terça-feira, 22 de outubro de 2013

A Comédia do Terror

"The Comedy of Terrors" (1964), do gênero comédia / terror, produzido pela American International Pictures, dirigido por Jacques Tourneur e estrelado por Vincent Price, Peter Lorre, Basil Rathbone, Boris Karloff e Joe E. Brown (em sua última aparição cinematográfica), apresenta Orangey, o gato, sob o nome de "Rhubarb, the Cat". É uma rara mistura de comédia e horror, na mesma linha de "Abbott and Costello Meet Frankenstein", clássico de 1948 da Universal Pictures.

Ambientado na Nova Inglaterra de meados do século XIX, o filme conta a história do beberrão Trumbull (Price), um papa-defuntos sem escrúpulos que assassina pessoas em suas próprias casas para manter os negócios de sua funerária e poder bancar seu vício da bebida.

Certa noite, após uma tentativa frustrada, quando a viúva de sua última vítima sai sem lhe pagar os honorários, Trumbull e seu nefasto criado Gillie (Lorre) decidem assassinar o senhorio, Sr. Black (Rathbone), do qual dizia-se ter acessos de catalepsia, algo que Trumbull e Gillie desconheciam.

Aparentemente, Black morre de ataque cardíaco após levar um susto provocado por Gillie e Trumbull coloca o corpo do "falecido" na tumba da família e volta para celebrar em casa a sua recém-adquirida fortuna. Todavia, Black acorda e volta para o salão da funerária, citando frases a esmo do Macbeth de Shakespeare, o qual estava lendo no momento em que sentiu-se mal. Cenas cômicas ocorrem quando Black persegue Trumbull e Gillie ao redor do salão, antes que (finalmente) morra após um longo monólogo.

Gillie foge com a maltratada esposa de Trumbull, com quem andava se encontrando às escondidas e Trumbull é deixado para trás em profunda depressão. Seu sogro (Karloff) aparece e lhe dá um "remédio" (que, na verdade, é veneno) o qual Trumbull havia tentado lhe fazer ingerir durante todo o filme. O "remédio" funciona da forma esperada e Trumbull cai morto enquanto Karloff recolhe-se ao leito sem perceber nada de estranho.

É digno de nota que no fim do filme, Black espirra numa reação alérgica a um gato, provando, novamente ser um tipo indestrutível.




Fonte: Wikipédia.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A Manta Verde

"...As trevas se tinham quase dissipado. Víamos, agora, o clarão de tochas que se moviam e os longos canos dos mosquetes delineados contra o céu claro e estrelado. Pode o terror pregar um homem ao solo, mas com o menor choque, às vezes, nesse momento lhe restitui a ação..."

Quando se extinguira a dinastia dos Wellingford, também os dias do solar desse nome estavam contados. A propriedade passara às mãos de pessoas de espírito comercial, sem a menor veneração por aspectos referentes à história de um grande solar. Os hectares de terra em redor do velho edifício se tornaram demasiados valiosos como campo de construção, para poderem continuar a servir de parque a um palacete campestre. Os gordos rebanhos de carneiro de Wellingford foram, portanto, enviados a outro pasto e os engenheiros e arquitetos que em breve apareceram, foram prenúncio da chegada de operários e construtores.

Tudo isso sucedeu a muitos anos passados. O velho parque ficou atravessado por novas avenidas, e pequenos bangalôs de nomes pedantes como "Ninho de Hera" e "Dulce Domum", surgiram como monstruosos cogumelos avermelhados. Estes mesmos suavizaram mais tarde o aspecto, deixando-se cobrir de hera e trepadeiras e assumindo um ar de coisa prosaica, mas respeitável. O próprio solar, esquecido e abandonado como um desgraçado qualquer, isolado na velhice, começara a decair lentamente.

E Wellingford nada mais foi que um embaraço constante aos seus novos proprietários, que se sentiram dispostos a alugá-lo ou vende-lo por qualquer preço. Desembaraçar-se, porém, de uma enorme casa, cercada por um agrupamento de bangalôs não era coisa fácil. Depois de servir de colégio particular e de recolhimento de freiras por algum tempo, foi finalmente abandonado ao seu destino natural, pois, segundo dissera um dos diretores da administração da propriedade — "de que servia manter esse elefante branco sempre em contato?".

Três anos antes de escrevermos esta narrativa, veio o pintor Aubrey Vair, pobre como a maior parte dos pintores, amante de velhos solares e dos ramos cheios de teia de aranha, da arqueologia, e tomou o solar de Wellingford pelo aluguel semanal de menos shillings do que seriam precisos para alugar uma cabana de jardineiro. Conhecia um dos diretores da administração e sabia que alguns quartos no interior do edifício eram ainda habitáveis. Os diretores se admiraram de que alguém tivesse a fantasia de ir morar em um velho casarão cheio de ratos e umidade. Gostavam, porém, dos shillings e deixaram-no, portanto, ir.

Vair me escreveu várias vezes, convidando-me a ir ter com ele, assegurando-me que "lugar me despertaria as ideias e que já descobrira cinco ou seis esconderijos de monges. Que, de um dos melhores quartos, fizera um magnífico estúdio e que, realmente, quanto a conforto, não era tão mal, desde que não se esperasse mais do que uma instalação de solteiro. Além disso, acrescentava, havia as legações históricas".

Sobre estas eu já conhecia alguma coisa. Carlos I passara lá uma noite durante a grande guerra civil. Dizia-se que Carlos II estivera escondido no solar, depois da batalha de Wancester. A melhor de todas, porém, era a história romântica da captura e execução de Sir Peter Wellingford, em 1649. Sir Peter, realista proscrito, andava foragido depois da derrota das forças legais. Outro mais ajuizado teria atravessado o Canal da Mancha. Sir Peter, porém, tinha uma esposa jovem em Wellingford, que costumava ir visitar em segredo, e que teria continuado a visitar, se não fosse um traidor entre o pessoal de sua própria casa. Esse indivíduo, diz a história, atraiçoou o amo, acenando da janela de um dos quartos, com uma manta verde, sinal convencionado e destinado a informar certo destacamento das tropas parlamentares, da presença ali do dono da casa. Os soldados irromperam pelo edifício nessa noite, e saquearam a casa antes de encontrar Sir Peter oculto em um dos esconderijos. O cavalheiro foi então arrastado para o pátio e arcabuzado. História, em si, bastante romântica para seduzir a fantasia de quem possuísse um grama de imaginação.

Pretendia visitar Wellingford. Circunstâncias alheias à minha vontade me fizeram prorrogar a partida até o ano seguinte. Segui para lá na minha "barata", de modo que Vair não pode ir me encontrar na estação e tive, portanto, a primeira impressão de visitar o solar, isenta do seu entusiasmo. Lá estava o edifício em ruína, cercado do seu fosso, altaneiro e severo, no meio de uma dezena de bangalôs modernos. Era como se eu encontrasse a Casa de Usher no meio de uma cidade-jardim.

Vair, que se apercebera da minha chegada, abriu de par em par a enorme porta principal,  recebendo-me com um caloroso aperto de mão. Entrando no carro, dirigiu-me para o pátio, onde havia acomodações para mais de uma dúzia de veículos. Notei com estranheza que as cavalariças e as cocheiras pareciam em melhor estado de conservação do que o próprio solar.

Ao entrarmos, vi que o salão fora outrora magnífico. A maior parte do teto, porém, desaparecera e a balaustrada de carvalho da escadaria, pelo seu valor comercial, fora há muito retirada. Um caminho grosseiro de serrapilheira por sobre lajes estragadas conduzia ao apartamento de Vair. Este me levou a um soberbo quarto em estado regular de conservação, mobiliado com o produto de suas especulações nos diversos leilões das zonas próximas. Embora estivéssemos em maio, o tempo que fazia não era dos mais quentes e me senti alegre à vista das achas de lenha que ardiam na chaminé, emprestando ao salão um aspecto impressionante de conforto.

Depois do chá, Vair me mostrou o resto dos quartos que tornara habitáveis. Conseguira-o além da minha expectativa. Familiarizara-se com a história do velho edifício e sabia de cor os nomes de todas as dependências. Parecia se achar fascinado de verdadeira paixão pela ruína histórica. Vair era artista e de mais algumas, acreditando em fantasmas e ciências ocultas. Sua idade parecia incerta. Eu, porém o sabia andar perto dos cinquenta, apesar de seu gênio alegre e impulsivo equipara-lo aos jovens, conservando-o moço. Via-se que estava satisfeitíssimo com a minha presença, pois era alguém com quem conversar e a quem mostrar o velho casarão.

— Por amor de Deus, não vá percorrer a casa sozinho, ou quebrará o pescoço, me disse.

— Quase já me espatifei, eu próprio. Por aqui há perigo em toda a parte com essas pranchas apodrecidas pela umidade e pelo tempo.

Prometi-lhe seguir o conselho. A própria escada principal não me parecera lá muito segura, apesar de Vair ter me garantido o contrário; Não cansarei o leitor com os detalhes da minha peregrinação pelo interior do solar vetusto. Minha memória evoca visões de quadros desoladores de umidade e decadência, poeira e lama, teias de aranhas, paredes viscosas e assoalhos podres. O velho edifício possuía uma infinidade de esconderijos e passagens secretas e ele me mostrou todos os que descobrira.

Um grande quarto abaixo do teto fora outrora câmara secreta e servira de capela, onde se dizia missa a despeito das leis proibitivas do XVI e XVII séculos. Deve haver outros, observou. O pequeno Owen, que era mestre em construção de segredos, passou aqui muito tempo, no reinado de Isabel. A casa era constantemente assaltada e os assaltantes pouco resultado obtiveram.

— Mas apanharam o pobre cavalheiro, observei sorrindo.

— Sim, mas ele foi traído por um criado. Mostrei-lhe o lugar em que, estou certo, se escondera — onde fora a cabeceira do leito, no quarto chamado a câmara de el-rei.

Trataremos de descobrir outros esconderijos durante sua permanência.

***

Ocorreu-me, de repente, o fato de que Vair sempre se dissera sensitivo ou psíquico, e, naturalmente, assumindo o sorriso não comprometedor do ceticismo polido, perguntei-lhe se vira alguma alma do outro mundo.

— Não. Não é essa espécie de lugar. A casa é camarada.

— Mas, mesmo com sua história?

— Ah! Ela viu dias de sofrimentos. Mas eram boas as pessoas que moravam. Não há lendas de sangue derramado ou de crueldade.

— Há a do cavalheiro, objetei. Certamente seu espectro deve andar de ronda a estas ruínas.

— Por quê? Era um bom homem e morreu como homem. Só os espectros dos maus voltam a rondar as habitações que foram suas. Quando ele foi arrastado para o pátio e assassinado, a sede de sangue veio de fora e devem permanecer fora da casa e não dentro.

Sorri comigo mesmo, sabendo que, do ponto de vista de Vair, a casa devia ser mal assombrada e suas explicações sobre ausência de espectros me pareceram engenhosas,porém, vagas.

— É pena, suspirei. Esperava ser apresentado a alguma dama misteriosa ou ao espectro de algum cavalheiro.

Vair franziu a testa, ao ver que estava zombando.

— Pois, não será. A não ser que...

— A não ser que?...

— Bem, a não ser que algo suceda, alterando as condições presentes. Se, por exemplo, acharmos alguma peça escondida por alguém no passado e por esse destinada a jamais ser descoberta.

— Ah, começo a entender...

— Duvido que haja qualquer coisa que possa perturbar o somo dos Wellingford, que parecem ter sido uma família ideal. Todas as paixões que aqui se desencadearam vieram de fora. Asseguro-lhe!

Vair elevara a voz, como fazem os homens sem crença especial e que respeitam todos os credos. A intolerância religiosa o instigava à cólera. Senti-me, pois, aliviado ao vê-lo mudar de tema.

Quando nessa noite, me recolhi ao quarto, tive a satisfação de constatar que meu amigo o tornara perfeitamente habitável. Vinte e quatro horas mal haviam passado e já, como Vair, me sentia penetrado de simpatia pelo ambiente, a despeito do ar de melancolia que o cercava, legado talvez do bom povo que vivera e morrera sobre aqueles tetos.

Arrisco-me a dar essa narrativa uma aparência de solução de continuidade, passando rapidamente sobre os três dias seguintes, de muitas visitas. Pescamos um pouco na vizinhança. Vair pintou, a intervalos, e uma vez ou outra fizemos um reconhecimento pelo interior desabitado do solar em busca de esconderijos secretos. A não serem as vitrolas e os rádios dos bangalôs, à noite, apenas o silêncio e a calma prevaleciam naquela atmosfera de velhice e decadência. Chegara no sábado e estávamos na tarde de terça-feira seguinte, quando fizemos uma descoberta de interesse histórico, descoberta de que dentro em pouco havíamos de nos arrepender seriamente.

Estávamos no primeiro pavimento, de onde pelos profundos recessos das janelas, via-se o parque de propriedade de Wellingford. De repente, Vair observou-me que jamais examinara os caixilhos das janelas.

— Caixilhos móveis, disse, tem decaído, certamente. Pertencem, porém, na maior parte, ao domínio da lenda. Eram de difícil construção e de fácil descoberta. Veja os cinco esconderijos que examinamos juntos. Três, são por detrás de chaminés, um por baixo da escada e outro deve ter sido em algum tempo disfarçado pela cabeceira de um leito. Os caixilhos foram usados algumas vezes. Experimentemos este.

Batemos na madeira com os nós dos dedos e, embora o interior não soasse de todo oco, deixou patente que devia existir alguma cavidade. Surpresos, em extremo, dessa nova descoberta, forçamos a madeira em todas as direções. Estávamos para abandonar a tentativa, quando, a um esforço de Vair, a madeira cedeu um pouco, deixando ver uma fresta que se abriu lentamente, apresentando aos nossos olhos uma cavidade em forma de gaveta. Entreolhamo-nos, espantados. Em nosso olhar brilhavam o riso e a curiosidade.

Acendi um fósforo, que deixei cair aceso no interior, nada mais vendo do que um recesso de um metro de profundidade.

— Nada por aqui, disse eu, remexendo com o braço no meio das teias de aranha e de poeira.

— Não? Exclamou Vair metendo por sua vez o braço na abertura.

Quando retirou a mão, estava negra de pó. Trazia, porém, preso aos dedos, como que um farrapo de pano preto. Era um pedaço de seda velha, tão apodrecido pela idade, que estava a se desfiar ao toque. Ao soprarmos, porém, o pó que o cobria, vimos que a cor original tinha sido verde, enegrecida pela poeira e pela idade. No mesmo instante, a velha lenda saltou-nos à mente e exclamamos juntos:

— A manta verde!

Não me recordo bem do que dissemos nos momentos seguintes, Estávamos ambos agitados com a descoberta e sofrendo de emoção que se sente ao descobrir uma relíquia que vem corroborar alguma lenda ou episódio da história do passado. Nenhum de nós duvidava agora se achar em frente da manta verde que servira para trair Sir Peter Wellingford há trezentos anos passados.

— O traidor deve tê-la tido aqui, de prontidão, disse Vair com os olhos brilhantes — e, depois de fazer o sinal, guardou-a novamente, às pressas, e ela ficou aí esquecida desde esse dia.

— E, provavelmente, acrescentei — deve ter sido esta janela que ele fez o sinal convencionado.

A janela estava aberta. Debruçando-me, deixei flutuar, preso nos dedos, o farrapo verde à brisa morna da tarde.

— Não faças isto! Exclamou fremente, Vair, puxando-me para dentro.

A seda estava tão deteriorada pela idade que a própria cinza rasgara-se um pouco. Pensei que a exclamação de meu amigo se prendia ao dano que o vento poderia causar ao tecido. Tratava-se de relíquia evocadora de uma cena de sangue e ambos considerávamos com veneração, como se fosse sagrada. Devemos ter passado uma hora sem fazermos a menor observação.

Concordamos, enfim, em escrevermos a um jornal, anunciando a descoberta e enviamos o pedaço de seda a um especialista a fim de limpá-la, oferecendo-a, em seguida, a um dos museus.

Vair fizera uma observação, cujo significado só veio a compreender algumas horas depois:

— Antes não tivesse acenado da janela com ele! Foi o que fez aquele maldito traidor. Foi, provavelmente, o que quiseste fazer: tornar a representar a cena de uma velha tragédia.

— Não vejo que isso tenha a menor importância. Ninguém viu, observei.

— Como sabe disso? Perguntou em voz áspera.

Não pude deixar de rir, então.

— Meu caro amigo, estás com receio de que a filha ou a esposa de um dos teus vizinhos pense...

— Não me referi a eles, interrompeu Vair, em voz seca. Quando esse farrapo foi acenado da janela, há trezentos anos passados, bem sabes o que trouxe a esta casa.

Pareceu-me compreender o fio do seu pensamento. Vair sempre recusara passar por baixo de escadas ou ser o número treze em uma festa, e uma vez ficou apreensivo toda a semana por ter entornado o conteúdo de um saleiro.

— Não sejas tolo, Vair! Se há qualquer feitiçaria em redor de nós, ela que me ataque e te deixe em paz.

Ele não respondeu. Momentos depois o incidente me desaparecera da mente.

Fosse eu dotado de eloquência e clareza para relatar minuciosamente os sucessos que se desenrolaram nessa noite, e como, ao por do sol, fomos oprimidos por estranha melancolia, ao cair das trevas feito pelo terror de um verdadeiro pesadelo macabro!

Ao acendermos o candeeiro, à hora da ceia, era tal a pressão moral que sofríamos, que resolvemos usar de franqueza.

— Não sentes como que um peso que te aflige a alma, toda vez que ameaça trovoada? — perguntou Vair.

Dei graças a Deus, por essa oportunidade de desabafar.

— Sim. Muitas vezes, e sou capaz de apostar que ameaça trovoada lá fora.

Levantei-me da mesa, dirigindo-me à janela, e, afastando as cortinas, olhei para o exterior.

O ocaso desmaiava numa orgia de púrpura e verde-maçã, que aos poucos cedia ao azul profundo de um céu imaculado onde começavam a pirilampear estrelas pálidas.

— Não. Não há uma só nuvem no céu, disse eu. As tempestades, porém, às vezes, aparecem repentinamente.

— É, disse Vair, e outras coisas também...

Quis lhe perguntar o significado dessas últimas palavras. Mudei, porém de intenção.

Continuamos pesadamente a ceia, até que, afinal, forçando um sorriso, a fim de reagir contra a opressão, exclamei:

— Somos um par magnífico! Que diabo temos hoje? Só queria saber!

— E eu só queria não pensar que sei, respondeu Vair, em voz estranha.

— Mas, que pensas que será melhor fazermos?

— Penso que devíamos sair e passar a noite fora.

— Como, se nunca te sentiste mal aqui?

— Não, e é justamente por isso...

Olhei para Vair, que desviou o olhar do meu, baixando a cabeça.

— Olha cá, disse eu, tentando dar firmeza à voz. Sejamos francos. Estamos ambos com medo de qualquer coisa.

— Estamos ambos com medo da mesma coisa.

— Bem. E de que será? Descubramos-lhe a causa. Quando nosso cavalo recua diante de uma árvore, geralmente o levamos junto até junto dela para que ele veja que é apenas uma árvore...

— Se é apenas uma árvore ou coisa parecida. Mas, se não é... Olha, vamos sair. Agora mesmo, enquanto há tempo. Vamos passar a noite na hospedaria das "Armas de Wellingford'.

Eu queria ir de todo o coração. O orgulho, porém, me tomara emprestada a voz da razão, falando por mim.

— Ora, não sejamos tolos. Se fizermos isso uma vez, faremos sempre.

Vai encolheu os ombros.

— Tomemos um gole.

Bebemos e permanecemos depois silenciosos, num silêncio que só tornava cada vez mais difícil de quebrar.

Depois de um grande esforço, Vair conseguiu, afinal, dizer as palavras que eu tinha na mente:

— Não notaste como tudo está quieto, esta noite?

— Sim, disse eu aproveitando a oportunidade que ele me dera. O silêncio e a calma que precede à tempestade. E a tempestade está próxima.

Vair abanou a cabeça.

— Não disse ele. Não é essa espécie de silêncio e calma.

Então, com um bater de coração, percebi repentinamente um fato que me pareceu terrível, — que a calma reinante não era da natureza, mas de alguma perturbação dos elementos. Já há açgum tempo não tínhamos ouvido o menor rumor do lado de fora. Todas as vitrolas e pianos da vizinhança estavam mudos. Era a hora em que muitos visitantes se retiravam para seus lares e não se ouvia o menor som de voz ou ruído de carro nos arredores. Pode parecer ridículo, mas, daria tudo, para ouvir o ruído distante de um trem!

Vair se levantou de repente e foi à janela, olhando para fora. Segui-o. No céu, muito claro, apenas as estrelas nos fitavam de longe, pestanejando luzidias.

— Não ameaça tempestade, observou ele.

Ouviu-me, porém, que sustava a respiração e, no instante seguinte, compreendera-me o motivo e dele me apercebera.

— Olha: nenhuma luz! Não há menor claridade em parte alguma!

Era verdade. Embora não fosse tarde, não se via vestígio de iluminação nas casas da vizinhança, nem se podia aperceber o perfil de um teto ou chaminé. Estávamos como que separados do mundo exterior, como numa caverna a muitos quilômetros do solo, por uma espécie de cortina invisível que nos encerrava lateralmente.

A voz de Vair tornara-se fina e estridente. Nenhum esforço fazia mais para ocultar o terror.

— Deve ser algum nevoeiro, disse eu em voz afetadamente cheia e firme.

— Nevoeiro! Olha homem!

Olhei. Não havia o menor sinal de bruma ou nevoeiro. A não ser quando erguíamos os olhos para o céu, tudo o mais era a treva mais impenetrável.

Vair deixara a cortina lhe cair das mãos. Voltou-se para mim e, nesse silêncio opressivo, lutou por alguns segundos para recobrar a calma.

— Dize-me: que tens sentido toda a tarde?

— Como posso! Suponho que da mesma forma que tu. Tem sido lembrando-me dos tempos de soldado, como a suspensão que se sente antes da carga de baioneta. Uma ansiedade dolorosa. Não! Algo de mais possível: a sensação de estar preso em uma cova ou de estar cercado...

— Cercado! exclamou ele, soltando um grito. É o que estás! É o que ambos estamos!

E abanou as mãos com desânimo.

— Os poderes das trevas — o ódio, a sede de sangue, a intolerância — estavam todos esperando pelo sinal, e tu, idiota, o fizeste, lhes acenando com a manta verde!

Senti, durante alguns instantes, rodar-me o cérebro e foi com um esforço supremo que recobrei os sentidos.

— Olha, disse eu, — por amor de Deus não vamos nos fazermos loucos. Se a casa nos aflige, deixemo-la.

Vair olhou para mim de modo incompreensível.

— Não. Tu querias ficar.

— Vamos para a hospedaria.

— Está fechada a esta hora.

— Eles te conhecem. Abrirão.

Achei-me ansiado pela liberdade do mundo exterior, longe desse manto de treva que nos cingia.

Vair, porém, voltando-se rapidamente para mim, exclamou:

— Idiota! É tarde demais! Jamais conseguiremos lhes iludir a vigilância.

— Que queres dizer com isso? Eles quem?

— Eles estão nos cercando e bem o sabes. Entrarão no momento oportuno como o fizeram outrora. Estamos presos.

Deus sabe quanto lutei para desacreditar-lhe as palavras. Vair me dominava nesse instante!

— Que querem eles? balbuciei.

— Um de nós ou ambos! Que já quiseram o ódio, o assassínio e a sede de sangue, que não fosse vítimas? prorrompeu, agarrando-me o braço.

— Vamos! disse eu. Vamos sair daqui! Pelo menos vamos tentar, antes que eu enlouqueça.

— Se pudermos!

Devemos ter atravessado o salão. Não me recordo bem. Lembro-me, em seguida, de ter ajudado Vair a puxar os enormes ferrolhos da porta. Abrimo-la, afinal.

Fora, se via apenas uma muralha opaca de treva!

Tentei sair. Os membros permaneceram inertes. Pareciam pregados ao solo. Embora tolhidos pelo terror que se apoderara de mim, sentia o espírito claro, e verifiquei que essa cortina opaca de treva parecia cortada de rumores de vozes e movimentos com todos os sintomas dos atos praticados a furto e em segredo. E quanto mais olhava mais me certificava de que dentro em breve essa barreira se desvendaria e eu não só havia de ver como de ouvir.

Permanecemos ambos, assim, durante tempo indeterminado, ao limiar dessa porta que não podíamos transpor.

Pareceram-nos horas, até que a treva aos poucos se dissipou, deixando-nos aperceber vagas formas humanas que se moviam e davam ordens. Quais eram não sabíamos. Ouvíamos a entonação nasal, e lembrei-me então do hábito que haviam adotado outrora os soldados de Cromwell.

As trevas se tinham quase dissipado. Víamos, agora, o clarão de tochas que se moviam e os longos canos dos mosquetes delineados contra o céu claro e estrelado. Pode o terror pregar um homem ao solo, mas com o menor choque, às vezes, nesse momento lhe restitui a ação. Foi, talvez, o instinto que nos fez recuar e bater com violência à porta. Vair se agarrava a mim como uma criança medrosa. Corremos todos os ferrolhos e fomos nos esconder no recanto mais afastado do edifício, ouvindo todo o tempo os pesados golpes que estavam agora sendo vibrados contra a maciça porta de entrada.

Devemos ter perdido a razão, pois de nada me lembro desses instantes, a não ser o ruído que fez a enorme porta, sobre as lajes do salão, quando foi deitada abaixo pelos assaltantes.

O ruído de passos e de coronhas de armas batendo no solo chegou então a nossos ouvidos, acompanhado do som nasal de vozes. Pareciam estar em toda a parte, no salão, na escadaria, nos quartos do andar superior.

Vair, durante esse tempo se mantivera agarrado como um possesso ao meu braço, quando de repente gritou ao meu ouvido:

— A capela... sob o teto... é sagrada... há ainda esperança... digo-te... é a única esperança...

— Eles estão na escadaria! murmurei-lhe, com desespero.

— A escada do fundo! Vamos!...

Atravessamos rapidamente a estreita passagem que dava para a escada posterior. Esta, sabíamos, oferecia grave perigo, em vista do seu estado de deterioração. O perigo, porém, que corríamos nesse momento nos fez esquecer qualquer prudência. Precipitamo-nos para a escada, esperando sermos agarrados por mãos invisíveis.

Como chegamos ao sótão, jamais poderei saber. A estreita escada oscilava e rangia a cada passo e uma vez uma prancha afundou me fazendo escorregar até a cintura entre as demais. Erguendo-me a custo, auxiliado pelo instinto de conservação, desvencilhei-me da fenda, com a carne dilacerada.

Chegáramos ao sótão. Mas, o inimigo farejava a presa e já se ouvia o ruído de passos subindo as escadarias.

Vair empurrou a porta do quarto que fora capela outrora, precipitando-se no interior. Tropecei por cima dele. Caíra sem sentidos e tive de lhe empurrar as pernas para um lado, a fim de fechar a porta e correr o enorme ferrolho.

Foi então que nossos perseguidores, que acabavam de chegar, se detiveram diante daquela porta, recuando como recua uma enorme vaga, da base de um rochedo gigante, e, vociferando, rugindo, foram pouco a pouco se retirando até que o silêncio tornou a prevalecer no ambiente lúgubre da noite.

Estávamos salvos!

Devíamos ter perdido os sentidos, pois quando tornamos à razão, o brilho e o calor do sol enchiam de vida e de alegria o teatro dos acontecimentos macabros da véspera. Vair estava lívido e desfigurado. Mal nos apertamos as mãos.

Momentos depois tínhamos recobrado o ânimo e descíamos para examinar a casa, pelo interior da qual parecia ter passado na véspera um verdadeiro tufão, tal a desordem em que se encontrava.


Por Alfred Mclelland Burrage ("The Green Scarf")

Fonte: A Noite Ilustrada, de 31/08/1932.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O Dia da Vingança


— Brasa do inferno! Pára! — berrou o barão de Santamorte alucinado. Far-te-ei lacerar as carnes pela roda de ferro, ou devorar pelos meus cães! Traz-me o meu filho! O meu filho! O meu filho!

Só se ouvia uma longa risada de escárnio e depois uma voz terrível descendo do alto da torre que dizia:

— Por todas as dores, os sofrimentos, as humilhações que infligiste a teus semelhantes, pelas infâmias que cometeste, hoje é o dia da vingança!


Existe ainda hoje entre os píncaros das montanhas do Cortonese, em terras de Florença, o pitoresco Castelo de Montecchio, todo ele enfeitado oe torres e de ameias altas, que lhe emprestam aquele seu ar de soberania que há séculos vem impressionando o transeunte e o turista curioso. Muitos foram os seus senhores desde o capitão de aventuras, o inglês Hawkwood, que trazia gravado em seu escudo o triste mote: “Inimigo de Deus e da Misericórdia”, até o feudatário florentino, ainda mais triste, que devido à sua natureza bestial, corpulento, sanguinário e barbudo, havia sido alcunhado “O Lobo de Santamorte”, pois quem lhe caísse nas garras tinha morte de santo, pelas crueldades que lhe eram infligidas.

A sua voz era constantemente irada; as mãos sempre prontas a golpear, a matar, a torturar. Os castigos que mandava administrar em suas terras tinham feito daquele homem uma espécie de monstro, que, em comparação, a fera da qual tinha o nome, bem poderia parecer um cordeiro.

E, no entanto, havia também ternura e bondade em sua alma negra, sentimentos, porém, que se tinham esgotado, secado e como que absorvido numa inesgotável revolta contra a sorte, quando lhe morreu a esposa idolatrada, jovem delicada e sensível, que morrera e o deixara abandonado em sua ira impotente contra tudo e contra todos, quando dera à luz o seu único filho Baldo, que o Barão de Santamorte passou a adorar com toda a força de sua alma selvagem e intransigente, reunindo na criança toda a sua faculdade de amar.

As primeiras vítimas de sua revolta contra um destino cruel foram o médico, as enfermeiras e as aias que não souberam defender contra a morte implacável a querida de seu coração e no dia do batizado do pequeno Baldo, ainda pendiam das torres do castelo, os corpos enforcados dos subalternos impotentes que não tinham sabido conservar em vida a suave esposa do seu bárbaro senhor. 

E a sua natureza foi dia a dia mais se enfurecendo e o único raio de sol em sua triste vida era o pequenino Baldo linda criança, inteligente e suave, que lhe lembrava a esposa desaparecida.

Certa madrugada do mês de setembro de 1385, um grupo de cavaleiros e de servos a pé, armados e segurando com força as correias das maltas de cães ganindo, subia por ásperos penedos entre bosques de árvores seculares, os montes do Cortonese.

Era o senhor de Montecchio que mais uma vez se ia entregar à sua preferida distração. Caçar o javali e o cabrito montês. Ao lado do barão cavalgava o pequeno Baldo, de nove anos apenas de idade, e um pouco atrás deles seguia, montando uma mula branca, uma linda jovem chamada Viola, florida camponesa já noiva de Quinto Borghetti (monteiro-mor do barão de Montecchio) e que este havia feito raptar na própria manhã de suas núpcias, pois o barão, prepotente e invejoso, havia declarado ao rapaz que “as mulheres bonitas em suas terras eram para ele e não para os seus súditos”.

Viola vivia assim no Caste1o de Montecchio com as regalias e as mortificações de uma cortesã e o sentimento desesperado de uma escrava impotente contra as odiosas exigências de um senhor execrando.

Depois dos guardas, à testa dos batedores e dos servos que conduziam os cães, marchava a singular figura de um homem moço, traços enérgicos, alto e espadaúdo. Era Quinta Borghetti, o “mestre-caçador”, ex-noivo da linda Viola.  O posto era importante para um rapaz tão novo ainda, mas ele tinha realmente grande capacidade e Lupo Montecchio lhe tinha dado também para recompensá-lo do rapto de Viola, embora o Barão de Santamorte pensasse (conforme a mentalidade da época) ter honrado o seu súdito roubando-lhe a noiva!

Era certamente uma brincadeira de muito mau gosto e pelos campos fora, nas granjas e nos casebres montanheses, todos admiravam que um rapaz forte e cheio de ardil como Quinto, se tivesse tão facilmente resignado sob tamanha afronta. Este, porém, procurava esconder até a própria expressão do olhar, sempre esquivo e isolado, sem falar com pessoa alguma, parecia só se ocupar da missão que lhe haviam confiado.

Quando a comitiva chegou finalmente ao lugar designado, dispôs-se imediatamente em atitude de ataque. A caça no devia estar longe, pois os cães começaram a ladrar desesperadamente e logo fizeram saltar fora do esconderijo um javali medonho, o pelo hirto e os dentes arreganhados. Enxotado pelos homens e perseguido pelos cães, o animal enveredou por um estreito caminho ao cabo do qual o senhor de Mortesanta, ladeado por alguns homens armados, esperava-o com a alabarda em punho.

A fera, no entanto, após ter estripado dois valentes rafeiros que tentaram agarrá-la, virou de repente para o lado direito do caminho e desapareceu entre o capim alto grunhindo desesperadamente. Era evidente a falta do mestre-caça, que havia deixado desguarnecido aquele sítio e o barão de Santamorte, enfurecido, vendo fugir a linda presa, prorrompeu aos berros:

— Por todos os demônios do inferno! Quem deixou abandonada aquela passagem? Onde está o maldito Quinto?

O rapaz saía justamente do mato quando, o barão investiu rudemente contra ele:

— Cão maldito de meus cães! Deixaste então aberta aquela passagem?

— Sim, senhor — respondeu calmo o interpelado.

— Insolente! Atrevido! Perdeste certamente o amor à vida, não?

Quinto, olhos fixos no semblante do amo, sorria com desprezo sem dar resposta.

— Ah! É assim? — E mais enfurecido ainda por aquele mudo desafio, o barão gritou para os servos:

— Agarrem-no e ponham-no de joelhos, o dorso desnudo. — E com um requinte de perversidade, voltando-se para Viola, disse-lhe: — Aqui tens o meu chicote... A ti a honra de desfechar o primeiro golpe... Mas com toda a força... Ouviste?

Quem poderia fugir à diabólica vontade daquele homem em tais circunstâncias?

Pálida como cera, a infeliz Viola desceu de sua montaria e aproximou-se daquele seu infame senhor e dono que lhe entregou o chicote.

Quinto não opunha resistência alguma, ajoelhou-se e esperou resignado, todo recolhido num pensamento só.

— Perdoa-me em nome de Deus! — murmurou a pobrezinha ao chegar perto de Quinto, enquanto abaixava o chicote sobre as costas do rapaz.

O golpe parecia mais ser uma carícia!

— Mãos de manteiga! — gritou Lupo Santamorte com uma risada. — Mas os golpes dos guardas eram rudes e logo o sangue começou a escorrer pelas costas de Quinto.

— Mais! Mais! Mais forte — gritava como um possesso o Senhor de Santamorte, seguindo com os olhos turvos e os lábios espumando, o rítmico levantar e abaixar dos chicotes.

O pequeno Baldo, olhos escancarados, olhava alternadamente para o pai e Quinto, sem compreender o que se estava passando.

Viola, apoiada ao tronco de um carvalho, chorava e gemia, sem poder simular todo o seu horror.

— Basta! — gritou de repente o barão — ajudem-no a levantar-se e vamos voltar!

Quinto ergueu-se sem auxílio, pálido, mas firme e seguiu a comitiva entre os homens de armas.

Chegaram ao castelo quando o sino da capela batia as doze badaladas. O sol a pino escaldava, tirando luzes das águas paludosas do vale. Depois de atravessada a ponte levadiça, a comitiva parou no vasto pátio interior que abraçava a torre altíssima, quadrada, dominando os altos muros do castelo. O barão de Santamorte parou o cavalo e voltando-se para Quinto que se achava ainda entre os guardas, gritou-lhe:

— Chega aqui!

Quando o rapaz se aproximou, de olhos baixos, o senhor perguntou-lhe em tom de escárnio:

— E agora, estás ainda tão seguro de ti?

— Sempre! Respondeu este, sem pestanejar.

Todos se entreolharam consternados ante tamanha audácia. O velho fâmulo que guardava a porta da torre desceu os poucos degraus que conduziam ao interior do edifício, deixando a porta escancarada: queria ver de perto o subalterno que ousava responder ao senhor com tanta segurança.

— Como? — berrou o barão de Santamorte, agitando-se sobre o selim como se uma cobra o tivesse mordido. — Como? Será que chegou o fim do mundo ou eu que entendi mal?

— Não, senhor! Vosmecê ouviu perfeitamente bem! — respondeu Quinto com áspera voz e olhando profundamente Viola, que branca como linho, parecia estar para cair de sua montaria.

Foi como um relâmpago! Quinto subitamente deu um salto de gato e agarrando o pequeno Baldo de sobre o seu cavalinho baio, atirou-o sobre os seus ombros como se fora uma rês a ser levada para a feira e correu para a torre.

— Pára! Pára! Prendam-no! Berrava o senhor de Montecchio, enquanto tirava uma balestra das mãos de um armeiro.

— Não! Não atirem que ele se cobre com o meu filho! Maldição! Deixa o meu Baldo! Não podes tocá-lo! Olhem, poltrões, que nada sabem fazer! Canalhas! Ele fechou a porta da torre! E assaltado enfim por um pensamento aterrorizador atirou-se de encontro à porta já por dentro trancada, esperando ainda poder perseguir o louco que lhe roubara o filho.

Instantes depois, como se tivesse voado da rês do chão ao alto do edifício sem tocar com os seus pés os mil degraus da interminável escada, Quinto apareceu entre as ameias da torre a mais de cem metros sobre os lajedos do pátio. Tinha Baldo nas mãos, agarrado pelas roupas, suspenso sobre o abismo, ao fim de seus braços estendidos. Ouvira-se o grito, como um gemido sair dos lábios da infeliz criança que se debatia tal um trapo humano:

— Brasa do inferno! Pára! — berrou o barão de Santamorte alucinado. Far-te-ei lacerar as carnes pela roda de ferro, ou devorar pelos meus cães! Traz-me o meu filho! O meu filho! O meu filho!

Só se ouvia uma longa risada de escárnio e depois uma voz terrível descendo do alto da torre que dizia:

— Por todas as dores, os sofrimentos, as humilhações que infligiste a teus semelhantes, pelas infâmias que cometeste, hoje é o dia da vingança!

O barão recomeçou a proferir injúrias e suas palavras loucas, o seu furor, os seus berros arrefeciam o sangue de quem assistia àquela cena dantesca:

— Ouve-me, maldito! Gritou subitamente o senhor de Santamorte como que tresloucado: — Traz-me o meu filho e serás perdoado, juro-te! Queres ouro? Muito ouro? Terás tudo o que me pedires! Queres a tua Viola? Eu a restituirei. Diz-lhe tu a mesma coisa, Viola! Partirei para longe, muito longe, juntos e carregados de ouro! Não nos veremos nunca mais!

A jovem, de olhos esbugalhados na face branca como cera, parecia estar crucificada de encontro ao muro.

— Barão de Santamoorte — recomeçou a voz implacável do alto da torre — Eu já perdi a minha vida, o meu amor e tudo! Mas só quero que Viola vos restitua as chicotadas que me mandastes dar! Ajoelhai-vos, tirai o gibão e a camisa, depressa, ou deixo cair o vosso filho!

Olhos injetados de sangue, tremendo pela ira e o pavor, Lupo de Santamorte ajoelhou- se no meio do pátio, o torso nu, gritando:

— Vem, Viola! Bate-me! Bate-me com toda força! Quero meu filho! Que se me restitua o meu filho!

A jovem parecia não ouvir mais coisa alguma como se estivesse em estado de sonambulismo.

— Anda maldita! Vem depressa! Tragam-na aqui! Que ninguém se recuse a obedecer! Aquele bandido é capaz de manter a palavra!

Dois armeiros levaram Viola para junto do barão, puseram-lhe o chicote na mão, mas ela não tinha a força de bater.

Lupo de Santamorte já nem gritava, uivava:

— Bate, maldita! Anda com isto! E finalmente, Viola como se despertasse de um pesadelo, bateu com o chicote no lombo nu do tirano.

— Forte! Mais forte! -- gritava Quinto do alto da torre. — Quero ouvir os golpes e ver o sangue escorrer como nas minhas costas!

Viola começou então a bater com todas as forças de suas mãos reunidas até cair desmaiada no chão pela emoção e o pavor.

O barão de Santamorte levantou-se cambaleando, o dorso sujo de sangue, mais derrotado pela vergonha e a exasperação do que pelas chicotadas.

No mesmo instante uma risada ainda mais escarnecedora e louca do que as primeiras ecoou no alto da torre e a mesma voz trovejou:

— Tenho fé nas tuas palavras e agora me rendo!

Dois corpos agarrados estreitamente um ao outro, caíram das ameias da torre descendo com a velocidade de uma pedra, vindo esboroar-se sobre as lajes do pátio numa poça de sangue nobre e plebeu!

A partir daquele trágico dia, o barão Lupo de Santamorte, encerrado em seu castelo, só viveu entre orações e esmolas os curtos dias que ainda viveu neste mundo de enganos.


Texto de Itala Gomes Vaz de Carvalho 

Fonte: A Noite Illustrada - Supplemento Semanal - 02/07/1946.