segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Vampiros e a Idade das Trevas


Por toda a história a lenda do vampiro foi sendo usada para "explicar" outros fenômenos naturais que os povos primitivos sem conhecimentos científicos não conseguiam explicar de outra maneira. Possivelmente a mais espantosa lenda foi a associação dos vampiros com a Peste Negra na Idade Média na Europa.

A Peste Negra, como era conhecida, na verdade era a Peste Bubônica espalhada por ratos e pulgas. A Peste (que, diferentemente dos vampiros, vieram do Oeste) matou 1/3 da população europeia em 1300. O povo da época, porém, associou as mortes com os vampiros. De alguma maneira eles acreditavam que a morte "trabalhava" para os monstros; talvez os vampiros espalhassem a Peste, eles pensavam assim. Em alguns casos as pessoas acreditavam que um doente voltava da morte como vampiro e matava uma vítima (que morreria pela Peste). Alternadamente, acreditavam que um inimigo morto podia retornar e matar alguém, tornando-o um vampiro também. Muitas tumbas foram reabertas e os corpos "suspeitos" foram mutilados para "matar" os vampiros...

Alguns métodos da época beiravam o absurdo. Por exemplo, uma virgem era montada nua num cavalo, e o cavalo era obrigado a passear por entre um cemitério. Se o cavalo (que aparentemente, era mais inteligente que as pessoas) decidisse não passar por determinada tumba, eles assumiam que era uma tumba de vampiro. O corpo era imediatamente exumado e mutilado para "matar" o vampiro e, claro, também para parar a Peste que devastava a região.

Algumas das crenças mais idiotas envolviam métodos usados para matar vampiros ou parar a epidemia do vampirismo. É importante lembrar, porém, que essas crenças parecem idiotas hoje, mas, na idade da ignorância, pessoas desesperadas eram muito suscetíveis ao poder das superstições.

Os corpos às vezes eram enterrados de bruços. Se o corpo se transformasse em vampiro, ele tentaria escavar para sair do seu caixão, e iria escavar o chão abaixo, pois olhava para o lado errado... Estacas de madeira às vezes eram colocadas no chão acima do caixão, e o corpo que se levantasse se espetaria sozinho nas estacas... com um pouco de sorte elas atravessariam seu coração.

Os corpos também, às vezes, eram enrolados em panos e roupas, para dificultar sua saída do caixão. E as pernas e braços eram amarrados com uma corda.

Pedras enormes também eram colocadas em cima dos caixões, para prevenir o retorno do defunto (talvez isso explique a origem das modernas lápides?). E é importante notar que os antigos povos acreditavam que o vampiro era um tipo de fantasma, que transcendia o caixão. Qual a melhor maneira de se manter um fantasma no caixão, do que selá-lo em pedra?

O processo natural da decomposição às vezes convenciam as pessoas de que defuntos podiam se tornar vampiros: os cabelos e unhas continuavam a crescer( indicava a continuidade da vida); o cadáver inchava pela ocorrência natural de gases no corpo, (indicava que ele se alimentava dos vivos); sangue às vezes aparece nos cantos da boca como resultado da decadência do corpo (indicava que ele tinha bebido sangue); a aparência grotesca de um cadáver decomposto e de pele pálida (indicava uma fome vampírica por sangue).

O povo ignorante também usava das superstições para frustrar ataques vampíricos. Duas das mais conhecidas substâncias utilizadas para se afastar os vampiros são o acônito, e, claro, o alho. Uma teoria popular durante a Idade Média acreditava que o cheiro horrível da morte era relacionado com a causa da morte, especialmente durante a Peste Negra, e que a morte tinha relação com os vampiros. Por isso, utilizavam das ervas para contra-atacar o cheiro da morte, e consideravam o aroma potente do alho. Também, durante as eras, o alho era usado como erva medicinal pelos antigos romanos. Ironicamente, a ciência moderna também acredita que o alho pode ajudar as pessoas a se recuperarem, em alguns casos.

As pessoas desenvolviam métodos estranhos quando o assunto era vampirismo. Alguns acreditavam que se um gato preto ou cão pulasse por cima de um corpo, ele se tornaria um vampiro. Em contos bucovinianos, uma estaca de madeira devia ser enfiada no peito dos que se suicidavam; pois o suicídio era uma das causas do vampirismo. Em muitas culturas, incluindo a antiga Inglaterra, as pessoas que cometiam suicídio eram enterradas em encruzilhadas para prevenir que o defunto voltasse como um vampiro.

Vários povos tinham vários métodos para destruir vampiros. Em algumas nações eslavas, uma estaca de madeira, atravessada no peito, matava a criatura - esse era o método favorito de todos, uma estaca através do coração. Em outros lugares, porém, a madeira usada tinha que ser de determinadas árvores. Por exemplo, madeira de carvalho fazia o trabalho na Silésia... enquanto madeira de espinheiro branco era requerida na Sérvia.

Além disso, as cabeças dos defuntos suspeitos de vampirismo eram decapitadas. Às vezes, os corpos também eram jogados dentro de poços d´água ou queimados.

Essas crenças foram baseadas na ignorância geral da população, mas uma das maiores tragédias da lenda dos vampiros, foi a real ascendência da crença e do mito vampiro, que pode ter sido ajudada pelos feitos (crimes) da religião organizada.

A Igreja na Europa durante a Idade Média chegou a reconhecer a existência de vampiros e os transformou de mitos pagãos em criaturas do demônio. O vampiro teve sua credibilidade reforçada pela existência das doutrinas cristãs como vida após a morte, a ressurreição do corpo e a "transubstanciação". Esse era um conceito baseado na Santa Ceia em que o "pão e vinho" durante a Comunhão que se transubstanciou no sangue e corpo do Cristo.

A Igreja durante a Idade Média deu credenciais para a crença nos vampiros, e concluiu também que podiam parar o vampirismo, reforçando essa opinião dois séculos depois, em 1489 como o livro "Malleus Maleficarum" Esse livro foi escrito para se lidar com bruxas, mas também podia ser aplicado contra vampiros malignos. Infelizmente, muitas pessoas inocentes caíram vítimas desse documento, e foram torturadas e executadas. Esse livro, conhecido como "O martelo contra as bruxas na Inglaterra" foi utilizado para identificar e perseguir pessoas que supostamente faziam pactos com o diabo.

Dois séculos depois disso, a evidência de que a Igreja ainda acreditava em vampiros foi encontrada nos escritos do teólogo Leo Allatius. Como estudioso da Igreja, ele estudou os Vrikolakas, os vampiros gregos. Em um documento de 1645 ele conclui que alguns vampiros são resultado da excomungação. A prova de vampirismo grego é a falta de decomposição do corpo, indicando que ele não pode deixar o plano terrestre. Um corpo inchado também era evidência de possível vampirismo. Como alguns corpos não se decompunham rapidamente, pela química do solo ou temperatura do ar, e também alguns inchavam pelo processo natural de produção de gases no organismo morto, muitos cadáveres foram erroneamente nomeados como vampiros. Em contra- partida, a incorruptibilidade - incapacidade do corpo de se decompor - era sinal de santidade do cadáver. A diferença era que o vampiro não apenas se decompunha, mas também ficava grotescamente pálido, enquanto que os "corpos sagrados" permaneciam perfeitamente intactos, como se ainda vivessem. E também, vampiros cheiravam muito mal, enquanto os corpos sagrados não.

Também existia uma crença comum entre os antigos cristãos gregos que um padre ou bispo que excomungasse um agente do mal preveniria o tal corpo da decomposição, uma vez que a alma não estava livre para ascender aos céus, e sim solta na terra para vagar até receber o perdão de seus pecados. Na Igreja do Ocidente essa crença também era seguida. Existiu o caso do Arcebispo de Brehme, no século X, Santo Libentinus. Ele havia dito que excomungou alguns piratas, e o corpo de um deles foi descoberto vários anos depois, sem sinais de decomposição. Aparentemente, é pedido o perdão dos pecados por um bispo antes que o corpo se dissolva em cinzas. Os clérigos eram capazes de fazerem ou matarem um vampiro através de absolvição e excomunhão.

Leo Allatius foi um dos primeiros estudiosos a declarar oficialmente que os vampiros eram crias do demônio e que eles rondavam as noites.

A prova de que a Igreja tinha poder sobre os vampiros (lembre-se de que vampiros fugiam de crucifixos e cruzes sagradas, se bem que os modernos vampiros são menos susceptíveis a esses símbolos) data desde a Inglaterra medieval. Um escritor chamado Willian de Newburgh discutiu o caso de um homem que morreu no séc. XII a.C. Supostamente, ele se reergueu da tumba para desespero de sua esposa. Após causar muita confusão com os moradores do vilarejo e com os clérigos, o bispo da região perdoou por escrito todos os pecados passados do cadáver. O caixão foi aberto, e o documento foi colocado em cima do corpo do "vampiro". As pessoas ficaram surpresas - ou nem tanto - em ver que o corpo estava sem nenhum sinal de decomposição, provando o vampirismo. Mas, para a felicidade geral, assim que o perdão foi colocado no caixão, o vampiro desapareceu. Note que esse método de exorcizar o vampiro com um documento oficial da Igreja é bem mais sutil que os métodos utilizados na época, como a decapitação, queimar o corpo, arrancar o coração ou mesmo atravessá-lo com uma estaca de madeira.

Por volta de 1700 a universidade Sorbonne de Paris se oporia formalmente à prática comum de se mutilar corpos mortos para evitar os vampiros. A Sorbonne (onde o renomado escritor Voltaire uma vez ficou chocado ao ver uma discussão sobre a legitimidade do vampiro mitológico) finalmente tomou uma atitude aparentemente radical alegando que a prática de se mutilar corpos mortos era baseada em superstições irracionais.

A crença em vampiros, contudo, não seguia sem críticas inteligentes. Dom Agostine Calmet, um monge beneditino francês, escreveu um livro em 1746 que desafiava a questão da existência dos vampiros, chamado comumente de "O Mundo Fantasma". Calmet desafiava as superstições da época e pedia provas antes da aceitação das lendas. Ele duvidava especialmente das proezas sobre-humanas dos vampiros, como voltar da morte. Ele também analisou e criticou as supostas "epidemias vampíricas" da Europa, questionando suas bases na realidade.

Então os séculos de ignorância e superstições deram a vez à Idade da Razão, e vieram os métodos científicos. Hoje a medicina pode provar que as pragas, como a Peste Negra, não foram espalhadas por demônios, nem vampiros metafísicos, mas de maneira bem física, diria microscópica, de maneira biológica.


Fontes: Song of the Dark; O Mito dos Vampiros

Os Vampiros de Londres


Highgate, ao norte de Londres, é um dos mais surpreendentes cemitérios da época vitoriana, com túmulos barrocos, colombário, pórticos egípcios, álea a perder de vista, os caixões pousados mesmo no solo dos jazigos subterrâneos. Um cenário digno dos filmes de terror da Hammer, lá no alto de uma das colinas Londres.

Em Highgate, as histórias de «não mortos» e de profanação de sepulturas fazem quase parte da tradição. Um dos profanadores mais conhecidos – amigo de Bram Stoker – é o pintor e poeta Gabriel Rossetti que (sem dúvida profundamente marcado pela morte de sua jovem mulher) acaba por se envolver sem o desejar em sortilégios de Highgate.

Lizzie Rossetti morreu em 1862, após uma overdose de láudano. Foi enterrada num dos jazigos subterrâneos de Highgate, mas, por mais estranho que nos pareça, Gabriel Rossetti recusou acreditar na sua morte.

Certas pessoas pensam que Stoker o tivesse influenciado, uma vez que este era um profundo conhecedor da vida noturna em Highgate, como veremos adiante.

Uma noite Rossetti saltou o muro do cemitério, do lado que dá para o lado de Swaine Lane, e arrombou o caixão da sua mulher. Como que dormindo, ali estava havia sete anos, intacta, espantosamente conservada com o parecer daqueles a quem ainda o sangue circula nas veias. Os louros cabelos, iluminados pela tocha de Rossetti, ficaram luminosos a tal ponto que esse corpo parecia ter estado a receber vida através de uma via secreta com acesso ao caixão.

Highgate, a verdadeira cidade-vampiro durante dois séculos! É esta a opinião que hoje tem Sean Manchester, o mágico inglês sempre na pegada dos vampiros. Manchester trabalhou durante os anos 70 para a sociedade funerária inglesa A. E. Bragg, na Mackenzie Road. As investigações que fez, levaram-no à seguinte conclusão: No século XVIlI foi sepultado um «vampiro» em Highgate.

Jean Claude Asfour, que também investiga sobre vampiros de Highgate, na época em que este assunto tomou primeira página dos jornais londrinos, diz-nos: «No século XVIII, um caixão vindo da Turquia e trazendo no seu interior um vampiro teria sido colocado no cemitério de Highgate, desde então tornado o centro do vampirismo na Europa.»

Presentemente, seitas satânicas tentaram já, através dos rituais próprios, restituir à vida o «rei vampiro». Na opinião de outros, este misterioso caixão seria aquele a que se refere Bram Stoker, no seu livro Drácula, que desde então se tornou um romance verdadeiramente real. Contudo, no século XVIII, a censura religiosa não permitia que se falasse impunemente de histórias de vampiros.

Pode ler-se, no Drácula de Bram Stoker, acerca de «O horror de Hampstead: Acabamos de ser informados que outra criança desaparecida ontem à noite só voltou a aparecer esta manhã já um tanto tarde, numa junqueira de Shooter’s Hill, na parte mais isolada da charneca de Hampstead. O miúdo apareceu com as mesmas feridas das primeiras vítimas. Quando descoberto, o seu estado de fraqueza assim como a palidez era enorme. Logo que recuperou os sentidos, explicou ter sido arrastado pela ‘Dama de Sangue’». Bram Stoker, que afirmava ter encontrado vampyrs personnalities em Londres, no decorrer dos anos 1880, conhecia toda esta raça de «não mortos» como aliás fica provado através das suas descrições.

Também, e mais uma vez, não é por acaso que ele faz deslocar as mulheres-vampiro a Hampstead, e que instala o conde Drácula em Carfax, numa velha casa do norte de Londres, muito perto de Hampstead Hill, e coloca o cemitério onde repousa Lucie Westenra, vítima do príncipe dos vampiros, sobre esta mesma colina de Hampstaed. Jonathan Harker – o herói do livro – transporá clandestinamente o muro da cidade dos mortos e trespassará o coração dos adeptos do culto da noite.

Não existe nenhum cemitério em Hampstead. O mais próximo é em Highgate. Por muito estranho que possa parecer, nada mudou desde o século obscuro de Bram Stoker e das práticas mágicas de Golden Dawn.

Entre os muros do cemitério de Highgate habitará um Poder monstruoso que terrificou Stoker e que serviu de ponto de partida para a sua narração terrível. Desde há quase dois séculos que os habitantes da aldeia de Highgate vivem na obsessão do «vampiro» que ronda a parte norte do cemitério, perto do portal de Swaine Lane.

As últimas aparições ter-se-iam dado em Outubro de 1970. Várias pessoas dignas de crédito afirmam ter visto um vulto escuro e cuja altura andaria pelos sete pés (mais ou menos dois metros) pairando por entre túmulos. Uma noite, certa mulher entrou precipitadamente no posto da polícia de Highgate, com os olhos desvairados e muito perturbada.

Contou, titubeando, que se cruzara com a entidade monstruosa, descrevendo o olhar que a fulminou através do gradeamento do cemitério: «Uma forma escura com dois olhos que pareciam queimar.», terá ela dito.

Organizaram-se patrulhas de polícia à luz de projetores. Para a gente da beira-rio, foi «a grande noite de Highgate». Mas o cemitério nada revelou do seu mistério; homens e cães encontraram apenas veredas de emaranhada vegetação, túmulos silenciosos como se fosse um cenário de uma peça trágica, esvaziado repentinamente dos seus atores.

São muitos os testemunhos que atestam a existência de um «vampiro» em Highgate. Continuaram a acontecer de há um século a esta parte, embora com pequenos intervalos de silêncio, o que de certo modo ainda concede mais força ao poder do invisível noturno.

Um outro feiticeiro inglês, David Farrant, presidente da famosa British Psychic and Occult Societh, galgando a norte o muro do cemitério para fazer a invocação do vampiro teve de apresentar-se ao Supremo Tribunal de Londres. Foi algemado e condenado a cinco anos de prisão.


Fonte: Os Vampiros - Jean-Paul Bourre - Publicações Europa-América (1986)

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Vampirismo Contemporâneo

"Algumas coisas nunca descansam em paz".

Ritos, fumaradas, incensos, aspersões, manipulações mágicas, sempre acabam por fazer os seus adeptos mesmo em pleno século XX (*) como o provam numerosos casos de possessão, feitiçaria e outras sombrias histórias que alimentam a vida quotidiana.

Os vampiros ainda mantêm as missas vermelhas, em tecnicolor, nas telas de cinema, e se viu atores como o romeno Bella Lugosi identificar-se com o conde Drácula e se desequilibrar na extravagância. Lugosi foi o primeiro grande ator do cinema americano a encarnar Drácula nos filmes.

Pode dizer-se que o veneno do vampirismo correu pelas suas veias, inundou o cérebro até lhe criar a terrível obsessão. Ele já não era Bella Lugosi, mas Drácula, e para reforçar esta suspeita saiba que se vestia de capa preta forrada a encarnado, comprou um caixão acolchoado no qual se deitava e dormia todas as noites.

Lugosi era também viciado em heroína, para acalmar angústias e evitar os terríveis pesadelos que tinha. Morreu louco, com o cérebro minado pela demência.

Christopher Lee, que igualmente encarnou o conde Drácula num trabalho para a sociedade Hammer Films, confidenciou que o papel põe à prova, aflige, e que é necessário um grande equilíbrio interior para não acontecer usurpação da pessoa que representa, pelo conde Drácula.

Já não estamos nos mosteiros de Athos, protegidos por cortinas de incenso ou barreiras de orações, mas na vida do dia a dia, vulneráveis no meio de uma esquizofrênica sociedade, despojados de crença, presos às nossas obsessões, arpoados pelas nossas angústias, tendo como única fuga o sonho ou o tubo de soporíferos.

Os feiticeiros das antigas civilizações sabiam que o sangue e a luxúria se associam para manipular a alma humana.

O sexo e a morte, os impulsos devoradores, a necessidade de morder, de devorar, no amor, são apenas fantasias, mas para um cérebro fraco poderá acontecer que esses monstros tomem forma e comecem realmente a viver dentro dele.

Jean Boullet na revista "Medicina, Arte e Saber", de abril de 1960, cita o exemplo de um porto-riquenho de 16 anos que, procurado pelos seus crimes, quando a polícia de Nova Iorque o prendeu, disse: «Eu sou o conde Drácula, diverte-me a ideia da vossa cadeira elétrica porque sou imortal e unicamente vos peço que me considerem o rei dos Vampiros. »

O aspecto do jovem assassino chegou para surpreender os agentes da polícia. Capa preta forrada de cetim encarnado, sapatos com fivela de prata, peitilho rendilhado, anel largo e achatado representando uma caveira, bengala de castão...

A zona de ressonância do conde Drácula espalhou-se para além das montanhas da Transilvânia com a ajuda extremamente ardilosa do cinema e da literatura.

«E tudo isto», escreverá Bram Stoker, «foi feito por ele sozinho, a partir de um túmulo em ruínas num qualquer lugar, numa região esquecida. »

Drácula, o homem vestido de preto. O vampiro veste-se sempre com as cores da noite. O preto é para ele a ausência da cor, a ausência de vida, a impenetrabilidade fascinante para além da qual a morte pode ser vencida.

Certas lendas populares europeias falam de um estranho visitante estrangeiro, vestido de preto, cuja aparição traz sempre consigo a morte ou a doença. Muitas vezes, crianças e adolescentes foram surpreendidos de noite, nas cercanias de suas casas. Stiker descreve o rei dos vampiros no seu Drácula. «Diante de mim estava um homem grande e velho, com um grande bigode branco num rosto que parecia acabado de barbear, vestido de preto da cabeça aos pés, sem o mais pequeno sinal de cor onde quer que fosse...

Não estamos já na Europa do século XV, e os feiticeiros da Idade Média estão há muito reduzidos a pó e a cinzas. No entanto as aparições do Homme en Noir continuam. Os fantasmas e as superstições conferem-lhe sempre poderes diabólicos. Aparições reais ou reais poderes? Ninguém o sabe. Apesar do avanço científico, há ainda regiões do universo e da alma humana que continuam obscuras e impenetráveis.

Uma das mais recentes aparições remonta ao dia 20 de fevereiro de 1968. Ela teve como testemunha e vítima Rosita Aguardiente, uma adolescente de 17 anos. Foi a 20 de fevereiro quando Rosita entrou num ônibus que logo a seu lado se sentou um homem de alta estatura, vertido de preto. «Eu notei», disse ela, «que ele tinha uma cor esverdeada e os olhos ligeiramente rasgados. Sem saber porquê, senti medo, algo sinistro emanava dele. Desci, desceu atrás de mim. Quando cheguei ao campo senti uma enorme confusão na minha cabeça e perdi o conhecimento de repente. Quando acordei, estava num descampado com o vestido em desalinho. Ao dar os meus primeiros passos, tropecei numa pequena caixa que apanhei e meti na minha bolsa. »

Rosita Aguardiente relatou o caso à polícia, que o definiu como uma tentativa de violação.

Mas dias depois a jovem moça levada pela curiosidade provocou que o assunto voltasse de novo à baila, pois abriu a caixa que encontrara quando voltara a si naquele dia ...

A caixa era toda ela hieróglifos! Assim que levantou a tampa, uma luz como que elétrica escapou intensa. A moça assustou-se e apressou-se a fechar a caixa.

O homem vestido de negro intervinha sob vários aspectos.

A 20 de Julho de 1967, o France Soir et L’ Republicain relataram os seguintes casos: Em Arc-Sous Ciçon, quatro criaturas vestidas de preto e com mais ou menos um metro de altura movendo-se rapidamente, meteram-se num silvado deixando amedrontadas algumas crianças que por ali andavam. Tinham uma cor de pele escura, os olhos enormes e falavam entre si um dialeto estranho e melodioso.

Os cemitérios das grandes cidades são evidentemente locais predestinados ao vampirismo contemporâneo.

Highgate, ao norte de Londres, et le Pére Lachaise em Paris, são hoje teatros de estranhas e fúnebres peças. Assim que cai a noite... levanta-se o pano. As personagens aparecem pelas bermas, tornam-se príncipes das trevas no espaço de uma noite, oficiando sobre os túmulos, evocando as divindades do vampirismo. Já não se trata de vivos que vêm ver os seus mortos. Uns e outros, numa curiosa comunhão, representam os seus papéis e, através de danças macabras bem esquematizadas, o mundo dos vivos e dos mortos interpenetra-se. Surge uma outra dimensão.

Ao nascer da aurora, os mortos recolhem às suas moradas secretas, enquanto os vivos, extenuados e olheirentos, saem do mortuário recinto passando perante os guardas surpreendidos e amedrontados!

Não é raro descobrir em Pere Lachaise o túmulo de um adepto do vampirismo. É muitas vezes à volta este que se agrupam e fazem cerimônias secretas. Citemos, por exemplo, o túmulo de Madame Berte Courrieres, aliás Madame Chantelouve, inspiradora do escritor Huysmans e discípula do satânico Abbé Boulan, bem conhecido dos ocultistas do século passado. A laje do seu túmulo – não longe da de Chopin – está frequentemente coberta de cadáveres de animais, como pássaros e ratos de que se serviram para misteriosas práticas.

As áleas do Pere-Lachaise parecem-se com as avenidas silenciosas de uma cidade barroca, rodeada de passeios, tendo de um lado e de outro, pitorescas fachadas de monumentos funerários. Mas há sítios a que essas áleas retilíneas não chegam; os lugares dissimulados pelas sombras dos sicômoros e das tílias onde as sepulturas tomam um ar de antigos navios encalhados, de fundo cinzento e fendido sob o mistério de todos aqueles arbustos. Nenhuma daquelas áleas nos leva diretamente a tais lugares quase impenetráveis. É necessário errar ao acaso pelos túmulos, descer, subir, escalar por vezes em vão pelo meio de toda aquela vegetação.

O cemitério é uma cidade ciclopeana. Cada mausoléu esconde-se numa sombra. As ruas sucedem-se às ruas, os túmulos aos túmulos, as áleas têm nomes estranhos: caminho do dragão, álea Errazu, avenida Feuillant...

Em certos cemitérios, à noite, todo um mundo de presença... pedaços de ossos fumegam no incenso, libertando um cheiro pavoroso. Na cripta saturada de incenso, os partidários do vampirismo erguem os punhais e os pentáculos:

«Senhor! Tu que desejas o sangue e trazes o medo aos mortais, recebe de novo este sangue que representa vida. » Durante vários segundos o celebrante transpõe milênios, vive com intensidade a sombria lenda, sobre a pedra dum túmulo, em qualquer cripta abandonada. E assim se passa até ao nascer do Sol.

«O nascer do Sol», escreve Ribadeau Dumas, «afugenta as más influências da noite. Em certas terras, o galo representa a vigilância guerreira, ele vigia o horizonte, e alerta também! Símbolo cristão como a águia e cordeiro, ele anuncia luz e ressurreição. Drácula empalidece quando o ouve, e foge... antes que seja tarde! A noite favorece o vampiro. Ela gera nas suas trevas o sono e a morte. »

(*) Este livro foi publicado em 1986

Fonte: Os Vampiros - Jean-Paul Bourre - Publicações Europa-América (1986)