sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O Drama de Peel

Peer Castle - Isle of Man

No mar da Irlanda, a leste da Ilha do Homem, está situada a pequena ilha rochosa de São Patrick. Ergue-se ali, debruçado sobre um pequenino golfo, o castelo de Peel, obra do século XV, que hoje vive apenas de suas lendas e de seus mitos. 

Atraído por essas alusões, viajou para ali velho amigo meu que queria conhecer o misterioso drama do castelo de Peel. Ao desembarcar na ilha procurou um guia e se dirigiu às vetustas ruínas.

Ao regressar me contou ele: — Ninguém vai à noite ao Castelo porque, segundo os naturais, vagueiam entre as paredes e nos subterrâneos animais encantados, almas penadas, entes sobrenaturais... O certo é que, quando a gente pisa no chão do castelo, um frêmito terrível nos percorre o corpo. Entre todas as assombrações, a mais temível é a do cão infernal: é ele um grande animal preto, cujos olhos projetam fogo nas trevas... Os habitantes da ilha só de lembrá-lo tremem. Sentado sobre enorme pedra, junto á entrada de um dos subterrâneos, foi que ouvi do meu guia a seguinte historia:

«Quando o castelo vivia em seu esplendor e era guarnecido pelas forças lusidas, o cão aparecia frequentemente no corpo da guarda e lentamente, rosnando, percorria o corredor que ligava aquela dependência aos aposentos do comandante da guarnição. Afastada do corpo principal da casa e próximo à guarda achava-se a capela. Às seis horas em ponto as chaves de todas as dependências deviam ser entregues ao comandante da praça. Nenhum soldado se atrevia a passar depois dessa hora pelo corredor mal assombrado.

Aconteceu que, certa vez, não foi possível levar as chaves á hora exata. E John, jovem e destemido recruta, se ofereceu para entregá-las ao oficial, atravessando a passagem terrível. Os companheiros, mais prudentes, procuraram dissuadi-lo. Ele, porem, riu-se da advertência e meteu-se no sinistro corredor. Os outros soldados, apreensivos e ansiosos, ouviam os passos de John ecoando entre as paredes de pedra e o ruído da espada arrastando-se no lajedo. Poucos minutos decorreram. De repente, pesado silêncio envolveu tudo. E, a seguir, gritos pavorosos mesclados de uivos inimitáveis saiam do corredor macabro. Um frêmito de pavor imobilizou os soldados. Nenhum deles se aventurava a socorrer o imprudente. Reuniram-se junto ao fogão, trêmulos e cabisbaixos, sem pronunciar uma palavra. Os uivos diabólicos e os gritos dolorosos não cessavam... Cinco minutos, que pareceram cinco séculos decorreram. E o silêncio voltou. Os guardas entreolharam-se horrorizados.

«Depois de algumas horas encontraram o corpo inerte de John na porta que dava para o corredor fatal. Ele passou desacordado dois dias. Manteve os olhos cerrados e no rosto uma expressão cadavérica. Junto ao seu leito, na enfermaria do castelo, permanecia a linda jovem. Era a noiva do infeliz. Lágrimas de vez em quando lhe corriam pela face linda. E ela, nervosa, acariciava as mãos do doente.

Quando voltou a si, ainda estava apavorado. A expressão cadavérica não desaparecera de seu rosto e, a muito custo, com voz fraca, disse:

— Ao entrar na sala de armas do apartamento do capitão, que estava ausente, vi um enorme cão preto sentado em sua cadeira... Seus olhos demoníacos expeliam faíscas... Vendo-me — que horror! — aproximou-se rapidamente de mim e, rosnando, farejou todo meu corpo... Senti que a vida me abandonava e gritei .. Não me lembro de mais nada...

Calou-se, voltando novamente ao estado de letargia.

Enquanto falara a moça estava inquieta, seus olhos não pousavam em coisa alguma e as lágrimas não cessavam de cair... Fora ela que, secretamente, exigira dele uma grande prova de coragem em troca do seu amor.

Algumas horas depois a morte levou John para seu abismo sem fim... E os médicos não souberam diagnosticar-lhe o mal.

A jovem, diariamente, ao cair da noite, era vista ajoelhada à porta da igreja, orando. E, num anoitecer daqueles, os guardas do castelo, assombrados, viram junto ao corpo desfalecido da moça um grande cão preto de olhos luminosos, a lamber-lhe as mãos muito alvas e longas, caídas no solo, como dois lírios abandonados...


(Orvacio Santamarina)

Fonte: Revista “Careta”, de 21/01/1939.