No interior do Maranhão (donde parece não ter migrado para nenhuma outra circunscrição política do Brasil), existe um mito singular, que se liga simultaneamente aos da lobis-mulher e do mboi-tatá: é a curacanga.
Conforme dados fidedignos, ouvidos de quem nasceu naquela zona e que me foram transmitidos pelo senhor J. da Silva Campos, é a seguinte a tradição ali corrente:
- Quando qualquer mulher tem sete filhas, a última vira curacanga, isto é, a cabeça lhe sai do corpo, à noite, e, em forma de bola de fogo, gira à toa pelos campos, apavorando a quem encontrar nessa estranha vagabundeação. Há, porém, meio infalível de evitar-se esse horrido fadário: - é tomar a mãe a filha mais velha para madrinha da ultimogênita, ou seja, a filha mais nova, caçula. [1]
1. Pádua Carvalho (apud F. J. de Santana Néri, Folklore brésilien, p. 31) refere-se ao capelobo, que no Pará é conhecido pelo nome de kumacanga, e que tanto pode ser o sétimo filho varão, oriundo de conúbio sacrílego, quanto a concubina de padre. Pelas noites de sexta-feira, o corpo fica em casa, despojado da cabeça, a qual sai pelos ares, transformada em bola de fogo. Assim, o mito da curacanga do Maranhão é o mesmo que o do Pará, divergindo apenas no nome, quanto à uma consoante. Viriato Correia, num dos seus livros de contos, dá à mula-sem-cabeça a apelação de cavalacanga, que ouviu entre os habitantes do interior maranhense.
Estudou o doutor Walter Hough os mitos de origem ígena do Novo Mundo (ver ‘Fire origin myths of the New World, in Anais do XX Congresso Internacional de Americanistas, I, 179-184), mas apenas se referiu ao dos índios norte-americanos. Se continuar tais investigações, por certo não se esquecerá ele de que na América do Sul há os do mboitatá, da curacanga e dos yakãrendys.
Fonte: Jangada Brasil in O Folklore do Brasil - Basílio de Magalhães
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Basílio de Magalhães, professor, historiador, jornalista e folclorista, nasceu em São João del Rei, MG, em 17/6/1874, e faleceu na cidade de Lambari, MG, em 14/12/1957. Mestre do folclore brasileiro, foi um dos primeiros a aprofundar seu estudo e a atribuir-lhe significação erudita. Entre abril de 1941 e agosto de 1942 escreveu em Cultura Política, Rio de Janeiro, uma série de artigos sob o título “O povo brasileiro através do folclore”. Sobre folclore publicou O folclore no Brasil (com uma coletânea de contos organizada por João da Silva Campos), Rio de Janeiro, 1928 (2ª. ed., Rio de Janeiro, 1939; 3ª. ed., revista por Aurélio Buarque de Holanda, Rio de Janeiro, 1960); O café. Na história, no fo/clore e nas belas artes, Rio de Janeiro, 1937 (2ª. ed., aumentada e melhorada, São Paulo, 1939).
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Crendices de dias, meses, anos e números
Há dias fastos e nefastos. A existência deles se deve em parte à religião oficial. Nos dias de guarda e festa religiosa, não se deve trabalhar, são nefastos para quem deseja ter saúde, fortuna, felicidade. O domingo é um dia fasto para quem o guarda, o observa, porém, nefasto para aqueles que não o guardam.
"Trabalho de dia de domingo não vai para frente". Quando uma cousa é começada, não é terminada e durante o transcorrer dos trabalhos nela empregados não há sucesso, logo dizem: "isso é trabalho de domingo".
Joca Machado, barreou sua casa nova lá na rua do Socorro num domingo. Passados alguns meses, o barro havia caído todo... Manuel Dores observou: "tá vendo, isso é trabalho de domingo, não vai pra frente".
Outra recomendação para não se iniciar serviço algum é-nos dada através deste provérbio rimado:
Quando mingua a lua
não comece coisa alguma.
As fases da lua têm grande influência na vida agrícola, de guarda. Afirmam que antigamente nem feira havia. "Já se foi o tempo que na Sexta-Feira da Paixão, havia tanto respeito que os homens de bem da cidade, iam à igreja de luto fechado, só o tiravam no sábado depois da aleluia", suspirou o velho Pedro de Castro, narrando cousas do passado de sua terra natal. No Dia da Hora ou da Ascensão é comum encontrarmos nas casas ramos verdes – é a simpatia para que as moscas mudem para a casa dos amancebados. Há outro pedido que deve ser feito em jejum, em qualquer sexta-feira pela manhã:
Moscas malvadas,
da sexta pro sábado
estejam mudadas.
Coincide com os dias das feiras na comunidade a data da mudança das moscas incômodas que aborrecem os moradores.
Não percebemos a existência de mês aziago além de agosto. "Mês de agosto não presta pra fazê negócio". "Eu evito trabalhá nas matas no mês de agosto", disse o velho Anísio Jacaré, "eu não sei porque é, mas não gosto".
"Meis bom e feliz é o de São João e de Santana" (junho e julho), dizem várias pessoas da cidade, unindo a estas referências o fato das festas das fogueiras. O mês do São João é muito alegre na comunidade. Em três dias distintos há festas: Santo Antônio, São João e São Pedro. Com a festa de Santana (26 de julho) encerram-se as festas cíclicas do solstício do inverno, as festas das fogueiras.
"Quando eu era mais moço", disse Porfírio, "o meis que eu mais gostava era o de São João, eu festava o que dava".
É provável que o fato das festas, da alegria reinante por ocasião do solstício de inverno, lhes condicione uma apreciação favorável ao mês nos quais elas se realizam.
O mês de agosto é também deixado de lado para os casamentos, "não presta casá em agosto, morre logo um"; "não presta casá em agosto, a gente nunca é feliz, tudo dá pra trás na casa". "Não presta também casar-se na Quaresma".
Dos anos, só o bissexto é perigoso. Alguns dos acontecimentos de triste memória acontecidos na comunidade, quando relembrados, passaram-se num ano bissexto, ou relacionam com ele.
Mané das Dores, o maior conhecedor de adivinhas, de parlendas, de lendas, verdadeiro almanaque vivo da população, ao se referir aos meses veio com esta parlenda e depois fez uma conta nas juntas dos dedos com os ossos do metacarpo para elucidar melhor o que procurou ensinar:
De trinta dias é setembro;
abril, junho e novembro;
fevereiro vintoito dias tem
sendo bissexto mais um lhe dêm,
e os mais mês sete são
trinta-um dias todos terão.
O número 13 é o único portador de azar. O 7 é número de mentiroso. Há um parlenda infantil que ensina a contar, e o número "3 foi o Cão quem fez". O Cão é o diabo. Aliás, tal parlenda existe no estado de São Paulo: "um, dois, três foi o diabo quem fez". A variante de Piaçabuçu é: "um, dois, feijão com arroz; três, quatro, feijão no prato; cinco, seis... foi o Cão quem fez". Acreditamos que não signifique número de azar, porém, um rima fácil apenas, auxiliadora da memorização.
Os jogadores acreditam que este ou aquele número seja de sorte ou de azar, e como o jogo é bastante disseminado, há as mais variadas prevenções contra os números e cartas do baralho.
Disse um informante, "eu gosto muito do barrufo ou do francês, mas quando jogo os dados a primeira vez e cai a soma três, já sei que esse dia estou com o azar trepado no cangote, mas si dá o cinco, eu sei, tá prá mim, desforro".
Fonte: Medicina rústica - Alceu Maynard Araújo
"Trabalho de dia de domingo não vai para frente". Quando uma cousa é começada, não é terminada e durante o transcorrer dos trabalhos nela empregados não há sucesso, logo dizem: "isso é trabalho de domingo".
Joca Machado, barreou sua casa nova lá na rua do Socorro num domingo. Passados alguns meses, o barro havia caído todo... Manuel Dores observou: "tá vendo, isso é trabalho de domingo, não vai pra frente".
Outra recomendação para não se iniciar serviço algum é-nos dada através deste provérbio rimado:
Quando mingua a lua
não comece coisa alguma.
As fases da lua têm grande influência na vida agrícola, de guarda. Afirmam que antigamente nem feira havia. "Já se foi o tempo que na Sexta-Feira da Paixão, havia tanto respeito que os homens de bem da cidade, iam à igreja de luto fechado, só o tiravam no sábado depois da aleluia", suspirou o velho Pedro de Castro, narrando cousas do passado de sua terra natal. No Dia da Hora ou da Ascensão é comum encontrarmos nas casas ramos verdes – é a simpatia para que as moscas mudem para a casa dos amancebados. Há outro pedido que deve ser feito em jejum, em qualquer sexta-feira pela manhã:
Moscas malvadas,
da sexta pro sábado
estejam mudadas.
Coincide com os dias das feiras na comunidade a data da mudança das moscas incômodas que aborrecem os moradores.
Não percebemos a existência de mês aziago além de agosto. "Mês de agosto não presta pra fazê negócio". "Eu evito trabalhá nas matas no mês de agosto", disse o velho Anísio Jacaré, "eu não sei porque é, mas não gosto".
"Meis bom e feliz é o de São João e de Santana" (junho e julho), dizem várias pessoas da cidade, unindo a estas referências o fato das festas das fogueiras. O mês do São João é muito alegre na comunidade. Em três dias distintos há festas: Santo Antônio, São João e São Pedro. Com a festa de Santana (26 de julho) encerram-se as festas cíclicas do solstício do inverno, as festas das fogueiras.
"Quando eu era mais moço", disse Porfírio, "o meis que eu mais gostava era o de São João, eu festava o que dava".
É provável que o fato das festas, da alegria reinante por ocasião do solstício de inverno, lhes condicione uma apreciação favorável ao mês nos quais elas se realizam.
O mês de agosto é também deixado de lado para os casamentos, "não presta casá em agosto, morre logo um"; "não presta casá em agosto, a gente nunca é feliz, tudo dá pra trás na casa". "Não presta também casar-se na Quaresma".
Dos anos, só o bissexto é perigoso. Alguns dos acontecimentos de triste memória acontecidos na comunidade, quando relembrados, passaram-se num ano bissexto, ou relacionam com ele.
Mané das Dores, o maior conhecedor de adivinhas, de parlendas, de lendas, verdadeiro almanaque vivo da população, ao se referir aos meses veio com esta parlenda e depois fez uma conta nas juntas dos dedos com os ossos do metacarpo para elucidar melhor o que procurou ensinar:
De trinta dias é setembro;
abril, junho e novembro;
fevereiro vintoito dias tem
sendo bissexto mais um lhe dêm,
e os mais mês sete são
trinta-um dias todos terão.
O número 13 é o único portador de azar. O 7 é número de mentiroso. Há um parlenda infantil que ensina a contar, e o número "3 foi o Cão quem fez". O Cão é o diabo. Aliás, tal parlenda existe no estado de São Paulo: "um, dois, três foi o diabo quem fez". A variante de Piaçabuçu é: "um, dois, feijão com arroz; três, quatro, feijão no prato; cinco, seis... foi o Cão quem fez". Acreditamos que não signifique número de azar, porém, um rima fácil apenas, auxiliadora da memorização.
Os jogadores acreditam que este ou aquele número seja de sorte ou de azar, e como o jogo é bastante disseminado, há as mais variadas prevenções contra os números e cartas do baralho.
Disse um informante, "eu gosto muito do barrufo ou do francês, mas quando jogo os dados a primeira vez e cai a soma três, já sei que esse dia estou com o azar trepado no cangote, mas si dá o cinco, eu sei, tá prá mim, desforro".
Fonte: Medicina rústica - Alceu Maynard Araújo
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Floresta pré-histórica preservada na China
Cientistas americanos e chineses estão boquiabertos depois de descobrirem uma floresta gigante de 298 milhões de anos enterrada intacta sob uma mina de carvão perto de Wuda, na Mongólia Interior, na China.
Eles estão a chamando de "Pompéia do período Permiano", porque, como a antiga cidade romana, foi coberta e preservada por cinzas vulcânicas.
Como Pompéia, esta floresta de brejo está tão perfeitamente mantida que os cientistas sabem onde cada planta estava originalmente. Isso lhes permitiu mapear e criar as imagens acima. Este achado é extraordinário, de acordo com o paleobotânico Hermann Pfefferkorn, da Universidade da Pensilvânia, que a caracterizou como "uma cápsula do tempo".
Eles estão de fato encontrando árvores inteiras e plantas exatamente como eram no momento da erupção vulcânica, como os arqueólogos encontraram em Pompéia seres humanos, animais e edifícios na base do Monte Vesúvio, perto de Nápoles, na região italiana da Campânia. A única diferença é que a Pompéia foi sepultada no ano 79 dC e esta floresta foi coberta de cinzas 298 milhões de anos atrás, durante o período Permiano.
Até agora, eles identificaram seis grupos de árvores, algumas delas de 24 metros de altura. Algumas delas são Sigillaria e Cordaites, mas também encontraram grandes grupos de um tipo chamado Noeggerathiales, que agora estão completamente extintas.
Fonte: Gizmodo
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