quarta-feira, 18 de maio de 2016

O Homem dos Ratos

“Seu amor – ou, antes, seu ódio – era, em verdade, subjugador; foram precisamente eles que criaram os pensamentos obsessivos, cuja origem ele não era capaz de compreender e contra os quais lutou em vão para se defender.” – Sigmund Freud

Não vou contar a história de Carlos desde o princípio. Apesar de alguns especialistas dizerem que reside nos primórdios da sua vida o núcleo de todos os problemas futuros, não vou me ater a esta parte. Vou começar a contar a história quando a doença iniciou, ou, na verdade, quando já estava desenvolvida, mas passou a ser percebida por todos.

Carlos parecia ser um homem comum, tinha algum dinheiro de família e uma vida saudável. Ainda jovem, conheceu Marta, uma menina não muito bonita que morava perto de sua casa. Logo namoraram, noivaram e casaram, tudo sem perturbações ou problemas maiores dos que enfrentam outros casais.

Porém, no dia do casamento com Marta, os pais de Carlos sofreram um acidente e morreram e dizem que foram estes acontecimentos que deflagraram a doença de Carlos, ou um, ou outro, ou até mesmo ambos. Ele demonstrou uma grande tristeza com o acontecido. Após alguns dias, decidiram mudar para onde Carlos morava com os pais. Era uma casa grande, com aposentos espaçosos. O pátio era amplo e, segundo Carlos, “cabia muita coisa naquele terreno.”

Como disse, foi neste momento que a doença começou a surgir, mas sem lhe causar preocupações ou maiores constrangimentos. Carlos, aos poucos, passou a não querer se desfazer de pertences antigos, como roupas e sapatos velhos ou papéis sem serventia. Isto, todavia, não incomodava Marta, pois a vida deles como casal era ótima.

Carlos, entretanto, foi piorando e começou a guardar em casa potes de xampus, tubos de pasta de dente, escovas antigas e outros objetos de higiene, e foi neste momento que sua doença foi percebida. Carlos entrava no banheiro e lá ficava por horas. Não falava com ninguém e não respondia aos chamados da mulher. Depois, se ouvia a descarga, e ele saía, com um olhar distante e muito triste. Sua mulher, por vezes, o perguntou a respeito do que estava acontecendo, mas ele nunca respondeu, aparentava estar de fato abatido e vazio, alguma coisa parecia ter sido tirada dele.

Levaram-no a especialistas, vários, e cada um dava um diagnóstico diferente. Um deles disse para proibirem-no de entrar no banheiro, outro disse que se tratava de algo passageiro e outro, ainda, que era um problema decorrente de sua infância, e da demissão de sua babá, quando este tinha por volta de três anos. O fato é que nenhum tratamento funcionou, até porque Carlos não saía mais de casa e evitava ter contato com outras pessoas, a não ser com Marta, a qual fazia questão de ter sempre por perto. Ela gostava disso, gostava da necessidade dele de tê-la sempre por perto, se sentia amada, se sentia necessária. Amava ele também, amava ele por tudo que ele era e passava por cima de sua doença como se esta fosse apenas um pequeno defeito que pertence à personalidade de qualquer um.

Os meses se passavam, e a doença de Carlos piorava cada vez mais. Ele começou a guardar todo o lixo que era produzido em casa. Sacos se acumulavam na garagem. Aos poucos, tomaram conta da sala de jantar. O cheiro se tornou insuportável e animais surgiram na casa. Ratos e baratas eram constantes, e quando Marta matava um desses bichos, ele fazia questão de protegê-los, de modo a não permitir que ela os jogasse fora. Assim, eles apodreciam dentro da casa, onde quer que estivessem, colaborando ainda mais para o cheiro insuportável.

O local estava inabitável, não havia lugar para se acomodar e algumas portas não podiam mais ser fechadas ou abertas, uma vez que as pilhas de lixo ocupavam toda a casa. Montanhas saíam pelas janelas e, do lado de dentro, um estreito corredor formado por uma aglomeração dessas “coisas” malcheirosas construía uma estreita trilha, por onde ainda se podia chegar ao quarto, à cozinha e aos banheiros. Isto, contudo, de nada adiantava, uma vez que estes aposentos não tinham mais muita utilidade nem espaço para suas funções. Além disso, as portas haviam sido obstruídas e não era mais possível entrar ou sair.

A vida de Marta se tornou insuportável. O ar dentro dos aposentos era quente e fedorento. Marta, por instantes, tentava prender a respiração para não sentir aquele cheiro, mas, momentos depois, tinha que respirar e o fazia com força para recuperar novamente o ar. Então, sentia o cheiro forte e azedo, passava mal, ficava enjoada e vomitava. Apesar disso, ela não conseguia ir embora. Amava Carlos e gostava de estar com ele. Mas como era terrível amar alguém que não a respeitava, que a fazia morar em um lugar como aquele! Ela passava os dias chorando, tentando buscar coragem para ir embora, mas não conseguia: seu amor por ele era maior do que o amor por ela mesma.


Carlos já não tomava banho fazia meses e se justificava dizendo que não poderia deixar a água escorrer pelo ralo (mesmo este já estando há muito obstruído) e ainda que a água, passando em seu corpo, tiraria dele sua pele, alguns pelos e os animais microscópicos que lá viviam. Eu não posso me desfazer disto, dizia ele com sinceridade. Ou, quando Marta tentava jogar algo fora – você não pode tirar isso de mim, gritava angustiado. De fato não podia, sua doença não deixava. Essas frases eram repetidas dezenas, centenas, milhares de vezes durante um dia e Marta já não aguentava mais.

Certo dia, ela precisou ir ao banheiro, mas como o do seu quarto estava obstruído pelas “coisas”, ela teve que ir ao outro, que ficava no final do corredor e só era utilizado por ele. Ao abrir a porta do banheiro, ainda com extrema dificuldade, sentindo que algo impedia seu movimento, Marta viu uma montanha malcheirosa de fezes e urina que ocupava todo o ambiente. Devia fazer meses que seu marido guardava seus excrementos naquele banheiro. Marta ficou tonta, nauseada, perdeu as forças, desmaiou e foi acudida por Carlos.

Ela acordou deitada sobre alguns sacos de lixo pretos, no meio da sala de estar.

Estava furiosa, não entendia como seu marido podia fazer aquilo com ela, e muito menos com ele mesmo. Eles brigaram. Ela disse que ele tinha que jogar tudo fora senão ela mesma o faria. Eu não posso me desfazer disto, dizia ele, e você não pode tirar isso de mim! Marta não entendia. Esse monte de sujeira, esse monte de lixo, restos de comida e esta montanha de merda? – questionava ela. Mas isso tudo é seu, é tudo para você, são meus presentes para você, respondia Carlos chateado com a incompreensão da mulher. No fundo, sabia que não era verdade, ou em parte não era verdade. Sabia que muito além de um presente para ela, aquilo era um presente para ele mesmo, reter tudo aquilo era, antes de tudo, um presente para si mesmo. Mas isso é sujeira, é lixo, é merda – repetia ela – é sujeira, é lixo, é merda...

Carlos ficou embravecido, e sua irritação se tornou cada vez maior e mais incontrolável. “Sujeira, lixo, merda...” essas palavras ressoavam na cabeça de Carlos e já não faziam mais sentido, apenas se repetiam, iam e vinham, já sem significado. “Suj, Lix, Mer, Suj, Lix, Mer...” as palavras rodavam em sua cabeça. “S, L, M, S, L, M, S, L, M...” Marta falava sem parar, mas as palavras não chegavam mais à consciência de Carlos, ele não estava conectado com a realidade, ou com as palavras de Marta. “S, L, M, S, L, M, S, L, M...” as letras se repetiam em sua mente e Marta continuava e gesticular e a mexer os lábios, mas nada penetrava nos pensamentos de Carlos.

Isso não é Sujeira, isso não é Lixo, isso não é Merda – repetia ele enquanto olhava o caos em que havia se transformado a residência do casal.

Então, de repente, a sua mente se abriu para uma frase de Marta, a qual era mais importante do que qualquer outra: chega, vou embora!, gritou ela enfurecida.

A irritação de Carlos tomou proporções gigantescas e mesclou-se com um pavor imenso, que cresceu e tomou conta dele, de sua mente, de seus atos. “Sujeira, Lixo, Merda, Ir Embora”. Não, ela não poderia ir embora! Carlos investiu com rapidez contra Marta, agarrou-a pelo pescoço e apertou forte por alguns instantes. Para Carlos pareceu apenas um segundo, pois na sua mente não passava o tempo, apenas pensamentos e as palavras de Marta “S, L, M, S, L, M, S, L, M...”. Ir embora! Embora! “S, L, M, I, E, S, L, M, I, E, S, L, M, I, E, S, L, M, I, E...”. Já para Marta aquele momento deve ter durado uma eternidade.

Marta caiu no chão sem vida. Carlos sentiu um alívio intenso, pegou o corpo da mulher e jogou em cima da montanha de “coisas”.

Como “ir embora”? – pensou ele.

Eu não poderia me desfazer disto e você não pode tirar isso de mim.

por Rafael Spinelli


Ficção de Polpa - Volume 1 - Organizado por Samir Machado de Machado - 2012.

Dias de Fome, Noites de Cão

Ele não sabia do cachorro. Estava com fome, muita fome. Fome de catar comida no lixo das casas. Às vezes, passava mal. Duas ou três vezes, desmaiara. Não havia alternativas. Chegara do interior, onde deixara a família, para tentar a sorte. Que não viera junto.

O pouco dinheiro que trouxera perdera com uma dessas mulheres que apanham esses homens sem rumo em ruas quaisquer. A mulher, pelo menos, era das boas. Divertiu-se. Depois o roubo, a reclamação, os gritos, e os homens que ela chamara para que a defendessem.

Apanhou um bocado. Perdeu um dente, e a dor que sentiu no peito indicava uma costela quebrada. Que haveria de soldar-se. Tudo se arranja com o tempo, refletia o homem. Menos a fome que o obrigava a comer lixo. Se ainda pudesse voltar para casa.

A casa ficava no final de uma rua sem saída. Sólida. Dois pavimentos. Cercada por muros altos cobertos de hera. A gente que morava ali não passava fome, com certeza. Sobrava-lhes mais que o suficiente.

Aproximava-se à noitinha com cuidados para não ser visto. As casas daquela rua possuíam pátios enormes, portanto restavam um tanto quanto isoladas. O que se tornava interessante. Observava os horários de saída e entrada das casas vizinhas.

Não percebera movimento maior na casa. Como se estivesse quase abandonada. Só as luzes. Que se acendiam pouco depois que ele chegava. As mesmas luzes que acabaram por intrigá-lo. Percebeu. Com o passar dos dias, era sempre menor o número de lâmpadas acesas. Até restar uma. E, dias depois, nenhuma. Teriam viajado? Ninguém estaria protegendo a casa? Não notara nenhuma atitude diferente nos últimos dias que indicasse o abandono da casa por parte de seus proprietários. Sequer marcas de pneu sinalizavam algum movimento.

Aguardou alguns dias e, como a situação não se modificasse, decidiu.

Entrar pelo portão principal não era conveniente. Procurou um local mais protegido que o afastasse dos possíveis olhares da vizinhança. Com esforço, agarrando-se nas heras, escalou o muro. Sentado no alto, observou, com cuidado, o que os olhos podiam ver. Absoluto silêncio. Nenhum sinal de luz na casa. As árvores, em movimentos discretos devido ao pouco vento, inundavam-se de luz graças à lua.

Procurou alguma árvore próxima ao muro que o auxiliasse na descida. Nenhuma. Resolveu pular. Caiu de mau jeito. Machucou a perna esquerda. Algo lhe despertou a atenção. Como se estivesse sendo observado. Um ressonar leve. Um barulho de folhas amassadas. Olhou atentamente em todas as direções. Alguns passos em direção a uma árvore. Nada. Mancando, aproximou-se da casa. A porta estava apenas encostada. Empurrou-a. Entrou em meio à completa escuridão.

Tateando, buscou um interruptor.

Estupefato, olhava a sala. Havia um odor que não distinguia. Não era de mofo ou de casa fechada. Talvez... Mas ele não podia acreditar. Os móveis encontravam-se derrubados. Uma quantidade de vasos, copos e pratos quebrados e tapetes fora do lugar. Como se tivesse havido uma luta feroz e alguém, tentando escapar de alguma ameaça iminente, fora derrubando tudo ao seu redor para se proteger. E, em desespero, acabara por quebrar o que se punha ao alcance. Ninguém na sala. Nenhum som. No interruptor, manchas de sangue. E os ossos. Ossos de todos os tamanhos e em quantidade. Limpos. Como se houvessem sido lavados. Ou, então, descarnados até o que o último resquício de carne desaparecesse. Meus Deus!, o homem pensou atônito, são ossos...

Não conseguiu completar o pensamento. Um ruído o fez voltar-se. Um grito de pavor travou-se na garganta.


O cão era enorme. Negro. Pelo curto, lustroso. Nele, se distinguiam os olhos, claros e frios. E as mandíbulas. O cão vigiava como se ao homem coubesse a iniciativa. E nessa expectativa, cuidaram-se por alguns segundos. O homem arfava, o cão não se movia. Embora mancasse, correu para a escada e procurou subi-la o mais rapidamente possível. O cão, sem pressa, o acompanhava.

Ao abrir a primeira porta encontrada, cambaleou. O fedor de podridão entrou por suas narinas, por sua boca, por seus poros. Encharcou-o por inteiro. Sentiu náusea. O vômito chegou-lhe à boca. Cambaleou. Ajoelhou-se e baixou a cabeça, encostando-a no chão. Ao se recobrar minimamente, viu sobre a cama um resto de corpo do qual não mais se distinguia o sexo tal a putrefação. Faltavam-lhe pedaços, sobravam-lhe ossos. O sangue, coagulado, espalhava-se pelos lençóis, pelo piso, sob os seus pés.
Aterrorizado, virou-se para trancar a porta. Tarde demais.

Terminada a tarefa, o cão, placidamente, desce, degrau por degrau, e chega à sala. Fareja os ossos espalhados até se decidir por um deles. Abocanha-o e volta para o seu lugar. Aninha-se sobre as folhas, debaixo da árvore copada, segura o osso com as patas e o rói. Satisfeito, larga um suspiro e encaixa a cabeça entre as patas. À espera.

por Sergio Napp


Ficção de Polpa - Volume 1 - Organizado por Samir Machado de Machado - 2012.

Os Internos


“Lisonjeava-me que o professor me iniciasse em seus segredos profissionais, mas não disse nada, antes concentrei-me inteiramente na dor causada pelos dois parafusos com que o torniquete de parafuso estava fixado ao meu maxilar.” — Hans-Ulrich Treichel, O Perdido

É óbvio que tenho certeza de que aquele lugar existe. Tenho tanta certeza que me dá até raiva de explicar. Aquele lugar existe simplesmente porque há tempos eu estudo lá. Fica numa travessa que liga duas ruas esquecidas da Zona Norte de Porto Alegre, bem em frente a um condomínio com muro alto e cerca eletrificada. Não falo do colégio em si; o que eu quero dizer é que existe um outro lugar dentro desse mesmo colégio, um lugar muito diferente daquilo que ele é durante o dia. Sei que as pessoas costumam acreditar que os colégios funcionam apenas durante o dia e não há nada neles à noite a não ser colégios fechados. Mas isso é o que elas pensam.

Foi bem nesse lugar que muitos não acreditam existir que, em um dia comum de final de ano, quando todos mal podiam esperar pelas férias de verão, aconteceu o que eu vou contar. Tudo andava normal: a campainha tocou no mesmo horário das seis horas da tarde, guardei meu caderno e estojo dentro da mochila e fui para o portão do colégio esperar que me buscassem. Como sempre acontecia, quase todos os alunos já haviam ido embora, e eu continuava lá no portão, ao lado do guarda, esperando a minha mãe. Aos poucos, um por um, os últimos alunos se mandavam. Eram umas sete da noite quando dois irmãos da sétima série que esperavam escorados em uma mureta também se foram, me tornando oficialmente o último a ir embora do colégio.

Odeio ficar sozinho com alguém que não conheço. Cruzei os braços e fiquei ouvindo o guarda assoviar uma música. Olhávamos os dois para a rua na esperança de que o carro da minha mãe aparecesse logo. Não desviei o olhar dos paralelepípedos por um segundo sequer, temendo um início de conversa com o guarda. Mesmo assim, quando cansou de assoviar, o guarda disse:

— Tua mãe costuma se atrasar, né?

Fiz que sim com a cabeça só pra não ter que explicar. Resolvi ir ao banheiro para escapar daquela conversa toda, então avisei o guarda. Antes que eu fosse, porém, ele me deteve com a explicação de que, àquela hora, os banheiros já estariam todos trancados. Fiquei parado na frente dele sem dizer nada, com as duas mãos no meio das pernas, até que ele me mandou usar o banheiro do primeiro andar, junto à sala dos professores, no outro extremo do prédio. Deixei a mochila ali e me fui.

Quando voltava do banheiro, fui surpreendido por uma mulher no meio do caminho. Apesar do susto, cumprimentei-a com um sinal de cabeça e segui caminhando em direção à saída. Ela, no entanto, me parou com um monte de perguntas sobre a minha série e sobre o que eu estava fazendo ali. Quando respondi, dois homenzarrões surgiram de trás dela e me seguraram.

Agarrado pelos braços, fui levado até os fundos do colégio, que até então eu conhecia apenas como “área da pré-escola”. Era uma parte dividida do restante do prédio por uma murada, que só tinha acesso através de uma passagem por dentro da sala dos professores. Depois de abrirem a grade interna da sala, que dividia as duas partes do colégio, a mulher apontou para uma porta vermelha e ordenou que eu entrasse. Foi quando eu descobri duas coisas: 1) aquela área não era da pré-escola e 2) eu não era o último aluno a ir embora naquela noite.

Havia quatro filas de cadeiras, mas nenhum quadro negro naquela sala. As janelas tinham as cortinas cerradas de modo que pouca ou nenhuma luz passava através delas. Além de mim, mais uns seis alunos estavam lá. No canto próximo à porta, havia uma garota estendida sobre uma maca daquelas usadas para dar os primeiros socorros às pessoas acidentadas. Ela choramingava de uma maneira estranha, sem mexer a boca, soltando um ruído contínuo do peito ou até da cabeça. Não parecia consciente. Sem saber o que fazer, escolhi uma cadeira vazia e me sentei.

Não demorou nada e duas mulheres que pareciam enfermeiras, trajando calças de algodão, camisas brancas sem gola colocadas pra dentro das calças e cabelos presos em rabos-de-cavalo, entraram sem bater na porta. Elas se comportavam como se não tivessem nos visto. Eu não sabia quem eram e o que faziam ali, mas daquelas mulheres emanava uma autoridade natural; falavam baixo e jamais repetiam nada. Tinham vozes mais grossas que o normal para mulheres. Sobre as bandejas de metal que carregavam, pude ver seringas e nacos de algodão espalhados, além de tiras compridas de borracha de soro. Uma das enfermeiras, a mais alta, prendia sob a axila uma prancheta com umas folhas pregadas. Depois de olhar para aquela prancheta por um momento, vi que se tratava de uma listagem. Uma delas disse:

— Vamos fazer uns exames. São exames-surpresa.

Estranhamente, todos pareciam estar esperando por aquele exame. Quanto a mim, não desconfiava de nada, mas mesmo assim achei melhor não fazer qualquer pergunta. Àquela altura, me submeter a eles parecia inevitável. Uma das enfermeiras foi até a moça deitada, apoiou a bandeja sobre a borda da maca e puxou o braço esquerdo dela. Enquanto via a enfermeira amarrá-lo com uma tira de borracha de soro, meu próprio braço foi agarrado. Senti uma picada forte seguida de uma ardência. Depois, veio uma fraqueza quando vi uma porção de sangue preto enchendo a ampola de vidro. Fiquei nauseado até que não pude segurar a ânsia e vomitei sobre meu próprio colo, respingando no meu braço atado, no avental da enfermeira e na listagem de nomes que ela carregava. Quando finalmente retirou a seringa do meu braço, ela não usou nenhum dos nacos de algodão para aparar o ferimento por causa da sujeira. Um ponto de sangue cresceu advindo do furo minúsculo coberto pelo caldo amarelado até virar uma gota. Ele escorreu e formou um filete espesso que se misturou ao vômito antes de pingar no piso frio do chão.

Acordei com a garganta ácida, e percebi que já era noite alta quando fomos levados ao pátio interno dos fundos do colégio. Era cercado por um muro altíssimo em formato circular, que dava ao espaço um aspecto de poço gigantesco. No meio daquela área mal-iluminada, sob um coreto baixo de madeira, um grupo de enfermeiras reunia as pessoas para o que parecia ser algum tipo de comunicado. Alunos iam surgindo como ratos, vindos de todos os cantos. Debaixo do coreto, uma mulher vestindo um saiote negro até o chão e com os cabelos presos por um coque trazia consigo a prancheta em que meu vômito respingara antes. O momento parecia importante. Um grupo de uns cem alunos se espremia em silêncio em torno do coreto. Sem se importar com a movimentação que ainda havia no pátio, a mulher de saiote negro limpou a garganta com um pigarro e começou a falar:

— Aqueles que foram reprovados no exame e que, portanto, necessitam de assistência intensiva imediata, permanecendo sob nosso acompanhamento na condição de internos enquanto durar a recuperação, em ordem alfabética são — fez uma pausa para respirar e depois reiniciou em alto volume a leitura dos nomes contidos na listagem — Amanda Raquel Mazenda, Ana Carolina Porto de Medeiros, Beatriz Lins Bueno, Bruno Xavier Zago, Carlos Nilo Paiva, Caroline Signore Terra, Cláudio Neves Shubert...

À medida que a lista ia sendo revelada, dava para ouvir alguns soluços ao fundo. Pessoas começavam a chorar, tapando o rosto com as mãos. Outras olhavam para os lados após o anúncio de cada nome, como que à procura de seu dono. Por fim, quando a leitura terminou, a mulher de saiote negro avisou que aqueles alunos que quisessem conferir o resultado preciso do exame deveriam se aproximar para fazer um pedido de consulta à planilha. Uma grande fila se formou. Enquanto algumas pessoas choramingavam com discrição, outras cochichavam baixinho umas ao ouvido das outras, comentando algum nome inesperado que havia aparecido. Como bem se podia entender, aqueles que foram reprovados no exame não se deram ao trabalho de entrar na fila para saber o resultado preciso e, dessa forma, só de olhar para o pátio dava para saber quem eram os reprovados.

Depois de poucos minutos na fila — a fila andou rápido e muito ordenada —, chegou a minha vez. Não havia ninguém declamando os resultados dos exames. Em vez disso, a coisa funcionava assim: o aluno dizia o nome para uma enfermeira; esta enfermeira então o encaminhava para uma das cinco enfermeiras com cópias da lista; estas, então, procuravam a folha correta e mostravam para o aluno. Na verdade, cada um tinha apenas poucos segundos para olhar a planilha, e o que eu pude mesmo ver ao lado do meu nome foi um código assim: 85794238529.

Enquanto eu esperava para olhar aqueles quadrados, sem que eu percebesse, uma outra fila foi formada junto ao muro. Eram os reprovados, que compunham um meio-círculo ao redor do pátio. Assim que todos olharam seus resultados, as enfermeiras com as cópias da lista deram lugar a quatro novas enfermeiras que traziam até o coreto uma banqueta cada uma. À medida que eu e os demais aprovados no exame fomos sendo retirados do pátio, os reprovados eram chamados na ordem da fila a se sentarem nas banquetas. Empunhando máquinas elétricas, tesouras e navalhas, as enfermeiras tosavam e depois aparavam ao máximo os cabelos dos alunos que haviam falhado no exame. Por último, com a ajuda de sabão e água quente, raspavam com força até que não restasse nenhum fio. Em seguida, um homem de óculos que carregava outra prancheta ia até o aluno já careca e, em sua cabeça, fazia algumas marcações com uma caneta piloto, tais como pontos, sinais em xis e linhas tracejadas.

Já a caminho da saída, quando éramos guiados em fila pelos corredores, cruzamos com pessoas vestidas de maneira muito estranha: uniformes de algodão branco sob aventais brancos de borracha, além de luvas e máscaras do mesmo material. Cada uma daquelas pessoas carregava consigo uma maleta de plástico bem comum, daquelas que podem ser utilizadas por médicos, pescadores ou operários. As maletas pareciam estar pesadas, mas de fato era impossível saber o que havia ali dentro. O máximo que consegui foi ouvir o barulho de metal sacudindo e se batendo dentro delas.

Ao atravessar de volta a porta que dividia o colégio, fui cegado pela luz do dia que entrava pelas janelas sem cortina. Os inspetores mandavam os alunos para dentro das salas e carros buzinavam em frente ao colégio como em um dia letivo qualquer. As garotas carregavam novamente os livros junto ao peito e sacudiam os cabelos, os atrasados corriam, a tia da portaria batia palmas para apressá-los como sempre.

Aquilo tudo e, então, a aula simplesmente estava por recomeçar?

O sinal tocou e eu fiquei ali parado bem onde estava. Enquanto analisava tudo com o máximo cuidado, percebi que estava novamente com minha mochila nas costas. Fiquei incrível. Passado o eco da campainha que ainda restava dentro dos meus ouvidos, fui para a aula, escutando o barulho que vinha do outro lado do colégio. Fora como um déjà vu. As marteladas, os sons de ferro se chocando e as serras tinindo eu não saberia explicar. Mas os gritos de desespero e o choro, eu sei, não eram de crianças da pré-escola.

por Gustavo Faraon


Ficção de Polpa - Volume 1 - Organizado por Samir Machado de Machado - 2012.