumante e chuchurreante. Desceu nas mesmas condições até o fundo revolto do vórtice e permaneceu sentado sob a água mais de quinze minutos sem sentir o menor mal-estar, contemplando alguns peixes fugitivos que passavam às rabanadas e ziguezagues, a areia límpida, caranguejos, sapos às pernadas, mergulhantes, assustados com a sua presença ali.

Saiu afinal do fundo da água bocejando, enfarado, aborrecido de tanto esperar a morte.

Até a morte o repelia!

Ergueu o olhar abrumado para o alto. A pouca distância, na encosta de um morro, um lavrador ateava fogo a um roçado. A princípio titubeantes, tímidos, alguns rolos de fumaça se espreguiçaram no ar; pouco depois, tangidas pelo vento, as labaredas lamberam o espaço e o incêndio brutal, na fúria destruidora, varreu a folhagem seca da beira do aceiro, recrudescendo na frente num montão de galhadas, estrepitando, assobiando, estalando, rugindo, enquanto no ar abochornado da tarde turbilhonavam balcões de fumo e o sol se coloria do rubro das fornalhas.

Libório encarava tudo aquilo com displicência, enjoado, zonzo. Subitamente soltou uma exclamação, um grito de alegria como se houvesse descoberto a chave de um problema...

Ah...

E correu como um doido para o roçado em chamas. Na primeira e maior fogueira que encontrou se arremessou de um salto, um salto de felino em pleno braseiro. Mas, ò maldição! Até dentro do fogo o acompanhava a fatalidade inexorável — aquele decreto implacável do Destino, cujo poder o sustinha nas bordas dos despenhadeiros e conservava imune no fundo das águas. Enquanto em torno tudo remoinhava na dança macabra da destruição, os bambus pipocavam, os caules débeis se contorciam e o incêndio lavrava impiedoso num delírio infernal, enquanto voavam folhas incandescentes e sob o impulso do vapor as cinzas toldavam o ar, Libório via as chamas serpenteantes lhe lamber o corpo, se lhe enroscar as pernas, mansas, inofensivas, quase como uma carícia de viração. Nenhuma sensação de calor.... Nenhum mal-estar.

E Libório sentou-se desconsolado sobre um braseiro, contemplando triste e resignadamente aquele espetáculo inédito. Depois se ergueu macambuzio, passeou lentamente através de todo o roçado em ignição, observando tudo, vendo tudo, com a placidez de um apóstolo e a resignação de um sábio.

Cada vez a natureza e o universo se enroscavam mais nas dobras do mistério torturante.

* * *

No outro dia, de manhã, sentado tristemente sobre um tronco de árvore caída no seio da floresta, mãos no queixo, imóvel, olhos no chão, Libório sentiu a aproximação de alguém.

Voltou-se lentamente. Era o velho Anastácio.

O velho Anastácio! Seria possível? Deu um salto e saiu recuando assombrado. Aquele velho morrera havia três anos. Lembrava-se bem! Fora ele até um dos que o conduzira à última morada. Imóvel, estupefato, Libório sentiu um calafrio, uma espécie de arrepiamento dos cabelos eriçados, mas se lembrou das instruções recebidas de uma sessão espírita, engrolou uma reza, persignou-se três vezes.

— Que deseja, irmão?

O fantasma descerrou os lábios num sorriso brejeiro.

— Que deseja, irmão?

— Ora, não seja tolo. Pois você ainda não sabe que também já morreu?

Libório deu um salto à frente.

— Eu?!

— Sim. Você mesmo. Quem havia de ser mais? Está morto bem morto.

Libório apalpou-se... confuso.

— Eu morto? hein? Não diga brincadeiras. Como pode ser?

— Ora bolas! Que incompreensão! Vamos até o cemitério.

E foram.

O velho Anastácio o conduziu até junto a uma sepultura pronta havia poucos dias, indicou-lhe um letreiro, ainda fresco:

"Aqui jaz Libório Baptista de Souza, falecido em 31 de janeiro de 1936 — Paz à sua alma".

— Agora compreendo tudo — exclamou Libório, voz trêmula, soltando um suspiro.

— Vamos, homem, e deixe de tolice. A gente pode chorar a morte de todo o mundo... é uma boa pilhéria, não resta dúvidas; mas a da gente mesma, com franqueza, não tem graça nenhuma... é pilhéria, sensaborona de idiota. Olha, vamos sair. O coveiro vem chegando. Pode nos perceber.

E ergueram-se no ar imponderáveis como uma fumaça.


Conto de Epaminondas Martins - Desenho de Seth

Fonte: A Noite Illustrada, de 13/05/1936.
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