segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A Missa das Sombras

Eis o que o sacristão de Santa Eulália, em Neuville-d'Aumont, me contou sob as parreiras de Cheval-Blanc, numa bela noite de verão, tomando um velho vinho à saúde de um morto abastado, que ele havia enterrado respeitosamente naquela manhã, sob tecido carregado de lágrimas-de-nossa-senhora:

- Meu finado e pobre pai (quem fala é o sacristão) foi, em vida, coveiro. Era de humor agradável, e isso sem dúvida decorria de sua profissão, porque se tem reparado que as pessoas que trabalham nos cemitérios possuem espírito jovial. A morte não os atemoriza absolutamente; jamais se preocupam com ela.

Eu, que lhe estou falando, senhor, entro num cemitério, à noite, tão serenamente quanto no caramanchão do Cheval-Blanc. E se, por acaso, encontro um espectro, não me inquieto, absolutamente com isso, porque penso que ele pode perfeitamente cuidar de seus negócios, da mesma forma que eu dos meus. Conheço os hábitos dos mortos e seu caráter. Sei a tal respeito coisas que os próprios sacerdotes ignoram. E o senhor ficaria surpreso se lhe contasse tudo o que tenho visto. Mas, nem todas as verdades são próprias para serem contadas, e meu pai que, todavia gostava de narrar histórias, não revelou a vigésima parte do que sabia. Em compensação, repetia muitas vezes as mesmas narrativas e, ao que eu saiba, relatou bem umas cem vezes a aventura de Catarina Fontaine.

Catarina Fontaine era uma velha solteirona que ele se lembrava de ter visto em criança. Não me surpreenderia se houvesse na região até uns três velhos que ainda se recordem de ter ouvido falar a seu respeito, porque ela era muito conhecida e considerada, embora pobre. Morava na esquina da Rua das Freiras, na torrezinha que o senhor ainda pode ver, anexo a um velho palacete arruinado, que dá para o jardim das Ursulinas. Há nessa torre figuras e inscrições meio apagadas. O falecido pároco de Santa Eulália, Levasseur, dizia aí estar escrito em latim que o "amor é mais forte que a morte". O que se refere, acrescentava, ao amor divino.

Catarina Fontaine vivia sozinha nessa pequena habitação. Fazia rendas. O senhor sabe que as rendas de nossa região eram, antigamente, muito afamadas. Não se conheciam parentes ou amigos seus. Dizia-se que amara, aos dezoito anos, o jovem cavaleiro d'Aumont-Cléry, com quem noivara secretamente. Mas as pessoas de bem não queriam acreditar absolutamente nisso e diziam tratar-se de uma história que fora imaginada, porque Catarina Fontaine lembrava mais uma senhora que uma operária, conservava sob os cabelos brancos os vestígios de uma grande beleza, que possuía um ar triste e que se lhe podia ver no dedo um desses anéis em que um ourives colocara duas mãozinhas unidas, como era costume outrora os noivos trocarem. O senhor saberá, daqui a pouco, o que isso significava.

Catarina Fontaine vivia santamente. Freqüentava as igrejas e, todas as manhãs, qualquer que fosse o tempo, ia ouvir a missa das seis horas em Santa Eulália.

Mas, numa noite de dezembro, quando ela estava deitada em seu quartinho, foi despertada pelo toque dos sinos; certa de estarem-se anunciando a primeira missa, a piedosa senhora vestiu-se e desceu à rua, onde ainda era noite fechada e não se viam as casas e claridade alguma era perceptível no céu escuro. E reinava tamanho silêncio nessas trevas - que nem mesmo se ouvia ladrar um cão - que a pessoa se sentia completamente distante do mundo dos vivos. Mas Catarina Fontaine, que conhecia cada uma das pedras do caminho e que podia ir à igreja de olhos fechados, alcançou sem dificuldade a esquina da Rua das Freiras com a Rua da Paróquia, no ponto onde se ergue a casa de madeira, que exibe uma árvore de Jessé, esculpida numa trave. Tendo alcançado esse ponto, ela viu que as portas da igreja estavam abertas e que deixavam ver uma grande claridade de círios. Continuou andando e quando transpôs a porta encontrou-se numa numerosa assembléia que enchia a igreja. Ela, porém, não reconhecia nenhum dos presentes e estava surpresa com todas aquelas pessoas trajadas de veludo e brocado, com plumas no chapéu, trazendo as espadas à moda antiga. Havia senhores que seguravam longas bengalas de castão de ouro e damas com toucados de rendas, presos com um pente em diadema. Cavaleiros de São Luís davam a mão a essas senhoras, que escondiam atrás dos leques um rosto pintado, do qual só era visível a têmpora empoada e um sinal no canto dos olhos! E todos iam se alinhando sem o menor ruído, e não se ouvia, enquanto andavam, nem o som dos passos no lajeado, nem o roçar dos tecidos. As naves laterais enchiam-se de uma multidão de jovens artesãos, de casacos pardos, calções de fustão e meias azuis, que seguravam pela cintura lindas jovens, rosadas, que conservavam os olhos baixos. E, junto às pias de água benta, camponesas de saias vermelhas e corpetes de atar, sentavam-se no chão com a tranqüilidade dos animais domésticos, enquanto os rapazes, de pé atrás delas, arregalavam os olhos rodando o chapéu nos dedos. E todas aquelas fisionomias silenciosas pareciam eternizadas para sempre, no mesmo pensamento, suave e triste. Ajoelhada em seu lugar de costume, Catarina Fontaine viu o sacerdote avançar para o altar, precedido por dois acólitos. Não reconheceu nem o sacerdote, nem os clérigos. Começou a missa. Era uma missa silenciosa na qual não se ouvia o som dos lábios que se moviam, nem o rumor da sineta agitada inutilmente. Catarina Fontaine sentia-se sob o olhar e sob a influência de seu misterioso vizinho e, olhando sem quase volver a cabeça, reconheceu o jovem cavaleiro d'Aumont-Cléry, que a havia amado e que morrera há quarenta e cinco anos. Reconheceu-o por um pequeno sinal que ele possuía sob a orelha esquerda e, principalmente, pelo sombreado dos longos cílios negros em seu rosto. Vestia o traje de caça, vermelho, com alamares dourados, que ele usava no dia em que, tendo-a encontrado no bosque de São Leonardo, pedira-lhe de beber e roubara-lhe um beijo. Conservava a mocidade e o bom aspecto. Seu sorriso ainda mostrava uma dentadura de jovem lobo. Catarina disse-lhe baixinho:

- Senhor, vós que fostes meu amigo e a quem dei outrora o que de mais precioso uma jovem possui, Deus vos tenha em sua graça! Possa ele me inspirar, finalmente, o pesar pelo pecado que cometi convosco; porque é verdade que, de cabelos brancos e próxima da morte, ainda não me arrependo de vos ter amado. Mas, finado amigo, meu belo senhor, dizei-me quem são essas pessoas trajadas à maneira antiga, que estão assistindo esta missa silenciosa.

O cavaleiro d'Aumont-Cléry respondeu com uma voz mais débil que um sopro, mas clara como cristal:

- Catarina, esses homens e essas mulheres são almas do purgatório que ofenderam a Deus, pecando, a nosso exemplo, pelo amor das criaturas, mas que nem por isso estão desligadas de Deus, porque seus pecados foram, como o nosso, sem malícia. Enquanto, separadas daqueles que amavam sobre a terra, elas se purificam do fogo lustral do purgatório, padecem as dores da ausência, que é o sofrimento mais cruel. Somos tão infelizes que um anjo do céu se apiada do nosso martírio de amor. Com o consentimento de Deus, reúne, todos os anos, durante uma hora da noite, o amigo à amiga em sua igreja paroquial, onde nos é permitido assistir à missa das sombras, segurando-nos pela mão. Esta é a verdade. Se me foi permitido ver-te aqui, antes de tua morte, Catarina, tal coisa não se realizou sem a permissão de Deus.

E Catarina Fontaine lhe respondeu:

- Bem desejaria morrer para voltar a ser formosa como nos dias, meu finado senhor, em que vos dava de beber na floresta.

Enquanto falavam assim, baixinho, um cônego muito idoso recolhia as esmolas e apresentava uma grande salva de cobre aos presentes que ali deixavam cair sucessivamente moedas antigas, há muito tempo fora de circulação: escudos de seis libras, florins, ducados e ducadões, jacobos, nobres com a rosa; e as moedas caíam em silêncio. Quando a salva de cobre lhe foi apresentada, o cavaleiro depositou um luís, que não fez mais ruído que as outras moedas de ouro ou de prata.

Depois, o velho cônego parou em frente de Catarina Fontaine, que procurou um real em seu bolso, sem encontrar. Então, não desejando recusar a sua dádiva, tirou do dedo o anel que o cavaleiro lhe dera na véspera da sua morte, e atirou-o na salva de cobre. O anel de ouro, ao cair, ressoou como um pesado badalo de sino e, ao ruído atroante que fez, o cavaleiro, o cônego, o oficiante, os acólitos, as damas, os cavaleiros, toda a assistência desapareceu; os círios se apagaram e Catarina Fontaine ficou sozinha nas trevas.

Tendo concluído assim sua narrativa, o sacristão bebeu um grande copo de vinho, ficou um instante a meditar e depois prosseguiu nestes termos:

- Contei-lhe esta história exatamente como a ouvi muitas vezes de meu pai e creio que é verdadeira porque corresponde a tudo o que tenho observado nas maneiras e nos costumes peculiares aos defuntos. Convivi muito com os mortos desde minha infância e sei que eles costumam voltar a seus amores.

É assim que os mortos avarentos vagam, à noite, nas proximidades dos tesouros, que esconderam durante suas vidas. Montam boa guarda à volta deles; mas os cuidados que eles tomam, longe de lhes servirem, prejudicam-nos e não é raro descobrir-se dinheiro enterrado, procurando-se no sítio assombrado por um fantasma. Da mesma forma, os finados maridos vêm atormentar à noite suas mulheres casadas em segundas núpcias, e eu poderia indicar muitos que vigiaram melhor suas esposas depois de mortos do que haviam feito em vida.

Esses são dignos de censura porque, em boa justiça, os defuntos não deveriam ser ciumentos. Mas lhe estou contando o que tenho observado. Por isso é que se deve ter cuidado quando se desposa uma viúva. Aliás, a história que lhe relatei tem sua comprovação no seguinte fato:

Na manhã seguinte a essa extraordinária noite, Catarina Fontaine foi encontrada morta em seu quarto. E o padre de Santa Eulália encontrou na salva de cobre que servia para o peditório, um anel de ouro, com as duas mãos juntas.

Aliás, não sou homem que conte histórias para fazer rir. E se pedíssemos outra garrafa de vinho?....


Anatole François Thibault, literariamente conhecido por ANATOLE FRANCE, nasceu em 1844 e faleceu em 1924. Um dos mais notáveis escritores franceses modernos é autor de grande número de livros que são hoje considerados obras-primas, tanto pela sua fina ironia e riqueza de temas, como pela incomparável elegância do estilo. Iniciou-se nas letras em 1873, com o volume de versos "Poemas Dourados", a que se seguiu o volume, também de poesias, "Núpcias Corintias". Depois, nunca mais escreveu senão em prosa, contando-se por dezenas os volumes com que enriqueceu a literatura de seu país e do mundo. Destacam-se, de suas obras, as seguintes: "O Crime de Silvestre Bonnard", "Thais", "O Lírio Vermelho", "A Ilha dos Pingüins", "O Anel de Ametista", "O Manequim de Vime", "O Sr. Bergeret em Paris", "As Sete Mulheres de Barba Azul", "Historia Contemporânea" e outras.

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