sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Lucchetti, O Rei do Pulp Fiction Brasileiro

R. F. Lucchetti (Rubens Francisco Lucchetti - 29/1/1930, Santa Rita do Passa Quatro, SP) é um ficcionista, desenhista, articulista e roteirista de filmes, histórias em quadrinhos e fotonovelas.

Em 1966, poucos meses após haver se mudado para a cidade de São Paulo, iniciou uma parceria com o cineasta José Mojica Marins, para o qual escreveu quase duas dezenas de roteiros de longas-metragens e, entre outras coisas, os scripts dos programas de tevê “Além, Muito Além do Além” e “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”.

Com o ilustrador, desenhista e quadrinhista Nico Rosso criou diversas revistas de histórias em quadrinhos (“A Cripta”, “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”, “Zé do Caixão no Reino Terror”, “A Sombra”, entre outras), que renovaram os quadrinhos brasileiros de horror. Entre junho de 1968 e julho de 1970, foi redator-chefe da revista “Projeção”, destinada aos exibidores cinematográficos

É difícil encontrar em todo mundo um caso como R.F. Lucchetti, o grande nome da pulp fiction brasileira, que produziu nada menos que 1.547 livros ao longo de uma extensa carreira, durante a qual utilizou inúmeros pseudônimos, incluindo Vincent Lugosi, Brian Stockler e Isadora Highsmith.

Ele escreveu de tudo: de contos de terror a histórias de crime e contos eróticos, com títulos como: “Os Vampiros Não Fazem Sexo”, “Confissões de uma Morta” e “Fim de Semana com a Morte”.

Completamente ignorado pelo cânone literário brasileiro, Lucchetti trabalha na obscuridade desde os anos 50. Contudo, editores, cineastas e ilustradores jovens estão descobrindo suas obras, republicando seus livros ou recorrendo a eles como inspiração para suas próprias criações.

“Lucchetti foi injustamente marginalizado”, afirmou Ivan Cardoso, diretor de filmes de terror B, como “Um Lobisomem na Amazônia”, que foi escrito em parceria com o escritor. “Ele é uma figura única na cultura brasileira”, afirmou Cardoso, que compara Lucchetti a H.P. Lovecraft, o autor norte-americano de ficção de terror.

Quando era pequeno, contou, era fascinado pelos contos macabros de Edgar Allan Poe. Embora Lucchetti nunca tenha terminado o colegial, quando era adolescente começou a publicar contos, poemas e críticas de livros nos jornais da região.

Em pouco tempo, percebeu que conseguia falar com alguma autoridade sobre lugares distantes aproveitando os detalhes que via em filmes B norte-americanos, como o nome de uma rua, uma marca de carro ou um ponto de encontro. Ele destacou os filmes de Evelyn Ankers, a atriz hollywoodiana conhecida como “a gritadora” por seus papéis em filmes dos anos 40, como uma de suas maiores fontes de inspiração.

Lucchetti afirmou que conseguiu escrever alguns de seus livros em apenas três dias. “Sempre tentei manter uma rotina, dormindo e assistindo um pouco de TV todas as noites”, afirmou.

Jerusa Pires Ferreira, pesquisadora paulista que estuda a obra literária de Lucchetti, afirmou que 1.500 livros é um volume bastante preciso de sua obra. “Lucchetti vive em um universo criativo incrivelmente complexo”, afirmou Pires Ferreira, professora de literatura e semiótica na PUC São Paulo.


Fontes: Wikipédia; Banca dos Gibis Brazucas; Quadrideko.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Adivinhe Quem Vem para Jantar


Eram mais de dez horas da noite. Giulia,sentada lendo as propostas de criação para seu cliente, não costumava receber pessoas a essa hora no escritório, mas o trabalho de criação nunca tinha hora para terminar.

O cliente vinha dos Estados Unidos e ela não o conhecia pessoalmente, apenas por telefone. Jeremy era seu nome.

Ela estava sozinha e cansada, quando finalmente alguém bate na porta.

Ela abre e vê um homem alto, cabelos longos e presos em um rabo de cavalo, com olhos que pareciam duas labaredas de fogo e olham para o rosto de Giulia e para todo o escritório.

— Desculpe a demora, Giulia.

Sua voz era suave e calma. Giulia tentou responder no mesmo tom, mas o sorriso daquele homem era encantador, os dentes perfeitos e brancos. Ele segurava nas mãos de Giulia tão carinhosamente - eram tão macias que não pareciam ser de um homem. Ele olhava para Giulia como se estivesse procurando algo em seu pescoço.

Usando de toda a delicadeza o visitante disse:

— Não vai me convidar para entrar?

— Claro!! - Ela disse, olhando para os papéis e torcendo para que ele também olhasse e desviasse a atenção dela.

Ele olhou para os papéis junto com ela, mas logo em seguida, ele voltou a olhar para seu rosto.

— Você é admirável!

— Obrigada, mas... Sobre o projeto...

O telefone toca e Giulia quase derruba o telefone no chão de tanta euforia.

— Alô! Alô?

— Giulia, sou eu, Jeremy.

Ela muda de cor e fica pálida. O homem olhava o projeto e perguntava se foi ela que fez...

— Sim, fui eu mesma. Eu e minha equipe.

No outro lado da linha Jeremy falava com ela...

— Quando poderemos nos encontrar novamente?

O homem que estava olhando a mesa de Giulia viu o telefone. O aparelho registra o número e o nome de quem ligou. Para a sua surpresa, o nome que estava em cima do número era Jeremy.

— Quarta-feira pra mim está ótimo. Está ok para você?

O sinal havia caído.

Ela teve apenas uma fração de segundos para ver que aquele homem havia desligado o telefone e estava quase aguarrando seu pescoço.

Desviando-se daquelas mãos que outrora eram macias, ela corre tentando escapar.

Então aquela montanha segura o braço de Giulia e ela não tem outra saída senão revidar.

Agarrando o pescoço dele, ela levanta-o a meio metro do chão. Ele agarra a mão dela tentando se libertar. Ela sorri.

— Quem enviou você?

— A igreja... Eles me pagaram para isso.

O falso Jeremy retira uma estaca do seu sobretudo e Giulia segura o braço do Caçador com a outra mão.

— Não foi rápido demais Jeremy.

Chegando perto da janela, o homem fica louco e implora por clemência.

— Por favor, moça! Estou apenas trabalhando... É o meu trabalho!

Giulia empurra o homem para fora do prédio e segurando, com apenas uma mão, ela diz:

— O meu também.

Giulia solta o homem e, enquanto ele grita, esperando pelo seu fim, ela olha para a lua... E sorri.


Autor: Adriano Siqueira


Fonte: Contos de Vampiros

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

A Criatura do Hospital


Este relato foi me contado pelo meu irmão, em uma noite de um tempo atrás. Ele trabalha à noite em um enorme hospital antigo na cidade de Mogi das Cruzes, Estado de São Paulo, fundado na década de 1920.

Lá, existem diversos setores, espalhados em alguns prédios. Inclusive, conta-se que havia, muito tempo atrás, isolamento para leprosos que, na maioria das vezes, morriam lá. Talvez por ser muito antigo, muitas histórias são narradas por funcionários e até por pacientes desse hospital.

Pois bem.

Em um de seus prédios, funciona no subsolo, exatamente abaixo das alas de tratamento intensivo, o necrotério. Ao lado do necrotério, há o chamado DML (Departamento de Material de Limpeza), que é uma pequena sala onde os funcionários da limpeza transitam a todo instante, bem como uma sala de enfermagem e outras que não vêm ao caso.

As salas do subsolo são dispostas como que ao redor de um salão de livre trânsito para todas as suas portas. O necrotério serve apenas para guardar eventuais corpos de recém-falecidos que lá ficam por pouco tempo, até serem encaminhados convenientemente e raramente fica muito tempo ocupado. O acesso a esse subsolo, vindo do andar de cima, é feito por uma rampa descendente em forma de “L”. Quando você faz a curva do corredor mal iluminado, dá de cara exatamente com a porta sempre aberta do necrotério, ao fundo do salão.

Descrito o local, vamos à ocorrência.

Uma funcionária da limpeza, após difícil e longa recuperação do choque sofrido, contou que estava limpando o corredor em forma de “L” de cima para baixo, em direção ao salão do subsolo.

Após completar a limpeza do subsolo, guardou o material de limpeza no DML e caminhou rumo à saída. Ao se aproximar da rampa, deparou-se com uma mancha vermelho-escura no chão.

Estranhou! Olhou para os lados intrigada e, indagando de onde poderia ter surgido aquela enigmática poça, olhou para o teto para averiguar possível vazamento.

Nada.

Não tinha explicação, ainda mais porque havia acabado de limpar tudo.

Como a obrigação dela era manter tudo em ordem, voltou à sala de materiais (DML), pegou o necessário e foi dar cabo daquela mancha usando um pano úmido, balde e rodo.

Esfregou, esfregou e a mancha não saiu. Tirou o pano do rodo, agachou e tentou retirá-la usando a força das mãos.

Conseguiu limpar aquele líquido escuro e viscoso, levantou-se e, logo atrás dela, percebeu outra mancha igual.

Fez a mesma coisa da outra, esfregando com vigor.

O silêncio do local era perturbador. O único som eram os movimentos de seu esforço contra a misteriosa mancha vermelha.

As manchas foram aparecendo seguidamente como uma trilha e afastando-a cada vez mais da rampa de saída e encaminhando a funcionária em direção ao necrotério.

Já próxima de sua entrada, de costas para ele, agachou-se para efetuar a limpeza e sentiu como se alguém passasse rente às suas costas, ainda que sem som algum.

Aquele "vento" típico de quando alguém passa muito perto de nosso corpo.

Um calafrio imediato varou a coluna dela de alto a baixo. Sentiu um cheiro de coisa podre, bolorenta.

Ainda agachada de costas para o necrotério, levantou a cabeça e olhou à sua frente, em direção à saída, para a rampa em forma de “L”.

"Não é possível imaginar o que eu faria faria no lugar dela naquele momento!
Certamente meus nervos ficariam paralisados e eu teria uma síncope".

Naquele momento ela viu, olhando para ela, uma mulher ou algo parecido. Horrível.

A "Criatura" possuía estatura média, corpo esquelético, típico de quem padece de moléstia grave há muito tempo. No rosto, rasgava um corte ou uma cicatriz aberta que desfigurava desde o canto da boca até o olho direito e passando acima dele. A cabeça inclinada para o ombro esquerdo ossudo revelava ainda mais a ferida no lado direito da face, emoldurada com cabelos pesados e desgrenhados. Cobrindo o corpo macerado, uma espécie de mortalha tenebrosa semi-transparente completava a imagem sombria.

O olho esquerdo do espectro, único preservado, de um tom verde-esbranquiçado, era como um dínamo a condensar toda aquela energia sufocante, arrebatando as forças da infeliz faxineira que observava aquilo de forma horrorizada.

O rasgo ao lado direito da boca revelava uma parte dos dentes enegrecidos e do imenso corte vertia aquele sangue vermelho-escuro, escorrendo pela face direita, pescoço e tingindo parte da mortalha até o chão, onde nova poça se formava sem tocar os pés daquele ser horripilante, que pairava a poucos centímetros do solo!

O terror que se seguiu ao primeiro impacto da surpresa de saber que não estava só foi violentíssimo.

Nos últimos instantes de lucidez, a faxineira sabia que não podia sair, já que o vulto guardava o acesso à rampa de saída.

Sua única opção foi correr para a sala do necrotério vazio e de lá gritar com todas as restantes forças do pulmão em busca de socorro, sendo que em seguida desmaiou por completo.

Os funcionários do hospital que correram para atender aqueles gritos desesperados que ecoaram pelos corredores, não encontraram ninguém e nada pelo caminho, a não ser a pobre moça, cujo corpo sem cor tremia vertiginosamente, em conjunto com palavras desconexas e inconscientes emitidas pela boca trêmula e roxa, que se calou logo em seguida.

Levaram-na para imediato socorro ao piso superior, restando apenas duas companheiras de serviço, que se apressaram a recolher o material sujo no meio do salão.

Dadas as circunstâncias, não notaram uma única poça logo à frente da rampa, tampouco indagaram sobre a natureza da sujeira vermelho-escura no pano utilizado pela desafortunada faxineira, e que era uma prova da veracidade do ocorrido.

Na noite que meu irmão me contou isso, inclusive outros incidentes desse tipo vividos por ele próprio naquele hospital, acordei de madrugada e fiquei imaginando aquela mulher horrorosa com sangue vazando da cara e não consegui mais dormir!

De onde teria vindo aquela terrível criatura, e qual seriam suas intenções?

Quem estaria disposto à descobrir?


Fonte: http://www.alemdaimaginacao.com/Relatos%203P/a_criatura_do_hospital.html